MEMÓRIA PESSOENSE: Ágaba e Sady - Sérgio Botêlho



Fazia pouco mais de um ano que em São Paulo acontecera a Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, uma reunião de artistas que impôs profundas modificações nas artes brasileiras, com fortes repercussões nos costumes.
Na verdade, a década de 20 - logo após a I Guerra Mundial, da qual o Brasil participou por meio de tropas enviadas à Europa – ficou conhecida como um momento de importantes mudanças nos costumes por todo o mundo ocidental.

As mulheres adotaram comportamentos mais desamarrados de cânones religiosos e sociais extremamente rígidos, vigentes até o Século XIX, e, então, livraram-se dos espartilhos, passaram a mostrar as pernas, metidas com a moda das melindrosas, e a usar maquiagem.

Dessa forma, a Semana de 22 marca, no Brasil, esse movimento por mais liberdades a sacodir o mundo, ao lado do Tenentismo, um movimento de jovens oficiais do Exército que percorreram o Brasil na defesa do voto secreto, e de reforma na educação pública.
No Rio de Janeiro, desde 1919, a cientista Bertha Lutz, filha de Adolfo Lutz, outro cientista famoso, dera início à luta pelo voto feminino, fundando a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

Contudo, a Paraíba continuava dominada, mais do que nunca, por arraigadas ideias patriarcais, sem qualquer sopro de modernidade, algo que, apenas, embalava os sonhos contidos da juventude pessoense.

As mais importantes instituições de ensino na capital paraibana eram o Lyceu (assim, com ‘y’, como na época) e a Escola Normal. O Lyceu, no prédio que depois passou a ser a Faculdade de Direito, e a Escola Normal, no local onde hoje funciona o Tribunal de Justiça.

A separar os dois educandários, a Praça Comendador Felizardo Leite, que depois da morte de João Pessoa passou a ter o nome do ex-presidente da Província, assassinado pelo advogado João Dantas, em Recife, em 26 de julho de 1930.
Preocupados com as paqueras entre as moças da Escola Normal e os moços do Lyceu, as autoridades educacionais da época, dominadas pela Igreja e seus dogmas mais conservadores, proibiram que rapazes “estacionassem” na calçada da Escola Normal.

Para garantir o cumprimento da ordem, foi determinado que a Guarda Civil montasse prontidão no local, em nome dos bons costumes e em defesa da família na capital paraibana. E, assim foi feito.

Estava, assim, composto o quadro político-social para a tragédia. Num sábado, em 22 de setembro de 1923, o jovem Sady Castor Correia Lima, do Lyceu, chegou-se até a calçada da Escola Normal, em nome de uma paixão chamada Ágaba Gonçalves de Medeiros, da Escola Normal.

Logo foi abordado por um guarda civil, vulgo Guarda 33, daí estabelecendo-se uma discussão que resultou na execução sumária do jovem Sady. Para completar a tragédia, 15 dias depois, Ágaba se suicida, causando enorme comoção na sociedade pessoense.

Revoltados, os estudantes do Grêmio 24 de Março, do Lyceu, promoveram manifestações pela cidade, em protesto contra as mortes, tendo como objetivo derrubar aquela retrógrada determinação. Ao fim e ao cabo, apenas o Guarda 33 acabou penalizado.

A história de Ágaba e Sady não deixa nada a dever aos mais célebres personagens de Shakespeare, representando um contraponto importante, e sinistro, ao tradicionalismo, ao coronelismo e ao patriarcalismo que marcaram a história paraibana.

Creio que, como disse a Luciano Henriques, que sugeriu a recuperação da história, ser esse um tema do maior significado para um filme. Não sei o porquê de, até hoje, isso não ter sido realizado, assim como já aconteceu com outra história pessoense, igualmente trágica, de Anayde Beiriz e João Dantas.

De minha parte, está, aí, recuperada a história de Ágaba e Sady, que, embora não faça parte de minhas memórias, por óbvio, não pode ser apagada, jamais, das memórias pessoenses, em sua parte mais triste.

(Recorri às informações contidas em brilhante tese de Doutorado, defendida por Favianni da Silva, na Universidade Federal do Ceará, intitulada “O Caso Sady e Ágaba: O Crime da Praça Comendador Felizardo Leite e a Revolta dos Estudantes do Grêmio 24 de Março na Parahyba de 1923”, afora pesquisas na Wikipédia, e no texto “Sady e Ágaba: Uma trágica história de amor”, no blog culturapopular2.blogspot.com.br)
(Foto de 1921 da Praça Comendador Felizardo Leite (atual Praça João Pessoa), palco da tragédia Ágaba-Sady, ainda com o coreto no centro. Aos fundos, o prédio da Escola Normal, atualmente Tribunal de Justiça da Paraíba. Crédito da foto: História Crítica-Universidade dos Andes)

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