MEMÓRIA PESSOENSE: 1968 – carro em chamas em frente às Lojas Seta - Sérgio Botêlho



Há uma cena de juventude que não me sai da memória: em 1968, um carro pegava fogo no Ponto de Cem Réis, quase em frente às Lojas Seta para Homens, uma casa de comércio que ficava no prédio do Palace Hotel, na esquina com a Praça 1817.
O veículo em chamas, segundo me socorreu o ex-líder estudantil Marcus Paiva, morando em Brasília, era uma caminhoneta do estado. Isto, no auge do movimento estudantil do final da década de 60, pouco antes da edição do AI-5.

Mais uma vez, a estudantada havia ido às ruas de João Pessoa para clamar por liberdades democráticas, sem qualquer desconfiança sobre o chamado golpe dentro do golpe que estaria para acontecer em dezembro daquele ano, pela edição do AI-5.
Lembro de que assisti ao incêndio encostado em um baixo alambrado que servia de base às vitrines das Lojas Nações Unidas. Eu estava na companhia do saudoso Popó (Potengi Lucena) que fingia irradiar as tentativas policiais de apagar as chamas, cobrindo o rosto com um jornal.

Foi um tempo de muito envolvimento político da juventude que lutava não apenas por reivindicações específicas, mas, sobretudo, em defesa da democracia. O Clube do Estudante Universitário, o mítico CEU, no Cassino da Lagoa, do qual já falei, era uma das bases do movimento.

O carro incendiando no Ponto de Cem Réis é ainda uma cena que está na cabeça de todos os que viveram aquela época. Até hoje não se sabe quem foi que ateou fogo ao carro. O que sei é que os estudantes assistiam e vibravam.

Aquilo era o máximo da ousadia juvenil contra o poder ditatorial e creio que muitos até imaginaram que o fim da ditadura estaria próximo. Sei também que por conta disso, vários líderes do movimento foram aborrecidos pelos organismos de repressão tipo SNI e Dops.
Eldson e Marcus, presidente e vice-presidente do Grêmio Estudantil do Liceu Paraibano, o mais atuante dos organismos estudantis secundaristas de 1968, tiveram de responder a pesados interrogatórios.
Ao falar em Eldson e Marcus e sobre suas inúmeras idas a interrogadores da ditadura, é impossível esquecer a figura do então diretor do Liceu Paraibano, saudoso professor Ivan Guerra. Sem que fosse um esquerdista, Guerra nunca deixou que os dois – ou qualquer outro estudante do Liceu – fossem presos, sem que, rapidamente, ele aparecesse no local da prisão para acompanhar os interrogatórios.

A solidariedade de Ivan Guerra, enquanto educador, para com os estudantes do Liceu era emocionante, e lhe rendeu muitos dissabores junto aos órgãos de repressão. Imagino o que ele não passou naquele dia em que a caminhonete do estado ardeu em pleno Ponto de Cem Réis.

Deixo a digressão e continuo a escrever forçando a lembrança para o dia exato do evento, mas, nada. Sequer Marcus Paiva, ou Sílvio Osias (ainda criança, à época), são capazes de me ajudar neste esforço, apesar de lembrarem vivamente do fato.

De uma coisa, contudo, temos certeza, eu e esses meus ajudantes da memória pessoense: o incêndio não aconteceu no dia da Missa de Sétimo Dia dedicada ao estudante paraense Edson Luiz, dia de um dos protestos estudantis mais pesados já vistos em João Pessoa.

Hoje, mais de quatro décadas depois, é impossível pensar naqueles tempos sem emoção. O carro incendiado foi, com certeza, um ato de vandalismo. Contudo, mais vândala, ainda, era a realidade que estava sendo questionada, naquele momento: o regime ditatorial.




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