De uma criança: ‘Não aguento mais perder quem gosto‘ - Leila Araujo.



 Texto de 2015, um dos mais difíceis que já escrevi.
Bom dia, pessoas.

Atravesso a rua para pegar manga na mangueira aqui de frente. Meus gatos me seguem. Um menino, que está na entrada da rua, caminha até mim e começa a perguntar o nome dos gatos. O menino tem 10 anos e se chama Lucas. Me conta que seu gato sumiu nas vésperas do dia do seu aniversário. Conta, com os olhos cheios de lágrimas, que anda todo dia pelo condomínio tentando encontrar o gato. Conta que está muito triste e com saudade do gato. Conta também que seu pai morreu tem uns 3 anos e diz estar sofrendo com isso também e que não aguenta mais perder quem ele gosta.

Eu não sei o que dizer. Falo que não tenho pai e que é uma dor que nunca vai passar.

Falo dos meus gatos e de como eu ficaria triste se os perdesse. Falo que a gente perde mesmo coisas e pessoas que a gente ama e que a vida tem que seguir e a gente tem que ser feliz com o que ficou. Falo que ele vai arrumar um outro gato que ele vai amar muito e que isso não significa que ele não ame mais o gato que sumiu. Falo essas bobagens todas enquanto penso na merda que é a vida de vez em quando e como crianças deveriam ser poupadas de certos sofrimentos. A dor da perda devia ser um desses pacotes lacrados, programados para só abrir quando a gente fosse grande e aceitasse essas besteiras que dizem que a dor é necessária.

Ele conseguiu fazer carinho nos meus gatos, o que prova que é um bom menino, que realmente ama os bichos. Os gatos sentiram a dor daquela criança e ficaram em volta dele.

Ofereci uma manga. Ele disse que é alérgico.

Olhei pra cima e pensei: caramba, que brincadeira mais sem graça, deus.
Nos despedidos e cada um foi pro seu lado.

Agora eu também carrego um pouco de sua dor. Espero que ele tenha se sentido mais leve.




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