O emporcalhamento partidário - Gilvan Freire



 


Antes da eleição, por conta do descontentamento generalizado da população com os políticos e suas práticas de decadência moral, não se sabia como o eleitor ia reagir diante de uma classe tão despudorada. Mas já se advertia antes que, possivelmente, a eleição ia ocorrer sem maiores transtornos, mesmo com as preocupações decorrentes das instabilidades sociais desabrochadas a partir de junho de 2013, período da Primavera Brasileira – um prenúncio do que vinha ocorrendo no mundo Árabe.

De fato, parecia esquisito conciliar a raiva do povo contra os políticos e uma eleição em que eles são os principais protagonistas e alvo da consideração dos eleitores. Como compatibilizar desagrado e revolta com agrado e consideração? O X da questão estava na constatação de que a eleição teria de ser feita com os mesmos políticos e os mesmos métodos de sempre, e só haveria uma possibilidade de acontecer uma mudança: era o povo ir para as ruas e melar o processo, porque outra saída não haveria. Além do mais, se dizia, nem um grande líder o país tinha para apontar novos caminhos, e da incerteza o povo tem medo.

Pois bem. Deflagrando o processo eleitoral, o país está seguro para tentar resolver seus impasses através de eleições livres, sem traumas ou sobressaltos, com o inusitado de continuar sem lideres e com a circunstância grave de ter de usar os que tem, entre lideres farsantes, exploradores da confiança do povo e os velhos e carcomidos discursos e promessas.

A essas alturas, qual a cara nova surpreendente que está na tela e qual a linguagem que desperta confiança? Será que a eleição vai produzir alguns lideres, ou será que o eleitor vai misturar todas e mexer na tentativa de extrair apenas os menos ruins? Onde está o político dos sonhos do eleitor, qual o nome dele ou dela e qual é o Brasil novo que sai da cabeça deles?

A verdade é uma só: a eleição será feita com os produtos mofados que estão na prateleira e não melhoraram em nada da Primavera Brasileira para cá. Naquele momento, eles tiveram pelo menos medo, e agora nem isso eles têm mais. Medo de que se os eleitores vão ter de escolher entre os mesmos espantalhos assustadores que estão ai?

Mas para que sobrevivessem todos os políticos mal-afamados, pecadores de todos os santos dias, foi preciso que aparecesse uma vítima para pagar-lhe os pecados bestiais que cometem. Então eles mesmos resolveram golpear os partidos, que de tanto se misturarem nas promiscuidades ficaram parecidos uns com os outros. Não sobrou um só partido que não tenha se corrompido e metido a mão no poço dos maus costumes que inunda o país. Muito embora a degradação seja obra dos políticos, os partidos ficaram iguais a eles, porque se transformaram em associativos dos covis. Viraram um antro de perversões.

Esta é a eleição sem partidos, pois os políticos transferiram seus atos desabonadores para as associações partidárias. Elas que morram, contanto que seus sócios se salvem. É assim mesmo: salve-se quem puder, ainda que as práticas políticas dos líderes sejam as mais degradantes, entre traições explicitas, compra e venda desavergonhada de votos e epoios, uso e abuso de dinheiro público e manejo de recursos sem origem idônea.

Ninguém tem mais partido (nem pudor) e a campanha é uma festa de confraternização entre gregos e troianos, porque todos são agora apenas os impuros do mesmo nível. E o eleitor já começa a ter interesse neste carnaval de Sodoma e Gomorra fora de época. Vira samba. E só o futuro é que trará a ressaca.


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Postado por Gilvan Freire em 21/08/14 as 17:22

MARINA, A INSOSSA: RETRATO DE UM PAÍS SEM LÍDERES
Não será mais o caso de se dizer que o Brasil ainda paga o preço de ter vivido numa ditadura durante duas décadas e por isso não formou lideres políticos. A redemocratização do país já dura três décadas, tempo suficiente para formar lideres.

É bem verdade que esse hiato do regime de exceção abafou os movimentos estudantis, atemorizou as universidades, inibiu todos os movimentos sociais e implantou o terror da tortura e das cassações. Cerceou as liberdades individuais e coletivas, silenciou a imprensa e transformou o Estado num aparato policialesco a serviço dos ditadores. Mas, apesar disso, a resistência ao regime levou o povo às ruas, fez a abertura e restabeleceu a democracia. Ou seja: os movimentos sociais e os partidos políticos, fortemente apoiados pelos trabalhadores e suas organizações sindicais, se transformaram em grandes escolas de formação de lideres, muitos deles ainda ativos, enquanto outros estão capengando.

Nesse período de chumbo da ditadura onde de fato era quase impossível surgir um líder novo, os pré-existentes desafiaram os generais e muitos sobreviveram, embora cassados, ainda com idade para retomarem a atividade política. Mesmo sob regime de opressão, esses líderes até cresceram na adversidade e mereceram imenso apoio da sociedade, pois eram referências do melhor padrão de homens públicos daqueles tempos para cá. Mas envelheceram e quase todos morreram.

Agora, o país precisa da nova classe política, aquela que teria sido formada do final da ditadura para a primeira e segunda década da redemocratização, exatamente o período em que surgiu o PT e os lideres sindicais da Nova República, e onde pontificou Lula com seu jeitão de pobre revolucionário e pregador das utopias latino-americanas, logo mortas com a derrubada do muro de Berlim e a desintegração da União Soviética. Sobrou, porém, para Lula a derrubada das elites do poder no Brasil, pois elas estavam ali encasteladas, antes, durante e depois do golpe militar.

Lula até que cumpriu bem seu papel, devolvendo aos pobres parte do que eles haviam perdido desde o descobrimento do Brasil, mas envolveu-se com os conservadores no Congresso e deixou que o PT transformasse o Estado num aparelho partidário a serviço de uma cambada de delinquentes de esquerda que, no lugar da ética pregada e da transparência prometida, fundaram um grandioso sindicato de roubalheiras e dilapidação do patrimônio público. Lula e o PT se exauriram moralmente e deixaram o país à deriva e a sociedade sem rumos e sem líderes. E a classe política dominante simplesmente faliu por falta de decência.

MARINA É UM BRASIL PERPLEXO

A candidatura de Marina é um caos dentro do outro. Ou seja: ela representa o vazio de uma sociedade que quer achar um líder que não é ela e, muito menos, não são os outros – Dilma e Aécio. É um dilema.

Marina é aguada e despreparada para governar o Brasil, mas o povo cansou do PT e seu projeto continuista e já não confia mais em ninguém. Até Lula está parecendo anacrônico e repetitivo com suas manias de grandeza de salvador da pátria. Ele inventou Dilma para continuar governando com o PT, mas agora terá de conviver com fantasmas assustadores. É o preço da ambição desmedida e descontrolada.

Marina é um fantasma ainda maior do que os fantasmas de Lula porque assusta os concorrentes e os eleitores – ninguém tem certeza que ela sirva para governar bem o país nem para nada, mas certamente para assustar o processo eleitoral serve. E pode ser esse seu papel. Ela é um espantalho que tem a cara de pobre, não tem o corpo da elite e tem o jeito de Madre Tereza de Calcutá. É só esperar por um milagre. Que antes de qualquer coisa, porém, Deus nos salve dos medos. Esse é o primeiro milagre que precisa ser feito. Amém!


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Postado por Gilvan Freire em 18/08/14 as 15:55

AINDA EDUARDO: O JEITO DE SER DE UM LÍDER
É bem possível que com o sepultamento de Eduardo Campos se aplaque mais a angústia que estava se abatendo sobre o povo nordestino e grande parte da população brasileira. Enquanto seu corpo estava insepulto, parecia que a tragédia que o atingiu não tinha terminado. Era uma ferida aberta que desconfortava e gerava comoção, especialmente entre os pobres, que são muito sensíveis às perdas políticas. Na verdade quase todo mundo sentiu.

Em tempos de eleições, ainda que os políticos não valham mais grande coisa, há líderes que despertam algum interesse dos eleitores, ou por questões partidárias, ou por simpatia mesmo. Às vezes, não é porque certos candidatos convençam, mas porque são uteis a uma mudança que precisa ser feita no país ou em cada Estado da Federação. Ou seja: há certas ocasiões em que os líderes são queridos porque precisam derrubar outros que não são tanto, ou são mal vistos ou odiados.

No caso de Eduardo Campos, porém, ele vinha em ascensão dentro de seu próprio Estado e começava a despertar interesses em todo o Brasil, por causa de seus atributos de novo líder e também por conta de ter-se afastado de Dilma e brigado com o PT, duas virtudes assumidas com grande agrado de setores da sociedade brasileira hoje, embora ainda lhe sobrasse forte relação com Lula, o protetor dessas duas mazelas.

Após sua morte, foram de fato revelados os atributos de líder de Eduardo Campos, independentemente de suas vinculações políticas. Não se tratava de um líder ocasional, desses que surgem de acidente ou de conjunturas, mas de um líder formado no batente e forjado nas lutas, além do mais legatário de uma rica herança política de boa qualidade. Agora, diante da angústia que sua perda causou no país inteiro, já sabe em qualquer lugar que ele era um dos principais agentes da nova geração de líderes que o país preparava. E isso, certamente, não é decorrente de mera casualidade.

Mas, do que precisa alguém para líder? É muito provável que os lideres tenham de possuir qualidades ingênitas, nascidas com ele, embora aconteça de adquirirem por aprendizado ou processo de imitação. De qualquer forma, o líder é muito diferente de quem não é líder, um porque tem atributos específicos, outro porque não os tem.

Em principio, parece indiscutível que o verdadeiro líder há de ser tão normal quanto os liderados, a fim de que todos o conheçam de forma plena. Precisa ser franco, leal, solidário, confiável e humano, para não causar decepções e desenganos, nem acarretar danos em quem confia. Ou seja, um líder é um agente da concórdia, da boa convivência, da amizade e da paz. Há de ser bom para não afrontar o sentimento de fraternidade dos que lhe querem bem e lhe admiram.

Eduardo Campos era um ídolo, tinha charme, carisma, simpatia e paciência para tratar com os que lhe seguiam na vida pública. Era tolerante e sabia partilhar da amizade dos que promoviam o seu sucesso e lhe davam vitórias. Procurava não mentir, não enganar, não trair, não falsear os fatos políticos para tirar proveito nem transferir responsabilidades aos que não tinham o dever de fazer sem está no lugar dele. Era bom, generoso, tratável, despojado, não arrogante e nem autoritário, mesmo sendo firme no caráter e afirmativo quando era para tomar decisões.

Esse modelo de liderança é quase infalível, não fosse a vida falível. Quando se tem homens assim, é porque o modelo dá certo. Quando não, é porque tem tudo para dá errado.

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Número de pastores evangélicos que disputarão as eleições aumenta 70% em todo o país



Extra Deputado Pastor Marco Feliciano
O número de candidatos que se declararam pastores nas eleições deste ano aumentou 70% em relação à disputa de 2010. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 276 candidatos incluíram a identificação de pastor nos nomes que aparecem nas urnas — a maioria busca uma cadeira como deputado estadual ou federal.

O Rio é o segundo estado com o maior número de candidatos que se identificam como pastores: são 36, um a menos do que São Paulo, que tem 37. No Rio, o aumento foi de 125% em quatro anos.

O aumento de líderes evangélicos candidatos tem provocado disputas internadas pelo voto dos fiéis, que representam 22% da população brasileira, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

 

 

 

 

— Nas eleições proporcionais, há briga entre eles e o voto se pulveriza, se divide entre os vários postulantes. Apesar de terem uma identidade religiosa, eles são diferentes. A mistura entre o púlpito e o palanque é um problema, porque leva para dentro da igreja uma divisão que está fora dela — explicou o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC, que estuda o papel das igrejas nas eleições. — Já nas disputas por cargos majoritários, evangélicos pentecostais, como os fiéis da Assembleia de Deus e da Universal, votam nos irmãos.

‘Evangélicos esquerdistas’

Candidato pelo PSC, Pastor Everaldo é o primeiro postulante à Presidência a usar o nome “pastor” nas urnas. Ele afirma que a escolha não foi planejada:

— Não incluí o pastor na urna. Sou pastor, não posso esconder isso. É assim que sou conhecido — disse Everaldo, que, segundo as pesquisas, tem 3% das intenções de voto. — Sou neto de pastor, filho de pastor. Tenho orgulho de ser pastor.

Em vídeo postado na internet, o pastor Marco Feliciano, candidato à reeleição à Câmara dos Deputados do partido do Pastor Everaldo, ataca o PT e também evangélicos que apoiam a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição:

— Eles não comungam do nosso pensamento. Acham que os que primam pela família, que são contra as drogas e o aborto, promovem o retrocesso. Quem nos chama de retrocesso são esses evangélicos esquerdistas, que apoiam o que o PT promove. Não caia no conto deles. A maioria dos evangélicos que apoiam esses líderes receberam uma fortuna para isso.
 

Eduardo Campos, a morte e a PB - Gilvan Freire



 
Se a imagem que Eduardo Campos tinha em vida fosse igual a que ele tem depois de morto, pouco lhe faltaria para ser presidente da República. Lógico que tudo quanto se diz e se mostra dele tem agora um sentido emocional suplementar, visto pelo olhar da complacência e da comoção, dois elementos de endeusamento e divinização dos homens diante de seu fim trágico. Poucos homens conseguem isso em vida, a não ser um tipo como Mandela e João Paulo II, só para lembrar duas figuras dos tempos recentes. Mas num e noutro caso, a comoção foi diferente, movida a compreensão do povo pelo fim natural da vida bem vivida, fenômeno que ocorre mais comumente em qualquer lugar.

No caso de Eduardo Campos, a tragicidade e a morte precoce abalam as pessoas e dão-lhes a sensação de perda, especialmente quando se trata de um aspirante à presidência do país e tem (como ele tinha) uma origem familiar saudável e sólida formação política. Na verdade, o sentimento do povo é de comoção e frustração, porque de repente ele foi descoberto como o melhor candidato, mas quando o eleitor precisa votar nele não o encontra.

Mas é impressionante como as qualidades humanas de Eduardo estão realçadas pela mídia, bem como sua personalidade política, o que nos leva à conclusão de que um líder como ele de modo algum conseguiria se mostrar tão bem aos eleitores durante uma campanha, terminando por não ser acolhido pelas virtudes excepcionais (somente agora reveladas integralmente) que tinha como candidato. Ou seja, talvez perdesse na disputa somente por que não conseguia demonstrar ao povo o que efetivamente era.

O que surpreende, porém, é que o povo já estava olhando para ele com um ar de curiosidade e atenção, querendo conhecê-lo melhor, talvez por causa dele ser nordestino, uma espécie brasileira que somente vence no Brasil depois que derruba muros de preconceitos e sobe montanhas de adversidades, como fez Lula. Nesse sentido, a morte de Eduardo equivale a ele ter caído da montanha perto do topo, e com ele ter desabado uma parte dos sonhos e do povo do Nordeste. Quase todos nós despencamos com ele.

A PARAÍBA SEM EDUARDO

Se Eduardo Campos tivesse um Cássio a seu lado, certamente iria ter uma votação grandiosa na Paraíba, não tivesse ele morrido. De alguma forma eles se pareciam muito, como se parecem com Aécio Neves, Beto Richa do Paraná e Luiz Eduardo Magalhães, que morreu precoce do coração, os novos líderes de linhagem familiar que o país preparou para exercerem grandes papeis nas últimas décadas.

De outro lado, foi também muito lastimável que os dois governos de Eduardo Campos em Pernambuco não tenham transcorrido com Cássio no governo da Paraíba, a fim de que ambos, com a identidade e amizade que tinham e a percepção integral da realidade nordestina, pudessem promover um projeto sincronizado de desenvolvimento regional. Como Eduardo terminou fazendo sozinho na divisa dos dois Estados, enquanto a Paraíba ficou só olhando, embora se beneficiando.

Alguém já imaginou se a Paraíba puder se aproveitar deste vazio deixado pela ausência de Eduardo Campos e fizer para a frente uma marcha até a divisa com Pernambuco para receber e continuar a obra de Eduardo? Basta saber que isso é possível agora, depois que Eduardo Campos fez a parte dele. Pena que ele não esteja vivo para ver. E ajudar.

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A catástrofe - Gilvan Freire


Ninguém é capaz de decifrar as lições e sentenças do tempo, a não ser quando elas já aconteceram. Melhor assim, pois nunca se saberá nada sobre as surpresas que o tempo prega, ao menos que os fatos sejam previsíveis. Se as pessoas soubessem com antecedência o que lhes vai acontecer, a vida humana seria uma obra de planejamento, puramente mecânica e manipulável, sem grandes novidades surpreendentes. E, então, o que se faria com a morte, que poderia ser identificada, adiada ou evitada? Fosse assim, o que se faria da morte súbita, dessas que não avisam nem dão sinais?

O desastre de avião que matou Eduardo Campos deve ser entendido assim: a vida e a morte são surpreendentes. Se há quem possa entendê-las e até explicá-las, não há ninguém que possa advinha-las ou decifrar-lhes o mistério da surpresa - um enigma insondável que torna todos o seres humanos frágeis, vulneráveis, talvez para que não se julguem soberbos ou poderosos. A nenhum homem normal será dado o direito de ignorar a sua própria falibilidade, porque ela decorre de sua mortalidade inafastavel. Todos têm o direito de viver mas sem saber quanto, e têm a obrigação de morrer. Sim, morrer é um dever, porque é obrigatório. Ninguém pode estrebuchar, apenas lamentar.

A lamentação é o direito que o povo brasileiro tem, neste momento, para expressar o sentimento de perda que varre o país e se abate sobre o Nordeste diante da morte impensável de Eduardo Campos. Há razões de sobra para que o povo psicologicamente se choque e sentimentalmente se perturbe com a sua partida tão precoce.

Primeiro, ele era um espelho de um Nordeste que pode dar certo aos olhos do resto do Brasil. Um Nordeste não raquítico, não acanhado, capaz de criar seu próprio Jucelino e sua Brasília, um canteiro de obras de bilhões de dólares e milhares de empregos.

Segundo, ele era jovem, realizador, atrevido, ousado, sem complexo de inferioridade, e falava ao país todo com intimidade. Ou seja, era um nordestino com a mentalidade de um brasileiro metropolitano e cosmopolita, integrado à nova classe política que o Brasil está formando para compor as elites dirigentes do mundo globalizado.

Terceiro, ele pertencia ao movimento de resistência ao continuísmo político que transforma o país numa muleta do domínio partidário, e que faz do Estado e do governo uma só entidade a serviço de causas de pessoas e grupos.

Quarto, ele ia ajudar, a partir do Nordeste, ao povo se libertar do regime de escravidão eleitoral, baseado agora em esmolas institucionais que fidelizam o voto e o vinculam, por dependência, aos detentores do poder.

E AGORA?

Embora seja cedo, abre-se hoje inevitável especulação sobre os efeitos da morte de Eduardo Campos. De lado a tragicidade do acidente, mais trágico ainda é a sua saída do processo eleitoral, em que teria, no mínimo, um papel regulador. Contudo, a sua morte é o fato novo da campanha no Brasil, certamente um fato com imensa capacidade de mexer no tabuleiro político e alterar as expectativas do eleitor. Se toda campanha eleitoral está sujeita a surpresas e mudanças bruscas, a atual está começando com uma tragédia em que a morte humana sobe no palanque e promove reviravoltas.

Marina silva, uma espécie de Lula magro de saia, é a herdeira natural de Eduardo Campos, de quem recebe um legado repleto de significados políticos e comoções, talvez o que estava faltando para quebrar a monotonia e as polaridades das eleições. Não será esta mais uma das peças pregadas pelos tempos indecifráveis e uma catástrofe que exige esforço de reconstrução das perdas?

No próximo artigo, será abordada a repercussão política eleitoral da morte de Eduardo Campos na Paraíba. Será que RC bambeia para as bandas de Dilma e o PT, ou vai se agarrar a Marina como tábua de salvação e deixar Dilma e o PT a mercê da fera nova da selva amazônica?

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Deus, povo e julgamento - Gilvan Freire


Já se previa o que o governador Ricardo Coutinho poderia enfrentar na campanha como candidato a reeleição. Uma coisa é governar como soberano sem dividir com mais ninguém as responsabilidades de governar, ou sem ouvir uma opinião critica que aponte erros e falhas comuns aos que decidem por muitos. Outra coisa é saber por onde anda a razão, nem sempre a serviço de nossa vaidade e encantos, por vezes andando sorrateira por caminhos adversos, além do mais conspirando.

Um tipo estranho como RC, com suas complexidades psicológicas à mostra, diferenciado-se dos padrões humanos conhecidos, corre dois riscos quando assume posições sociais de relevância: ou muda a forma de entendimento das pessoas sobre as quais exerce influência, ou constrói um grande abismo em volta onde, quase sempre, cai e morre. Às vezes, morre e arrasta muitos a morte.

No campo das seitas, onde o fanatismo corrompe a mente humana e promove lavagens cerebrais, o desastre não demora muito a chegar e a influência é restrita, pois há logo a evidenciação dos sinais de desequilíbrio, o que afugenta os mais lúcidos. No campo político, porém, esses tipos complexos são dotados de grande capacidade de determinação, apego ao trabalho e de autoritarismo, elementos essenciais à formação dos déspotas.

Mas, o que difere um déspota de um líder fanático? A diferença reside no que cada qual se acha, ou seja: o que cada um acha que representa para os demais nas sociedades em que vivem. O líder fanático entende que fala em nome de uma divindade, e o déspota acha que a divindade não é outro senão ele mesmo. Um fala como representante de um deus, via de regra apocalíptico; o outro é Deus falando, exigindo obediência e temor.

Na política, quando um líder entende ser tão poderoso quanto Deus, diferentemente do Deus divino, não faz concessões, não perdoa, não ama, apenas submete e impõe – é um Deus desumano e cruel. Contudo, quando o poder é grande nas mãos dos déspotas, eles massacram, espoliam, e esquecem que são deuses passageiros, falíveis e mortais. Por isso, duram menos do que querem – embora alguns tenham durado muito, segundo a História.

Acusado de ser um tipo autoritário, desses que impõem tudo e não dão satisfação aos outros, RC está diante da via crucis, o calvário do julgamento democrático, em que a verdade e a razão estão soltas na rua, e não obedecem às ordens dos deuses. Isso pode ser o abismo, aquele fosso que os déspotas constroem em seu redor.

Diante disso, o governo que RC acha que fez, os números e estatísticas, a compreensão social que o povo tem, o agrado e o desagrado da população, a confiança dos eleitores e a percepção real dos fenômenos e fatos ocorridos, tudo agora está inteiramente fora do controle e da vontade do governante. Aos olhos da sociedade, o deus é que é agora um submisso.

De tudo, porém, do que será objeto do julgamento popular, a palavra do deus e o reinado que estava apenas em sua cabeça sofrerão as mais duras provas: o choque das realidades divergentes – e mortais.

A campanha da Paraíba, hoje, é uma busca de verdades. E é a primeira vez em que RC se submete à opinião de seus críticos, desce do pedestal, conta os amigos, testa os inimigos – e desmancha ou consolida a imagem de deus que está dentro de sua cabeça. Ou salta o abismo ou cai nele.

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A propaganda não enganosa pode surgir das eleições - Gilvan Freire

 
Embora nada de extraordinário tenha acontecido durante o debate realizado com os candidatos a governador pela TV Master, ao menos ficou a impressão de que a mídia eletrônica será o veículo mais importante da campanha nos esclarecimentos do eleitor. E como não há nenhuma emissora de rádio e televisão que possa alcançar integralmente todo o território estadual, somente as redes estaduais, formadas pela Justiça Eleitoral, composta de todas emissoras juntas, umas entrando ali, outras acolá, deverão divulgar as ideias e propostas dos candidatos, que serão confrontadas de imediato, cada qual em seu horário eletrônico, em dias certos.

Os comícios, como já vem acontecendo nos últimos anos, não serão os melhores meios de comunicação entre os candidatos e os eleitores, mas nas cidades de porte médio pra baixo ainda promovem bem uma aproximação física que o povo espera que aconteça onde mora a cada eleição. Digamos que saciam aquela vontade que o eleitor tem de ver seu candidato preferido, podendo ouvi-lo ou tocá-lo e conferir ao vivo as marcas que o tempo tem deixado nele, se for veterano, ou os atributos que despertam curiosidade, se for noviço na praça como era o ex-candidato Veneziano.

Com menor chance de cobrir o estado todo ao mesmo tempo, o debate tipo o promovido pela Master despertam grandes interesses da opinião pública, o que deverá ser expandido a outras televisões de maior capilaridade, e certamente terão poder de convencimento eleitoral, especialmente por causa da bi-polaridade existente entre RC e Cássio, ambos experimentados no poder executivo e com prestação de contas a ser feita à população. Este é o melhor momento no Estado para que a opinião pública possa saber quem dos dois fez o que prometeu em campanhas passadas, mentiu, enganou, trapaceou, traiu, ou agiu com pouca, alguma, muita ou nenhuma dignidade no exercício do cargo que o povo lhe deu.

Os debates e o horário eleitoral gratuito serão consagradores ou mortais, porque exporão uma verdade de governo, dos dois lados dos principais confrontantes, que a sociedade pouco sabia, pois, fora dos debates de agora, os dois antes trocavam farpas de rosas e o povo deles só sabia através da propaganda oficial, quase sempre ou sempre manipulada, maqueada e enganosa.

Portanto, o debate direto ou indireto, além de servir para Vitalzinho mostrar sua cara ao lado de Dilma e vender um produto novo que possa despertar esperanças, servirá para Cássio desconstruir os castelos de fantasia de RC, montados em um apareto de propaganda caríssima que até hoje não bateu com a realidade mas está sujeita a investigação e apuração duras, a fim de que seja confirmada ou não.

De outro modo, RC também se encarregará de provar que Cássio não é o mito que o elegeu governador, desconstruindo a imagem que ele próprio fez quando dele precisava para se eleger. Ou seja, só quando um acabar de destruir o outro é que se saberá quem mentiu em favor de quem e de que lado ficou a razão, ainda que possa ficar do lado de quem apenas mentiu menos. Mas é muito possível que os eleitores somente agora descubram a verdade que pouco ou nunca apareceu, enquanto os lideres menores, em vez de entrarem na disputa, vão assistindo no palco o espetáculo da morte de quem não sobreviveu à verdade. Baixar-se-á então a cortina. E o povo aplaudirá.


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Novas formas de conjugar o verbo trair - Gilvan Freire


As especulações sobre o surpreendente acordo celebrado entre o PT e o PSB, costurado pessoalmente por Luciano Cartaxo e Ricardo Coutinho, após um misterioso encontro entre os dois, dias antes das convenções, ainda não estão esgotadas. A partir daquele encontro Luciano virou a cabeça, abandonou as conversações que vinha mantendo com outros candidatos, inclusive com Cássio Cunha Lima, a quem ofereceu a candidatura do irmão, em uma operação vexatória que o PT central censurou e repugnou, e com o PMDB, parceiro preferencial da aliança Dilma/Temer.

Em principio, levando-se em consideração que Luciano estava de bem com o PT nacional, por causa de sua inesperada eleição para prefeito de João Pessoa (o único eleito no Nordeste), não se tinha como imaginar fosse ele afrontar a cúpula de seu partido, indispondo-se com o candidato do PMDB, Veneziano Vital do Rego, então postulante, que além de candidato da aliança Dilma/Temer, é irmão do senador Vital, o homem-bomba que pode explodir ou permitir que outros detonem o governo e mandem aos ares o Planalto.

Ao contrário do que a oficialidade petista esperava, Luciano tramou abertamente contra o candidato do PMDB e instruiu o PT local a fulminar a pretensão peemedebista, mesmo que o PMDB, orientado pelo comando do PT central, reservasse a seu irmão Lucélio a vaga de senador na chapa. Veneziano, mesmo tendo dentro do PMDB quadros notáveis para formar uma chapa competitiva puro-sangue, apostou no regime de paciência e espera, um caminho que tanto pode garantir o que você está precisando para já como pode não garantir nada nunca, porque “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Luciano, em verdade, conseguiu a sua primeira vitória: tirar o esperançoso Veneziano do páreo (porque todos os que esperam por ele, exceto o irmão, esperam em vão), embora tenha sido substituído por Vital, o homem-bomba que o PT nacional trata com cuidados especiais mas Luciano e o PT local tratam com hostilidades e agressões.

A fim de encostar Lucélio em quem pudesse oferecer mais do que o PMDB, Luciano esbandeou-se pra qualquer lado, até para o lado impensável de Ricardo Coutinho, deixando Dilma e Temer expostos ao desconforto de ter no palanque do PT na Paraíba o principal aliado do presidenciável Eduardo Campos, numa salada indigesta que mistura fraqueza, ambição, deslealdade e interesses inconfessáveis, além de enigmas que serão decifrados mais tarde.

Estabelece-se, agora, uma contenta judicial para saber quem tem o direito de trair legitimamente e faltar com o dever político, porque se depender apenas de certos líderes as opiniões já estão claras: pode-se tudo do que for ética e moralmente proibido, inclusive mudar de lado e de compromissos, contanto que se salvem os mais espertos e os desmedidos na arte de afrontar o povo.

Entretanto, é curiosa a postura do PT nacional, que desmoraliza Luciano desfazendo suas alianças espúrias, mas ainda lhe dá o prestigio de ser o coordenador de Dilma no Estado. Não será que essa malufaia toda tem mesmo é a cara do PT? Ou isso tudo sugere que, para que haja fidelidade de todos aos novos e veneráveis costumes, o verbo trair seja conjugado de uma forma gramatical contemporânea, começando um pouco diferente, assim: tu trais, eu traio, nos traímos. Ai, sim, os peemdebistas poderão trair Dilma, dividindo o palanque com Aécio Neves. Fica bacana.

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Os anormais estão soltos - Gilvan Freire

A ironia de Raniery Paulino com relação ao ataque de Luciano Cartaxo ao PMDB e à candidatura de Vitalzinho, não é apenas uma resposta a altura do menosprezo com que o PT vem tratando há meses a aliança nacional que produziu a chapa Dilma x Michel Temer, hoje oferecida politicamente no projeto de reeleição.

A parte da frase mais incisiva e ferina produzida por Raniery, de forma suavemente devastadora, declara que “como ele mudou de conceito tão rápido, espero que mude de novo”, estabelece o que está se infirmando como marca do caráter político de Luciano Cartaxo, pouco depois de ter sido alçado à condição de prefeito de João Pessoa, cargo tido, anos atrás, como o mais pomposo cemitério de líderes, até que Cícero e Ricardo Coutinho quebrassem, em parte, o mal-assombro para só morrerem mais adiante.

Se é questão de mal-assombramento, bruxaria ou feitiço, não se sabe ao certo de que lado vem a maldição. Talvez seja por conta da capacidade que os líderes têm de enganar os eleitores, passando-se por pessoas confiáveis e capazes que efetivamente nunca foram. Ou, então, a culpa recai sobre os próprios eleitores que votam sem exigir uma capacidade cabalmente demonstrada do candidato.

De qualquer maneira, a maldição sempre aparece, explicável também por outro viés hipotético: a vaidade de quem chega à condição de prefeito da Capital e pensa que comprou ingresso direto para ser líder estadual, um pedestal falso que já tem desequilibrado muitos incautos e desfeito uma montanha de fantasias.

Com referência a Luciano Cartaxo, ao que parece manifestamente evidente, todos esses fatores se somam de maneira muito precoce e veloz porque, a rigor, ele é produto de uma circunstância política tão surpreendente que nem ele próprio pode compreender o seu significado, tonto que ficou quando o poder lhe subiu à cabeça como o vistoso chapéu do Panamá que Luciano Agra lhe transferiu para ficar sem abrigo, exposto ao tempo.

Depois que Cartaxo desmontou Agra, tirando-lhe o chapéu e negando-lhe um gesto mínimo de gratidão e reconhecimento, certamente ninguém esperaria que pudesse demonstrar fidelidade a alguém, embora também não se pudesse imaginar que virasse um Ricardo Coutinho, apenas com capacidade diferente de enganar e se transformar.

Causa espanto e apreensões a conduta política de Luciano Cartaxo, primeiro contrariando logo cedo seu patrono e a massa eleitoral que fez da insatisfação reinante contra RC a principal razão de uma mudança brusca na Capital, e depois marcando seu governo com gravíssimas instabilidades emocionais, próprios dos que não têm capacidade de governar, além de girar como uma barata atordoada pelos quatro cantos do tabuleiro político a busca de afirmação para si e seu irmão, como se estivesse obrigando a população a tolerar um poder dinástico. Isso, sim, é que parece um mal-assombramento ditado pelos enfeitiçados, não pelos feiticeiros. Que coisa, né?

Este artigo integrará o futuro livro:
‘PREVISÕES POLÍTICAS DE UM VIDENTE CEGO’
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Até onde vai Vitalzinho - Gilvan Freire

 
Parece não haver muita explicação para as dificuldades que o PMDB vem enfrentando neste ano eleitoral de 2014. O partido tem eleitores em todos os recantos do Estado, da maior a menor cidade, e possui em seus quadros líderes com capacidade para disputar qualquer tipo de eleição, majoritária ou proporcional. Além do mais, tem um histórico de luta e resistência que lhe garantiu uma década de governo e, no mesmo período, vários mandatos de senador e destacada atuação no Senado. Na bancada federal, na Câmara, quando não ultrapassou a maioria dos deputados, teve beirando a metade, nesses últimos 20 anos. Tem sido ainda, no cenário nacional, o maior partido e o primeiro também na Paraíba em número de filiados. Mas o que está havendo com o PMDB paraibano, que se encontra diminuído nestas eleições?

O maior problema do PMDB é Zé Maranhão, o líder que foi sempre a maior solução para todos os problemas do partido. Agora, contudo, todo histórico do PMDB vale como solução para o projeto de Zé maranhão mas ele não tem a solução para o principal problema de seu velho partido porque, por conta de muitos problemas internos, Zé ficou maior que o PMDB e não disputa mais o cargo de governador como vinha fazendo desde 1998, passando por 2006 e em 2010, quando perdeu para Cássio o cargo que deu a Ricardo Coutinho.

Mas foi a partir de 2010 que o PMDB passou a sofrer corrosões, pelo fato de parte do partido ter-se viciado em ser governista e outra parte não ter compreendido a necessidade de fazer oposição a um governo que praticamente destruiu a base social do partido, centrada nos servidores públicos, prefeitos, vereadores, e trabalhadores do setor privado e setores influentes dos profissionais liberais, seguimentos importantes da imprensa e dos formadores de opinião. De outro modo, a vitória de Cássio sobre o maranhismo e, no principio, a sua defesa do governo de RC, junto com o aliciamento que o governador fazia de alguns líderes peemedebistas, afora o desprestigio que Dilma impôs a Maranhão (que não foi convidado para nada na administração petista), tudo resultou no enfraquecimento do PMDB.

Entretanto, nada foi mais nocivo ao partido do que o ouriçamento de suas lideranças jovens no sentido de afastar a influência de Zé Maranhão na administração da máquina partidária, sem que houvesse um substituto consensual e hábil o suficiente para fazer a mudança ou construir uma transição. Deu no que deu, ou seja: um fracasso acachapante do projeto de ambição e a sobrevivência de Zé Maranhão como o único líder capaz de içar o PMDB do abismo em que se encontra, embora sem a sua candidatura ao cargo de governador.

Mas há hoje alguns problemas grandiosos a serem enfrentados. O primeiro ( e o maior) é que os eleitores cassistas e maranhistas celebram agora um armistício, uma paz política, conscientes de que um setor não quer mais a destruição política do outro, tanto achando que os dois líderes precisam ser homenageados e salvos, quanto compreendendo que Cássio e Zé Maranhão precisam ser vingados de RC, que ganhou de Zé em 2010, em nome de uma revolução dos costumes fracassada, e massacrou o cassismo com o propósito de enterrar Cássio e reinar absoluto no Estado.

Outro problema de monta é Vitalzinho compreender que os eleitores maranhistas e cassistas estão se entendendo por conta própria em favor dos dois, sem mais agressão ou retaliação, o que não é bom nem para Vital nem para Wilson Santiago, mas isso pode ser objeto de um pacto indissolúvel entre os próprios eleitores, algo difícil de não ser compreendido e aceito pelos dois líderes.

De qualquer forma, como Vitalzinho é um candidato impetuoso e atua com muita energia e disposição de luta (e é bom de bico), precisa botar Zé Maranhão debaixo do sovaco e percorrer os territórios históricos do PMDB, lugares capazes de emprestar à sua candidatura o orgulho da raça vermelha. Ou seja: Vitalzinho precisa ganhar primeiro dentro do PMDB para avançar em seu mais próximo concorrente e chegar ao segundo turno. Como se sabe, a medir pela rejeição que as pesquisas trazem da candidatura de RC, há uma fatia do eleitorado disposta a evitar que ele ultrapasse o primeiro turno, e esse é um indicador muito favorável ao crescimento de Vital, já que seu maior inimigo interno já foi debelado pelo furacão do amadorismo precoce e da incompetência política: o PT estadual e seus líderes tresloucados.

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A carta anêmica e inútil de Cícero - Gilvan Freire


É uma pena que o senador Cícero Lucena não tenha sabido se desvencilhar do conflito que viveu dentro do PSDB nos últimos tempos. Em principio, criou a expectativa de que a crise interna terminaria em rompimento formal com Cássio e Ruy Carneiro, os dois principais responsáveis pelo seu isolamento dentro do partido. Depois, deixou por largo tempo em aberto a especulação de que poderia ser candidato a deputado federal, uma candidatura muito viável, por conta de seu peso eleitoral em João Pessoa, mas, mesmo assim, carente de grande aporte financeiro. E, por fim, perdeu o controle sobre seus parentes, que anunciaram apoio a Ricardo Coutinho, numa contradição desmoralizante tamanho família, antes mesmo que anunciasse a sua posição.

Agora, sem ter criado um só fato de relevância política durante todo esse tempo e sem ter revelado uma estratégia mínima de retirada do processo, Cícero simplesmente capitula e se entrega ao abandono.

Em sua nota ou carta, Cícero não se revela altivo, não toma uma posição de líder contrariado em seus legítimos interesses políticos, ou porque deixou o processo se arrastar demais sem uma resistência a altura de seu papel e de seu mandato ou porque está querendo preservar outras conveniências de que não quer ou não pode abrir mão. Se lamuria apenas, de maneira soft, como alguém que perdeu muita coisa mas pouco está se lixando. Ou como quem não perdeu nada de importante (afinal seu mandato de senador chega ao fim). De fato, Cícero não deu manutenção eleitoral ao mandato, o que resultou em certo afastamento das lideranças em torno da defesa de seu nome, circunstância que favoreceu de forma preponderante a operação demolidora que Ruy Carneiro engendrou, em causa própria, objetivando substituí-lo nos intestinos do PSDB.

Cícero não acusa ninguém nominalmente em sua carta, ao contrário do que vinha se queixando entre amigos, e passa até a ideia de que mesmo alijado, como reconhece, não está disposto a reclamar de quem lhe teria traído ou abandonado, e ainda assume compromisso com a candidatura de Aécio Neves, sem dizer que papel terá na campanha. De qualquer forma, a campanha de Aécio é controlada por Cássio na Paraíba e, portanto, não há como Cícero serví-la a não ser que ao lado de Cássio e Ruy.

Trata-se de uma carta que desmancha todas as expectativas que foram criadas em volta dela, que não diz nada nem garante posição nenhuma, muito apropriada aos que desistem de algo sem reclamação. A não ser que Cícero, sem contar mais com alguns de seus familiares, queira se reconciliar com Cássio e Ruy mais adiante, ao devagar, pedindo desculpas pelo que não fez, ou perdoando aos que fizeram, compreendendo que a política sem traição é apenas uma arte de um passado que ele mesmo viveu e do qual tem boas lembranças e saudades. Mas, se é para ficar recordando Ronaldo Cunha Lima, porque não matar a saudade em companhia de seu filho?

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Judicialização, adoração e canonização - Gilvan Freire


A judicialização da campanha eleitoral, consistente na impugnação de candidaturas, especialmente as candidaturas de maior visibilidade, a rigor não constitui nenhum problema extraordinário, pois os interessados não estão proibidos de recorrer ao poder judiciário quando for para fazer cumprir a lei. É muito natural que partidos e candidatos sejam vigilantes com relação às suas próprias postulações e também, com maior razão, com relação aos concorrentes. Faz parte das disputas e da concorrência por vagas eletivas.

No caso de Cássio, alvo permanente de impugnações, isso decorre ainda dos efeitos de sua cassação, que deixou em aberto, sujeitos a dúvidas de interpretação, alguns aspectos polêmicos do caso, especialmente a respeito de quanto dura a cassação e qual o tempo certo de sua terminação, envolvendo prazo determinado, ano e dia. Outra questão controvérsia é a retroatividade da Lei da Ficha Limpa que, sendo posterior a cassação de Cássio, pode ou não pode retroagir para prejudicá-lo aumentando a sanção dada contra ele. Este elemento da lei xerifária, foi deplorado pelas melhores cabeças do Supremo Tribunal Federal e constitui uma inovação temerária dos mais assentados princípios de direito constitucional do mundo moderno.

Mas, enfim, Cássio terá de passar mais uma vez por esse teste, já que pelos testes das urnas tem vencido com maior facilidade, embora com grande sofrimento. Ou seja: sofrendo e vencendo Cássio percorre a via crucis, mas, pelo menos, não carrega sozinho a sua cruz, vez que tem a companhia de muita gente que está sempre disposta a compartilhar suas dores com o fim de vê-lo triunfar. Esse é seu carma e seu destino – se fosse diferente talvez não se compatibilizasse com a áurea que é mantida em torno dele. Coisa dos tempos, da história dos povos e da biografia dos líderes.

De qualquer forma, é bom que seus adversários não provoquem o sentimento de proteção e amparo que grande parte da população parece destinar a Cássio, para não transformá-lo em fenômeno de adoração coletiva, uma espécie de santificação política, após a beatificação pela qual passou em 2010, que resultou no amaldiçoamento de seus adversários, se razões já não existirem atualmente para alguns serem excomungados.

A política não comporta processo de canonização, a falta de hábitos e práticas virtuosas, mas o povo santifica seus ídolos de acordo com os códigos sociais, e não conforme as leis canônicas. E nem precisa que o ungido tenha obrado milagres, basta apenas que tenha caído nas graças de seus devotos.

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Nem dinheiro está comprando tudo - Gilvan Freire


Diz a cultura popular que quando dinheiro e pisa não resolverem uma pendenga é porque foram pouco. De fato, a tal da pisa (surra, sova) já reinou de forma quase infalível ao tempo em que as intimidações físicas eram solução de muitos casos intrincados onde uma parte tinha dificuldade de ceder à outra. Mas, na medida em que a pisa foi caindo em desuso, por causa do avanço do aparato policial e judicial contra a violência, o dinheiro ficou soberano sozinho.

A pisa tinha a capacidade de convencer pessoas fracas e hesitantes, intimidar pessoas atrevidas e dominar pessoas valentes. Na prática, era um instrumento da desmoralização do homem. Na política, dizem os mais velhos, era um santo remédio para afugentar as traições, para silenciar os mais falantes e até para persuadir (entre aspas), verbo que não tinha o sentido moderno que lhe emprestam hoje de “levar a crer ou a aceitar, ou levar a se decidir a respeito de algo”.

O dinheiro leva grandes vantagens em relação a pisa porque, embora no mesmo campo de aplicação tenha também sentido desmoralizante, além de não se revelar pela agressividade física, cria uma sensação de negocio, de troca, de satisfação entre quem compra e quem vende. É, digamos, um negocio prazeroso entre as partes, que não deixa marcas visíveis aos outros, a não ser quando a operação sai do domínio dos interessados e cai no olho da opinião pública.

O único problema do uso do dinheiro na compra e venda de caráter político é que ele não adquire bens materiais ou coisas e sim pessoas. Mas, afinal, o ser humano não é um bem material não? É, sim, mas o homem que o dinheiro compra não é um bem corpóreo, físico, é o ser imaterial, pensante, revelado e exposto através do atributo da personalidade. Os antigos já chamavam isso de “negociar ou vender a própria alma”, aquela operação em que o homem vendia tudo, sobrevivia mas não lhe sobrava nada.

Até as últimas horas do final de junho, realizarem-se inúmeras operações de compra e venda de almas políticas no Estado da Paraíba, embora as mais caras não tenham se realizado. Mercadores do reino correram aflitos os quatro recantos de João Pessoa e Campina Grande, com as burras carregadas de ouro, a fim de testar a cobiça e a lei da oferta e da procura, esta até então nunca vista antes no Estado com tal sofreguidão. Lembram-se quando se compravam os votos dos pobres da periferia na noite anterior ao dia da eleição algum tempo atrás? Foi a mesma coisa, só que com líderes, e não com eleitores comuns. Que sodomia endiabrada é essa?

Já se sabe agora certos detalhes das negociações. Um deputado estadual valia um pouco mais de 1 milhão. Um partido grande valia quase 20 milhões, incluindo seus deputados. E um partido médio, desses que tem dono e força familiar, foi cotado por 6 milhões, embora pedidos 10 milhões. Houve até quem apalavrou o negocio, recebeu uma parte e, como a parte era menor do que o combinado, ‘amoitou’ (escondeu por trás da moita) e escapuliu. Os antepassados da zona rural diziam assim: “mordeu o peão e fez finca”, querendo dizer que o cabra provou do sabor e correu.

Mas, por que a maior parte desses negócios não foi realizada? Primeiro porque entre o pedido e a oferta a distância era grande. Depois porque os vendilhões tinham medo de um escândalo ou de enfrentar a censura da opinião pública. Por fim, porque todos queriam um grande adiantamento e o comprador estava ressabiado diante de calotes já ocorridos e não confiava em seus interlocutores, nem vice-versa.

Foi também surpreendente o papel de alguns intermediários do reino, que propuseram acrescentar às somas, ao final de cada operação por grupo, 1 milhão de reais, às escondidas, para pagamento da corretagem dele – um segredo que não podia chegar ao palácio real. Mas, foi a primeira vez na Paraíba em que dinheiro muito resolveu apenas um pouco. O palácio tem ouro que nem os súditos querem.

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Ah! vencemos a Copa - Gilvan Freire

 
É na amargura que se conhece o sabor da vitória, quando ela ainda é possível. Às vezes, a própria amargura é uma vitória custosa, porque pode significar a libertação de um mal que aflige, que tortura, que atormenta. Quase ninguém sofre em vão, a não ser no sofrimento que leva à morte, ou porque não tem cura ou porque o sofrimento consumiu as esperanças e afugentou a paz. Há, contudo horas em que a gente procura a amargura, ou se deixa levar a ela: a gente cai no abismo, ou por displicência, ou porque se deixou arrastar pelas emoções ou pelas aparências.

É o caso da Copa. Fomos ludibriados, enganados, e nos deixamos dominar pelos golpes de uma poderosa indústria multinacional que vendeu ilusão ao nosso espírito – uma espécie de simpatia para aliviar nossas tensões e inquietações. Montaram um circo virtual e nos alugaram, por poucos dias, uma fantástica máquina de brincadeiras que nos tirava do trabalho duro e nos fazia relaxar na ilha da fantasia. Quando nos demos conta, estávamos de volta à realidade pesada, com os mesmo problemas de antes e nenhuma solução. Venderam-nos água com açúcar dizendo que era pura vitamina vegetal, e nós nos encantamos com a doçura. Agora, sim, precisamos de água com açúcar para nos recuperarmos do choque e sairmos da amargura.

Não parece correto que, à procura de culpados, responsabilizemos os jogadores e Felipão. Eles, como nós, somos todos bonequinhos de fantoche nas mãos de um fantástico esquema econômico-financeiro que fabrica festas caras e explora as emoções do povo. A Seleção, afinal, foi a possível, somente para compor o cenário e sustentar o espetáculo até próximo do fim. Boa ou ruim, essa Seleção foi encomendada para cumprir um papel. E o papel foi cumprido, não com o tamanho que poderia e deveria ter, mas com o tamanho que lhe deram no fabrico de laboratório, segundo o script.

No real, a Copa desmanchou-se durante a exibição do show. Como a queda do trapézio no circo, assustou e frustrou a plateia que estava tão envolvida no palco que esquecia as suas agruras. O espetáculo parou e o circo está levantando as lonas.

Melhor assim. Não há mais como evitar os prejuízos e recuperar os produtos levados pela gatunagem que armou o bote e sangrou os cofres públicos na elaboração desse plano bilionário de entretenimento que enfeitiçou o Brasil e alienou os brasileiros. Foi tudo uma ilusão de ótica, puro colírio de televisão.

Superar esse golpe de gangsteres nacionais e internacionais é a única forma de a gente ganhar a Copa: deletando da memória.

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Quem não está construindo o desastre, pode escapar dele - Gilvan Freire


Não há certeza, mas, ao que parece, a democracia eleitoral vai funcionar. Isto é muito bom, porque não há democracia sem eleições. Possivelmente, os eleitores estão conscientes de que, se houver mudanças, ocorrerá pela via do voto, o único instrumento de força coletiva afora o processo de insurreição revolucionária. É, em grande parte, o efeito Copa.

De fato, a Copa coloriu a alma de um povo deprimido politicamente que não sabia o que fazer de uma classe política tão abjeta, sempre posicionada em sentido exatamente contrário à representação popular. Desse confronto entre o que pensa o povo e o que fazem seus representantes, era de se imaginar um choque capaz de roubar a paz social. Mas o efeito Copa, como todas as conseqüências do histórico remédio pão-e-circo, vem dando excelentes resultados. Funciona mesmo.

Ainda não dá para saber o que pensam os líderes, especialmente os de maior projeção que disputam os cargos mais relevantes. Pelo menos um candidato à presidência, Eduardo Campos, em um evento anteontem, surpreendeu prometendo combate à corrupção. Embora este seja o discurso recorrente desde as primeiras eleições no país, logo após à proclamação da república, vinha perdendo apelo. Afinal, como poderiam os políticos combater a corrupção, se estão sobrevivendo e se alimentando dela? Se é a corrupção que, como engrenagem industrial, está produzindo em grande escala e gerando o enriquecimento das classes dominantes?

E, NA PARAÍBA, O QUE DEVE ACONTECER?

Vamos aguardar os discursos e as propostas. Há uma sensação (tomara que falsa) de que nenhum candidato a governador precisará dizer algo novo. É como se o eleitor, por maioria, quisesse apenas Cássio de volta, pela razão mais simplória de que precisa tirar RC do governo. Não deixa de ser uma coisa ideológica, porque RC teria um estilo esquisito, em desacordo com o gosto do povo. Vai ser um confronto interessante do fica não fica, mas, enfim, o agrado ou desagrado do eleitor vai prevalecer, por causa da soberania do voto.

Os candidatos nanicos vão defender a ética e combater os maus costumes. É uma boa. Prova de que o ideal não morreu. Mas o grande desafio sobra para o PMDB, o partido que esteve como finalista nas copas políticas dos últimos 20 anos, tendo governado o estado por 10 sob a liderança de Zé Maranhão, que agora aparece como sobrevivente de uma raça em extinção: os políticos limpos e dignos. O maior problema do PMDB foi precisamente não saber como afastar a ascendência de Zé Maranhão sobre os partidários no Estado e não permitir mais que o seu prestígio político fizesse sombra sobre os líderes mais novos, especialmente Veneziano e Vitalzinho, que fizeram de tudo, nos últimos anos, para aposentá-lo, não obstante as pesquisas indicarem que ele ainda é o principal nome do partido.

Com o objetivo de reduzir a influência de Maranhão sobre o PMDB, os irmãos Vital tentaram controlar a agremiação, mas os resultados foram funestos. Mesmo sendo aos olhos dos eleitores o melhor candidato a senador durante o período pré-convencional, Maranhão não era cogitado como candidato, enquanto a vaga era oferecida a figuras sem expressão. Mas foi o desastre dessas operações malfeitas que trouxe o ex-governador de volta, ao lado de Roberto Paulino, na chamada chapa puro sangue, a única engenharia capaz de garantir oxigênio à candidatura de um dos irmãos Vital.

Mesmo assim, funcionando como tábua da salvação, ou seja: como bóia de náufragos, Maranhão não teve o direito de escolher o seu suplente na chapa de senador. Logo que convidou um agente político compatível com sua biografia de homem público, os irmãos Vital reivindicaram o lugar para a mãe, a fim de formar o maior agrupamento político familiar da história da Paraíba. Agora é Vital para governador, Veneziano para federal e Nilda para a suplência de senador, retirando a sua candidatura de estadual para favorecer Ivaldo Morais, sogro de Vital, e Tatiana Medeiros, a candidata de Veneziano. Se essa demonstração de força oligárquica e concentração de poder doméstico funcionar, Vitalzinho passa a ser o favorito do pleito. Se não funcionar, é porque o desastre está neles.

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O feitiço caiu nos feiticeiros - Gilvan Freire

 
Qualquer que seja o modelo de aliança que o PMDB faça com o PT, oficial forçada ou não, o resultado será o mesmo. Ou seja: o PT vai votar com Ricardo Coutinho. Isto já era previsto, desde meses atrás quando os petistas criaram as maiores dificuldades à candidatura de Veneziano, a ponto de terem destroçado o projeto, o único com viés historicamente oposicionista no Estado, pois era destinado ao combate a Cássio e RC ao mesmo tempo. O que estava por traz dessa fritura persistente era a ambição desmedida e frenética de Luciano Cartaxo em fazer seu irmão Lucélio o candidato a Senador na chapa de Cássio (foi oferecido), ou com Ricardo Coutinho (foi pactuado), numa frivolidade sem antecedentes na história política recente na Paraíba.

Outro fato é a postura rotineira do PT de se dividir entre dois candidatos a governador, mesmo quando lança candidatura própria, para não perder por completo a chance de entrar, por partes, no governo. São mais de 20 anos nesse jogo, uma banda combatendo a outra, até que Luiz Couto conseguiu levar tudo para o colo de RC, tirando Lucélio da disputa de deputado federal para salvar a sua própria pele, num dos cultos à vaidade mais perfeitos ocorridos como trama nos últimos tempos. Com o ego inflado pela lisonja de ter o irmão candidato a Senador, Luciano Cartaxo caiu de pato e se entendeu com os dois, Couto e RC, o primeiro a quem odiava e estava eliminando calculadamente, e o outro a quem teve de combater para se eleger prefeito em 2012, abrigado no exército girassol dissidente comandado por Luciano Agra, o pai de sua vitória, em quem já deu com os pés impiedosamente, friamente.

Enfim, essas instabilidades e vacilações são agora decorrentes da ascensão de Luciano Cartaxo a um cargo importante que o PT nunca teve e que está deixando seu grupo em lastimável estado de euforia descontrolada, sem medir as conseqüências e responsabilidades de seus atos políticos, como não tem medido seus atos administrativos comprometendo todo o futuro do PT. Na prática, o PT traiu o PMDB aliando-se a Ricardo quando Lucélio ainda estava na chapa peemedebista, traiu Dilma votando no governador que tem outro candidato à presidência, enquanto o palanque armado exclusivamente para Dilma no Estado é do PMDB, traído pelo PT que deveria ser do projeto de Dilma mas é do projeto dos irmãos Luciano e Lucélio. Também se sabe agora, pelas confidências reveladas por alguns líderes petistas, que RC estava traindo Eduardo Campos. Aliás, não é a primeira vez que RC trai aliados e amigos e, possivelmente, essa síndrome deprimente ele adquiriu desde os tempos em que militava no PT. Mas, a bem verdade, traídos estão mesmo os eleitores, que certamente não aprovam essas condutas vexaminosas.

VITALZINHO: A VOLTA POR CIMA

O PT está sendo pego de calças curtas e com as mãos estendidas à palmatória da madre superiora. É um castigo público desmoralizante, acachapante, que expõe suas traquinagens e estripulias na escola primária onde estudam seus novos líderes, de fora apenas o deputado Frei Anastácio e os militantes de sua turma sindical. Mas esses episódios serviram para projetar na Paraíba o Senador Vital do Rego como o maior representante de Dilma no Estado, encarregado de montar o palanque onde ela se hospedará nestas eleições. Pouquíssimas vezes se viu na Paraíba um líder jovem demonstrar tanto prestígio na República, o que passa a ser sua primeira vitória no pleito de 2014. E contar com a lealdade dos petistas isso é dispensável, pois nem Vital nem Veneziano iam contar com tão alto gesto antes. O PT e Ricardo se merecem. São também irmãos gêmeos.

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PMDB a ressurreição é lenta e pode não dá certo - Gilvan Freire


Se alguém disser que viu o PMDB morrer, acredite. Muita gente velou o defunto na madrugada friorenta do dia 28 para 29 de junho, quando as maiores lideranças do partido queimavam velas e davam os últimos arranjos na mortalha. Do lado de fora do recinto, pessoas ligadas ao governo rondavam o ambiente soltando fogos, após terem prometido um carregamento de mirras, incensos usados desde os tempos mais antigos para aromatizar os mortos. No entanto, enquanto os circunstantes não sabiam o que fazer do defunto tão ilustre, que precisava de velório digno para que a população o visse pela última vez, surgiu um surto de medo entre todos, porque alguns eram suspeitos de terem cometido o assassinato, claro que estava de que o crime era de encomenda, ou seja: alguém encomendou a morte do PMDB e prometeu muito dinheiro por ela.

O problema era que a morte estava contratada por dois inimigos temerosos de sua valentia, que o queriam sob captura, vivo ou morto, mesmo que entregue só aos pedaços, um pagando em dinheiro vivo, e o outro mediante promessa de pagamento a prazo. Foi essa encruzilhada que trouxe enorme barulho e grande inquietação entre os que disputavam o espólio da vítima, de tal sorte que o defunto assustou-se e recobrou a vida, não antes de seus herdeiros apontarem uns para os outros com gritos de assassinos, assassinos...!!!

DE FATO, NAQUELAS HORAS GÉLIDAS, o PMDB escapava de uma emboscada trágica, perpetrada pelos seus próprios legatários, e só restabeleceu os sentidos quando eles viram que também estavam morrendo e desaparecendo em companhia dele. A tragédia era bem maior do que todos ali imaginavam. Foi ai que a união forçada fez a força forçada e o defunto ganhou uma sobrevida.

Mais uma noite, porém, na madrugada de 29 para 30, a emboscada rearmou-se com os mesmos protagonistas, tanto os matadores quanto os encomendantes, ao passo em que os mesmos entregadores de mirras circulavam nas imediações. Foram dois episódios degradantes.

ENFIM, CONVALESCENTE DESSES DOIS ATAQUES PERVERSOS, O PMDB RESSURGIU DAS CINZAS e tem chapa partidária definida, mas está ainda fraco e cambaleante, sujeito ao ataque fatal das feras – as internas e as externas. Até as últimas horas dos próximos dois dias, a Paraíba vai saber com certeza se o PMDB morreu mesmo ou sobreviveu, e somente a partir daí vai se saber se seus herdeiros o amam ou querem apenas – e cedo – botar a mão em seu robusto patrimônio, mesmo aos pedaços, colocado a venda em feira livre.

Há tensão, estupefação, decepção, amargura e até choro de militantes, mas em pouquíssimo tempo se saberá o que sobra do PMDB e de sua família, se não se acabarem todos de uma só vez. Quem imaginava isso?

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O PMDB morreu na noite de sábado e ressuscitou na manhã do domingo - Gilvan Freire


Já era de madrugada do sábado para o domingo quando a cúpula do PMDB, não encontrando consenso sobre a candidatura própria do senador Vital Filho a governador, anunciou a mais radical e vexatória decisão do momento: apoiar Ricardo Coutinho, oferecendo Nilda Gondim a vice. Durante a noite toda de debates acalorados e alguns insultos de uns a outros, emissários de Ricardo Coutinho transitavam de canto a canto, ávidos pela realização do maior negócio financeiro dessas eleições 2014, beirando ou totalizando a soma de 20 milhões de reais, uma fábula de dinheiro público drenado para os esgotos políticos. Se houvesse polícia federal nas ruas por aquelas horas da matina, muita gente ilustre poderia ter amanhecido o dia no cárcere.

Soltada a mega bomba junina nos salões do encontro noturno, dali se evadiu a ala cassista do PMDB, disposta a denunciar o negócio mercantil e abrir uma dissidência, levando uma chapa à convenção. Militantes políticos filiados do partido, que acompanhavam a reunião pelo whatsapp, iniciaram, ainda às escuras, um movimento de desfiliação em massa, fazendo côro com a dissidência. Foi assustadora a reação, capaz de fazer tremer a montanha de notas sujas e de assustar os intermediários e interlocutores da compra e venda desmoralizante.

Contudo, o sol já tomava o firmamento quando Vitalzinho reconsiderou a decisão da cúpula e recolocou a sua candidatura, a fim de evitar a incineração do PMDB, defunto desde as três horas da madrugada, candidato a cinzas enquanto tinha sido até aquela noite fatídica o maior e o mais valente partido político do Estado da Paraíba. A decisão pessoal de Vital e o chamamento para que Zé Maranhão assumisse a candidatura ao senado, ressuscitaram o morto, pois a lógica dizia que a catinga do defunto iria feder sobre todos os que estavam matando de vergonha o velho PMDB de muitas lutas e de muitas vitórias, protagonista principal do cenário político paraibano nos últimos 25 anos e rebaixado à categoria de coadjuvante.

Enfim, salvos pelo gongo, sobreviveram todos do perigo mortal do linchamento público a que estavam sujeitos, porque se deixaram enfeitiçar por 20 milhões de moedas vis.

Peemedebistas históricos vão ficar devendo a Trocolli Jr., Manoel Júnior, aos Paulino e aos Motta e outros, um ato de resistência e bravura que tirou o PMDB da cova, mas precisa haver certeza de que ninguém mais ousará feri-lo de morte, novamente, mais tarde.

Em meio ao lamaçal que ainda vai continuar se movendo noutras direções até a última hora desta segunda, esse fim de feira onde outras carniças serão vendidas a quem tiver precisão e dinheiro fácil, ao menos ainda se pode apontar três ou quatro atitudes dignas de boa nota moral: a unificação do PMDB, com chapa pura sangue; a posição de Frei Anastácio para não deixar o PT morrer de crise de labirintite e burrice aguda; a decisão de Rômulo Gouveia de não ser vítima útil e conveniente das traições mais torpes; e a consagração de Leonardo Gadelha, pinçado para ser vice presidente do presidenciável pastor Everaldo, do PSC, o candidato surpresa que se aproxima do terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto entre os demais candidatos escolhidos em convenções partidárias. A Paraíba perde o melhor candidato alternativo a governador e o melhor vice, como Luciano Agra, em qualquer chapa nas presentes eleições no Estado.

Pelo menos, agora, com a decisão mais correta que o PMDB podia tomar, Cássio já não ganhará mais a eleição no primeiro turno, e Ricardo Coutinho ganha adversário (que pretendia comprar) para morder seus calcanhares e evitar que chegue ao segundo turno. É mais um castigo dos grandes.


Este artigo integrará o futuro livro:
‘PREVISÕES POLÍTICAS DE UM VIDENTE CEGO’
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A desmoralização é grande, mas... - Gilvan Freire


Esses deploráveis episódios políticos ocorridos na Paraíba durante e logo após o dia de São João são a maior fogueira já erguida em solo paraibano nas últimas décadas destinada a queimar reputações de personalidades importantes e, possivelmente, incinerar a carreira de algumas figuras das novas gerações de líderes. Vejamos, pelo grau de envolvimento com os fatos, os que mais contribuíram com a desmoralização generalizada que tomou conta do cenário despudorado e degradante que se instalou na vida pública do Estado neste período junino, antes mesmo que São Pedro chegue em missão celestial depuradora e de salvação.

VENEZIANO – Conhecido pelo seu destemor político e atrevimento, aguerrido em defesa de princípios éticos e programáticos, combativo na formulação de um projeto alternativo entre as maiores lideranças do Estado, não foi capaz de se desvencilhar da imagem pouco convincente que deixou em seu último período de governo a frente da prefeitura de Campina Grande. Foi obstinado e teimoso na busca da candidatura, perdeu a autocrítica quanto as dificuldades que enfrentava, não soube liderar e administrar os interesses partidários e submeteu-se ao tratamento desatencioso e desrespeitoso do PT, que fez pouco caso de sua candidatura. Poderia ter reagido à desconsideração petista nos primeiros momentos e desafiado Cássio e RC ao mesmo tempo, pois o mínimo que o eleitor poderia esperar de um líder de sua qualidade e história era que não aceitasse insultos e menoscabos. Foi frouxo quando devia ser valente. Foi fraco quando devia ser desafiador. Foi omisso quando devia reagir em defesa de seu partido e foi submisso quando devia ser altivo e independente. Vai ter que reconstruir a bravura que o fez líder em pouco tempo, sob pena de não ter sobrado nada de seu projeto.

LUCIANO CARTAXO – este ainda não compreendeu o verdadeiro significado de sua eleição a prefeito da Capital, pegado no rabo do cometa circunstancial Agra, e em meio a um clima anti-Ricardo Coutinho que moveu 75% dos eleitores de João Pessoa, divididos em três candidaturas de oposição. Ele acha que quem o elegeu foram os fanáticos e adoradores que se encantaram com sua beleza plástica e seus dons oratórios, e não pessoas que queriam apenas dar respostas a outro líder que elegeram antes mas havia desencantado seus eleitores.

Se não houver alguém de responsabilidade, com experiência e maturidade, que possa conter a volúpia e a emocionalidade de Luciano Cartaxo, imediatamente, ele vai se perder muito antes do tempo previsto. A sua obstinação para fazer de seu irmão um líder político a qualquer custo, sem apego a compromissos éticos, ideológicos ou programáticos, sem respeito aos pactos celebrados e às alianças obrigatórias entre parceiros de aliança nacional – e girando para todos os lados como uma biruta de aeroporto, ao sabor dos ventos que lhes refresquem – ou se movendo em defesa de interesses estritamente familiares, nada de admirável está construindo como líder novo. Desses líderes sem posição definida, sem confiabilidade pública, sem identidade consolidada e sem apego à palavra e aos compromissos assumidos, os cemitérios políticos estão abarrotados, embora haja sempre lugar para mais um.

VITALZINHO – É um enigma. Joga como profissional no planalto, como peça manejada pelo PMDB oficial e suas manobras pouco republicanas, mas joga como amador nos gramados do Estado, onde não construiu um perfil de líder partidário. Maranhão deixou que ele usasse o PMDB para articular a candidatura do irmão mas ele não conseguiu sequer unir o partido, que saiu perdendo pedaços pelo caminho. Contudo, a sua possível candidatura pega agora o PMDB em frangalhos, e talvez seja esta a chance dele recompor os cacos.

Levar o PMDB a uma reengenharia é, certamente, uma operação extremamente interessante para o pleito de 2014, o que Veneziano não conseguiu fazer. Fica para outro membro da família, já que a vida pública do Estado virou um projeto familiar. Mas, alcançar isso através de um casamento com o PT – noiva de muitos amantes – é não ter direito a núpcias, nem a fidelidade. Ou seja: mudaram-se as cangalhas mas os burros são os mesmos. Depois conto mais.

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Todos mudam para qualquer lado. A política ficou redonda - Gilvan Freire


Na medida em que não há mais, na política, princípios pragmáticos ou éticos, as composições partidárias devem ser feitas por outras razões menos nobres, de preferência por interesses materiais mesmo. O eleitor também não será mais tão exigente como já foi noutros tempos. Afinal, o eleitor vai exigir postura politicamente correta de quem? Qual o partido ou homem público que está pautando sua atuação por uma conduta retilínea, coerente e sem contradições? Que líder está se revelando pela firmeza de suas posições e pela confiabilidade de suas opiniões?

“Indo e voltando”, “dizendo e desdizendo”, “fazendo e negando”: é assim que agem os políticos na atualidade, sem qualquer preocupação com as impressões que causam aos eleitores, pois o que está em jogo não é mais o interesse da população e sim a sorte dos próprios políticos. Eles assumem publicamente que têm de garantir a sobrevivência. Será que há alguém achando que a sobrevivência de que falam diz respeito ao interesse coletivo?

POIS É. A CRISE POLÍTICA INSTALADA DENTRO DO PMDB, o maior partido do Estado e o que tem mais eleitores aficionados, é também produto dessa desagregação e degeneração geral que transforma interesses de pessoas em prioridades falsamente públicas mas destinadas a contemplar agrupamentos familiares que fazem da política um meio de vida. A Paraíba está infestada desses grupos e a sobrevivência deles é que conduz as negociações políticas. O que é bom para esses núcleos, que estão dominando o cenário partidário, há de ser bom para a população de todo o Estado, ainda que o povo não seja ouvido para nada. Não estamos vivendo numa terra sem donos, estamos vivendo num lugar só de donos. E servos.

Os tremores ocorridos no tabuleiro político da Paraíba nas últimas horas, cujo desenho final já tinha se delineado desde a última semana, precisa ser contado em pormenores, a fim de que a sociedade não continue enganada a respeito do que afirmam os líderes, ou omitindo verdades ou encobrindo fatos, enquanto os interesses de cada um é defendido com unhas e dentes, pouca lisura e zero de transparência.

DE QUALQUER FORMA, OS DESFECHOS JÁ VINHAM SENDO PREVISTOS, mas a novidade é que, daqui pra frente, cada setor vai querer responsabilizar o outro pelas mudanças abruptas ocorridas nesta antevéspera das convenções. E, de fato, caberão algumas graves responsabilidades a muitos, mas ninguém haverá de assumir sozinho. Eis ai uma chance de o eleitor saber com que tipo de líder está convivendo, capaz, inclusive, de não assumir nem mesmo a posição que toma, ou de justificá-la com argumentos que nunca foram da essência de outros compromissos anteriormente assumidos e posteriormente desfeitos.

Agora, tudo é possível abaixo da linha do equador, porque todos os líderes já mudaram de posição varias vezes nos bastidores, sempre preservando interesses familiares ou próprios, sem um mínimo de preocupação com as paixões políticas que permeiam a sociedade. É como se os jogadores da seleção brasileira entrassem em campo pensando somente em si, sem considerar o papel e os interesses dos torcedores. É um vexame.

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Veneziano cai, o PMDB desembarca no Governo - Gilvan Freire

 
Ao contrário do que vinham afirmando alguns líderes, a candidatura de Veneziano chegou à extrema unção. Também ao contrário do que disse semana passada o deputado Manoel Júnior, o PMDB está se compondo com o governador Ricardo Coutinho. Ou seja, se o povo pensar ao contrário do que dizem os líderes, há imensas possibilidades (e talvez as únicas possibilidades) de está certo.

Mas, a rigor, a imprevisibilidade dos políticos não é muito diferente da imprevisibilidade da política, uma arte cênica que trabalha com malabares e ilusionismos, dois elementos essenciais aos truques e equilíbrios das enganações óticas. Política é uma magia circense.

Em 2010, Cássio fez de Ricardo Coutinho um instrumento político para destronar Zé Maranhão do governo. Agora Zé Maranhão usa Ricardo Coutinho para dar o troco. Ou, de outro modo, Ricardo Coutinho usa Maranhão para se vingar de Cássio. Ou seja: o maranhismo e o cassismo, que vinham como um vulcão adormecido, agora já soltam lavas. Vai render muito fogo. É revanchismo pra todo lado.

OS ERROS DE CÁSSIO – Ninguém está imune a erros mas, na política, os erros são mais comuns porque a atividade e seus agentes são necessariamente confusos. Cássio, contudo, nesta fase de supremacia eleitoral, tem cometido erros elementares. O primeiro deles é juntar-se a Ruy Carneiro para esmagar Cícero, desconhecendo seu mandato de Senador e sua contribuição histórica. Cícero está, como Veneziano, só arquejando, mas os atos de desconsideração de que está sendo vítima têm um efeito contrário muito nocivo a Cássio, que não pode plantar vento em seu terreiro sem causa relevante e politicamente correta. Uma pesquisa qualitativa em andamento vai trazer o que os eleitores cassistas pensam sobre essa situação de Cícero, e Cássio e Ruy podem ser compelidos a reconsiderar as desatenções. Mais ainda agora quando a candidatura de Cássio vai ser muito impactada com o apoio do PMDB a RC.

O OUTRO ERRO DE CÁSSIO FOI SUBESTIMAR ZÉ MARANHÃO. Primeiro cogitou da candidatura de Veneziano ao Senado, mediante acordo tratado com Vitalzinho, até que uma pesquisa feita em Campina desaconselhou o acordo, que sofreu grande rejeição entre os cassistas e venezianistas. Ficou impraticável. Depois Cássio incentivou Manoel Júnior, um quadro importante das novas gerações do PMDB mas sem influência nas decisões do partido. Era outra tentativa de isolar Maranhão, então já apoiado por forte pressão da opinião pública numa eventual candidatura ao Senado, pois o próprio Maranhão, mesmo lisonjeado com o apoio popular, não podia querer ser candidato para não trazer prejuízos à aliança de Veneziano com o PT.

Enquanto Cássio errava na estratégia e a candidatura de Veneziano esfumaçava, RC procurava ler o ego ferido de Zé Maranhão, a fim de construir uma aliança sem Dilma e sem o PT, os dois principais algozes de Zé e Vené (além de Vitalzinho, a quem negaram um ministério, recentemente, de forma desmoralizante). Entraram em cena vários ex-auxiliares de Maranhão que estão hoje servindo a RC, afora um personagem de grande porte que é peça no xadrez por onde se move o poder.

RC AGORA É DOCE COMO O ERÁRIO – Candidato à reeleição, o governador Ricardo Coutinho não tem atrativo popular, nem amigos, nem afagos, mas o governo tem. São os atrativos governamentais que entraram no campo da disputa porque Cássio deusificou-se demais. Como fica o quadro diante dessa reviravolta surpreendente e estonteante?

POIS BEM. VITALZINHO PROVAVELMENTE SERÁ O VICE DE RICARDO, para garantir-lhe votos em Campina e receber apoio financeiro à campanha de Veneziano a deputado federal e a sua mãe a estadual. Maranhão poderá ser o senador, para garantir o apoio de Guarabira, Patos, Catolé, Araruna e a capilaridade estadual do PMDB a RC onde ele está de esmolas, além de reforçar em João Pessoa com Zé substituindo Agra.

De sobra, Veneziano e Vital ainda destroçariam Rômulo, para que as vinganças dos mestres possam ser consideradas perfeitas e fatais. Mas nem seria de se desprezar que o PT corresse no mesmo sentido, a fim de oferecer Lucélio no lugar de Zé – e este é, hoje, o grande problema.

Enfim, um tsunami político está ocorrendo neste momento no Estado, e não se sabe quantos, entre mortos e feridos, escaparão. Mas o Tesouro, este sim sairá muito escapelado. E, ao menos, RC já sabe que os mais fracos que vinham chantageando a sua candidatura capenga com apoios dúbios e caros, estes são os candidatos a morrer primeiro, já que arquejam. Mas RC toma oxigênio. O resto serão as consequências.

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