MEMÓRIA PESSOENSE: O Ponto de Cem Reis - Sérgio Botêlho



 
Reginaldo ainda está no mesmo local, ali naquela ponta da calçada do Paraíba Palace Hotel, mais perto da Praça 1817. Boquinha, que tinha o seu negócio mais próximo da Duque de Caxias, infelizmente, segundo me informa Cristiano Machado, faleceu, e quem toma conta do ponto é sua filha.

Estou falando de dois tradicionais pontos de venda de jornais e revistas, da Paraíba e do Brasil, que, há décadas, funcionam no Ponto de Cem Réis, e que serviam de ponto de encontro e muita conversa sobre política e demais assuntos do noticiário, diariamente, em grupos de pessoas das mais variadas tendências ideológicas ou partidárias, em décadas anteriores.

Já não havia mais o Café Alvear, cujo ambiente foi tão bem descrito pelo mestre Gonzaga Rodrigues, e que, de alguma forma, se assemelhava com o que continuou sendo o Ponto de Cem Reis, posteriormente, com as bancas de jornais, e, ainda, o Café Santa Rosa e o Café São Braz, cada um na sua época, e do seu lado.

Nomear as figuras que frequentavam aquelas conversas diárias, com maior afluência, nos finais de tarde, é um risco evidente, já que a memória, certamente, será traiçoeira e muito capaz de deixar que um ou outro nome escape, o que termina se configurando em clara injustiça para quem acabar esquecido.
Mas, eram muitos, desde jornalistas, passando por intelectuais, escritores, poetas, gente ocupada ou desocupada, aparentemente doidos e aparentemente sãos, curiosos e desatentos, todos, por ali, parados no tempo, sem pressa alguma, porque os apressados passavam, enquanto a conversa continuava, em voz alta, senão ninguém ouvia.

O Ponto de Cem Reis, principalmente ali perto daquelas duas bancas de jornais, se constituía em um verdadeiro sarau público e espontâneo, porque não programado, e, justiça seja feita, tanto antes da construção do Viaduto Damásio Franca quanto depois que o equipamento urbano dividiu o espaço daquela Praça Vidal de Negreiros, e, ainda, a opinião pública.

O que mudou foi o alambrado de metal separando a calçada do ‘abismo’, lá embaixo, por onde passavam ônibus e carros, vindos da parte baixa da cidade na direção da Lagoa do Parque Solon de Lucena. Alambrado, este, que, justiça seja feita, serviu bastante para acomodar as pessoas que, nele, passaram a se encostar ou se debruçar.

E o papo rolava solto. Foi por ali que se passaram os chamados anos de chumbo, onde, independente dos arapongas de plantão, discutia-se a plenos pulmões a situação do governo, onde, críticos e defensores, se digladiavam, em meio ao avanço do tempo e dos acontecimentos, ao redor. Era algo meio que irreal, mas, muito verdadeiro e desassombrado.

Pois bem. Hoje me deu uma saudade do Ponto de Cem Reis, danada, especialmente desses tempos de tanta conversa, por ali por perto dos jornaleiros Reginaldo e Boquinha, do Café Santa Rosa e do Café São Braz, da barbearia do Paraíba Hotel, e de sua calçada. Tempos bons, que, mesmo mantidas algumas características locais, não é, hoje, a mesma coisa.

Foi no Ponto de Cem Reis onde o velho Mocidade pronunciou vários de seus discursos, contra ou a favor, pois posicionamentos políticos pouco importavam ao velho tribuno. Também era ali que o poeta Caixa d’Água costumava fazer suas declamações aos ouvidos atentos dos espectadores eventuais.

Considero aquele espaço urbano de João Pessoa uma espécie de guardião a céu aberto do espírito pessoense, já que por ali transitaram, durante séculos, com certeza, a esmagadora maioria de nossa gente, e, ainda, dos que passaram pela capital paraibana, ou que na Paraíba do Norte resolveram acampar.




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