MEMÓRIA PESSOENSE: As matinais carnavalescas da AABB - Sérgio Botêlho



 
“Me lembro tanto e é tão grande a saudade, que até parece verdade, que o tempo ainda pode voltar (...) E frevo ainda apesar da quarta-feira no cordão da saideira vendo a vida se enfeitar”. Um tempo desses, havia as matinais da AABB.

Nos tempos em que no carnaval de João Pessoa brilhavam os clubes, onde se destacavam o Cabo Branco e o Astrea (sem esquecer, naturalmente, os animados carnavais do Clube dos Sargentos, em Jaguaribe), havia um outro clube, comandado pelos funcionários do Banco do Brasil, que tinha o seu próprio brilho.

Enquanto o clube de Miramar e o de Tambiá se revezavam, à tarde (para a criançada), e à noite (para os adultos), a AABB realizava seus carnavais, sem concorrentes, pela manhã.

A disputa pelos convites e ingressos para as matinais da AABB era grande, e, na hora da folia, os carros ocupavam os espaços ao longo de Pedro II, já que o estacionamento do clube restava impossibilitado de atender os foliões.

Herói musical dos carnavais pessoenses, em todos os clubes à disposição, o maestro Vilô e sua orquestra por vários anos abalou o pequeno salão da AABB, abrindo com a Vassourinha para levantar os foliões.

Falar em pequeno salão, tal limite físico nunca foi empecilho para que as matinais da AABB atraíssem tantos foliões, em busca da mais pura alegria, e, se possível, de encontrar uma cara metade para uma diversão ainda mais ao gosto de Momo.
Os brincantes, então, pulavam mesmo nas mesas, no bar do clube, na rua, no estacionamento, em tudo quanto era de canto, já que o som da orquestra alcançava bem mais longe do que exigia o espaço que era oferecido pelo clube.

O frevo pernambucano e as marchinhas de carnaval eram mais do que suficientes para sustentar a folia, até o seu final. Capiba e Nelson Ferreira eram nomes que, com suas composições, davam um brilho extra ao carnaval das terras irmãs de Pernambuco e Paraíba.

“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon cadê teus blocos famosos, Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apôs-Fum, dos carnavais saudosos”. Era o momento do frevo-canção de Nelson Ferreira a aumentar os encantamentos entre os namorados.
Mas, logo voltava o tumulto maravilhoso quando a orquestra puxava Capiba: “Eu quero ver carvão queimar, eu quero ver queimar carvão, eu quero ver daquí a pouco pegar fogo no salão”. E, não dava outra, as dependências da AABB pegavam fogo.
E o cheiro de lança-perfume rescendia no salão, misturado aos confetes e às serpentinas e às vozes em coro dos foliões braços para o alto e as pernas se confundindo no embalo daquele ritmo absolutamente mágico.

As matinais da AABB duravam a tarde inteira e chegavam à boca da noite. Os foliões mais comedidos aproveitavam um espaço de quatro ou cinco horas para um cochilo, precedido de necessária reidratação e um pouco de alimento. Os mais dispostos, pegavam direto.

Porque, depois, era embarcar nos carnavais do Astrea e do Cabo Branco, até o dia raiar, numa pisada que ia até a quarta-feira, de manhã, quando, não raramente, a orquestra a animar o Cabo Branco deixava as dependências do clube puxando os foliões até a praça, senão, ninguém ia embora.
Houve um tempo que era assim.




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