MEMÓRIA PARAIBANA: Cachete Sérgio Botêlho




“Meu filho, estou com uma dor de cabeça danada e preciso tomar um cachete, você compra para mim ali na farmácia”, pediu-me, ainda eu criança, uma tia, residente em Aparecida, no Sertão paraibano. Era a primeira vez que eu ouvia falar na palavra cachete. De férias, também era a primeira vez que havia viajado ao Interior da Paraíba, deixando para trás João Pessoa. O que poderia ser um cachete?


Não precisou de muito tempo para que a tia percebesse minha confusão, e, mais ou menos surpresa pelo meu desconhecimento do termo, me resolvesse o dilema: “meu filho, eu queria que você me comprasse um Melhoral”. Pronto, aí eu entendi o que ela queria, e, enfim, pude ir à farmácia fazer a compra. Foi, na sequência, e após muita observação, que acabei compreendendo a palavra “cachete” como referente a qualquer tipo de comprimido, seja lá qual fosse.

Pois é. Ainda hoje os sertanejos costumam chamar comprimido de “cachete”. Nesses dias, em Brasília, conversava a respeito com o repórter Genésio Araújo, cearense de quatro costados, que me deu sua versão sobre a palavra “cachete”. Segundo ele, a maioria dos remédios, antigamente, procedia da Suíça. Os grandes laboratórios se localizavam naquele país europeu. Então, nas caixas de medicamentos estava assinalado “tantos cachés”, na língua francesa, uma das que se fala na Suíça. De “caché” a “cachete”, foi um pulo. E ficou, até hoje!

Não consegui, pelo tradutor do Google, que nos socorre no dia a dia dos tempos modernos, comprovar a tese de Genésio. Como sinônimo de “caché” veio a palavra “oculto”. Gostaria que algum leitor mais sabido na língua francesa – principalmente, em sua variante suíça – pudesse me esclarecer em definitivo a tese genesiana. Mesmo porque o tradutor do Google é muito primário e se limita a lhe dar uma solução bastante limitada em termos de significado da palavra que se busca a tradução. Assim, pode ser que comprimido, no sentido de remédio, ou cápsula, tenha um significado francês quem sabe próximo de “caché”.

Seja lá o que tenha originado o termo, solenemente, no Sertão, comprimido é mesmo “cachete”. “Tomar um cachete” significa, portanto, tomar um comprimido. E a pessoa fala a outra com tanta convicção sobre a necessidade de “tomar um cachete” que passa a impressão de que todos em sua volta sabem exatamente o comprimido específico sobre o qual aquela pessoa está se referindo. Talvez pelo costume em tomar o mesmo remédio, há anos, por conta de uma posologia de uso contínuo, e imutável.
Procurando razões para “cachete” na WEB, me deparei com versos fantásticos, e com eles, encerro esta minha crônica de hoje. São versos da lavra do cordelista Ismael Gaião da Costa, nascido em Recife-PE. O cordelista pernambucano foi premiado na 4a Recitata-2009, da Fundação Cultura da Cidade do Recife, e assina a coluna Colcha de Retalhos, do jornal Besta Fubana. Ismael é engenheiro agrônomo, funcionário público federal, lotado na UFRPE – Estação Experimental de Cana-de-açúcar de Carpina. O cordel, que se chama “No Nordeste é diferente, é assim que a gente fala”, é longo, mas, dele extrai uma das estrofes, que, na sequência, encerra esta crônica.
(…)
Aprendi desde pivete
Que homem franzino é Xôxo
Quem é medroso é um Frouxo
E comprimido é Cachete
Sujeira em olho é Remela
Quem não tem dente é Banguela
Quem fala muito e não cala
Aqui se chama Matraca
Cheiro de suor, Inhaca
É assim que a gente fala




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