Wilson, o empreendedor.- Marcos Pires



 

Conheci Wilson ainda menino, muito ativo e querendo ganhar dinheiro. Lembro bem que ele me contou ser coisa de família. Seu pai dizia sempre aos filhos, repetindo um sábio da antiguidade: “- Ganhem dinheiro, nem que seja honestamente, mas ganhem dinheiro”.

Uma vez ele foi flagrado fazendo parceria com a Secretária de nossa escola, que reproduzia as provas no mimeografo. Depois daquele evento que lhe custou a expulsão do colégio “só porque recebia grana dos amigos para antecipar as perguntas que iriam cair nos exames” (era assim que ele se justificava) perdi Wilson de vista. Aqui e acolá sabia dos seus progressos empresariais. Alguém o vira em Manaus apressando o desembaraço de mercadorias na Zona Franca, usando aquele método de não pagar impostos. Outro me disse que ele partira para a Bahia, onde contratava trios elétricos para festas por todo o Brasil. Nesse caso ele chegou mesmo a ser preso porque só existiam os papeis dos contratos, músicos que é bom nada.

Depois de 50 anos reencontrei Wilson. Ele soube da minha quase morte nas redes sociais e me procurou no escritório. Rimos muito da falsa notícia, mas eu sabia que viria alguma novidade. E veio. “- Meu amigo, essa sua falsa morte foi muito importante. É um aviso que poucos tem direito de receber. Nós sempre pensamos que somos imortais e quando partimos desta vida deixamos o ônus das providências para nossos entes queridos. Isso é péssimo porque além da dor da perda eles terão que escolher o caixão, providenciar o tumulo. Pior ainda, quem morre cria uma terrível obrigação para os que ficaram, como aquelas visitas mensais ao cemitério que não consolam quem está vivo nem melhoram a situação de quem se foi, isso sem contar o custo com flores e lanches nos dias de finado”. Fiquei impressionado. Wilson não somente deixara de ser gago como estava falando feito um político. Mas é claro que ele queria me vender algo, e era a minha cremação, como ele anunciou em seguida. Disse que tinha 3 planos; prata, ouro e diamante. E que tudo estava incluído, até uma suíte com frigobar.

Êpa! Suíte para o defunto? “- Não amigo, para os seus entes queridos, que vão lhe prantear naquela hora fatídica”. E continuou a oferecer tanta coisa boa que eu quase me ofereci para ser cremado mesmo ainda vivo.

Para cortar a conversa de vez, expliquei a ele que infelizmente não ia dar porque não tinha mais ninguém que fosse à cremação para chorar por mim. Wilson deu um muxoxo, balançou a cabeça e segredou: “- Tranquilo, Marcão; no plano diamante plus nós oferecemos um casal e quatro crianças que choram uma tarde inteira como se fossem teus filhos e netos”.

Acho que vou topar.




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