Os brasileiros - Marcos Pires



 Povinho danado esse, viu? Meu colega escritor Ariano contava que sempre ia aos domingos tomar caldo de cana e comer pão doce no mercado São José, em Recife. Na porta um ceguinho mendigava e Suassuna lhe dava uma grana. Foram tantos anos de esmolas que o ceguinho identificava Ariano pelos passos. Um dia saudou: “- Seu Ariano, estou precisando de um favor seu”. Meu colega escritor se pôs ao dispor. “- Sabe o que é, seu Ariano? É que eu gostaria que o senhor adiantasse quatro semanas de esmolas porque eu vou tirar um mês de férias”. É, amigos leitores, no Brasil é assim.

Esses brasileiros são fantásticos mesmo quando confessam crimes. Prestem atenção nessa história absolutamente verdadeira. Numa cidade do nosso interior o cidadão tinha uma bodega onde vendia de um tudo, inclusive agua mineral, pela qual cobrava 1 real a garrafa. Um concorrente estabeleceu-se bem em frente a ele e começou a baixar os preços. Para vocês terem uma ideia do estrago, a agua mineral que ele vendia a 1 real o concorrente passou a vender a cinquenta centavos. Claro que ele ficou possesso. Passava o dia reclamando aos clientes, encostado no balcão. “- Tá vendo só, seu Francisco. Eu trabalho que nem um condenado todo dia há mais de 20 anos. Aí vem um amarelo safado desses e quer me quebrar. O senhor imagine que ele está vendendo a agua mineral pela metade do meu preço. E olha que eu tenho fabricação própria. É um marginal”.

Esses brasileiros são incríveis. Numa outra cidade de nosso interior um desses nossos conterrâneos era conhecido por não pagar suas contas. Um dia ele foi à loja de seu Eurípedes e disse que queria comprar a tesoura que estava na vitrine. O seu Eurípedes, antevendo o prejuízo com o calote, tentou convencê-lo a não comprar a tesoura em sua loja: “- Compadre, na loja de dona Chiquinha essa tesoura está pela metade do preço, é melhor você comprar lá”. Mas o velhaco não deu trégua: “- Ah não, compadre Eurípedes, não vou fazer uma desconsideração dessas com você. E tem mais, já dei minha palavra, vou comprar é aqui”. Essa discussão demorou quase uma hora, e enfim o dono da loja cansou. Foi buscar a tesoura e a promissória a vencer em 30 dias para o caloteiro assinar. Preencheu a promissória e quando terminou, deu um suspiro e desabafou: “- Olha aqui, compadre, eu sei que o senhor não vai pagar essa promissória, mas que eu botei pra lascar no preço, ah, isso eu botei”.

Eita povinho que eu amo.




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