MEMÓRIA PESSOENSE: Piratas de Jaguaribe Sérgio Botêlho



Abrir o baú das memórias pessoenses, a partir de Jaguaribe, significa percorrer um caminho sem fim de recordações da nossa alma. Jaguaribe é um repositório impressionante de manifestações culturais, por exemplo, que marcam profundamente a história da capital paraibana.

Uma dessas recordações – aliás, ainda resistente em meio às dificuldades de toda a ordem, da burocracia às finanças públicas, passando, evidentemente, pelas naturais mudanças de paradigmas carnavalescos – é o clube de frevo Piratas de Jaguaribe, uma das glórias desse tradicional bairro pessoense, berço ainda de outros blocos de orquestra como Filipeia, Vinte e Cinco Bichos e Zé Pereira.

Nos meus tempos de criança e adolescente, onde o carnaval da capital paraibana se traduzia pelo corso, pelos clubes fechados e pelos desfiles de rua (hoje chamado de “carnaval tradição”), ao lado dos índios, dos maracatus (estes, completamente desaparecidos) e das escolas de samba, pontificavam os clubes de frevo.

Importante anotar que, pela proximidade e íntima vinculação histórica, o frevo pernambucano também era paraibano, por assim dizer, já que compartilhávamos, por gerações a fio, traços culturais muito semelhantes.

Dessa forma, o frevo, o maracatu, o coco, a ciranda, o reisado, o baião, o cavalo-marinho, o pastoril, os caboclinhos, a embolada, para citar alguns exemplos, sempre foram manifestações comuns aos povos pernambucano e paraibano.

A entrada dos clubes de frevo, por conta do prestígio do ritmo, na passarela do carnaval de rua de João Pessoa, com destaque para os desfiles do Centro da cidade e do bairro do Roger, era uma emoção à parte, pela força da batida e dos metais. Ao som da Vassourinha, não ficava ninguém parado. E, nem podia.

Nas minhas preferências de criança, nesse particular, havia uma força maior quando pintavam os Piratas de Jaguaribe. Afinal de contas, as histórias de piratas sempre povoaram muito acentuadamente as fantasias infantis.

As espadas, as bandanas, o tapa olho, o papagaio, todos esses símbolos eram muito fortes na cabeça das crianças. Tudo isso, misturado com o ritmo do frevo, estava feita a composição mágica a favor dos Piratas de Jaguaribe.

Desde então, o bloco jaguaribenho passou a fazer parte, não somente na minha cabeça, mas, na de muitos pessoenses, das principais referências do carnaval de João Pessoa, naquela parte indispensável que era o carnaval de rua.

Fora do carnaval, os Piratas desempenharam papel ainda mais significativo na vida da população de Jaguaribe, na condição de polo cultural aglutinador, forjando, mesmo, manifestações sensíveis próprias daquele bairro pessoense.

Tanto assim que um dos mais importantes movimentos musicais de raiz, em João Pessoa, o Jaguaribe Carne, personificado nas figuras de Pedro Osmar, Paulo Ró, Adeildo Vieira, e por algum tempo, de Chico César, dividiu o espaço cultural dos Piratas de Jaguaribe.

Impossível, portanto, a gente pretender fixar em textos traços memoriais pessoenses, sem falar nos Piratas de Jaguaribe Tão importantea para João Pessoa como qualquer outra das lembranças que estamos trazendo à luz.

Ao fim, lembrar que as iniciativas humanas são muito eficientes, quando alimentadas pela vontade, como um dia foi feito por Ariano Suassuna, em Recife, ao puxar o maracatu dos escaninhos do esquecimento, possibilitando a pujança que hoje voltou a representar na cultura recifense. O mesmo poderia ser feito por aqui.




Comentários


Comentar


Sidebar Menu