O que os motoboys veem - Marcos Pires



marcos@piresbezerra.com.br

 

Assim como os garçons dos diversos restaurantes da praia que se reúnem no bar do pastel para sus hilariantes conversas madrugada adentro depois que o expediente termina, os motoboys também tem essa mania. Depois de muito tentar, finalmente consegui ser aceito num desses papos, apresentado pelo motoboy que trabalha com a farmácia onde compro meus oitocentos remédios mensais.

Minha curiosidade foi despertada pelas inusitadas histórias de todos os tipos, desde problemas com o transito ao que mais me empolgou; os clientes que eles atendem.

Um dos motoboys, que trabalha com restaurantes, contou que foi entregar uma pizza no apartamento de uma senhora que ele estima ter mais de 75 anos. Ela autorizou sua subida e quando ele chegou à porta, ela estava enrolada numa enorme toalha, como se tivesse sido surpreendida ao entrar no banho. Pediu que ele colocasse a pizza na mesa da sala enquanto ia pegar a grana. Quando ele virou-se para receber o dinheiro, ela deu um jeitinho de fazer a toalha cair. “- Rapaz, eu dei uma carreira escada abaixo que cheguei no térreo mais ligeiro do que havia subido pelo elevador. E olha que eram doze andares”. Dois outros motoboys que estavam na roda da conversa conheciam a cliente, que praticara o mesmo expediente com eles. Pelo que disseram a estratégia da romântica balzaquiana não surtiu nenhum efeito.

Muitos dos motoboys queixaram-se da entrega que fazem de cerveja, sempre com reclamações de que está quente, mesmo sendo transportada em caixas de isopor. A bronca aumenta quando quem pediu as cervejas está no meio de uma festa e já embalado no álcool. Aliás, sobre isso de festas é impressionante as histórias que contam meus amigos motoboys. O que eles veem de festas malucas não dá pra contar. Vez por outra os clientes ao receberem as encomendas convidam os motoboys para as festas. Neste ponto achei arretado o profissionalismo deles. Nunca aceitam, mesmo porque sempre tem outras entregas para fazer. Mas me interessou demais a confirmação, por alguns deles, de uma certa autoridade que vez por outra faz pedidos de madrugada para mimosear parrudos garotões de praia, bronzeados e tatuados, exibindo músculos inflados, a quem a excelência chama de seus sobrinhos. O engraçado é que toda vez que as entregas são feitas os tais sobrinhos são diferentes.

Deve se tratar de uma família enorme, hem?




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