Loucuras relativas - Marcos Pires



Mãe Leca foi Diretora do Juliano Moreira por quase 4 anos e tinha colado no vidro do seu carro um adesivo enorme daquela maravilhosa instituição, que lhe permitia acesso ao estacionamento interno do manicômio.

Um dia ela estava conduzindo duas amigas a quem dera carona, quando o policial de uma blitz de trânsito mandou que parasse. O militar pediu que ela apresentasse seus documentos. Obvio que Mãe Leca, como sempre, esquecera a bolsa em casa. Mas não se fez de rogada. Mostrou o adesivo e disse ao policial: “- O senhor me permite pegar a bolsa na mala do carro? É que trabalho no Juliano Moreira e estou levando essas duas pacientes para internar. Como a mais alta é violenta, eu tive medo de deixar a bolsa ao alcance dela. Mas por favor, fique tomando conta das duas que eu pego rapidamente a bolsa na mala e apresento os documentos”. As amigas, ao ouvirem a conversa, entenderam a situação e simularam umas caras e gestos de loucura.

O militar aboticou os olhos e respondeu: “- Como é? A senhora quer que eu fique tomando conta sozinho dessas duas loucas, sendo que uma delas é violenta? Tá doida, minha senhora, pode ir embora”.

Já dois amigos meus (F. e A.) estavam voltando para casa depois de um fim de semana na farra.

A. adormeceu e F., muito presepeiro, estacionou em frente ao supermercado Extra, onde à época funcionava a Clinica São Pedro, que cuidava de alienados mentais. Sem que o amigo acordasse, disse ao atendente que se tratava de um louco furioso, que precisava ser internado, mas que tivessem cuidado porque ele era violento e tinha a mania de dizer que não era maluco. ”- Pode deixar, aqui todos dizem que não são doidos”. Em seguida, quatro parrudos enfermeiros colocaram uma camisa de força no dorminhoco que acordou brabo, dando pesadas e dizendo que era normal.

Rindo muito, F. dirigiu-se para casa, onde pretendia tomar um banho e voltar para liberar A.. Porém adormeceu e acordou dez horas depois. Correu à clínica para esclarecer a brincadeira, mas os médicos não acreditaram ser uma patuscada ante a fúria que o interno demonstrou ao rever F.. Foi necessário um laudo de J., psiquiatra amigo de ambos, para liberar A..

Durante muitos anos quando os dois se encontravam num bar, A. confundia as orelhas de F. com um tira-gosto.

Fofoqueiros & fofocas - Marcos Pires



Desde a pré-história existem registros de fofocas. Isso ajudou na evolução do ser humano, já que uns grupos aprendiam com outros o que ainda não sabiam. Fofocas ao longo da história sempre foram uma constante, como aquela que dizia ter Michelangelo assassinado um rapaz para dissecar o corpo e usar como modelo à escultura do Cristo que produziu. E Brahms, hem? Enforcava gatos para aproveitar seus gritos em sinfonias que compôs. Tudo fofoca.

Fofoca que é fofoca tem que começar assim: “- Menina, nem te conto...”, e aí conta tudo, né? Se alguém vier falar com você e começar a frase com um “-Fiquei sabendo que...” pode acreditar que vem fofoca em seguida.

Minha tia morava num bairro onde bastava a pessoa começar a paquerar alguém que no primeiro dia da paquera já era corno. Essa tia confessou que várias vezes perdeu o ponto de descida do ônibus só para escutar o final da fofoca que as passageiras da frente tricotavam.

Fofoca é horrível. Tenho convicção de que Deus não ouve oração de fofoqueiro. Penso que se as pessoas falassem de Jesus como falam da vida dos outros o mundo seria salvo, viu? Vejo as pessoas cortando glúten, lactose, gordura trans e açúcar das suas vidas. Agora, cortar fofoca nunca vi.

O próprio Papa Francisco contou a um grupo de jovens a história de uma beata muito fofoqueira que ia todos os dias à missa, comungava, ajudava na organização dos serviços...enfim, era tão fiel que comprou uma casa exatamente em frente à igreja. Da janela do seu quarto via o altar bem pertinho. Mas quando não estava na igreja era a mais perigosa fofoqueira da cidade. Todos sabiam disso. Triste de quem caísse na sua boca. Lá um dia ela adoeceu e não pode ir à missa depois de uma assiduidade de mais de 30 anos. Telefonou para o Bispo e pediu que lhe fosse levada a comunhão em casa, já que estava tão próxima da igreja. O Bispo desde muito tempo esperava uma oportunidade para reprimir a fofoqueira. Naquela voz bem angelical disse: “- Minha filha, não há necessidade disso. Já que você mora em frente à igreja e que da sua janela enxerga o altar perfeitamente, basta estender a língua para receber a hóstia sagrada”.

A única coisa boa da fofoca é que você descobre coisas sobre si mesmo que nem imaginava possíveis, mas os fofoqueiros inventaram.

 

A arca brasileira - Marcos Pires



 

Deus mandou uma mensagem via watsapp para Noé determinando que ele construísse uma arca para salvar o povo brasileiro porque iria mandar muita chuva. Noé apavorou-se e clamou aos céus: “- Mas por que logo eu, Senhor?”. O Messias tonitruou (nos filmes antigos Deus fala assim): “- És um homem de bem, um pouco sem juízo, mas determinado, e serás tu o salvador desse povo. Aliás, até meu nome trazes no meio do teu”.

Aquilo desencadeou uma confusão enorme na família, porque os meninos do seu Noé, muito voluntariosos, queriam a todo custo assumir esse trabalho.

Foi necessário que Deus designasse um anjo da guarda, desses bem barrocos, para ajudar na empreitada. E foi muito claro; qualquer problema deveria ser repassado ao PG, apelido carinhoso do anjo.

Ocorre que os fornecedores do material que construiria a arca desconfiavam do juízo daquela família e não iriam vender a prazo sem saber se realmente receberiam seus pagamentos. Aí provou-se a sabedoria divina ao designar o anjo da guarda, porque uma vez apresentado o PG para eles, houve confiança no projeto.

Com o passar do tempo, notando o Senhor que a construção não fluía como seria necessário, resolveu mandar um aviso. Fez chover em João Pessoa, cidade do sol, mais de 500 mm em poucos dias. Isso serviu de alerta, e através de muitas e custosas negociações, foram sendo ajustados vários compromissos com os trabalhadores que iriam ajudar o seu Noé a construir a arca.

No entanto, quando os trabalhadores depois de muito discutir o projeto da arca fizeram suas correções e mandaram de volta, houve uma reação inusitada do anjo da guarda: “- Seu Noé, desse jeito essa arca está igual a casamentos e submarinos, que podem até flutuar no início, mas foram projetados para afundar. Assim não vai dar certo. Se não voltarem atrás eu bato minhas asas e vou embora”.

Noé entrou em pânico e voltou a suplicar aos céus: “- Senhor, tende piedade de nós. Não mandes o diluvio para acabar com tudo”.

Ao que Deus respondeu: “- Precisa de diluvio não, Noé. Com a qualidade dos trabalhadores que estão cuidando desse projeto eles mesmos vão acabar com tudo”.

Dinheiro - Marcos Pires



 Dinheiro nunca foi problema para mim, sempre solução. Quando tenho dinheiro eu gasto, quando não tenho espero ele chegar. Tenho pavor de compras a prazo, mesmo porque na minha profissão não posso contar com o que talvez vá receber. É que de vez em quando alguém esquece de pagar, se é que vocês me entendem. Mas gosto muito de conversar sobre esse tema. Um dos porteiros do flat onde moro é uma figura. Me dizia que pobre não pode ter um dinheirinho extra que a geladeira quebra, o chuveiro queima, o cachorro adoece, o gás acaba… “- Parece que tem um alarme na carteira do pobre, Doutor. É entrar qualquer dinheirinho e o diabo se solta. Ô inferno pra ter cão”.

Como praticante do nadismo (ou seja, não fazer nada), tenho me dedicado ultimamente a observar essa relação das pessoas com o dinheiro. Você sabia, milionário leitor, que após o surgimento do watsapp e do facebook temos uma nova categoria social no Brasil? Pois é; o pobre de classe rica. É igualzinho ao rico, só não tem dinheiro. Mas posta fotos encostado em carros que não são seus, sentado em luxuosos salões de recepção de prédios caríssimos onde é faxineiro ou cozinheira e se der bobeira divulga fotos junto a pratos de comida que nem imagina o sabor.

Tem gente que adora coçar a palma da mão direita pensando que isso traz grana. Esse é o pessoal que rompeu o ano usando cueca ou calcinha amarela e está até agora, pleno São João, ainda esperando que caia uma fortuna em sua conta. Ou aqueles lisos que dizem sempre que dinheiro não traz felicidade. Quando eu ouço isso me dá uma vontade enorme de meter a mão no bolso e puxar 5 mil reais pra dar ao autor da frase, só pra ver a cara de infelicidade dele com a grana na mão. O problema é que depois que eu boto a mão no bolso, quando puxo só saem 5 dedos. Aliás, isso de dinheiro não trazer felicidade porque tem coisas que o dinheiro não compra só me lembra o grande Nelson Rodrigues, que afirmava com convicção: “- Dinheiro compra até amor verdadeiro”.

E K., hem? “- Txxxxio, eu estou tão cansada de não ter dinheiro e Deus tão cansado de ouvir minhas reclamações que se a gente organizasse ambos sairíamos ganhando, né?”.

Na Grécia antiga, o filosofo Aratanha já ensinava que dinheiro não é tudo mas é cem por cento.

O sábio Branchú acredita nisso piamente.

Mau hálito - Marcos Pires



Ibrahim Sued dizia que a inveja é o mau hálito da alma. É por aí. Sei que os “privilegiados” com esse problema não tem consciência de sua situação e os amigos tem vergonha de avisar. Dizem que chifre é igual a mau hálito, quem tem não sabe. Se sabem, eu acho que eles pensam que são atores e atrizes, desses que quando acordam já começam a se beijar e conversar antes de escovar os dentes. Porque só no cinema mesmo, viu?

No dia a dia esse pessoal do mau hálito perturba demais. Eles sempre tem muita coisa pra dizer. E êita povinho para gostar de contar um segredo ou desabafar. Vira e mexe eles encostam aquela boca temida em nossos rostos para falar. Pior são aqueles que além do mau hálito soltam perdigotos. Aí é o pacote completo.

Lembro do meu herói Chaves num antigo programa de televisão, quando seu Barrigas lhe disse que sua boca era um tumulo. “- Ah, então é por isso que ela fede tanto”.

Quando eu morei no Rio de Janeiro comecei um namoro com uma colega da PUC que era linda, bem-feita pra caramba, mas tinha mau hálito. Eu estava apaixonado mas preferia namorar por telefone, se é que vocês me entendem. O pior é que com certeza ela não sabia que tinha aquele problema, senão como explicar a mania de só falar bem pertinho do meu nariz? Era muito sofrimento, mas não ia perder aquela gata e decidi conversar com ela sobre o seu problema. Meio sem jeito, puxei o assunto para o lado, digamos, cientifico. Sem ter nem pra que, num daqueles momentos de silencio entre o casal, perguntei inocentemente a ela se alguém poderia adquirir mau hálito somente por beijar uma pessoa que tivesse aquela catinguinha bucal. Ela encrespou: “- Mas como você é idiota. Claro que não. Aliás, por falar nisso, queria te fazer uma pergunta bem pessoal, posso?”.

Pronto, leitores, naquele momento eu achei que havia alcançado meu objetivo. Minha bela fedorenta iria perguntar se ela tinha mau hálito. Qual o quê! Olha só o que ela perguntou: “- Você é homem mesmo? Te acho tão bacana, mas noto que você resiste muito a me beijar na boca. Se você for fresco (gay só foi inventado muito tempo depois) poderemos ser excelentes amigos, sem problemas”.

É por essas e outras que às vezes as grandes histórias de amor deixam de acontecer.

O céu em Portugal - Marcos Pires.



Viemos a Portugal para as celebrações de N. S. de Fátima e mais uma vez nossos amigos portugueses nos levaram ao excelente restaurante Tia Alice, ali perto da Basílica. Desta vez, depois de uns bons vinhos, o amigo Nuno contou que São Pedro recebeu 3 homens no céu. Perguntou ao primeiro deles qual seria sua religião. Ao saber que era budista, encaminhou-o à porta número 8 mas recomendou que não fizesse barulho ao passar em frente à porta número 5. O segundo homem identificou-se como muçulmano e São Pedro mandou que ele fosse à porta de número 10, mas novamente recomendou que não fizesse barulho ao passar pela porta 5. Quando o último dos três homens disse que era batista, São Pedro disse que sua porta seria a de número 7, e mais uma vez recomendou não fazer barulho ao passar pelo número 5. Curiosos, os 3 perguntaram por que aquela recomendação. São Pedro sorriu bonachão e confessou: “- É que lá estão os católicos. Eles pensam que são os únicos por aqui”.

João Paulo, nosso amigo milionário, já mais pra lá do que pra cá, contou a sua. Disse que um dia Jesus foi fazer um passeio no paraíso à procura do seu pai, José, que ele nunca mais tinha visto depois de sua morte. Avistou um velhinho que esculpia numa tora de madeira e perguntou qual sua profissão na terra. O velhinho baixou os óculos à ponta do nariz e disse que havia sido carpinteiro. Jesus emocionado perguntou se ele tivera filhos na terra, e quando o velhinho confirmou que tivera apenas um filho, Jesus em lagrimas balbuciou: “- Papai!”, ao que o velhinho respondeu: “- Pinóquio?”.

Sinceramente, leitores, se eu não soubesse da tremenda fé dos amigos teria ficado chateado, mas o humor português é assim.

Mas eu saí por cima. Contei que Deus convidou um rabino para conhecer o céu e o inferno. No inferno havia um salão com uma panela no centro, onde cozinhavam um excelente manjar, mas as pessoas ao redor estavam tristes e famintas porque tinham colheres com cabos muito compridos, que lhes permitiam pegar a comida mas não dava para alcançar suas bocas. De volta ao céu o rabino viu a mesma cena só que as pessoas estavam bem alimentadas e felizes. Deus explicou: “- É que aqui as pessoas aprenderam a dar comida umas às outras”.

Rezei por vocês em Fatima.

O pescador de histórias - Marcos Pires



 Aluízio Nicácio nasceu bom e o tempo só aperfeiçoou essa condição. Por isso é dono de um excelente humor, do qual finalmente colocou uma pequena parte no livro “Pescador de histórias”.

Vou dar alguns exemplos. Todos os anos, juntamente com numeroso grupo de paraibanos, Aluízio vai ao pantanal pescar. Pelo menos essa é a desculpa, porque levam várias grades de cachaça Rainha que milagrosamente desaparecem ao fim de viagem. Naquele ano ele estava “aperreado” porque fizera uma promessa de não beber por um certo período, e aproximando-se o dia da viagem finalmente encontrou um doido que deu a solução; terceirizar a promessa. Contrataram um pinguço famoso que aceitou ficar sem beber durante o tempo que durasse a pescaria, mediante a paga de 500 reais. Ocorre que contra todas as possibilidades, Aluízio e o parceiro de pescaria Germano Toscano não pegaram nem gripe. A razão? O tal pinguço quebrara a promessa e torrou os 500 reais em cana.

Outra dele; o radialista Paschoal Carrilho, de quem era amigo, foi fazer o exame de próstata depois de muita resistência. Ao ver Dr. Osório Abath colocando uma luva na mão, suplicou: “-Doutor, já que vou me lascar, dá para o senhor tirar pelo menos o anel do dedo?”.

São dezenas de boas gargalhadas guardadas no livro, mas não posso encerrar sem mencionar o planejamento de uma viagem a Fortaleza que ele iria fazer com os casais amigos Luiz Carlos Florentino e Luiz Guimarães, colegas do Banco do Brasil. Reuniam-se todas as sextas feiras para trocar ideais sobre a viagem, mas os aperitivos que tomavam não permitiam o tal planejamento. Enfim decidiram fazer uma última reunião e não beber até resolverem tudo.

Só que adotaram um curiosíssimo modo de viajar. Iriam parando onde houvessem bares com bons tira-gostos e cerveja gelada. Parariam inicialmente em Bayeux, onde havia um excelente picado. A segunda parada seria em Waldemar do Buchão em Varzea Nova, porque o caranguejo era espetacular. Não poderiam esquecer a buchada de D. Zefa Preá em Tibiri, né? E por aí foram até que Luiz Carlos Florentino perguntou onde planejavam dormir na primeira noite. Feitas as contas só dava para chegarem em Santa Rita. Desistiram da viagem.

Se o leitor gosta de rir, favor comprar o livro desse pescador de amizades.

No meu tempo - Marcos Pires



A certeza de que estou ficando velho me chegou com força no sábado passado, quando fui ao aniversário de 15 anos do meu neto Pedro e ouvi as conversas dos amigos dele.

Como eram diferentes nossas diversões. Um exemplo simples; assistir filmes. Hoje em dia eles se limitam a ver o filme e comentar depois. No meu tempo não era assim, havia muita “interação”.

Lembro que minha turma do bairro do Miramar marcou no cine Rex para assistirmos um filme de Maciste. Para os mais novos, vale dizer que era um personagem superforte que sozinho resolvia qualquer parada. Lembrava esse Conan, o bárbaro. Pois bem, nosso amigo Neno Rabelo antecipou-se e assistiu à primeira sessão, de modo que quando chegamos ele já sabia de toda a história.

Como sempre, quando apareceu na tela a propaganda da Condor filmes, todo o cinema gritou xô ou assoviou até que o pássaro símbolo da empresa exibidora voasse da imagem. Era uma praxe. Em seguida o silencio total, enquanto Maciste enfrentava e derrotava dezenas de inimigos, até que caiu numa armadilha e conseguiram prender nosso herói numa cela. Maciste esperou anoitecer, quebrou as pesadas correntes que o amarravam a uma coluna, entortou as barras da grade e seguiu pelo corredor sem fazer qualquer barulho para não acordar os guardas. Naquele silêncio angustiante ouviu-se a voz de Neno: “- Ei, Maciste!”. Pois não é que o ator parou, olhou para trás (ou seja, para Neno, na plateia) e logo depois voltou a correr para a liberdade? Neno ficou famoso com essa sacada. Isso sim era interagir.

Claro que existiam outras formas de “interação”. Lembro que fui com meu primo Juca assistir um filme no cine Santo Antônio, em Jaguaribe, onde ele morava. Estranhei porque quando entramos no cinema, ao invés de irmos para as primeiras filas do térreo, meu primo e sua turma fizeram questão de sentar no primeiro andar. Notei que um deles levava um saco que os demais arrodeavam para disfarçar. Mas conhecedor do “animo” daquela turma da Vila dos Motoristas, fiquei na minha. Pois não é que no meio do filme eles abriram o saco e arremessaram uma galinha que saiu planando e cacarejando sobre o pessoal lá embaixo?

Sinceramente não entendi porque minha nora mais linda e querida do mundo pediu para que eu não contasse mais histórias do meu tempo ao meu neto e seus amigos. Logo quando eu ia contar sobre Carlos Carreiro, Juca Buranha e outros saudosos amigos.

O que é uma amizade - Marcos Pires



 Quando “O livrinho de Marcos Pires” ficou pronto eu estava totalmente liso. Gastara os últimos trocados na editora. Mas tinha esperanças de ficar rico e famoso. Afinal, era o primeiro livro destinado aos futuros advogados, ensinando coisas “muito importantes”, como cobrar honorários, dar más notícias aos clientes y otras cositas más.

Para o lançamento eu arrisquei a parte do meu capital até então intacta, minhas amizades. Consegui convencer o Presidente do Superior Tribunal de Justiça, Ministro Humberto Gomes de Barros, a vir até a Paraíba para lançar, em conjunto com o Livrinho de Marcos Pires, um livro que ele havia escrito recentemente. Aproximando-se o dia do duplo lançamento eu voltei ao Ministro e o convenci de que deveríamos fazer uma venda casada. Mais ainda, combinamos que eu apresentaria o livro dele e ele apresentaria o meu livro.

Portanto, sem gastar um tostão, eu conseguira que o Ministro Presidente do STJ fizesse a apresentação do meu livro e ainda desse um empurrão enorme nas vendas, afora evidentemente uma belíssima festa que contou com a presença das mais expressivas personalidades do mundo jurídico.

Terminada a solenidade, houve um coquetel e discretamente eu convidei o Ministro e sua esposa para irem jantar comigo e mãe Leca no restaurante Gulliver. Seriamos só os dois casais, oportunidade na qual eu prestaria a ele as contas dos livros vendidos e repassaria a grana apurada.

Tão logo chegamos eu informei que o faturamento fora de 5 mil reais, sendo que para cada um de nós tocaria a metade. Entreguei a parte do Ministro e brindamos o sucesso com um uísque Gold.

Mas de repente eu notei que os presentes à solenidade da Fundação José Américo estavam chegando maciçamente ao restaurante, bebendo e comendo nas mesas vizinhas. Eles pensaram que o jantar fazia parte da festa e no final chegou a conta de 6.200 reais que eu o Ministro tivemos de dividir. Saímos com um prejuízo de 600 reais cada um.

Pro resto da vida ele recordava o fato: “-Olha só o que é amizade. O Marcos me fez ir à Paraíba para ajudar a vender o livrinho dele e ainda tive que pagar a conta do restaurante. Mas gosto demais dele”.

Um homem desses tem que estar no melhor lugar do céu.

Quanto ao meu livrinho…ainda não foi dessa vez que fiquei famoso e rico.

As mortes de Pinto - Marcos Pires



Vou logo avisando; se vierem com uma conversinha de que Pinto do Acordeom morreu, não acreditem.

A primeira vez que essa notícia circulou tem tempo. Naquela ocasião os vizinhos de Pinto, na sua cidade de Patos, ficaram chocados. Muito querido onde quer que vá, chega a ser idolatrado por lá. Comovidos, cuidaram de preparar os comes e bebes para o velório, como é costume no interior. Uma vizinha fez pamonhas, a outra fez mungunzá, os amigos cuidaram de estocar cachaça e gelar cervejas...enfim, tudo pronto para chorar o meu compositor de cabeceira.

Lá pelas cinco da tarde chegou o desmentido da tragédia. Pinto gozava de plena saúde e estava inclusive em excursão artística, encantando o mundo com sua arte. O que não impediu uma vizinha muito cruzeta de colocar as mãos nos quadris e reclamar com o marido: “ – Mas esse Seu Pinto faz cada presepada com a gente, né? ”.

De outra feita o queridíssimo compositor de “Neném” chegou em casa às sete da manhã, bêbado até a terceira geração. Claro que à porta estava Dona Madalena, anjo de guarda da família e de minha mãe (explico mais adiante), não muito satisfeita com a situação, se é que vocês me entendem. Quando ela ia começar a reclamar, Pinto assoou o nariz e compungidamente disse: “- Ah, Madalena, eu estava até agora no velório de compadre Edivaldo Mota. Vou dormir, me chame às dez horas para irmos ao enterro”.

Como combinado, às dez horas Dona Madalena foi acordar o marido para irem ao enterro do querido compadre: “- Acorda, Pinto, vai te arrumar para irmos ao enterro do compadre Edvaldo Mota”. Pinto sentou na cama, aboticou os olhos e abriu o peito: “- Como é? Compadre Edvaldo morreu? Como assim; nós estávamos bebendo até as sete da manhã. De que foi que ele morreu? ”.

Por essas e mais uma centena de histórias iguais e por muitas outras razões é que Pinto não pode morrer tão cedo. Tranquilamente segue vivendo e encantando o mundo, já que seu lugar no céu está garantido. É que Deus adora os homens bons. Nesse quesito eu tenho um testemunho guardado. Quando minha mãe se elegeu Vereadora aqui em João Pessoa, não tínhamos grana para nada. Graças a Pinto e Dona Madalena, Creusa Pires tomou posse encadernada em um belo e caro vestido amarelo.

Bota pra lascar na vida, amigo!

Se eu fosse autoridade - Marcos Pires



Meus queridos leitores, se Deus permitir completarei 35 anos de intensa advocacia daqui a pouco. Garanto a vocês que na profissão já vi de tudo, do bom e do ruim. Na sabedoria popular os médicos devem ser jovens e os advogados preferencialmente velhos, porque acumulam conhecimento. Na inflexão dessa curva se diz que o diabo sabe mais por ser velho do que por ser diabo, donde….

Fiz esse arrodeio somente para dizer que se eu fosse autoridade de verdade, dessas com patente e mandato, resolveria rapidamente essas questões das vítimas das tragédias de Brumadinho e do Flamengo.

Uma razão muito simples me leva a esse escrito. É que qualquer processo judicial que seja promovido pelas famílias das vítimas ou pelo Ministério Público demorará no mínimo dez anos. Acham muito? Lembram do naufrágio do Bateau Mouche no réveillon de 1988? Pois bem, somente trinta anos depois o STJ decidiu que os familiares das vítimas terão direito a indenizações cujos parâmetros fixou.

Trinta anos depois a dor aumentou exponencialmente ante a morosidade da justiça, graças a uma infinidade de recursos e com o crescente receio de que as empresas culpadas pela tragédia não tenham mais condições de fazer frente às condenações.

O que eu defendo é que seja encarado o obvio; tudo termina em dinheiro. Sabemos até qual será a média das condenações, a seguir o entendimento do STJ, que é a última instancia para casos do tipo. Portanto, se eu fosse autoridade criaria um mecanismo legal para obrigar os causadores dessas dores a ofertarem aos familiares das vítimas indenizações compatíveis com o que o STJ entende. Claro que esses familiares não estariam obrigados a aceitar esses valores e poderiam discutir o caso no judiciário, mas duvido muito que assim o fizessem, mesmo porque esses procedimentos em nenhum momento iriam frear as ações penais movidas pelo Ministério Público.

Se eu fosse autoridade, começaria por interromper o acesso dessas empresas aos créditos dos bancos públicos e a quaisquer incentivos tributários. Nomearia uma força tarefa para escarafunchar a contabilidade desse povo até espremer os números. É no bolso que dói.

Ai sim, os acordos sairiam rapidamente.

Carta ao Capitão - Marcos Pires



Excelência, espero que esta missiva o encontre bem e em paz. Tal qual quase dois terços da população não fui seu eleitor. É que não voto em ninguém há muito tempo. Menos importa, porque torço pelo sucesso do seu governo, que já foi declarado legitimo pelo TSE quando o diplomou.

Se me permite, Capitão, vou contar duas pequenas fabulas que não são de minha autoria, mas servem bem ao proposito desta cartinha.

Consta que Deus avisou a Noé sobre o diluvio e a necessidade de construir a tal arca. Mas também teria dado o mesmo aviso a um poderoso rei. Enquanto Noé construiu sua arca solitariamente, o monarca nomeou uma comissão de gerenciamento da obra, que por sua vez contratou uma consultoria para assessorar os trabalhos, que por sua vez aconselhou a contratação de vários grupos de estudo, cada uma dedicada a um setor; madeiras, amarras, isolamento... desnecessário dizer que quando o diluvio chegou ainda não haviam começado a construção da segunda arca, né?

A outra fabula é mais simples ainda. Depois da ceia de natal, a neta pediu à mãe a receita do pernil, que estava delicioso. A mãe explicou que era um segredo de família, iniciado pela avó. Temperava-se o pernil em vinho e alho, acrescentavam-se tomilho e outras especiarias e deixavam o pernil dormir. No dia seguinte, antes de colocar no forno, cortavam dez centímetros de cada ponta do pernil. Esse era o segredo. Curiosa, a neta foi até a avó e perguntou por qual razão cortavam-se as pontas do pernil. A avó explicou: “- É que no meu tempo os fornos eram menores”.

Portanto, capitão, se seu governo simplificar as práticas administrativas e não der ouvidos às verdades estabelecidas pelo “çabios” de plantão, já irá bem.

Mas me permita um último conselho de quem deseja o bem do país; cuide para que o dinheiro circule, de preferência tapando os furos da corrupção, porque assim os empregos voltarão, o povo vai consumir mais, o que gerará mais impostos e por consequência aumentará a arrecadação dos cofres públicos, sem necessidade do aumento de tributos. Quanto aos salafrários de plantão no Congresso, que tentarão chantageá-lo, solte seus cachorros em cima deles, mas cuide avisar ao distinto público quem são.

Que Deus continue cuidando do senhor e de todos nós.

Feliz 2019.

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