O veraneio do terror- final - Marcos Pires



Marcos Pires

Semana passada iniciei aqui a história do amigo que comprou uma casa à beira mar em Camboinha e foi veranear pela primeira vez. Também contei como sua casa foi invadida sem qualquer convite por parentes e amigos que ele não via há muito tempo, até algumas pessoas que ele não conhecia.

Pois bem, depois de uma manhã estafante levando e trazendo gente entre Camboinha e a ilha de Areia Vermelha na sua jangada fibrape, o meu amigo enfim foi sentar à mesa com a esposa, a filha e o futuro genro para almoçar. Havia reservado para aquele dia uma garrafa de uísque raro e caro, que trouxera de sua viagem à Inglaterra, um puro malte que, se pudesse ser encontrado aqui, não custaria menos de mil reais. O uísque era tão bacana que os escoceses o bebiam com o nariz tampado para não sentir seu cheiro e ficar com agua na boca; nada de misturar aquele néctar a qualquer outra coisa, sequer gelo. Pois bem, sentado à mesa a primeira surpresa foi a querida doméstica Maria, que veio da cozinha com as mãos nas ancas (tipo assim um açucareiro) e pela primeira vez na vida elevou a voz: “- Apôi prepare minhas conta porque esse povo já comeu a feira toda, me butaro pra cozinhar derna de manhã cedo e eu tô que num aguento mais”.

Não acreditando na informação o amigo levantou e foi à cozinha verificar o estoque de comida. Realmente, só haviam sobrado um pacote de arroz, outro de sal e duas latas de sardinha. E aquilo seria o seu almoço. Para quem havia estocado dez quilos de camarão, mais dez quilos de filé e três enormes lagostas compradas na véspera (ali perto, na praia do Poço), era demais. A raiva aumentou porque quando voltou para a sala descobriu que seu caríssimo uísque não estava mais ali. A filha lhe disse que um dos primos havia levado a garrafa para provar à beira mar. Meu amigo correu a fim de evitar um prejuízo ainda maior, mas chegou tarde. Os parentes e os amigos que ele não havia convidado estavam dançando ao som altíssimo de “Adocica” e tomando as últimas gotas daquele uísque caríssimo em copos de caldo de cana, cada um misturado com as mais inusitadas substancias, desde agua de coco a coca cola, passando por ki suco de groselha e guaraná, chupando umbu como tira-gosto.

Foi demais. Ele começou a sentir um formigamento no braço, uma dor no peito, a visão turva e...desmaiou. Só acordou no hospital, já com soro no braço e a esposa à cabeceira da cama.

Hoje em dia ele passa os verões em Campina Grande, onde adquiriu excelente mansão com vista para o mar no bairro do Mirante...e onde ninguém o visita.




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