MEMÓRIA PESSOENSE: O CEU (Clube do Estudante Universitário) Sérgio Botêlho




Vivíamos o ano de 1968. A inquietude dominava o espírito da juventude internacional. Os jornais, rádios e a ainda jovem TV registravam movimentos estudantis em todas as partes do mundo. Os jovens diziam NÃO a um mundo cujos valores estavam desmoronando. E isto acontecia tanto nos países capitalistas quanto os ditos socialistas. Do Oriente ao Ocidente. O mundo inteiro assistia a uma transmutação de costumes definitivamente marcada na história. E, no Brasil inteiro a juventude mergulhou de corpo, alma e muita coragem nessa fantástica onda mundial.


Em João Pessoa a história não era diferente. Provinciana e cosmopolita, ao mesmo tempo, como sempre foi e continua sendo, a capital paraibana vivia plenamente a contemporaneidade. Os estudantes estavam nas ruas protestando contra tudo o que consideravam necessário ser transformado. As locações da resistência estavam geralmente nos prédios públicos que abrigavam escolas estaduais e federais, e faculdades. Esses prédios serviam de refúgio para quando era preciso fugir dos instrumentos de repressão de prontidão no Brasil inteiro, em João Pessoa, também, na época do autoritarismo. Um autoritarismo que, infelizmente, ainda viveria seu período mais perverso.

Um desses prédios da resistência estudantil era o Clube do Estudante Universitário, o CEU. Na verdade, era onde funcionava o restaurante universitário da UFPB, no prédio onde depois passou a existir o Cassino da Lagoa. Assembleias estudantis aconteciam regularmente naquele prédio aberto por todos os lados. As greves estudantes que se sucediam diariamente elegiam o CEU como sede de seu comando central, lugar permanentemente tomado por um maravilhoso tumulto que apenas cheirava a mudança e rebeldia.

O CEU marcou boa parte da vida pessoense das décadas de 50 e 60. Lembro de uma das mais importantes greves estudantis daquela época, que mobilizou universitários e secundaristas. A polícia do estado a serviço da ditadura estava acantonada no anel interno da Lagoa. De frente para o restaurante universitário. Mas, não entrava no CEU. Por alguns dias, foi assim. Em determinado momento, no entanto, e para correria geral, começou a invasão. Mais uma vez, jovens que lutavam pela liberdade e pela paz no mundo inteiro eram levados à prisão como se fossem simples bandidos.

O CEU foi também palco de históricos movimentos culturais. Em suas mesas de refeição forjaram-se projetos culturais que movimentaram a irrequieta João Pessoa daquela época. Época em que começaram a pontificar na capital paraibana elementos da categoria de Linduarte Noronha, Paulo Pontes, Ipojuca Pontes, Carlos Aranha, Cleodato Porto, Luiz Ramalho, Jurandy Moura, Wladimir Carvalho, Elba Ramalho, tudo em meio ao crescimento nacional do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.

Nesta série de crônicas breves que resolvi desenvolver para rememorar coisas, fatos, histórias, figuras, lugares e movimentos da história pessoense aproveito, portanto, para registrar a existência nas décadas de 50 e 60 desse bastião da liberdade e da luta contra o autoritarismo que foi o Clube do Estudante Universitário, o famoso CEU. Um local que serviu de verdadeiro cadinho para ideias transformadoras, e, por conseguinte, insuportáveis para os ditadores de então, e de todos os tempos.




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