MEMÓRIA PESSOENSE: Pindá e a poética Tambaú de outros tempos - Sérgio Botêlho



Há cenários da João Pessoa das décadas de 50 e 60 em que se misturam lembranças sombreadas pelo tempo, mas, que no íntimo, nos faz bem, já que nos remete a uma época de clara felicidade.

Uma dessas lembranças é a de um prédio, na beira-mar da chamada Ponta de Tambaú, onde, hoje, termina a avenida Rui Carneiro. O referido prédio ficava em frente ao antigo e icônico Elite Bar, cuja rememoração me foi sugerida pelo velho amigo de Pio XII, Marcelo Borges.

Nesse prédio existia um entreposto comercial, pelo que me lembro, que comercializava o resultado do trabalho feito, no mar, pelos velhos pescadores que compunham a comunidade de pesca da praia de Santo Antônio.

Para os que não sabem, Praia de Santo Antônio era como se chamava antigamente a praia de Tambaú do trecho que vai do final da atual Rui Carneiro até a Ponta do Cabo Branco. Daí a Paróquia de Santo Antônio e o edifício Santo Antônio.

O prédio na Ponta de Tambaú se chamava Pindá, e duvido que alguém, mesmo que na época fosse ainda menino, não se lembre dele, já que era naquele pedaço de praia para onde se mandava João Pessoa inteira para curtir o banho de mar.

O Pindá nos remete a imagens de Tambaú, a partir da beira-mar em frente ao Elite, até o imenso areal onde foi erguido o famoso hotel, ocupado por pescadores e seus barcos e jangadas que formavam a comunidade tradicional da orla marítima da capital paraibana.

O cenário a que nos referimos era composto, ainda, pela gente – os próprios pescadores e seus familiares – a consertar redes de pesca e a calafetar barcos em caiçaras ou ao sol pleno, dentro do universo que caracteriza a pesca artesanal.
Moravam ali por perto, mesmo, em casas na beira da praia e mais para dentro um pouco, uma configuração habitacional que foi se modificando à medida que Tambaú e Manaíra foram sendo urbanizadas e as pessoas de mais recursos foram comprando os terrenos mais próximos do mar.

Bela também, e bastante participativa, era a Procissão de São Pedro, padroeiro dos pescadores, quando se irmanavam comunidades de pescadores de Tambaú e Praia da Penha, as mais tradicionais da orla.

Se a chegada da urbe pessoense à orla demorou perto de quatro séculos, a urbanização de Tambaú, Cabo Branco, Manaíra e Bessa não precisou de mais de 30 anos para se completar, com todas as suas benesses e mazelas, naturalmente.
Contudo, os quase 400 anos que se passaram entre a fundação da cidade, no interior, à beira do rio Sanhahuá, em 05 de agosto de 1585, e a pavimentação da Epitácio Pessoa, em 1952, que impulsionou a urbanização da orla, foram suficientes para que, hoje, as praias urbanas de João Pessoa (com especial destaque para Tambaú e Cabo Branco) sejam, sem qualquer sombra de dúvida, as mais limpas de todas as capitais litorâneas, do país. Isso, por conta das soluções sanitárias que foram sendo encontradas, ao final, evitando a construção de emissários submarinos a conduzir os esgotos da cidade para o mar.

Essa é uma particularidade maravilhosa de João Pessoa, motivo de orgulho para todos nós, aqui alinhavada por conta da lembrança que tivemos de uma antiga construção, hoje inexistente, na beira-mar de Tambaú, a emoldurar um tempo poético.
Um tempo onde havia comunidades tradicionais na orla marítima pessoense que buscavam o sustento na pesca artesanal para comercializar o produto de seu trabalho naquele antigo prédio, na verdade, uma velha cooperativa chamada Pindá.




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