Historias da Policia Civil XIV

 João Paulo das Virgens conta a sua terceira história na Polícia Civil - Kojak
No início dos Anos 80 o saudoso Claudionor Silva, o Kojak, foi reformado como cabo do Exército e o mesmo desejoso de ingressar na Polícia Civil, mesmo estando reformado ele diariamente vestia a sua farda do Exército e amanhecia no gabinete do Governador Jorge Teixeira, querendo solicitar a nomeação.
Quando o governador adentrava na ante-sala do seu gabinete sempre cercado de secretários e assessores, ele Kojak rapidamente se postava de pé juntava os coturnos e fazendo continência e gritava: ‘Pronto Coronel, cabo Claudionor se apresentando’, grito que muitas vezes até assustava o próprio coronel e as demais pessoas presentes.
O certo é que as visitas diárias que Kojak, fazia ao palácio do governo não surtiam efeito, pois sempre alegando falta de disponibilidade a secretaria do governador adiava a esperada audiência que Kojak queria ter com o governador, para então fazer o seu pedido.
Diante das dificuldades de ser atendido no gabinete governamental, Kojak então mudou de tática e passou a fazer plantão às 6 horas da manhã na frente da Casa do Governador no centro da cidade e ficava por ali conversando com Dodó motorista do coronel Teixeira, que quando aparecia KojaK devidamente fardado prestava continência e repetia o velho grito: ‘Pronto coronel, Cabo Claudionor se apresentando”, Jorge Teixeira, respondia a continência e deizia ao seu dispor e rapidamente adentrava no veiculo oficial e Kojak nunca conseguia falar direito com ele.
Esse cerco ao governador era diário e demorou meses, até que um dia ele Jorge Teixeira que já não aguentava mais, falou para o então secretário de Segurança Hélio Maximo, que arrumasse um emprego para ele Kojak na policia civil, pois ele o governador já não aguentava mais o cerco diário.
No dia seguinte chamado a SSP/RO, Kojac logo cedo apareceu fardado no gabinete do secretário e ao entrar juntou os pés e sapecou uma ‘Pronto comandante as duas ordens’, tendo então Hélio Maximo muito sisudo dito a ele: ‘Kojak você vai ser contratado, mas evidente não pode andar por ai com a farda do Exército exercendo uma atividade civil, portanto, você só deve vesti-la quando for participar lá no quartel de algum evento militar.
Mesmo sem receber a arma ou documento funcional, Kojak foi colocado para estagiar comigo e demais policiais da equipe, tendo alguns dias depois a equipe sido designada para ir numa diligencia atrás dos fugitivos da Ilha de Santo Antonio e lá em Jaci-Paraná ficamos a noite inteira escondido debaixo de uma ponte e pedindo que todos ficassem de forma mais discreta possível, pois sequer era permitido acender cigarros, para assim surpreender os fugitivos, Mas não tinha quem fizesse Kojak ficar quieto, pois não parou a noite inteira contanto historias que dizia ter vivido no Exército.
Perto do amanhecer resolvemos subir para a estrada e pouco tempo depois, eis, que alguns dos fugitivos apareceram num carro e então ocorreu intenso tiroteio, porém eles conseguiram furar o cerco e passaram por nós, ocasião em que eu e os colegas entramos na viatura e eu falei para o motorista Raimundinho motora, vamos rapidamente atrás dos bandidos, tendo o mesmo se recusado a dar partida no carro, pois Kojak na hora dos tiros, tinha se enfiado debaixo do veiculo e ainda se encontrava lá, quando então eu disse ao mesmo, que acionasse o motor que ele com certeza sairia, tendo Raimundinho ligado o motor, mas mesmo assim não havia jeito de fazer ele Kojak sair, o que obrigou a todos a descerem para com muito custo retirar Kojak de debaixo do veiculo, tendo demorado muito para convencê-lo, tendo os colegas dito ao mesmo que já poderia sair, pois não existia mais nenhum risco.
O certo é que com o tempo perdido convencendo Kojak a sair debaixo da viatura , ao seguir atrás dos bandidos, já não foi possível alcançá-los e prende-los o que já veio há acontecer três dias depois já perto de Abunã.
João Batista Damasceno conta a sua história na Polícia Civil

Depois de Receber baixa do Exército brasileiro no mês em janeiro de 1981, ingressei no mês de Maio do mesmo ano, com apenas 19 anos de idade, na Polícia Civil e imediatamente sem nenhum treinamento, como era comum naquela época, recebi um revolver 38 e fui designado para trabalhar na cidade de Ji-paraná, pois o prédio da delegacia de cidade de Presidente Médici, para onde eu deveria ser lotado, não estava concluído.
Apresentei-me exatamente no mês de Junho, ao Delegado Regional Edson Martins inicialmente comecei a trabalhar no plantão, porém certo dia fui convocado pelo delegado, para ir junto com o pessoal da Sevic numa diligencia para capturar o individuo Delvino Del Pla, capixaba, que no mês anterior havia assassinado o policial Jaime – que nem cheguei a conhecer - cuja esposa se encontrava gestante, o que causou grande comoção na cidade e toda Região.
O fato é que naquela época, existiam grande conflitos de terra e Jaime e um outro chamado de Borborema, foram a zona rural distante de Ji-Paraná e lá o policial Jaime, foi abatido a tiros de espingarda, pelo citado individuo, quando então o policial Borborema, sem saber ao certo se existiam outros atiradores se evadiu e de volta a delegacia narrou os fatos aos delegado.
Como se sabe, naquela época existiam muitas pessoas de outros Estados e muitos pistoleiros, que eram contratados para ameaçar e matar os proprietários rurais, para que abandonasses as suas terras, o que ensejou por parte da SSP/RO inclusive a Operação Caça-Pistoleiro, com a prisão e morte de vários deles.
Foram escalados para a missão de captura do assassino do policial Jaime, Getulio Mario Gomes de Azevedo, hoje inspetor da PRF, Jani Ferreira, lotado na Delegacia de Ouro Preto D” Oeste e um outro colega de Ji-Paraná, cujo nome não recordo mais. O fato é que eu ainda noviço, enfrentei naquela oportunidade a minha primeira prova de fogo na atividade policial, junto com policiais veteranos.
Para a diligencia conseguimos um veiculo Jipe emprestado do Incra, em razão dos grandes atoleiros nas estradas vicinais, para essa área bem distante, tanto que tivermos que pernoitar num sitio, para tentar a prisão no amanhecer do dia seguinte, como de fato ocorreu.
Esse assassino foi a júri popular, porém foi absolvido, pois se alegou que o mesmo foi induzido a erro ao ver dois homens armados e num veiculo descaracterizado, imaginou que se tratava de bandidos, querendo matar a si e família, para assim se apoderar de suas terras e sem manter qualquer dialogo foi logo atirando, pois naquela época se vivia em toda região um clima de verdadeiro terror.
A passagem naquela cidade de Ji-Paraná, mais precisamente na Delegacia de Polícia daquela cidade, com policiais bem tarimbados, como Simões, Nivaldo Xavier e o seu irmão, dentre outros, foram motivo de orgulho para mim e contribuiu muito para a minha formação policial, onde permaneci ate 1985, quando fui transferido para o 5º DP na capital.
Conto tal história, para que fique registrada as muitas dificuldades que atravessamos naquela época nesse difícil, porém empolgante trabalho policial. Oportunamente relatarei outras historias, para que fiquem registradas no nosso site e consequentemente nos anais da nossa Polícia Civil.

Francisco Alves Cipriano - Nossos nomes estão gravados no livro do Eterno Ser.

Mais uma das minhas histórias referentes às dificuldades enfrentadas pela nossa polícia civil principalmente por mim.
Nós policiais do ex-território que não havia feito academia, nos anos 1984 ou 1985, tinha que fazer uma reciclagem na academia de polícia, então éramos trinta agentes das delegacias da capital e de cidades do interior do estado.
Naquela época devido aos salários muito baixos, dos trintas policias, a maioria não possuía veículos para sua locomoção e ia de ônibus até o 5º DP e daí até a academia ia mesmo a pé já que não existia transporte publico até ali. Ao retornar ficava mais fácil, pois os poucos automóveis ficavam cheio de caronistas, mas como tinha muitos atoleiros pela Avenida. Amazonas, nós adentrávamos por dentro do bairro Jardim Ipanema e vínhamos sair no 5º DP.
Na academia as palestras eram dadas por autoridades ligadas a segurança pública, eu não lembro o nome de todas as autoridades, recordo apenas dos nomes: Dr. Telmo Forte e Dr. Esmone.
Dr. Telmo Forte deu uma palestra e alguns policias ficaram insatisfeito, porque se sentiram ofendido pelo palestrante e foram até o diretor da academia levando suas queixas, não sei qual o assunto e até gostaria de lembrar para poder explicar melhor, tanto que quando o Dr. Telmo Forte retornou para dar mais palestra, o diretor da academia levou o assunto até aquela autoridade e ele se sentiu constrangido, porque como ele disse que em momento algum teve a intenção de ofender alguém, pois ele tinha muito respeito pela classe, assim mesmo ele deu a palestra mais “desafinada” que já ouvi.
Já a palestra do Dr. Esmone, eu me recordo muito bem, de quando ele disse que os policiais do ex-território de cada dez prisão efetuadas, nove era de forma ilegal. Fiquei preocupado, com medo de uma punição ou mesmo de uma demissão, porque nós estávamos ali não era tanto pelos salários, pois era muito baixo, mas sim, com a coragem de reprimir o crime antes fosse tarde demais e assim a gente ficava meio perdido, porque coragem e medo não podem andarem de braços dados, pois não combinam.
Finalmente vou deixar o esse assunto de lado e vou me remeter aos salários daquela época. Eu tinha um táxi e no ano de 1982, eu trafegava pela Av. Amazonas no Bairro Nova Porto Velho, eu vi um colega taxista conversando com alguns garimpeiros e encostei o carro e fui lá conversar também com os mesmo, porque eram garimpeiros conhecidos e nós havíamos trabalhados junto no Garimpo do Imbaúba e Jirau no Rio Madeira no ano de 1980, quando tudo era também muito difícil, só tinha apenas a Estrada do Caldeirão, no qual tinha que subir de voadeira até Cachoeira do Jirau e tínhamos que juntar vários homens para pegar aquele pesado motor e subir o barranco do Rio Madeira, atravessar a Cachoeira do Jirau para poder chegar ao Garimpo do Imbaúba.
No meio da conversa com os taxistas foi quando um colega taxista disse que eu CIPRIANO estava na polícia, daí a conversa mudou e eles queriam saber como funcionava o trabalho, achando que não combinava com o meu perfil, pois eu era muito calmo e na polícia era muito agitada e perguntaram quanto eu ganhava... fiquei com vergonha de dizer, porém resolvi falar a verdade e disse que meu salário era vinte três mil oitocentos e quarenta cruzeiros. Foi aquela gozação e pior foi quando eu disse que na minha casa tinha um pedreiro trabalhando e eu pagava cinco mil cruzeiros a diária, aí foi gargalhadas e mais gargalhadas, porque fazendo as contas o meu salário de um mês, não dava para pagar uma semana de serviço de um pedreiro.
O fato é que as dificuldades não ficavam por aí e aconteceu uma separação. Fiquei apenas com o taxi e eu estava devendo o mesmo, pois eu havia comprado o carro financiado e juntando salário e a renda do táxi só dava para pagar a prestação, fiquei morando de favor e o dinheiro não dava para comprar mais nada e assim fiquei uns três ou quatro meses tomando água natural, porque eu não tinha condições de comprar uma geladeira.
Certo dia, eu criei coragem e fui ao comercio tentar comprar uma geladeira, mas o vendedor quando olhava a minha carteira de trabalho e via o meu salário já não queria mais nem conversa e virava as costas E assim ainda fui em três lojas, porém o atendimento era sempre o mesmo. Em determinado, momento eu lembrei que eu conhecia um vendedor que trabalhava na loja A Pernambucana e que ele poderia me ajudar. Dirigi-me para lá e fui direto falar com ele, contei o meu problema e o mesmo pediu a minha carteira de trabalho e quando olhou, já me antecipou que achava muito difícil o gerente autorizar a venda, mas ele ia ver se poderia me ajudar e então foi até o seu gerente e contou o meu problema e ele o gerente mandou que eu entrasse na sala e estando ele com minha carteira de trabalho na mão, me olhou e disse que com aquele salário não dava de comprar a geladeira mais simples que tinha disponível no estoque da loja.
Depois dessa fala do gerente desanimado já pensava em bater em retirada e ele com certeza compadecido da situação, autorizou a venda em dez prestações, então eu falei que tinha outra fonte de renda, já que possuía um taxi e ele respondeu que não queria saber de outra renda, queria saber do que tinha na carteira.
Para mim foi uma travessia muito difícil, imagine quem me deu uma mãozinha inacreditável, mais é verdade foi a Dona CERON a empresa elétrica, pois ela passou nove meses sem me cobrar a conta de luz da minha casa e quando me cobrou foi tudo de uma vez, porém eu já estava em melhores condições financeiras, já havia comprado muitas coisas que precisava e graça à Deus e Dona Ceron.
Os policiais mais antigos ganhavam lá estas coisas, porque alguns colegas com mais de quatro anos de serviço, ganhavam mais do que eu. Nós recebíamos nossos vencimentos no banco Itaú, na agência da Av. Sete de Setembro, c/ a praça marechal Rondon. Naquele tempo, bem poucos policiais tinham conta bancária e recebia mediante o contracheque, a gente ficava na fila das cinco horas da manhã muitas vezes até as dez para receber muitas vezes sem tomar sequer café, não era porque não queria, era exatamente porque não tinha, muitas vezes o pó e o pão.
Um colega que não vou identificar, dizia que quando estava na fila para receber e estava chegando ao caixa, olhava para trás e se tinha alguém conhecido, ele mandava passar na frente, para que a pessoa não visse o salário dele e quando o caixa colocava seu salário no balcão, ele de imediato colocava a mão em cima e saia de porta afora quase correndo e quando chegava no centro da praça Marechal Rondon, ele olhava para os lados para ver se não tinha alguém por perto e aí ele contava aqueles chamados couros de ratos, separava a parte de pagar a taberna, onde ele comprava fiado o mês inteiro e em seguida dava uma passada no mercado central logo ali perto e comprava um peixe, algumas latas de conservas e uns dois quilos de farinha e em seguida ia para casa e chegando lá a esposa preparava aquele pirão, ele almoçava junto com a família e retornava para dar continuidade no plantão.
Foram momentos bem difíceis, mas nos enfrentamos de cabeça erguida, porque éramos vocacionados e tínhamos a certeza que estávamos fazendo o bem a nossa sociedade. Como diz um dos versos da nossa Polícia Civil de Rondônia ‘Nossos nomes estão gravados no livro do eterno Ser”.

 





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