Getúlio e suas ameaças de suicídio - Ramalho Leite



Tenho escrito sobre fatos históricos e figuras públicas que já se foram. É uma maneira prática de passar incólume pela reprovação dos pretensos ofendidos. Os mortos não pedem direito de resposta. Quando o personagem se chama Getúlio Vargas, cresce meu entusiasmo e tenho certeza, desperto a curiosidade dos meus poucos leitores, porque esse gaúcho de São Borja, depois de vinte anos governando o Brasil, deu tudo de si aos brasileiros e encerrou seu ciclo de poder com essa frase emblemática: “ Nada mais vos posso dar, a não ser o meu sangue”.

Antes de chegar a 1954, os arquivos de Vargas gravaram vários episódios em que expressara claramente sua vontade de por fim à vida, como forma de perpetuar o nome e lavar com seu sangue a honra ultrajada. Os fatos, até então, lhe favoreceram para que não cumprisse as ameaças. O desfecho final resultou de obstáculo intransponível colocado à sua frente. “A possibilidade de sacrifício pessoal era relacionada a uma questão de brio, de preservação da honra, de um sentido heroico de posteridade”, como define Lira Neto, seu mais recente biógrafo.

Já em 1930, quando eclodiu o movimento revolucionário que o levou ao Poder, escreveu no seu diário: “Começo os preparativos a fim de seguir para o teatro das operações, no Paraná. Desejo fazê-lo, porque esse é o meu dever, decidido a não regressar vivo ao Rio Grande, se não for vencedor”. Venceu e se tornou Presidente da República. Dois anos depois, a Revolução Constitucionalista de São Paulo colocava Getúlio em situação de resistência extrema e ele prepara uma nova despedida: “Reservava para mim o direito de morrer como soldado, combatendo a causa que abraçara. A ignominia duma revolução branca não m´o permitiu. Escolho a única solução digna para não cair em desonra, nem sair pelo ridículo”. Mais uma vez era o seu cadáver ofertado ao sacrifício.

Os paulistas foram derrotados e Getúlio reforçara seus poderes. Foi um poderoso Getúlio Vargas que aderiu às Forças Aliadas e mandou os pracinhas para o cenário da Segunda Guerra. Mas antes, preveniu o subsecretário de Estado americano que, “nessa decisão eu jogava a minha vida, porque não sobreviveria a um desastre para a minha pátria”.

Os que pesquisam a vida de Vargas estranham que, quando de sua queda humilhante em 1945, não tenha cumprido as ameaças anteriores. Há quem afirme que, na sua sagacidade, ele avistava um horizonte favorável ao seu retorno. Chegara a dizer que a política se assemelha a um jogo de xadrez. “Por exemplo, eu sou uma pedra que foi movida da posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer onde me colocaram. É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo- e com todas as pedras de volta ao tabuleiro”.

Após ser apeado do poder, recolheu-se à estância Santos Reis, propriedade dos Vargas. A partir de então, foi alvo de uma campanha difamatória enquanto seus amigos eram perseguidos e vítimas de uma “série de mesquinharias”. Na paz do seu berço natal, “no meio de gente simples que não sabe trair”, redigiu verdadeiro testamento político depois achado entre seus papeis. Em quatro páginas de papel pautado, escrito a lápis, deixou “declarações para conhecimento do povo brasileiro”, asseverando: “Talvez, só com o meu sacrifício eu consiga remir os inocentes que estão sendo perseguidos e libertar-me das mesquinharias do governo de um títere togado influenciado por colaboradores odientos e covardes, muito inferiores à missão que se arrogaram” (Uma referência ao ministro José Linhares, pre sidente do Supremo e investido no cargo de Presidente da República).

Getúlio voltaria ao poder nos braços do povo. Antes fora eleito senador e deputado por vários Estados. Perto de concluir o mandato presidencial, obtido através do voto direto e secreto que implantara, acossado por forças poderosas e empurrado por fatos comprometedores tramados à sua revelia, revolveu “sair da vida para entrar na história”. Era 24 de agosto de 1954




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