MEMÓRIA PESSOENSE: Luzia, Osires e a música - Sérgio Botelho




Se há uma inveja que tenho é de quem toca um instrumento. Tenho esperança, ainda, de conseguir aprender música o suficiente para superar tal desgosto. E se conseguir compor alguma coisa, morrerei, ainda que a contragosto, menos revoltado com a inconveniente partida.

Tenho, na parte mais positiva da minha memória de criança e adolescente duas figuras que muito me impressionaram, exatamente por força da ligação que elas tinham com a música: minha tia Zilinha (Osires Botêlho Viana) e a professora Luzia Simões Bartollini.

Houve dezenas de outras pessoas importantes para a música, homens e mulheres, na capital paraibana. Contudo, pela vizinhança ou parentesco, a minha memória preservou-as mais fortemente, sendo, esse, o único motivo – qual seja, os escaninhos da lembrança - para que ambas passem a fazer parte dessas Memórias Pessoenses.
Como já revelei, diversas vezes, morava na Arthur Aquiles, rua que descambava na Treze de Maio, vinda da Visconde de Pelotas. Era justamente na Treze de Maio onde tanto uma quanto outra residiam, e ensinavam música.

Nesse particular, é que foi alicerçada minha admiração: elas ensinavam o povo a tocar um instrumento. Professora Luzia Simões, principalmente, piano e canto orfeônico, e tia Zilinha, especialmente, acordeão, mas, também, piano.
Professora Luzia Simões, esta, ministrava aulas particulares de música naquela rua, próximo à Igreja das Mercês, pouco depois da rua Padre Meira, do lado esquerdo de quem ia na direção da Pedro II.

Mais do que essas aulas particulares, ela ensinava música regularmente em diversos colégios da capital, públicos e privados, tendo, inclusive, dirigido a prestigiada Escola de Música Antenor Navarro, em João Pessoa, sendo, hoje, nome de colégio estadual na capital paraibana.

Tia Zilinha possuía escola bem perto dali, no sobrado onde morava, na mesma Treze de Maio, repito, logo depois da Miguel Couto, no lado esquerdo do caminho de quem seguia na direção do Instituto Padre Zé. O seu mundo de professora de música era, inteiro, ali.

Bem que ainda me iniciei, tanto no piano como na sanfona, na Escola de Acordeão Mário Mascarenhas, denominação da escola dessa minha querida tia, homenageando o nome de um grande acordeonista, de fama nacional, na época. Mas, não segui em frente.

Prendo-me, agora, à Academia Mário Mascarenhas, em função de ter acompanhado mais intimamente, por motivos óbvios, o que ali ocorria, sob a direção de minha tia e, a partir de determinada época, em parceria com sua filha, e minha prima, Letícia Botêlho.

Não foram poucas as audições de final de curso de acordeão que assisti, no Teatro Santa Roza, onde as alunas concluintes da Mário Mascarenhas se apresentavam, formando um conjunto de acordeões fantástico.

Essas audições, recordo, ainda, começavam com a belíssima Lenda do Beijo, uma forma de música teatral espanhola, conhecida como zarzuela, executada pelas acordeonistas com uma marcação de palco bem ensaiada. Todas em traje de baile. O negócio era elegante.

Foram, portanto, essas duas criaturas, gentes que marcaram minha infância e adolescência, exatamente nessas posições de importância para a música pessoense em que foram inscritas na minha memória. Mulheres ousadas para uma época em que a elas era concedido o direito de apenas se dedicarem ao lar.

Rompendo barreiras, se tornaram guardiãs da música, numa cidade, como João Pessoa da época, onde o patriarcalismo espalhava ranços tão fortes que tão somente às mais destemidas mulheres era permitido o direito de rompe-los.




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