A desobediência civil além das urnas - Francis Lopes de Mendonça



Fiz um "print" de notícias cada uma mais escabrosa do que a outra, notícias de sacanagem com a população tão escabrosas que dá vontade de correr para a rua e explodir em raiva e revolta.

Porque é muito triste perceber que o ideal da democracia entrou pelo esgoto a partir do instante em que a credibilidade do sistema político foi totalmente arruinada por espertos, oportunistas e sanguessugas que promovem "reformas" que nós sabemos serem metas inatingíveis num grau que não se podem ser feitas, por um Congresso que só age por interesses escusos.

Eu só acreditaria, sim, se as leis dessas “reformas” começassem por um ato que declarasse abrir mão de todas as vantagens abusivas que colocam os representantes acima do povo. Tais leis determinariam os direitos das classes dirigentes serem as mesmas leis que determinam os direitos de todos os cidadãos, os mais humildes, declarando, portanto, abolidas todas as leis que as colocam acima do povo, estando proibidas de legislar em causa própria, com base na essência da "representatividade que nada mais é que a "igualdade" entre o "representado" e o seu "representante".

Mas não. Vilipendiaram tanto o país que eleições, candidatos e urnas eletrônicas se tornaram ferramentas totalmente inúteis para produzir as mudanças e reformas de que o país realmente necessita e que todos nós sonhamos sejam possíveis.

O que há é apenas a mudança do estilo de jogar o jogo político do poder, sem haver alteração da essência do sistema. "Eleição democrática" é apenas uma definição bonitinha para um processo que só gasta milhões em marketing para fazermos de conta que existe uma democracia. No entanto, a resposta para as mudanças sociais está muito além das urnas. Pois agora sabemos, diante do nível de deterioração a que desceu a governabilidade, que as mudanças só poderão efetivamente ocorrer quando a maioria dos eleitores e contribuintes resolver, eles mesmos, demitir os seus representantes que os traíram e fazer, eles mesmos, as leis.

Mas isso só seria possível com mobilização de massas. Só que a maioria não tá nem aí. É submissa, anestesiada por um patriotismo tipo amor bandido, destituída da noção de como são malbaratados os impostos cuja fortuna ninguém sabe para onde vai. A última mobilização de massas foi em 2013 e não resolveu nada. Todos permaneceram e permanecem desiguais perante a lei. Mas para que todos sejam iguais, seria necessário que os representantes eleitos fossem iguais ao "povão". Não teriam vantagens abusivas. Não teriam aposentadoria em condições especiais, não se valeriam de foros privilegiados para se safar de suas safadezas. Não desviariam dois bilhões dos recursos da Saúde para financiar suas próprias campanhas políticas. E nem votariam os seus próprios salários porque os representados não votam os seus salários.

Pois bem. Não há outra saída digna para os pagadores de impostos mais trouxas do mundo que não seja esta: recusar-se a passar uma procuração para as figuras bisonhas, caricaturais e nada confiáveis que estão aí no tabuleiro do jogo do poder, dado que essa representação se transformou numa farsa empesteada pela ganância e pelo corporativismo e percebendo cada vez mais que a vida cotidiana só vai piorando à medida em que as eleições se sucedem.

O problema é que a opinião de quem resolve negar o status quo reinante, por mais bem fundamentadas que sejam as razões, é desprezada pelo sistema político decadente, mesmo sabendo que a maioria da população de insatisfeitos anula o voto ou paga a multa, sendo ambas as atitudes desconsideradas. Evidencia-se assim que a propalada "liberdade democrática” é só uma farsa e a vontade, o julgamento legítimo, sábio e democrático da maioria é sempre subjugada aos interesses de minorias arrogantes, soberbas e desonestas.





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