MEMÓRIA PESSOENSE: Edifício 18 Andares - Sérgio Botêlho



“Há lugares dos quais vou me lembrar, por toda a minha vida, embora alguns tenham mudado. Alguns para sempre, não para melhor. Alguns já nem existem, e outros permanecem. Todos esses lugares tiveram seus momentos”. In My Life – The Beatles – Tradução de Rita Lee (Em Minha Vida).

Me lembro, ainda, já no final da década de 60, mais precisamente, no ano de 1967, quando, ainda adolescente, passava em frente ao recém habitado Edifício Presidente João Pessoa, na General Osório com a Peregrino de Carvalho (antiga Ladeira da Carioca). De quebra, a localização e a altura do prédio sugeria uma das vistas mais belas da cidade, o que realmente acontecia.

Na calçada do prédio novo, o primeiro arranha-céu de João Pessoa, via alguns amigos meus, de colégio, pela calçada da General Osório, embaixo do prédio, em grupos, curtindo a novidade de residirem naquele espaço coletivo vertical.

Confesso que a imagem provocava inveja, pela novidade que era aquela de morar num edifício de apartamentos, numa época em que João Pessoa era praticamente toda horizontal, com poucos edifícios, assim, altos.

Naquele ano havia, no Centro, para moradia, altos daquele jeito, os edifícios Santa Rita e Caricé, apenas. Os demais eram em Cabo Branco e Tambaú: o João Marques de Almeida, o Beira Mar, o Borborema e o São Marcos.

Mas, o Presidente João Pessoa era diferente, alto e vistoso, e chamava a atenção pela comunidade que começava a ser constituída pelos seus moradores, principalmente por crianças e adolescentes, na época em que vigoravam as então chamadas “recas”.
“Recas” nada mais eram do que turmas de crianças, já mais taludas, e adolescentes, ajuntadas com base na proximidade geográfica de suas residências, geralmente acostumadas a fabricar seus próprios brinquedos, e sem que, nem de longe, sonhassem, ainda, com nada parecido à Internet.

Parêntesis para uma breve e necessária explicação: o edifício chamava-se oficialmente Presidente João Pessoa, mas, desde então, até hoje, ficou conhecido pela sua altura: Edifício 18 Andares. Um luxo!

Outro parêntesis na lembrança para um pouco de história devidamente pesquisada: o Edifício Presidente João Pessoa (o 18 Andares) pertencia ao governo federal, construído pelo antigo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários-IAPB.
Mais um pouco de pesquisa: o 18 Andares foi construído em cima do terreno que restou após a derrubada do prédio onde funcionava o Conservatório de Música Antenor Navarro, com a promessa, jamais cumprida, de o Conservatório funcionar no primeiro pavimento do edifício.

Pois bem. O 18 Andares tinha um problema de origem, pouco incomodativo, à época em que foi construído, mas, desestimulante com o passar do tempo. É que no prédio não foi construída qualquer garagem.

Com os poucos carros, então, a deficiência foi suportada. Mas, imagine, hoje, com o trânsito louco da General Osório, e de todo o Centro da cidade, o desastre que terminou sendo para quem residisse no prédio.

Junte-se a isso o desestimulante quadro de violência, no Centro, à noite, e os demais problemas estruturais naturalmente existentes num prédio antigo, e, então, a diminuição da magia foi a consequência inevitável.

Mas, houve um tempo, na João Pessoa da década de 60, em que o Edifício Presidente João Pessoa, o 18 Andares, chamou a atenção dos pessoenses, e, de toda a Paraíba, um atenção que o tempo e a modernidade se encarregaram de desfazer.

Enfim: apesar de construído em 1958 (portanto, o primeiro arranha-céu da cidade), o Presidente João Pessoa somente foi entregue em 1967, por conta de entraves burocráticos e da fusão, após 1964, de todos os institutos de aposentadoria que existiam na época.

(A foto, da época em que o 18 Andares foi construído, é do acervo do professor Arion Farias)




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