Permita-se viver em um livro de vez em quando. - Leila Araujo



Fiz o texto ontem para o dia do livro e não tive tempo de publicar. Serve para hoje.
Boa noite, pessoas.

Havia uma menina, em seus 11 anos de idade, em um tempo que já se foi faz longa data, em outro século, outro milênio, onde uma tv em preto e branco, um radinho de pilha e um orelhão na esquina eram quase toda a tecnologia que ela conhecia.

Conta a memória, traiçoeira como toda memória, que esta menina, tímida, de olhar profundo e fala mansa, se apaixonou por um menino da escola. Era época em que os primeiros amores causavam febres e dores na alma, que tiravam sono e apetite, que faziam sonhar acordada e andar como se o fizesse em brancas e macias nuvens.

Ainda seguindo os rastros mal definidos da memória, conta-se que esta menina, ouvindo um dia uma música há muito esquecida, deu de escrever rabiscos tolos de frases melosas, sempre pensando no menino de sua paixão. Ela não sabia bem o que fazia, se suas linhas eram letra ou poesia. Se não eram nada, só fantasia. Sei que era quase um interrogatório de si mesma: por que te amo? Por que te quero? O que espero? E todas as respostas eram "não sei, sei apenas que te amo, te quero, te espero".

Mostrou a uma amiga. A amigo a traiu, levando o texto à professora. A professora a traiu, lendo o texto para toda a turma. A menina, tímida como gota de chuva no sol do verão, não sabia onde se esconder e não sabia o que era pior, se os risos da turma, se as chacotas de que estava apaixonada ou se o olhar de admiração do menino de seu coração, que talvez adivinhasse ser o objeto de tanta adoração.

Essa menina, diz a memória, um dia fui eu. Esse poema, me conta a história, foi minha primeira aventura com um texto escrito. Depois descobri o universo perfeito das páginas dos livros e o mundo nunca mais foi o mesmo.

Sempre fui uma tola falando de amor: Pelas palavras.

Permita-se viver em um livro de vez em quando.





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