Jô Soares na missa de Dom José - Ramalho Leite



 

Jô Soares, o teatrólogo, escritor, humorista, musicista, ator e jornalista nasceu em berço de ouro. Até a adolescência, sua residência foi o maior e mais refinado hotel brasileiro, o Copacabana Pálace, na famosa praia do mesmo nome. Correndo ao redor da piscina, ainda menino, ouvia o chamado do jornalista Assis Chateaubriand, o Chatô: - Ôi paraibano! Oi paraibano! Ao que o pequeno gordo respondia: - Eu sou carioca! Chatô, contudo, acrescentava: -Filho de paraibano, paraibano é!


Filho de Orlando, sobrinho de Orris e Oscar Soares, estes, nomes vinculados à cultura e à política da Paraíba nas primeiras décadas do século XX, eis as raízes paraibanas do gordo mais famoso do Brasil que acaba de nos brindar com o segundo volume de sua Biografia Desautorizada. Ambos os livros retratam a vida do autobiografado, crescendo paralelamente à evolução do teatro, do rádio e da televisão entre nós. Sua trajetória faz parceria com centenas de nomes que nos acostumamos a admirar, inseridos na literatura, no teatro e nos jornais, inclusive, no irreverente “O Pasquim”, produto, entre outros, de nomes como Ivan Lessa, Milhô Fernandes, Ziraldo e o próprio Jô que enfrentavam com galhardia a tesoura dos censores credenciados pela caserna pós 1964.

Orris Soares, tio avô de Jô, juntamente com o irmão Oscar fundaram, em outubro de 1908 o jornal O Norte, de saudosa memória. É dele a iniciativa e organização da edição do “Eu e Outras Poesias”, cujo prefácio ainda hoje serve de espelho aos que se debruçam sobre a vida e obra do paraibano do século. Por sinal, conta Jô, foi Orris que deu a notícia da morte de Augusto dos Anjos ao imortal Olavo Bilac. O baiano indagou: -“ Quem é Augusto dos Anjos?” Após ouvir alguns versos do pranteado paraibano, teria dito o príncipe dos poetas: -“ Fez bem em morrer. A poesia não perdeu muita coisa”. Para Ariano Suassuna, segundo Jô, a literat ura deveria agradecer a Orris Soares o fato de Augusto ser hoje um poeta conhecido.

Jô Soares confessa que se sente feliz em “relembrar e também de resgatar a importante presença cultural e política da Paraíba na vida nacional da primeira metade do século XX, hoje injustamente esquecida. Por ter, ao lado de Minas Gerais, apoiado o Rio Grande do Sul na chamada Aliança Liberal, a Paraíba e seus filhos ganharam um papel de peso na Capital da Republica após a Revolução de 1930”, registra.

Entre os talentos do Jô Soares deixei de incluir acima, sua missão religiosa, como Ministro Extraordinário da Eucaristia. Fazia sucesso nas igrejas, vestido de branco ou de roxo, atendendo às filas dos que recebiam a comunhão. Dom Helder, em Olinda, chegou a dizer baixinho, que a sua fila estava maior: - Você está tomando os meus fieis... Dom Avelar Brandão, em Salvador, também abria as portas da sua igreja para o famoso Gordo. Na Paraíba, esteve presente na missa de “dom José Maria Pires, que, por ser negro, era chamado carinhosamente de dom Pelé, embora preferisse ser chamado de Dom Zumbi.”

Para concluir, passo a palavra ao Jô Soares: “Ajudei também na comunhão em Joao Pessoa, terra de papai, na missa celebrada por dom Jose Maria Pires, o arcebispo da Paraíba, ele morreu há pouco tempo com quase cem anos. Quando chegou a hora do sermão, d. Jose Maria puxou uma folha de papel e eu pensei: Puxa, eis ai um Bispo que deve ser fraco de oratória, precisa trazer o sermão por escrito. Ai notei que ele nem olhava para o papel. Começou a pregar com uma beleza de oratória. Perguntei ao meu assistente:

- Mas falando tão bem, por que trouxe o sermão por escrito?

-Porque o DOPS o obriga a mandar uma cópia de cada sermão antes de pronunciá-lo
Então me virei para a porta da Igreja e vi dois tipos com cara de agentes do DOPS, papel nas mãos para conferir se o bispo dizia exatamente o que estava escrito ali. Aliás, no jubileu sacerdotal de d. Helder, foi d.Jose Maria quem falou numa bela homilia.

Sinto orgulho imenso de ter concedido a comunhão com esses três homens, três religiosos, três brasileiros corajosos.”




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