MEMÓRIA PESSOENSE: Que Botafogo e Treze foi aquele, em 1968?! - Sérgio Botêlho



 

Aquele foi um dos domingos mais tumultuados, e de maior felicidade, que eu já passei na minha vida de torcedor do Botafogo da Paraíba, o famoso “Belo”. Até hoje considero um verdadeiro milagre não ter havido mortes.


Corria o ano de 1968 e o clube era presidido, naquela histórica oportunidade por Assis Camelo. O time pessoense dependia de um empate com o Treze de Campina Grande para ser campeão estadual, uma vez que havia ganho a primeira partida, em João Pessoa, por 3 X1.

O segundo jogo seria no Estádio Presidente Vargas, casa do Treze, lá mesmo, em Campina. (Ainda não havia nem o Almeidão nem o Amigão, construídos, depois, no Governo Ernani Sátyro).

A torcida botafoguense alugou vários ônibus, juntou uma orquestra animada, e partiu para a Serra. Naquela tarde acontecia mais um bingo em Campina Grande, conforme era muito comum na década de 60, na Paraíba.

O evento (bingo) – a gente punha fé, nisso – deveria atrair uma multidão, no que seria, em nossa opinião, uma concorrência excelente, esvaziando o estádio. Mas, que nada! O estádio estava lotado e a diretoria do Treze, que era presidido pelo ex-reitor da URNE, Edivaldo do Ó, ainda deu uma forcinha contra a torcida de João Pessoa.

Foi o seguinte: estava reservada para a torcida da estrela solitária (naquele tempo, o escudo, inclusive, era igualzinho ao do Glorioso Carioca) a parte da arquibancada que ficava por trás de um dos gols. Antes de começar o jogo, porém, abriram o portão da geral, que dava para essa arquibancada, e a torcida trezeana literalmente expulsou a botafoguense.

Eu assisti à partida agarrado nos arames do alambrado. Para completar, entre o primeiro e o segundo tempo a diretoria do Treze voltou a agir: abriu os portões do Estádio para a turma que vinha do bingo. Era “galista” para todo o canto.
A torcida do Campinense, em pequeno, mas, barulhento número, torcia pelo Botafogo contra o arquirrival Treze. Mas, não podia prestar qualquer tipo de ajuda física aos torcedores botafoguenses espalhados pelos quatro cantos do estádio.

Para piorar, o Treze fez 1 a 0, o que levaria a decisão para uma nova partida. Naquele momento, o estádio quase vinha abaixo. Comandada pelo hoje meu amigo Zé Luiz, irrequieto e valoroso jogador da equipe campinense, o Treze continuaria vencendo até os 44 minutos do segundo tempo.

Mas, o que ninguém mais esperava, nem a torcida botafoguense nem a do Campinense nem a trezeana, aconteceu: aos 44 minutos do segundo tempo, Lando, zagueiro botafoguense, completou de cabeça um lançamento de Lúcio Flávio, outro elemento da defesa alvinegra pessoense, e empatou o jogo para o “Belo”.

Aí, meus amigos, o tempo fechou! Em menos de um minuto, apagaram-se as luzes do Estádio. O juiz, porém, já tinha apitado o fim do jogo. O time do Botafogo escapou de um verdadeiro linchamento pulando o muro que dava para o Quartel de Polícia.
Os torcedores alvinegros correram para os ônibus, e “se pirulitaram”. A festa foi em Riachão do Bacamarte. Ali, a torcida ficou até a chegada do ônibus com os jogadores do Botafogo. A Polícia Rodoviária se encarregou de abrir caminho para a caravana, até João Pessoa. Não precisa dizer que a estrada Campina-João Pessoa não era duplicada, ainda!

O que se seguiu foi uma verdadeira apoteose: um carro de bombeiros esperava o time botafoguense em Bayeux. Era um domingo, 04 de agosto, já à noite, a que se seguiria uma segunda-feira, 05, feriado de Nossa Senhora das Neves.

Com a Festa das Neves lotada por todos os seus quadrantes, como sempre, naqueles gloriosos tempos de João Pessoa, todo mundo veio para o Ponto de Cem Réis a fim de aguardar o carro de bombeiros carregando os jogadores do Botafogo, a partir dali, seguido pela multidão até a Churrascaria Bambu, onde a diretoria do Botafogo – juntamente com alguns endinheirados alvinegros – patrocinou um derrame de cerveja.
No ano seguinte, jogando no Estádio da Graça, em nova final contra o mesmo Treze, o Botafogo foi bicampeão paraibano. Mas, o título de 1968 – eu não me lembro de outro –, após 10 anos de jejum, foi o de maior alegria, na minha história particular, do time pessoense. Por isso, o seu lugar nessas memórias pessoenses.




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