MEMÓRIA PESSOENSE: Café Alvear - Sérgio Botêlho



Há uma obra definitiva sobre o significado do Café Alvear para a vida social e intelectual de João Pessoa, e ela foi escrita pelo mestre Gonzaga Rodrigues, um dos mais importantes cronistas brasileiros, em estilo e inspiração.

Em sua obra, Gonzaga rememora a importância sociológica e emocional do espaço onde se degustava o café, além de outras culinárias típicas de um Café, ali no indefectível Ponto de Cem Reis, hoje, tão dessemelhante.

O cronista mor de nossa província revisitou, em sua obra, uma época em que o Café Alvear servia de ponto de encontro para políticos e intelectuais de vários matizes, além de outras figuras, nem tanto, assim.

O Alvear servia como uma espécie de liquidificador de ideias, cujo resultado terminava por influir, mesmo, no mundo da política e na cabeça de jovens jornalistas ou idealistas na consolidação ou desmanche de teses em conflito no mundo real.

A impressão de Gonzaga, transmitida em sua obra, justamente de nome Café Alvear, são as de um jovem já imerso no campo das letras e das ideias, sobre o alcance sensível daquele ponto comercial tão cheio de significantes para a formação da vida pessoense.

Me limito a recordar outro aspecto do Café Alvear, este, extraído da memória de uma criança da década de 50, exatamente, eu, acostumado a levantar cedo pronto para uma vitamina de banana, um cuscuz Bondade, um pão da padaria Paraibana e uma xícara de café Alvear. Assim fortalecido, só restava zarpar para o Pio XII.

A gente acordava com o cheiro vindo da fábrica do Alvear, o preferido das donas de casa da época, que funcionava na Miguel Couto, bem próximo ao então Foto Condor, de Ariel e Arion, e daquelas barbearias, ali, algumas, ainda em plena função.

O nosso café do dia-a-dia era comprado naquela pequena fábrica onde o grão passava pela moagem, transformando-se naquele pó - pronto para, em casa, virar um delicioso café - a ser comercializado para o cidadão comum da velha capital paraibana.

Esse processo final da produção do café em pó era feito, ali mesmo, no Centro de João Pessoa, com a chaminé espalhando aquele aroma tão característico, e inconfundível, que já se tornara uma característica odorífica da cidade.

Evidentemente, falo de uma outra João Pessoa, que não a de hoje em dia. Era uma João Pessoa menos numerosa, evidentemente, mais romântica, mais devagar, e, por tudo isso, mais permissiva a uma fabriqueta dessas no Centro de sua urbe.

Para nós, que morávamos nas redondezas, a fábrica do café Alvear era uma mão na roda, não apenas por aquele cheiro de todas as manhãs, mas, sobretudo, pela proximidade geográfica entre a nossa casa e o ponto de venda.

Um dia, o Alvear fechou, e, lembro de minha mãe reclamando de que seria difícil encontrar, dali avante, um outro café em pó que merecesse a confiança das donas de casa de João Pessoa.

Louvava-se, já na época, a vantagem, em gosto e pureza para os consumidores, sobre outros cafés industrializados. Mas, acabou, e, hoje, faz parte, apenas, da saudade. Saudade de uma época em que João Pessoa tinha, em pleno Centro da cidade, uma fábrica de café.




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