Pedro Marinho – O dia da prisão Nereu Machado de Lima e a sua reação



 Pedro Marinho – O dia da prisão Nereu Machado de Lima e a sua reação

No ano de 1983 eu me em encontrava como delegado regional de Guajará Mirim, responsável por aquela cidade e pelos distritos de Abunã, Iata, Vila Nova, Surpresa e também por boa parte dos tumultuados e perigosos garimpos daquela região.
Ao ser designado para Guajará-Mirim, me encontrava como titular da Delegacia Especializada em Crimes contra o Patrimônio e só aceitei o novo encargo, pois o diretor Geral informou que se tratava de uma missão bem complicada e precisaria de mim, pois aquela Regional se encontrava há muito tempo sem um delegado graduado em Direito e vinha sendo gerida por um agente administrativo Américo Abiorana, que tempos depois foi transposto para o cargo de agente de polícia.

Ali com poucos agentes, uma agente administrativa, Judite Moura, nomeada permanentemente escrivã ad hoc e duas precárias viaturas, além de todos os problemas já citados, tínhamos que fazer também o combate ao tráfico de drogas, pois o a Delegacia da Polícia Federal ali da cidade, contava com menos de uma dúzia de homens e um delegado.

Ao chegar à cidade, logo verifiquei atuando ali na fronteira, o então considerado maior traficante da Região Amazônica, Nereu Machado Lima, individuo de muitas posses e inexplicavelmente dono da concessão pública federal de transporte de passageiros em barcos entre os dois países Brasil e Bolívia, estando sempre Nereu cercado de indivíduos bem estranhos, vindo de outros Estados da Federação e alguns até da Bolívia.

Certo dia de sábado, eu me encontrava na varanda da minha residência em companhia da minha esposa grávida, quando inexplicavelmente apareceu ali um advogado de nome Fernando, que era meu colega de Lions e pediu para falar em particular comigo, quando disse ao mesmo que eu não tinha particular com relação a minha esposa e ele poderia falar o que desejasse. Naquele momento o advogado Fernando, muito sem jeito, começou a dizer que estava para chegar do Paraná um mandado de prisão preventiva contra Nereu por um homicídio naquele Estado e que ele Nereu era uma pessoa bem generosa e gostaria de saber, se poderia contar comigo para avisar do mandado e dar alguns minutos para ele se evadir para a vizinha Bolívia.
Naquele momento chocado com o atrevimento, fiquei de pé e ordenei que o advogado fizesse o mesmo e se retirasse da minha casa e o avisei que em razão da ousadia, ao chegar o citado mandado eu iria pessoalmente efetuar a prisão. Saindo ele o advogado dali bem apavorado e as pressas.

Algum tempo depois, eis que chegou o malote da capital e ao abri-lo vislumbrei o conhecido envelope amarelo da Polinter, com um carimbo redondo, que era colocado na aba de fechamento do envelpe, para assim evitar que fosse violado por terceiros. Fui abrindo lentamente e já imaginando que se tratava do mandado em desfavor de Nereu e de fato era, quando então chamei ao gabinete o João Lins Dutra, mais conhecido por João Pomba e pedindo descrição ao mesmo informei do que se tratava e disse ao mesmo que bem armados, iríamos em dois carros, prender Nereu no seu escritório no porto, mas por via das dúvidas, informaríamos aos seis policiais da equipe apenas durante o trajeto.

Logo surgiu um impasse, pois naquele dia só existia o fusca e seria impossível irmos em seis pessoas ao local pretendido e ainda trazer prisioneiro ou mesmo prisioneiros, quando então apelamos para o Incra e para a Prefeitura, que naquele dia não puderam nos atender, quando então resolvi colocar o meu próprio carro na missão, ou seja, João iria com mais três policiais no fusca e eu no meu carro dirigido pelo então condutor de viaturas Isac, cujo servidor posteriormente foi transposto para agente de polícia.
Ao chegarmos juntos no porto, logo avistei Nereu numa mesa de um bar/restaurante com três sujeitos mal encarados, quando então avisei a Isac da presença do mesmo, quando então Isac sem pestanejar parou o meu carro junto à mesa na calçada e eu fiquei a pouco mais de um metro de Nereu e dos demais acompanhantes, enquanto o fusca estacionava mais adiante cerca de 50 metros.

Percebendo que a chegada dos policiais poderia demorar alguns segundos e até minutos e não tendo como ficar ali olhando para as pessoas sem me pronunciar, desci do carro com o mandado na mão e falei: ‘Nereu de pé e com as mão sobre a mesa, o seu mandado de prisão chegou e mostrei o documento, quando repentinamente o mesmo se levantou chutou para trás a cadeira onde se encontrava sentado e super rápido sacou dois revolveres Magnus, que brilharam ao sol e encostou ambos os canos no meu rosto, me impossibilitando de reagir, pois a minha arma ainda se encontrava na cintura e se tentasse o mesmo poderia disparar.

Naquele, momento ouvi o policial Eguiberto, mais conhecido como ‘Careca’ que desembarcara junto com João e mais dois colegas do fusca, acionar a mecânica da metralhadora e gritar: ‘Nereu se atirar é um homem morto.” Quando então Nereu sentindo o cerco e a barra pesando, depositou as duas armas sobre a mesa e se virando para um dos policiais disse, abra as duas mãos que eu estando desarmado vou entregar também a munição que se encontra nos dois bolsos e depositou nas mãos - imagino que de Lucena ou do próprio Equiberto - uma caixa inteira de munição.
Logo depois identificamos os três elementos e achamos mais um revolver com um deles, quando determinei que todos fossem algemados, inclusive o Nereu, que estranhou muito, pois por onde andou e foi preso nunca tinha sido tratado dessa forma que ele utilizando a gíria policial denominou de ‘esculacho”, mesmo sob protestos, ele Nereu e os demais foram levados para a delegacia em várias viagens nos dois pequenos veículos utilizados por nós.

Na delegacia horas depois, chegou vindo num jatinho da capital Manaus, o famoso advogado criminalística Tude, que bem petulante e com o nariz empinado, passou a fazer as mais diversas exigências, inclusive que Nereu ficasse sob escolta policial num hospital da cidade, considerando que o mesmo estava acometido de câncer, quando então indeferi o seu requerimento que buscou junto ao magistrado o Dr. Sebastião Teixeira Chaves, que também negou o pedido e considerando a periculosidade do preso e a possibilidade até mesmo de um resgate para levá-lo para a Bolívia, determinou a sua imediata transferência para um dos presídios da capital, o que foi feito por policiais civis e militares.

Quando nós policiais pensávamos que tinha valido a pena realizar a perigosa prisão, que teve inclusive risco de morte, eis que chega a notícia que estranhamente Nereu Machado de Lima, tinha se evadido do presídio e sua fuga só foi comunicada quando o dito cujo já estava homiziado na Bolívia, quando então interpretei que a generosidade falada pelo advogado Fernando, quando me abordou na minha casa, deveria ter funcionado com algumas autoridades na capital Porto Velho.

Nereu Machado de Lima, anos depois, bastante enfermo pediu para regressar ao Brasil, mais precisamente para a cidade de Guajará-Mirim, pois pretendia celebrar o casamento com a mulher com quem vivia maritalmente o que foi permitido. Tendo o mesmo desembarcado prostrado numa maca no aeroporto de Guajárá-Mirim e realmente realizado o casamento, vindo a falecer dia depois vitimado pelo câncer na sua coluna.

 

 Jair Queiroz conta a sua história na polícia


Certa vez fui acionado pelo então Secretário de Segurança, o saudoso Delegado Cézar Pizzano, para acompanhá-lo a Ji Paraná para mediar um conflito com Sem Terras que haviam invadido a Agência do Banco do Brasil.

A mediação foi tranquila e os invasores deixaram a agência, embora a negociação tenha demandado mais tempo que o esperado.

Retornamos para Ji Paraná, onde embarcaríamos de volta chegando lá próximo às 18h, mas devido ao horário a pista local já estava fechada pois o pequeno aeroporto não autorizava voos noturnos. Pernoitarmos então em Ji Paraná para sairmos no dia seguinte as 9h, pois o Secretário tinha compromissos inadiáveis.

Ocorre que as 7h da manhã agentes locais chegaram ao hotel avisando que os mesmos invasores haviam agora tomado e fechado a ponte sobre Rio Machado, o que demandou nova tentativa de "gerenciamento de crise".

Os invasores estavam exaltados pois teriam sido informados que o Governador não iria se encontrar com eles, pois estava em Brasília. Houve tensão e ameaças. Alguns empunhavam foices e facões de forma ostensiva e ameaçadora. Estávamos literalmente cercados por Sem Terras, gritando palavras de ordem.

Eu e outros dois colegas locais tiramos facões de alguns, mas eram muitos e a ordem era apaziguar os ânimos. A contenda se estendeu até por volta das 15h, num calor causticante, muitos gritos, empurra-empurra - sem contar o cheiro de sovaco que invadia o espaço. Finalmente o Secretário/Delegado os convenceu e pudemos retornar a Porto Velho no final daquela tarde.

 

 

O caso Maravilha - Jair Queiroz (1ª Parte)


(Neste relato omiti o local e nomes por envolver pessoas do nosso círculo, alguns que ainda estão em ação, exceto os que foram condenados).

No ano de 1984, enquanto atuava na ACADEPOL, fui convocado às pressas para comparecer ao Gabinete do Secretário Humberto Morais de Vasconcelos e chegando lá estavam, além do secretário, o Diretor Geral e o Diretor da Acadepol, Dr. Antônio Amaro da Silva.

Era por volta das 16h e recebi a seguinte ordem: - “Vá para casa agora e prepare-se para viajar hoje à noite para uma cidade do interior. Leve roupa para três dias e as demais orientações você receberá no momento certo.

À noite, eu e Diretor Antônio Amaro embarcamos num ônibus, e seguimos rumo a tal cidade, onde fomos recebidos por Policiais Militares que nos conduziram até a base da PM, onde ali ficaríamos hospedados.

Depois de algum tempo reunido com o comandante da unidade militar o diretor Amaro me chamou e só então soube que se tratava de uma investigação sobre a suspeita de envolvimento de policiais em um homicídio. Entendiam os militares que os civis estavam distorcendo os fatos e acusando pessoas da comunidade, pressionando-as a assumirem o crime, causando contrariedade na comunidade local e provocando um clima tenso entre as duas instituições.

Foi-nos relatado que uma senhora, moradora de um sítio, frequentadora assídua da Igreja Católica local, contou ao Padre um fato que ensejava que os policias poderiam estarem envolvidos num determinado crime, pois ela teria escutado tiros por volta das cinco da manhã, quando ordenhava suas vacas e ao subir na cerca do curral para ver se haviam caçadores nas proximidades, viu a viatura da PC se afastando rapidamente, Sendo que três dias depois foi encontrado o corpo de um homem com perfurações à bala.

Nenhuma pista foi encontrada no local e já haviam decorrido 27 dias do fato. O corpo havia sido enterrado no cemitério local, sem caixão, apenas enrolado num lençol e o laudo médico apontava também para esfacelamento do crânio da vítima, o que causava ainda mais indignação da sociedade local. A vítima se tratava-se de um homem jovem, sem familiares, alcunhado de Maravilha.

Diante daquelas evidencias o padre da Paroquia passou a acusar a PC em suas pregações e a população exigia providências. A PM pôs uma equipe em ação, mas, segundo seus relatórios, não se constatava nenhum esforço por parte da PC em elucidar o caso, aumentando assim as suspeitas.

Na manhã do dia seguinte da nossa chegada, iniciamos nosso trabalho usando a “estória cobertura” de que estávamos na cidade para divulgar um concurso que ocorreria em breve na ACADEPOL, enquanto o objetivo real era a investigação. Secretamente ouvíamos as testemunhas, algumas na cidade, mas a maioria na zona rural. Enquanto o Delegado as inquiria eu apenas observava. Nisso fiquei livre para focar a atenção nos trejeitos e falas e assim percebi que sempre que o nome de determinado APC era mencionado o condutor de viaturas que nos acompanhava parecia ficar tenso e irrequieto.

No quinto dia, ao retornarmos à base, fiquei por alguns momentos conversando com ele quando de repente, demonstrando ansiedade, ele disse: - Éh... tá difícil encontrar alguma pista, né? Respondi: - Não, não! O Delegado já tem quase certeza de quem é e vai pedir a prisão dele e de outros que tem participação indireta no crime. Com espanto ele perguntou: - Participação indireta! Como assim? e eu respondi: - Ele acha que alguém sabe quem foi, mas está escondendo. Já tem ideia de quem é vai pedir a prisão dessa pessoa também.

Ele falou com voz bem embargada que se soubesse diria, pois não iria ser preso para encobrir mal feito dos outros. Ficou tenso, de cabeça baixa e nervoso. Nesse momento eu disse que iria rapidamente ao banheiro, mas na verdade fui ter com o delegado e contei o ocorrido, dizendo que não tinha dúvidas de que o rapaz sabia de tudo. Ele mandou que o chamasse. Ele chegou pálido, completamente apavorado.

Dr. Amaro perguntou: - (Fulano)...você sabe quem foi que praticou esse crime? – Não senhor...não sei! O Delegado deu murro na mesa e gritou: - “Você tá pensando que aqui tem otário, seu moleque! Fale logo antes que eu faça você falar na marra!” Não precisou mais nada! Ele contou os detalhes do crime praticado de forma fria e covarde por dois agentes embriagados, contra o “peão de trecho”, mais embriagado ainda.
Ele os teria ajudado liberando a chave da viatura, porém agiu sob ameaça e por medo não os delatava. Sua preocupação com o APC que era mencionado durante as inquirições, era porque tinha conhecimento da inocência dele e até o admirava, temendo, portanto, que fosse injustamente envolvido. Tomadas todas as providências, sem levantar nenhuma suspeita, aguardamos a chegada do Secretário Humberto M. Vasconcelos e outro delegado, do qual não me recordo, mas creio que era o Dr. Mendanha e foi dada voz de prisão aos suspeitos. Esses por sua vez incriminaram também a autoridade policial local, que os teria protegido para não ser delatado por eles que sabiam do seu envolvimento com criminosos de uma quadrilha que roubava carros. Ele foi preso na manhã seguinte ao chegar à Delegacia.


OBS: Oportunamente a segunda publicaremos a segunda parte desta história

 

 

Jair Queiroz - O caso Maravilha Parte II

Na apuração dos fatos - inclusive com direito a reconstituição da cena do crime, da qual o eu representei um dos executores e o colega João Rodrigues, o “Passarinho”, Técnico de Necropsia do IML, fez o papel da vítima - verificou-se discordância entre o relato dos autores e o laudo médico, por isso foi pedido a exumação do corpo. A equipe, chefiada pelo Dr. Parente, Diretor do IML e Técnicos de Necropsia, chegou ao município e na mesma tarde deu-se início aos trabalhos.Curiosos os habitantes acorreram para o local, se apinhando sobre o muro, subindo em árvores e carrocerias de caminhão.

Por volta das 17h e havia se formado um temporal, com relâmpagos e trovoadas e assim que o corpo foi retirado da simples vala aberta na terra, a chuva desabou, impedindo a continuidade da coleta de amostras, fotos e outros trabalhos que seriam feitos ali mesmo no local. A empreitada foi interrompida e uma lona plástica foi usada para cobrir o corpo pútrido e com membros separados do tronco.

O povo se retirou às pressas, os técnicos também se foram e logo restavam apenas alguns membros da equipe. Eu fiquei acompanhando o Secretário, juntamente com o Dr. Parente e o colega que iria conduzir a viatura. Estava bastante escuro, trovoava, relampejava e ventava. Já estávamos no interior da viatura quando o Secretário arguiu: - “Mas esse corpo não pode ficar aí sem ser guarnecido. Alguém pode ter interesse em destruir provas.” E dirigindo-se ao colega condutor ordenou: - Você terá que ficar aí até que providenciemos o apoio da PM. Ele ficou nervoso, parecendo apavorado e resistiu a ordem o que causou um breve momento de tensão com o Secretário, no que eu, para amenizar a situação, ofereci-me a ficar.

Retornei para o interior do cemitério por volta das 19h30min, caminhei pelo corredor central, mal visualizando o terreno, passei por onde estava o corpo e fui me abrigar num barraco rústico onde se guardavam materiais como pás, picaretas, rolo de cordas, carrinho de mão e outros. Tateando no escuro encontrei um local para sentar. Verifiquei minha munição, ou seja, os 5 cartuchos que tinha no Taurus 38, bastante usado. Não levou muito tempo para que adormecesse, pois o dia tinha sido intenso e eu estava acordado desde as 5 da manhã. Cerca de uma hora depois acordei com uma luz invadindo o local cuja porta era amarrada com arame e tinha frestas imensas entre as tábuas. Havia também sons de conversas e por um instante pensei que fossem os PMs que viriam me substituir, mas não eram.

Três homens estavam na frente do cemitério e eu só pude vê-los por terem passado diante dos faróis do caminhão que ocupavam. Fiquei tenso e saí do meu abrigo e me escondi atrás de um arvoredo e fiquei observando. Dois pularam o portão e vieram andando lentamente pelo corredor central, na direção em que eu estava. Eu não seria pego de surpresa, ao contrário, resolvi atacar. Fui ao encontro deles, me esgueirando por entre plantas, ou rastejando entre os túmulos. Havia, enfim, um túmulo erigido em cimento e me deitei atrás dele. Os dois estavam a poucos metros e portavam uma lanterna. Esperei passarem um pouco adiante de onde eu estava e ordenei que parassem. Disse: “É a polícia e vocês estão cercados (por um só rsrsrs)”. Só os via em razão da lanterna que carregavam, mas não discernia nada mais. Eles ficaram apavorados. Perguntei o que faziam ali e soube que eram servidores da Prefeitura, que inclusive estiveram acompanhando os trabalhos da tarde.

Enfim, eram apenas trabalhadores que haviam bebido algumas doses a mais e resolveram demonstrar coragem adentrando ao cemitério onde sabiam que um corpo estava exposto. Tomei a lanterna deles, que me foi muito útil e mandei que saíssem dali o mais rápido possível. Óbvio que eles não pensaram duas vezes. Estavam em pânico!
Aproveitando a lanterna fui checar como estava o corpo e vi que a lona havia sido arremessada longe pela ventania e partes do corpo haviam sido arrastadas um pouco pela enxurrada. Puxei-as para próximo ao tronco, usando um galho, recobri o corpo e voltei para meu abrigo.

Estava começando a cochilar quando a PM chegou. Saí e fui a encontro deles que surpresos apontaram suas armas na minha direção. Ergui os braços e calmamente expliquei quem era e porque estava ali e pedi carona para retornar à cidade, porém me negaram, ou seja, depois de tudo caminhei a pé por uns dois quilômetros. Chegando à Delegacia dormi no gabinete do Delegado, que se encontrava vazio por razões obvias e permaneci naquela sede por 22 dias, sendo que só tinha levado roupa para três, conforme fora instruído. Ou seja, a situação não estava nada boa, mas no final tudo deu certo.

 

 

Caso Maravilha – 3ª Parte - Jair Queiroz


Bem, amigos! Creio que todos leram aqui minhas aventuras relativas ao Caso Maravilha, partes I e II. Nessa nova narrativa encerro esse caso.

Quando achava que tudo estava concluído, os culpados presos, a jornada cumprida e que era chegada a hora de retornar para a Capital, eis que recebo mais uma missão: Localizar uma das principais testemunhas, um “mateiro” que havia sido detido e torturado na Delegacia para que confessasse o crime que na verdade havia sido praticado pelos seus próprios algozes.

O homem, de nome Ezaú, tinha sido detido aleatoriamente quando passeava pela sede do município num final de semana. Ele resistiu às sessões de espancamentos que lhe deixaram sequelas, mas estava revoltado – e não sem razão – e prometia para si mesmo e com apoio de seus colegas de trabalho, que se a Polícia voltasse a procurá-lo, seria recebida a bala.

Foi nesse clima de hostilidade que recebi a ordem para localizá-lo e trazê-lo para prestar depoimento. Para essa missão fui conduzido num Jeep da Prefeitura local, cujo motorista, Seu Antonio, estava muito ansioso e assustado, dizendo que seria loucura entrar na mata onde o tal homem estava trabalhando numa empreitada. Dizia: - Eles estão armados e muito revoltados com a Polícia. Você sozinho não vai ter chances. Isso é loucura!

Na saída da cidade ofereceu carona a uma senhora, moradora de um sítio que avizinhava a região onde eu teria que localizar o tal Ezaú. Sabendo da minha missão ela também desaconselhou: - É muito perigoso para o senhor, pois meu marido encontrou com alguns deles na vendinha e eles disseram que policiais serão recebidos à bala. Contudo eu estava certo de que não correria risco, embora estivesse um pouco preocupado também.

Depois de termos percorrido, salvo engano, 32 quilômetros de uma estrada muito estreita e de chão natural, chegamos ao ponto onde iniciaria a trilha que levaria até o acampamento dos peões, localizado a aproximadamente 4 quilômetros floresta adentro. Seu Antonio parou o Jeep e, muito nervoso, mais uma vez tentou me demover as ideia de seguir adianta na missão, mas eu havia recebido uma ordem e a cumpriria. Disse-me então o homem: - Deixo você aqui e vou seguir até a vendinha que fica há uns três quilômetros adiante. Volto daqui a umas duas horas para apanhá-lo, mas se não estiver aqui eu é que não fico prá saber o que aconteceu. Estava visivelmente nervoso e ansioso.

Desci e entrei na mata, portando um rifle e o velho Taurus 38, com os mesmos 5 cartuchos citados na narrativa anterior e fui seguindo a trilha. Depois de um bom tempo de caminhada comecei a ouvir barulho de motosserra e outros ruídos vindos do acampamento. Confesso que o coração acelerou e fiquei tenso, pensando em como deveria agir. Verifiquei minha munição, mas “de que me valeria?” – pensei!

Ocorreu-me que armado eu correria mais riscos, uma vez que eles também se sentiriam ameaçados e poderiam atirar primeiro. Eu não teria chance contra os vários homens que lá se encontravam. Tomei a decisão de esconder as armas em meio à floresta e segui em frente. Não tardei a vislumbrar a clareira onde ficava o acampamento. Já era possível ouvir vozes. Seu Antonio tinha me fornecido o nome do “gato”, ou seja, o encarregado dos trabalhadores. Parei numa baixada e gritei pelo nome do tal homem e também pelo nome de Ezaú. Pouco a pouco percebi que os ruídos cessavam e não demorou para que eu visualizasse dois homens armados descendo cautelosamente pela trilha. Eu, mostrando as mãos vazias, disse a eles: - “Estou sozinho e não tenho arma. Sou da capital e vim aqui para dar uma boa notícia ao Ezaú. Os policiais que o torturaram já estão presos”.

Citei os nomes do Delegado e dos dois agentes que haviam sido detidos e contei a história em detalhes. Outros peões apareceram, desconfiados, mas me chamaram para acompanha-los. Pouco depois eu tomava café com eles no acampamento.

Aproveitei a descontração e revelei que era policial, mas que estava a favor deles, pois que tinha sido enviado para desvendar o caso e colocar tudo a limpo, mas precisava que o Ezaú me acompanhasse. Falei sobre o Seu Antonio que estaria me esperando e que se quisessem poderiam nos acompanhar até o embarque na estrada.
Nesse momento chegaram outros 4 homens que teriam isso até a estrada, esgueirando pela mata, para ver se realmente eu não estava preparando uma armadilha. Depois de confabularem entre si aconselharam ao Ezaú a me seguir, acompanhado por dois deles até a estrada. No caminho revelei onde estavam minhas armas e que iria que pegá-las e assim fiz.

Enfim, não houve nenhuma animosidade além da desconfiança inicial, mas que foi superada com jeito e conversa. No final do dia eu estava de retorno com a testemunha e registrado mais uma aventura que permaneceria na minha memória até os dias de hoje.


Luiz Augusto Martinelli conta a sua história na Polícia Civil


Durante meus quase trinta trabalhei como muita honra e satisfação na nossa querida instituição Polícia Civil e lotado o tempo inteiro na cidade de Ariquemes. Mesmo sendo contratado como agente de Polícia III, Iniciei as minhas atividades como escrivão de policia civil, ad” hoc trabalhando todo esse tempo apenas na cidade de Ariquemes.
Na época da minha Admissão, o delegado Adalberto Mendanha, profissional competente, mas muito exigente com o cumprimento das obrigações por parte dos subordinados, mas esse rigor do mesmo eu só tenho a agradecer, pois me ajudou muito na minha formação profissional, pois aprendi muito com ele e também com outros delegados que o sucederam.

Trabalhei durante nove anos no cartório em tempos bem difíceis, pois faltava tudo e todo trabalho era feito numas velhas máquinas Olivetti e como o trabalho cartorário era muito, eu praticamente nunca trabalhei em investigação e nem participava das operações policiais que também eram bem difíceis, pois os policiais muitas vezes tinham ir por estradas carroçáveis e em viaturas bem velhas fazer as muitas operações e buscas em estradas e locais bem difíceis e sem nenhum conforto, dormiam e comiam aonde chegassem e muitos além de cansados, ainda retornavam doentes com malária e outras doenças que contraiam nos garimpos e nas matas.

Teve ocasiões que nós do cartório, tínhamos que ir às linhas rurais, para ouvi testemunhas às vezes vitimas para poder concluir inquéritos antigos juntamente, juntamente com o com o Dr. Tarcísio, outro delegado dos melhores. Essas viagens eram sempre cansativas e muito desgastantes, pois às vezes levávamos o dia inteiro e como não tinha diárias almoçávamos onde desse e muitas vezes nos sítios de amigos.
Como já disse em Ariquemes, tudo era muito difícil e mesmo numa regional com um território imenso só se contava com um perito ad"hoc o nosso colega e amigo o saudoso Neir Liberato de Lima, quando então o delegado regional na época mais recente, Dr. Sergio Barbosa Neto, me nomeou através de portaria pra atuar como Perito ad"hoc, ficando em tal atividade por cerca 14 anos, quando então era obrigado a me deslocar frequentemente para os garimpos e linhas rurais, devido ao grande número de homicídios.

Já nos anos finais dessa minha jornada na polícia, fui designado para o comissariado onde trabalhei por quase sete anos, tendo solicitado a minha aposentadoria em Dezembro 2007. Certo do dever cumprido com muito amor a nossa profissão, mesmo atuando em diferentes atividades que ajudaram muito na minha formação profissional e também como pessoa.

 

 

A história de Elifelete Evencio de Souza Gonçalves na Polícia

No dia 13/06/1977, com apenas 21 anos de idade, ingressei na Polícia Civil na função de identificadora que posteriormente se transformou em datiloscopista, sendo lotada inicialmente na cidade de Presidente Médici, onde sequer existia a Delegacia de Polícia e a Secretaria de Segurança Pública, alugava apenas uma sala comercial para funcionar o Posto de Identificação, onde permaneci até o ano de 1981 a início de 1982, quando então ficou pronto o prédio da Delegacia de Polícia para onde mudei (Posto de Identificação).

Trabalhando sozinha naquele DP até que meses depois chegava naquela cidade, o Delegado de Polícia Dr. Eliomar com quatro Policiais e um escrivão.


Minha trajetória na Policia Civil foi bastante intensa. Ainda no ano de 1977 fui trabalhar na cidade de Ouro Preto numa Operação Documento em parceria com Exercito e Governo Território. No ano de 1978 fui para cidade de Cacoal, também para a Operação Documento.

Apesar de chamar tais localidades de cidade, é preciso registrar que ainda naquela época todas eram ainda distritos de Porto Velho. Ainda durante este período até 1982 mesmo com excesso de trabalho diário me casei tive duas filhas.

Naquela Delegacia de Polícia de Presidente Medice, trabalhei por 15 anos, tendo passado por quase todos os setores: Identificação, Administração, Cartório (escrivã Ad hoc) e, ainda assumi a chefia de um posto de atendimento da Ciretran, subordinada a Ciretran em Ji-Paraná, onde tinha como diretor Dr. Euripedes Miranda.
No ano de 1992 pedi transferência para a cidade de Vilhena, vindo a me aposentar 14 anos após.

Na DPC de Vilhena, também passei por quase todos os setores: Identificação, Administração, Cartório (escrivã ad hoc), setor de Criminalística, IML, Delegacia Regional e ainda na Ciretran por duas vezes como chefe do setor de Habilitação, quando o saudoso João Rebosco da Silva era o diretor.

Nunca me importei de estar em desvio de função, tinha prazer em prestar serviço onde fosse necessário, me empenhei para fazer o melhor pela instituição. Fato este que me rendeu ELOGIO da Direção Geral através da Portaria 863/DGPC em 31/10/2003.
Foram 28 anos e meio de serviços prestados a Segurança Pública do hoje, todas amizades que conquistei, entre chefes e colegas da árdua, porém gratificante jornada policial.

Mas os anos chegaram e aos 50 anos no mês de fevereiro de 2006, foi publicada a portaria da minha aposentadoria.

Hoje me alegro em saber que combati o bom combate, não encerrei a carreira, pois continuo como DATILOSCOPISTA POLICIAL CIVIL APOSENTADA, esta função carregarei comigo para todo o sempre.


Francisco Alves Cipriano - Bons tempos em que as polícias eram respeitadas por todos

 

 

Desta feita vou nesta coluna contar alguns casos que eram bem comuns no passado, quando estávamos de plantão e que mesmo com pequeno efetivo, íamos até o local das ocorrências e éramos ouvidos e respeitados.

Na década de 80 foi inaugurada na Avenida 7 de Setembro, uma loja exclusiva de artigos feminino, para trabalhar nela foram contratadas pessoas do sexo feminino, entre elas uma moça que residia no bairro Triângulo. Por motivo de ciúmes, o marido da mesma não permitia que ela trabalhasse, mesmo assim ela insistiu. Certo dia ele a seguiu, puxou a mesma pelos cabelos a derrubou no chão e a chutou deixando a mesma com várias escoriações pelo corpo.

Após o ocorrido, a mulher foi até o primeiro DP para registrar uma ocorrência, o comissário pediu que eu chamasse um policial para buscar o tal infrator, mas antes de irmos o colega policial percebendo que se tratava daquelas ocorrências que logo a mulher pedia para não prosseguir se aproximou dela a vítima e perguntou se ela queria que ele trouxesse o infrator vivo ou morto, ela olhou com um olhar compadecido e pediu para que não matasse seu marido, saímos então a procura do mesmo por todo o bairro, porém não o encontramos e nem alguém que o tivesse visto.

Num outro momento, como já era final de mês e o comissário entraria de férias e um colega policial assumiria o comissariado, então ficamos os três no plantão. Nos arredores da delegacia tinham vários barzinhos e em um certo dia um colega policial andando pelo local viu três homens em uma mesa tomando cerveja e percebeu que um deles portava arma de fogo, quando então o policial retornou a delegacia nos contou o que tinha visto e juntamente com o comissariado, fomos até o local. Chegando lá, o comissário passou a mão por cima da camisa de um dos homens e constatou que realmente se tratava de arma de fogo,quando então foi dada voz de prisão para o mesmo, que não esboçou nenhuma reação, e foi levado para a delegacia.

Na ocasião, várias pessoas começaram a se aproximar do local e como se tratava de uma situação que envolvia arma de fogo resolvi sair para ajudar, já do lado de fora vi sair de dentro da delegacia o infrator colocando a arma na cintura, por não entender aquele fato, retornei até a Delegacia e perguntei para o comissário o que havia acontecido para que o infrator fosse liberado, ele respondeu que se tratava de um grande amigo dele, que era uma ótima pessoa, que ele estava indo para casa e que não oferecia nenhum problema, pois tinha ficado com as balas do infrator e continuamos no plantão. Uma grave prevaricação praticada pelo colega, que deixo de identificar até mesmo porque a sua falta já prescreveu.

Mais tarde daquele mesmo dia recebemos uma ligação de um morador do bairro Areal, dizendo que na Rua Alexandre Guimarães, entre as ruas Tenreiras Aranha e Campos Sales, havia uma casa noturna de onde vinha um som muito alto, insuportável e que em uma residência próxima aquele local havia uma criança passando mal e o som estava a incomodando muito, e pediu que nós fossemos até o local pedir para baixarem o som, não fomos de imediato pois naquele momento estávamos muito ocupados, em um curto espaço de tempo ligaram mais duas vezes então decidimos ir até a casa noturna, Ao chegar no local, entramos e mandamos que o som fosse baixado e quem estivesse dançando parasse e aqueles sentados que se levantassem, para serem revistados, enquanto isso o proprietário do estabelecimento pedia muitas desculpas e dizia que nunca mais aquilo iria acontecer, e o comissário apenas respondeu que aquela vez nada seria feito, mas que se acontecesse novamente ele iria ser penalizado, o pesada multa, apreensão do som e até mesmo interdição do seu estabelecimento se cancelando o alvará de funcionamento. Bons tempos em que as policiais eram respeitadas e obedecidas.

 

João Batista Damasceno conta a sua história na Polícia Civil


Depois de Receber baixa do Exército brasileiro no mês em janeiro de 1981, ingressei no mês de Maio do mesmo ano, com apenas 19 anos de idade, na Polícia Civil e imediatamente sem nenhum treinamento, como era comum naquela época, recebi um revolver 38 e fui designado para trabalhar na cidade de Ji-paraná, pois o prédio da delegacia de cidade de Presidente Médici, para onde eu deveria ser lotado, não estava concluído.

Apresentei-me exatamente no mês de Junho, ao Delegado Regional Edson Martins inicialmente comecei a trabalhar no plantão, porém certo dia fui convocado pelo delegado, para ir junto com o pessoal da Sevic numa diligencia para capturar o individuo Delvino Del Pla, capixaba, que no mês anterior havia assassinado o policial Jaime – que nem cheguei a conhecer - cuja esposa se encontrava gestante, o que causou grande comoção na cidade e toda Região.


O fato é que naquela época, existiam grande conflitos de terra e Jaime e um outro chamado de Borborema, foram a zona rural distante de Ji-Paraná e lá o policial Jaime, foi abatido a tiros de espingarda, pelo citado individuo, quando então o policial Borborema, sem saber ao certo se existiam outros atiradores se evadiu e de volta a delegacia narrou os fatos aos delegado.


Como se sabe, naquela época existiam muitas pessoas de outros Estados e muitos pistoleiros, que eram contratados para ameaçar e matar os proprietários rurais, para que abandonasses as suas terras, o que ensejou por parte da SSP/RO inclusive a Operação Caça-Pistoleiro, com a prisão e morte de vários deles.


Foram escalados para a missão de captura do assassino do policial Jaime, Getulio Mario Gomes de Azevedo, hoje inspetor da PRF, Jani Ferreira, lotado na Delegacia de Ouro Preto D” Oeste e um outro colega de Ji-Paraná, cujo nome não recordo mais. O fato é que eu ainda noviço, enfrentei naquela oportunidade a minha primeira prova de fogo na atividade policial, junto com policiais veteranos.

Para a diligencia conseguimos um veiculo Jipe emprestado do Incra, em razão dos grandes atoleiros nas estradas vicinais, para essa área bem distante, tanto que tivermos que pernoitar num sitio, para tentar a prisão no amanhecer do dia seguinte, como de fato ocorreu.

Esse assassino foi a júri popular, porém foi absolvido, pois se alegou que o mesmo foi induzido a erro ao ver dois homens armados e num veiculo descaracterizado, imaginou que se tratava de bandidos, querendo matar a si e família, para assim se apoderar de suas terras e sem manter qualquer dialogo foi logo atirando, pois naquela época se vivia em toda região um clima de verdadeiro terror.


A passagem naquela cidade de Ji-Paraná, mais precisamente na Delegacia de Polícia daquela cidade, com policiais bem tarimbados, como Simões, Nivaldo Xavier e o seu irmão, dentre outros, foram motivo de orgulho para mim e contribuiu muito para a minha formação policial, onde permaneci ate 1985, quando fui transferido para o 5º DP na capital.

Conto tal história, para que fique registrada as muitas dificuldades que atravessamos naquela época nesse difícil, porém empolgante trabalho policial. Oportunamente relatarei outras historias, para que fiquem registradas no nosso site e consequentemente nos anais da nossa Polícia Civil.

João Batista Damasceno conta a sua segunda história na Polícia Civil


No ano de 1982, eu me encontrava na cidade de Presidente Médici, na delegacia de polícia que acabava de ser instalada e tinha como colegas mais antigos Gilberto Rosa de Souza, Durval, Anselmo, Ivonce e mais uns dois do interior do Estado, que acabavam de ser contratado.

Um dia chegou a noticia que um senhor num sítio estava mantendo sua filha, uma jovem de cerca de quinze anos em cárcere privado, em razão de a mesma já na adolescência, querer usar maquiagem, namorar, coisas assim, típicas da idade.
Chegando ao local distante da cidade, foi verificado que se tratava de um famoso produtor rural conhecido por Senhor Heleno, uma pessoa inteiramente analfabeta e bem rude. Naquela oportunidade libertamos a moça que estava acorrentada e de volta a cidade a mesma foi entregue a Assistente Social Ivone.

No dia seguinte, o Senhor Heleno, foi intimado a comparecer a delegacia, para falar com o delegado Eliomar Abrantes de Souza e chegando ao gabinete do delegado, o senhor Heleno, com certeza ignorando o que era a figura do delegado, passou a gritar que não era vagabundo e que só tinha tempo para trabalhar, tanto que já tinha recebido até premiação do Presidente João Batista Figueiredo e tinha até fotografia do evento para comprovar o que dizia.

Naquela oportunidade, o delegado estando sozinho na sala e percebendo que o clima não era dos melhores chamou o policial Camargo, que era um paulista alto e forte, com cabelo Black Power ao estilo que usava na época o jogador Junior, do Flamengo.
Mesmo com a presença de Camargo na sala, o Senhor Heleno não recuou e permanecia muito alterado e desafiador, quando então Camargo sacou o seu revolver 38, arma conhecida como canela seca, e na confusão ocorreu um disparo que atingiu o Senhor Heleno na barriga, vindo o mesmo a óbito imediatamente, causando muita consternação na cidade e nas linhas.

Em razão do grave acontecimento. o Ministério Público logo se pronunciou, por não ter o delegado autuado em flagrante delito, o policial Camargo por homicídio culposo. Diante das circunstâncias, o Delegado Edson Martin, Regional de Ji-Paraná, fez uma intervenção na Delegacia de Presidente Médici e instaurou uma apuração de prevaricação em desfavor de delegado Eliomar, que depois deixou a polícia e foi trabalhar como procurador de um dos municípios de Rondônia. O delegado Edson Martins ainda instaurou um procedimento penal e pediu a prisão de Camargo, que desapareceu até os dias de hoje e jamais respondeu por tal crime.

O referido policial Camargo, morava numa republica com vários policiais, inclusive eu e ele gostava de tocar um saxofone de sua propriedade, cujo instrumento ele zelava muito, porém, com ele incomodava todo mundo, pois tomava umas bebidas e de madrugada ficava fazendo barulho, executando diversas músicas. Em razão disso, certo dia, eu e Odair que trabalhava no serviço do rádio, resolvemos colocar óleo de cozinha interior do saxofone e Camargo ao tentar executar o instrumento, percebeu que o boicote e ficou furioso sacando o revolver passando a desafiar o engraçadinho ou engraçadinhos que tinham feito aquela brincadeira e até atirou para o alto, para demonstrar a sua fúria. Evidente que ninguém se apresentou e até desaparecemos um dia inteiro da republica onde morávamos, até que o mesmo se acalmasse.


Num outro episódio o policial Gilberto, muito sério e compenetrado, combinou com a gente e falou para ele Camargo, que pela primeira vez o equipe de Polícia Civil iria desfilar no dia 7 de Setembro, mas ele teria que cortar a vasta cabeleira, tendo o mesmo inocentemente obedecido e aparado o cabelo bem curto o que deve ter sido muito difícil para o mesmo, pois ele tinha muito zelo e cuidado com aquele cabelo e que estava sempre penteando a cabeleira com pente garfo, indicado para dar volumes aos cabelos crespos e cacheados.

Ao chegar o Dia da Independência, evidente que não tinha nada de desfile e ai ele percebeu que tinha sido vitima de um engodo e passou a olhar feio para Gilberto, quando então para evitar a ira dele Camargo, inventamos umas diligencias na cidade de Ji-Paraná e desaparecemos por uns três dias.

Tempos depois, quando ocorreu a morte do Senhor Heleno e a decretação da prisão preventiva de Camargo e sua fuga, foi que percebemos o sério risco que passamos todos nós, ao brincar dessa maneira com uma pessoa que sequer conhecíamos bem, já que o mesmo era recém contratado, sendo daquela ultima turma de 1982.

 

João Batista Damasceno - A mandante de um assassinato, que o juri popular considerou como a verdadeira vítima

Aconteceu em 1983 na Delegacia de Presidente Médici, eu Damasceno, Gilberto Rosa, Durval de Souza Moreira e Anselmo Rabelo, todos hoje já aposentados. Naquela ocasião, recebemos uma denuncia que numa determinada linha, o Senhor Antonio, que tinha uma pequena propriedade não era visto há três dias por ninguém nos bares da localidade e outros locais públicos.

Ao chegar tal informação na delegacia, o saudoso delegado Eliomar Abrantes de Souza, determinou que fôssemos até a propriedade do desaparecido. Seguindo então uma equipe, composta por mim, Anselmo, Durval de Souza e Sebastião Lacerda mais conhecido por Capixaba.

Ao chegarmos a distante propriedade, contatamos com a esposa do desaparecido uma senhora de cerca de 45 anos com semblante bem sofrido e envelhecido. Como ela vivia com o desaparecido Antonio, começamos a indagar a mesma sobre seu marido e esta a principio muito nervosa e relutante, dizia nada saber, mas diante das perguntas bem embaraçosas e com a nossa ameaça de fazer uma revista no terreno, resolveu então falar que havia contratado duas pessoas para eliminar o seu esposo, ou seja, os pistoleiros Geraldinho e Davi.

De posse dessa informação e com o encontrado numa cova rasa acionamos a pericia e remoção do corpo e em seguida iniciamos a diligencia para que os criminosos não fugissem do local palco dos acontecimentos.

No dia seguinte, deslocamos logo cedo em busca do Davi num carro da Sucam com tração nas quatro rodas, em razão das péssimas condições da estrada e cercamos muito cedo o seu barraco, entrando pela porta dos fundos, quando o surpreendemos, achando inclusive um revolver 38 debaixo do travesseiro do mesmo.


Logo após a prisão fizemos um verdadeiro jogo de palavras dizendo a ele Davi, que a casa tinha caído e que Geraldinho já tinha entregado todo o jogo, dizendo ser ele Davi o idealizador de tudo, oportunidade que o mesmo se mostrou bem irritado, dizendo que iria matar ele Geraldinho.

Feita a prisão fomos para a BR e de lá levamos o Davi que da BR foi levado para Delegacia de Presidente Médici pelo colega Capixaba e como na época novembro estava tudo alagado, pegamos um barco até a fazendinha de Geraldinho a cerca de 30 quilômetros de áreas alagadas e chegamos lá a noite por volta das 19 horas, pernoitamos num barraco e pela manha, por volta das 6 horas, o prendemos o mesmo com um revolver na cintura, tirando ele leite de umas vacas e fizemos com ele o mesmo jogo, dizendo que Davi já havia entregue o jogo e ele é que tinha esquematizado tudo.
Com Geraldinho preso, caminhamos muitos quilômetros até a beira do Rio e de barco voltamos para Presidente Médici, num trabalho de três dias sem sequer recebermos diárias, como quase sempre acontecia, naquela época, ou seja, o dinheiro era muito curto, pois até mesmo as refeições fazíamos de favor nas propriedades ao longo do caminho.

A senhora esposa do morto, justificando a morte, alegou que só mandou matar o marido porque ele era muito mal e batia muito nela e quando embriagado fazia a mesma até mesmo ingerir fezes de galinha.

Como logo em seguida fui lotado na capital Porto Velho, os colegas que lá ficaram informaram que em júri realizado posteriormente na comarca de Ji-Paraná, a senhora mandante foi absolvida, em razão do pedido do promotor público, ocorrendo então que o Conselho de Sentença decidiu pela sua absolvição por unanimidade, pois promotor e jurados consideraram que ela era na verdade a grande vitima desse triste episódio, que culminou com a morte do seu marido Antonio, pois foi esse o único caminho que ela encontrou para se safar dos muitos abusos .

A Justiça foi feita e eu mais os policiais Anselmo, Durval de Souza Moreira e Sebastião Lacerda Amorim, ficamos muito orgulhosos desse trabalho, que apesar de todas as dificuldades culminou com muito êxito e encheu a todos nós de orgulhos, mesmo sendo todos nós policiais novos, com pouco mais de um ano de atividade profissional, mas fazíamos tudo com muito amor e dedicação.


Francisco Alves Cipriano - Nossos nomes estão gravados no livro do Eterno Ser.


Mais uma das minhas histórias referentes às dificuldades enfrentadas pela nossa polícia civil principalmente por mim.

Nós policiais do ex-território que não havia feito academia, nos anos 1984 ou 1985, tinha que fazer uma reciclagem na academia de polícia, então éramos trinta agentes das delegacias da capital e de cidades do interior do estado.

Naquela época devido aos salários muito baixos, dos trintas policias, a maioria não possuía veículos para sua locomoção e ia de ônibus até o 5º DP e daí até a academia ia mesmo a pé já que não existia transporte publico até ali. Ao retornar ficava mais fácil, pois os poucos automóveis ficavam cheio de caronistas, mas como tinha muitos atoleiros pela Avenida. Amazonas, nós adentrávamos por dentro do bairro Jardim Ipanema e vínhamos sair no 5º DP.

Na academia as palestras eram dadas por autoridades ligadas a segurança pública, eu não lembro o nome de todas as autoridades, recordo apenas dos nomes: Dr. Telmo Forte e Dr. Esmone.

Dr. Telmo Forte deu uma palestra e alguns policias ficaram insatisfeito, porque se sentiram ofendido pelo palestrante e foram até o diretor da academia levando suas queixas, não sei qual o assunto e até gostaria de lembrar para poder explicar melhor, tanto que quando o Dr. Telmo Forte retornou para dar mais palestra, o diretor da academia levou o assunto até aquela autoridade e ele se sentiu constrangido, porque como ele disse que em momento algum teve a intenção de ofender alguém, pois ele tinha muito respeito pela classe, assim mesmo ele deu a palestra mais “desafinada” que já ouvi.

Já a palestra do Dr. Esmone, eu me recordo muito bem, de quando ele disse que os policiais do ex-território de cada dez prisão efetuadas, nove era de forma ilegal. Fiquei preocupado, com medo de uma punição ou mesmo de uma demissão, porque nós estávamos ali não era tanto pelos salários, pois era muito baixo, mas sim, com a coragem de reprimir o crime antes fosse tarde demais e assim a gente ficava meio perdido, porque coragem e medo não podem andarem de braços dados, pois não combinam.

Finalmente vou deixar o esse assunto de lado e vou me remeter aos salários daquela época. Eu tinha um táxi e no ano de 1982, eu trafegava pela Av. Amazonas no Bairro Nova Porto Velho, eu vi um colega taxista conversando com alguns garimpeiros e encostei o carro e fui lá conversar também com os mesmo, porque eram garimpeiros conhecidos e nós havíamos trabalhados junto no Garimpo do Imbaúba e Jirau no Rio Madeira no ano de 1980, quando tudo era também muito difícil, só tinha apenas a Estrada do Caldeirão, no qual tinha que subir de voadeira até Cachoeira do Jirau e tínhamos que juntar vários homens para pegar aquele pesado motor e subir o barranco do Rio Madeira, atravessar a Cachoeira do Jirau para poder chegar ao Garimpo do Imbaúba.

No meio da conversa com os taxistas foi quando um colega taxista disse que eu CIPRIANO estava na polícia, daí a conversa mudou e eles queriam saber como funcionava o trabalho, achando que não combinava com o meu perfil, pois eu era muito calmo e na polícia era muito agitada e perguntaram quanto eu ganhava... fiquei com vergonha de dizer, porém resolvi falar a verdade e disse que meu salário era vinte três mil oitocentos e quarenta cruzeiros. Foi aquela gozação e pior foi quando eu disse que na minha casa tinha um pedreiro trabalhando e eu pagava cinco mil cruzeiros a diária, aí foi gargalhadas e mais gargalhadas, porque fazendo as contas o meu salário de um mês, não dava para pagar uma semana de serviço de um pedreiro.

O fato é que as dificuldades não ficavam por aí e aconteceu uma separação. Fiquei apenas com o taxi e eu estava devendo o mesmo, pois eu havia comprado o carro financiado e juntando salário e a renda do táxi só dava para pagar a prestação, fiquei morando de favor e o dinheiro não dava para comprar mais nada e assim fiquei uns três ou quatro meses tomando água natural, porque eu não tinha condições de comprar uma geladeira.

Certo dia, eu criei coragem e fui ao comercio tentar comprar uma geladeira, mas o vendedor quando olhava a minha carteira de trabalho e via o meu salário já não queria mais nem conversa e virava as costas E assim ainda fui em três lojas, porém o atendimento era sempre o mesmo. Em determinado, momento eu lembrei que eu conhecia um vendedor que trabalhava na loja A Pernambucana e que ele poderia me ajudar. Dirigi-me para lá e fui direto falar com ele, contei o meu problema e o mesmo pediu a minha carteira de trabalho e quando olhou, já me antecipou que achava muito difícil o gerente autorizar a venda, mas ele ia ver se poderia me ajudar e então foi até o seu gerente e contou o meu problema e ele o gerente mandou que eu entrasse na sala e estando ele com minha carteira de trabalho na mão, me olhou e disse que com aquele salário não dava de comprar a geladeira mais simples que tinha disponível no estoque da loja.

Depois dessa fala do gerente desanimado já pensava em bater em retirada e ele com certeza compadecido da situação, autorizou a venda em dez prestações, então eu falei que tinha outra fonte de renda, já que possuía um taxi e ele respondeu que não queria saber de outra renda, queria saber do que tinha na carteira.

Para mim foi uma travessia muito difícil, imagine quem me deu uma mãozinha inacreditável, mais é verdade foi a Dona CERON a empresa elétrica, pois ela passou nove meses sem me cobrar a conta de luz da minha casa e quando me cobrou foi tudo de uma vez, porém eu já estava em melhores condições financeiras, já havia comprado muitas coisas que precisava e graça à Deus e Dona Ceron.

Os policiais mais antigos ganhavam lá estas coisas, porque alguns colegas com mais de quatro anos de serviço, ganhavam mais do que eu. Nós recebíamos nossos vencimentos no banco Itaú, na agência da Av. Sete de Setembro, c/ a praça marechal Rondon. Naquele tempo, bem poucos policiais tinham conta bancária e recebia mediante o contracheque, a gente ficava na fila das cinco horas da manhã muitas vezes até as dez para receber muitas vezes sem tomar sequer café, não era porque não queria, era exatamente porque não tinha, muitas vezes o pó e o pão.

Um colega que não vou identificar, dizia que quando estava na fila para receber e estava chegando ao caixa, olhava para trás e se tinha alguém conhecido, ele mandava passar na frente, para que a pessoa não visse o salário dele e quando o caixa colocava seu salário no balcão, ele de imediato colocava a mão em cima e saia de porta afora quase correndo e quando chegava no centro da praça Marechal Rondon, ele olhava para os lados para ver se não tinha alguém por perto e aí ele contava aqueles chamados couros de ratos, separava a parte de pagar a taberna, onde ele comprava fiado o mês inteiro e em seguida dava uma passada no mercado central logo ali perto e comprava um peixe, algumas latas de conservas e uns dois quilos de farinha e em seguida ia para casa e chegando lá a esposa preparava aquele pirão, ele almoçava junto com a família e retornava para dar continuidade no plantão.

Foram momentos bem difíceis, mas nos enfrentamos de cabeça erguida, porque éramos vocacionados e tínhamos a certeza que estávamos fazendo o bem a nossa sociedade. Como diz um dos versos da nossa Polícia Civil de Rondônia ‘Nossos nomes estão gravados no livro do eterno Ser”.

 

 





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