O misticismo de Boechat nada lhe dizia sobre seres de um outro mundo - Francis Lopes Mendonça



 

 Confesso que sou igual a Ricardo Boechat. O misticismo de Boechat nada lhe dizia sobre seres de um outro mundo. O misticismo de Boechat não aumentava o seu conhecimento sobre o cosmos. O misticismo de Boechat não era um substituto para a ciência. O misticismo de Boechat muito menos lhe dava conselhos morais. Não ordenava que ele fosse bom, generoso, amoroso. Não lhe mandava ajudar os que lhe pediam ajuda. Não lhe mandava lutar pela justiça exercitando um jornalismo combativo.

Pois não é preciso ser místico para ser bom, para ajudar os que mais precisam, para lutar pela justiça. Aliás, é muito vergonhoso ser bom, ajudar os que mais precisam e lutar pela justiça porque o cristianismo manda. Então é porque nos ensinaram a mandar que a gente tem de ser assim? Se não mandasse a gente não faria? Se o Deus cristão não mandasse e não ameaçasse não seríamos bons? Se assim é, então somos bons, ajudamos os que mais precisam e lutamos pela justiça porque morremos de medo. Mas tudo o que é produto do medo não é o oposto do sagrado? O misticismo de Boechat não lhe dava conhecimentos de um outro mundo e nem lhe dava ordens morais. Era um sentimento como se fosse uma música que ele ouvia dentro dele.

Por isso os teólogos românticos dizem que o sentimento místico é o sentimento de “dependência absoluta” diante do cosmos. Não existimos em nós mesmos. Existimos somente em relação a uma coisa imensa demais, gigantesca demais, fantástica demais, coisa que não compreendemos, completamente misteriosa mas que nos envolve, na qual nascemos e para a qual voltaremos também daqui a algum tempo. Mas resta quanto tempo? Não sabemos. Ninguém sabe. O relógio da vida não tem ponteiros.





Comentários


Comentar


Sidebar Menu