Histórias da Polícia Civil IX



 Pedro Marinho - O dia em que cortei o ponto de um colega delegado de polícia
Em meados de 1987, eu me encontrava mais uma vez como Diretor de Policia Metropolitana e em razão da desordem reinante na DAT – Delegacia Especializada em Acidentes de Trânsito, fui chamado ao gabinete do então secretário Eurípedes Miranda, que disse da sua preocupação e que gostaria que eu assumisse e ajeitasse aquela especializada e caso eu a rejeitasse, ele iria conversar com o governador, para extinguir aquele órgão, motivos constantes de preocupações, para a sua gestão e que a partir daí cada delegacia apurasse os delitos de transito em suas respectivas áreas.
Ao ouvir esse seu pedido, fiz ver ao mesmo que na condição de diretor de polícia da capital seria muito desconfortável para mim, deixar a diretoria que assumi pela quarta vez, sem pedir a ninguém e ir trabalhar na DAT e, portanto se fosse convite eu não aceitaria, salvo se fosse dada como missão, tendo o secretário, na mesma hora aproveitado a deixa e dito que se tratava de uma missão que me estava sendo confiada, quando então disse ao mesmo que podia contar, pois iria assumir a DAT e iria tentar resolver todos os problemas, o que de fato aconteceu.
Chegando ali no primeiro dia já convoquei uma reunião com todo quadro funcional, falei da desordem do desaprecimento de peças e automotivas, liberação ilegais de veículos apreendidos e falei que aqueles que já me conheciam, sabiam que não tinha ido ali para brincadeira e se fosse preciso até mesmo colocar desonestos na Corregedoria, eu não hesitaria um minuto em fazê-lo. Ao terminar a minha apresentação cinco policiais imediatamente solicitaram deixar aquela repartição, sendo de pronto atendidos.
O fato é que corrigi as falhas da Delegacia, algumas muito graves, na oportunidade em razão do elevado número di inquéritos parados, solicitei cinco delegados, dez escrivães, alguns agentes e duas viaturas novas e passamos a trabalhar normalmente, passando o secretário Miranda a nos citar como bom exemplo nas suas andanças pelo interior do Estado.
Tudo corria bem, quando certo um dia um dos delegados me procurou dizendo que sua esposa se encontrava enferma na cidade de Guajará-Mirim e nos solicitou sua liberação a partir da quarta-feira, ficando ele de retornar apenas na segunda, sendo de pronto atendido.
Dois dias, eis que depois o Delegado Regional de Guajará, Adão Caetano, me telefonou para indagar se aquele delegado Fulano - Faço questão de omitir o seu nome - se encontrava em gozo de férias ? e diante da minha negativa, o mesmo me informou que eu tratasse de tirar aquele colega dali, pois ele estava bebendo tanto, que iria acabar o estoque de cerveja da cidade, sem falar na censura da população.
Diante dessa informação, nem preciso dizer da minha revolta e indignação, tendo de pronto solicitado a escrivã e também secretaria geral da Delegacia Marinete, que trouxesse ao meu gabinete as folhas de ponto e um lápis vermelho, tendo colocado falta no abusado servidor da quarta em diante e deixando os demais dias em aberto até o seu retorno, que só ocorreu na terça-feira seguinte, tendo eu antes de sua chegada colocado falta também na segunda-feira.
Na terça-feira, eis que o dito cujo de cara feia apareceu na minha sala e indagou como eu havia colocado quatro faltas na sua folha de ponto se tinha autorizado a sua ida a cidade de Guajará, tendo eu dito ao mesmo, que de fato induzido a erro tinha lhe concedido tal autorização, mas sabedor das suas farras nas mesas de bar daquela cidade, entendia que deveria puni-lo e o fiz.
Momentos depois o mesmo retornou a minha sala e informou que iria até o DGPC comunicar o ocorrido ao Diretor Geral e solicitar providencias contra a minha pessoa e em seguida se retirou. Momentos depois eis que o telefone toca e o diretor me pede para eu me dirigir ao seu gabinete o que fiz de pronto e em lá chegando, encontro o referido delegado com cara de choro e o diretor geral com a folha de ponto dele na mão e virando-se para mim foi logo dizendo: ‘Que é isso Dr. Pedro Marinho, não fica bem cortar o ponto de um delegado seu colega, quebra a hierarquia, reconsidere e abone as faltas do mesmo e assim daremos esse caso por encerrado.
Surpreso com a recomendação do diretor Geral fiz ver ao mesmo, que já tinha cortado pontos de outros delegados anteriormente e aquele delegado ali presente, tinha errado feio e se não fosse para colocar faltas em delegados, não seria legitimo colocar falta em nenhum servidor da SSP e que ele diretor com a sua autoridade, se assim entendesse o fizesse, ou seja, rasgasse aquele folha de ponto e assinasse outra para o servidor e me retirei da sala.
Cerca de duas horas depois, o tal delegado já chegou com a sua transferência para a então cidade de Vila Nova, onde iria atuar como único delegado, atendendo as ocorrências da cidade e aquelas oriundas dos garimpos.
Poucos meses depois eis que o secretário recebeu relatório da Polícia Militar, registrando que o trabalho em Vila Nova estava totalmente prejudicado, pois todas as vezes que as guarnições levavam alguma ocorrência, o delegado inexplicavelmente se encontrava flanando em Guajará-Mirim, gerando desgaste e tempo nos deslocamentos das viaturas até aquela cidade para adoção dos procedimentos policiais.
O fato é que o diretor geral, depois desse acontecimento ao me receber em seu gabinete, fez questão de pedir desculpas e me dizer que eu estava certo, pois aquela figura realmente não gostava de trabalhar e que tinha sido bem feito o mesmo ter tomado aquele prejuízo no passado, pois boa parte do seu salário havia sido descontada, em razão das quatro faltas que coloquei e a consequente perda das folgas do sábado e domingo, perfazendo, portanto seis dias descontados naquele mês.
Tempos depois esse mesmo delegado voltou a trabalhar sob o meu comando, mas diferente de outrora, passou a agir com bastante cuidado nos seus afazeres e obrigações e me perguntando sobre tudo que tinha que fazer no dia a dia. Penso que foi traumático mas aprendeu.


Pedro Marinho fala da demissão de um delegado da Polícia Civil de Rondônia

No final dos anos 80 me encontrava como diretor da Polícia Metropolitana e professor da Academia, quando conheci um casal, sendo ele Jair - esquecendo agora o seu nome de família – que era aluno-delegado e a sua esposa, estudante-agente, cujo nome me foge inteiramente a memória, ambos oriundos do Estado de São Paulo.
Era um casal jovem, bem aparentado e ambos meus alunos, ele no curso de delegado de Polícia e ela no curso de agente policial e se destacavam por terem um conversa bem agradável.
Terminado o curso na Academia de Polícia, ele em razão das boas notas obtidas na conclusão do curso, teve a opção de ficar na capital do Estado e ela por ser esposa, também foi lotada numa das delegacias da capital, salvo engano na Delegacia da Mulher. Ele Jair foi designado para trabalhar no plantão de polícia e, portanto sob a minha chefia direta.
No trabalho o mesmo sempre se mostrou desembaraçado e muito preparado nas lavraturas dos flagrantes e outros procedimentos sob suas responsabilidades e todas as vezes que se encontrava de plantão, mesmo existindo um coordenador que era o delegado Mauro Gomes, o mesmo fazia questão de ir até a minha sala fazer um breve relato de tudo que ocorrera, seja na jornada diurna ou noturna.
Certa feita, o mesmo me procurou dizendo que havia conversado com o delegado Mauro, sobre a possibilidade de permutar um dos seus plantões, pois necessitava ir até a cidade de Guajará-Mirim, onde residia uma sua tia, que ali se encontrava enferma e que ele voltaria no final de três ou quatro dias. Em razão desse pedido, Mauro o aconselhou que ele me procurasse e solicitasse tal licença, o que ele fez, sendo de pronto atendido por mim, penalizado com a situação da tia do colega delegado.
Dois ou três dias depois, fui informado que o delegado Jair, havia sido abordado por João Lins Dutra, o João Pomba e equipe no Porto de Guajará Mirim, tentando passar para a Bolívia com um carro marca Brasília e interpelado se disse delegado, mas se negou a se identificar, dizendo que só o faria ao delegado daquela cidade, inclusive tratando mal os policiais, tendo João diante da sua recusa, resolvido levá-lo a delegacia de polícia, tendo ele ali, mostrado seus documento pessoais e do veiculo e como até aquele momento não havia nada de roubo, o delegado o liberou mas avisou que ele na passasse o caro para a Bolívia até o esclarecimento dos fatos, tendo o mesmo aproveitado e feito a travessia do carro.
Poucos dias depois, chegou a informação de que tal veiculo que se encontrava em poder do delegado, havia sido roubado na cidade de Ouro Preto e ali na Bolívia havia sido trocado por drogas e que ele o delegado Jair que levou tal veiculo, não tinha parente nenhum em Guajará-Mirim e que seria testa de ferro de uma quadrilha de ladrões de automóveis, ou seja, com o documento funcional de delegado de polícia ele conseguiria mais facilmente abrir portas.
Diante de tal informação, fiquei possesso, pois tal delegado havia quebrado a minha confiança e me deixado em situação bem delicada, pois tinha sido eu o responsável, pela sua liberação e viagem para Guajará.
Considerando que já existia um inquérito policial instaurado para apurar os fatos, preparei um documento para a Corregedoria para o devido processo administrativo e mandei buscar em casa o delegado, tendo recebido o mesmo com cara de poucos amigos e depois de lhe dizer umas boas, solicitei naquele momento sua carteira funcional e a sua arma, que ele entregou sem maiores contestações.
Chamado para ser ouvido tanto no inquérito penal como no administrativo, na presença do mesmo e do seu advogado fui incisivo contra o mesmo e relatei as suas mentiras e desfaçatez, sendo que na Corregedoria, numa sala bem apertada e, portanto, todos bem próximos, o advogado tentou dar uma de tranquilo e soberbo e se virando para mim, foi dizendo: ‘Doutor, se este meu cliente for demitido, eu prometo ao senhor jogar fora meu anel e rasgar meu diploma’, ao que de pronto respondi: ‘Se a demissão dele depender de mim, eu aconselharia ao senhor ao sair daqui, já jogar seu anel e diploma no Rio Madeira.
O fato é que tempos depois esse delegado foi demitido a bem do serviço público e a esposa do mesmo para acompanhá-lo de volta a São Paulo, solicitou a sua demissão e se foi junto com ele.
Tempos depois, junto com os colegas delegados Deraldo Scatalon e Silvio Machado, fomos fazer um curso de 40 dias na Academia de Polícia de São Paulo de ‘Gerenciamento Policial’ para delegados de classe especial, vindos de toda parte do Brasil. Ali em visita ao Palácio da Polícia, tomamos conhecimento que ele o ex-delegado Jair, havia sido preso naquele Estado de São Paulo, acusado de roubo de veículos e que se encontrava cumprindo pena no presídio policial, localizado naquele prédio da polícia.
Recordo que do nada, o corregedor geral da Polícia de São Paulo um delegado muito famoso e que serviu como corregedor a vários governadores daquele Estado, se virou para nós e talvez para nos testar, disse: ‘Tem aqui um colega de vocês preso por roubo de carros, gostariam de visitá-lo?” Tendo Silvio rapidamente se levantado do sofá, dizendo que sim e que gostaria de reencontrá-lo, quando educadamente fiz Silvio voltar a se sentar no sofá e virando para o corregedor lhe disse: ‘Dr. desculpe, mas devo lhe dizer que não temos colega ladrão, tanto que o expulsamos da Policia de Rondônia. Tendo o corregedor se desculpado e dito que havia se expressado mal. Logo depois encerramos tal visita.
Triste fim para um jovem delegado e para sua esposa agente policial, que aprovados num difícil concurso público poderiam ter tido um futuro profissional digno na Polícia Civil de Rondônia.

 





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