Memória Pessoense: Na Lagoa, o bambuzal já foi das crianças - Sérgio Botêlho



Imagine uma João Pessoa tendo o Centro da cidade com mais de 90% de seus prédios ocupados por moradores. Construída a imagem, remate-a com a forte possibilidade de a esmagadora maioria dessas casas serem habitadas por famílias.

Agora, complete o quadro com uma média de três ou mais crianças por família, e você terá um conjunto de ruas densamente povoado, na capital paraibana, até meados da década de 60, com meninos e meninas brincando de tudo no mundo, nas próprias ruas.

João Pessoa do meu tempo de criança era exatamente, isso. O futebol era praticado no meio da rua, todas cobertas por paralelepípedos, devidamente apetrechados para tirar tampo de dedão de menino a torto e a direito.

Mas, em meio a todo esse caos maravilhoso, sem qualquer sonho de jogos eletrônicos nem muito menos Internet, havia um lugar em João Pessoa onde boa parte da criançada do Centro da cidade ia brincar, não raramente, todas as tardes da semana.
Estou falando daquela área do Parque Solon de Lucena onde fica o bambuzal que ainda hoje embeleza o local. Só que, imaginar dezenas de crianças brincando por ali, nos dias de hoje, é um sonho inteiramente impossível.

Primeiro, porque praticamente não mora mais ninguém no Centro da cidade, e, assim, não há crianças residindo por perto da Lagoa. Depois, porque o trânsito e a insegurança absoluta não permitem uma coisa dessas.

E não era apenas o bambuzal que servia de playground naturalmente armado para a criançada. Aquela outra parte larga do Parque Solon de Lucena, no lado oposto ao bambuzal, vizinho ao Cassino da Lagoa, era, da mesma forma, muito utilizado pela criançada pessoense.

Meu velho amigo de tempos de criança, José Ronaldo Vieira Sales, Tico, para os antigos companheiros, é também um saudosista dessa época. Ele e sua “reca” (turma de amigos da mesma rua) frequentaram assiduamente aquela área do bambuzal.
As brincadeiras, além do futebol, eram todas do mais alto grau de ludicidade, coisa própria da criança que, à época, era tão castigada pelos pais por estarem na rua quanto são as de hoje por viverem dentro de casa debruçadas sobre computadores.
Estou certo, porém, que se os nossos pais, naquela época, soubessem a importância das ruas e daquelas brincadeiras, não teriam sido tão severos, com a gente, como foram. Hoje, sim, há muito mais razão para que os pais se preocupem.

O bambuzal da Lagoa servia de palco aos “rachas” com bola de meia, aos jogos com piões de madeira, muitos deles feitos por presos da Penitenciária do Roger, que também faziam times de botões, bola de gude, e as corridas com carrinhos de lata, feitos pelas próprias crianças.

As crianças moravam ali por perto, mesmo, no próprio Parque Solon de Lucena, na Souto Maior, na Santos Dumont, na Santos Elias, na Treze de Maio, Arthur Aquiles, na Pedro I, na Princesa Isabel, enfim, no Centro da cidade, como já disse, densamente povoado.

Tudo isso simplesmente desapareceu sufocado pela modernidade veloz e implacável com seus milhares de carros e uma violência sem fim, coisas completamente incompatíveis com crianças brincando livremente pelas ruas e parques mais abertos da cidade.

Mas, a imagem de um Parque Solon de Lucena com crianças brincando à vontade, correndo atrás de bola, com seus carros de lata, seus patinetes, suas bicicletas, ainda está bem viva na mente de todos os que viveram à época.

E para que ela, a imagem que nós outros vimos e vivemos um dia, em nossa querida João Pessoa, não despareça com o futuro e inexorável desparecimento de todos nós, fica aqui registrada em nossas Memórias Pessoenses.




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