MEMÓRIA PESSOENSE: Polícia Mirim - Sérgio Botelho



Na década de 60 deu-se início, em João Pessoa, a uma malfadada experiência no campo da repressão a menores. Note-se que a violência envolvendo menores, naquela época, tinha alguns, porém, bem menos parâmetros a ver com a violência de hoje.
Era uma violência, para início de conversa, em meio a uma população muito menos numerosa que a de hoje, embora, pelas mesmas razões, fincadas na miséria. Mas, ainda, sem a motivação extra no tráfico de drogas.

Os meninos de rua, na década de 60, eram poucos e conhecidos pelos nomes. Ao menos, os que se aventuravam a perambular pelo Centro, furtando aqui e ali. Em geral, viviam nos cinturões de pobreza, como sempre, nos limites as áreas periféricas da capital paraibana. Ou seja: regiões onde as famílias passavam, e, ainda passam, por dificuldades extremas para sobreviver.

Porém, achou-se, na época, que era necessário vestir meninos como soldados, arma-los com cassetetes, e solta-los nas ruas para prender outros meninos que, na mesma situação deles, os policiais mirins, também eram muito pobres.

A sede da Polícia Mirim, se não me falha a memória, ficava na Diogo Velho, ao lado da então Faculdade de Enfermagem hoje Residência Universitária Feminina, já bem perto da esquina com a Pedro II.

Não precisa dizer o medo que a pirralhada tinha da tal Polícia Mirim, especialmente as crianças que moravam no Centro, ou no Roger, Cordão Encarnado e Jaguaribe, caminhos naturais desses meninos vestidos de policiais.

Para nós, que não sabíamos exatamente o que aqueles policiais mirins combatiam, qualquer coisa que estivéssemos fazendo - e as crianças do Centro brincavam muito nas ruas e nos parques, principalmente na Lagoa - era motivo de apreensão.
Decorrente desse estado permanente de apreensão, a Polícia Mirim conseguiu estabelecer um certo estado de beligerância entre a ‘corporação’ e a criançada. Não foram poucas as escaramuças havidas entre crianças, nos bairros, e os policiais mirins.
De vez em quando, a gente escutava, nos colégios, façanhas contadas, por colegas, de brigas ocorridas em vários bairros da cidade. O fato é que forjou-se uma forte animosidade das crianças para com a Polícia Mirim.

O final da Polícia Mirim, em João Pessoa, é como um enredo de desfecho previamente sabido, pois, acabou em uma tragédia que continua sendo chorada por todos quantos dela (da tragédia) se recordam.

A indelével marca ainda hoje pode ser vista à direita de quem entra pelo principal portão do Cemitério Senhor da Boa Sentença, representada pelo túmulo de uma menina de 13 anos, um dos mais visitados do nosso principal ‘campo-santo’.
A sepultura, lotada de ex-votos e velas acesas, sempre, é de uma criança chamada Maria de Lourdes, que, acusada de roubo por seus patrões, acabou sendo levada à Polícia Mirim, “para confessar o crime”.

Depois de seviciada, foi morta a porretadas por aqueles despreparados policiais-crianças, sob o comando de algum celerado, louco para arrancar uma confissão capaz de agradar a família acusadora.

Pena que, mesmo após essa, e outras tragédias que tais, ainda exista quem considere que o caminho para combater a violência é a violência, e, não, o investimento em escolas e na melhoria de vida das populações mais necessitadas.




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