MEMÓRIA PESSOENSE: Fogo no paiol do 15 RI - Sérgio Botêlho




Nunca foram escutados tantos pipocos em João Pessoa, como naquela madrugada, às vezes parecendo, até, rajadas de metralhadora. Morteiros também explodiam e o barulho era ensurdecedor. Apurando o ouvido, dava para perceber que o “tiroteio” estava acontecendo para as bandas de Cruz das Armas. Literalmente, tocou horror em João Pessoa naquele dia.

Pouco a pouco a notícia ia ficando mais precisa: a zoada acontecia no Quartel do 15º Regimento de Infantaria, o famoso 15 RI. Cenário, em 1930, de uma batalha entre revolucionários liberais e defensores do governo Washington Luiz, a muitos pareceu que, em plena ditadura, o histórico quartel podia estar sendo palco de outro embate político.

Lembro que, dia claro, cessado o barulho, as famílias trocavam informações sobre o que teria ocorrido no “15”. Pouca coisa, no entanto, vazou para a opinião pública. Apenas a certeza de que o tumulto teria mesmo partido dali. A procedência acabou firmada após comentários de gente que residia no ABC, bairro que fica vizinho ao Quartel, inclusive composto por residências de militares a serviço justamente do quartel do paiol “conflagrado”.

Segundo o relato dessas pessoas do ABC, e, também, de parte de Jaguaribe, aquele povo viveu inevitável angústia, uma vez que, apesar de próximos, seus moradores não sabiam exatamente o que estava acontecendo. As mulheres corriam pelas ruas do bairro ainda de camisolas, enquanto os militares se apressavam em chegar ao Quartel para tomar parte de alguma providência, vestindo suas fardas pelo caminho.
Pouco a pouco, ao menos para essas pessoas mais próximas do inusitado evento, a verdade foi aparecendo. Tudo foi sendo esclarecido (“foi o paiol que pegou fogo!”) com o retorno dos militares às suas casas.

O incêndio do paiol do 15º RI foi certamente um desses episódios que marcaram época em João Pessoa. Um vexame que deve ter provocado grande frisson no Comando. O pior foi que o acidente, em virtude de toda a paranoia vivida pelas sociedades civil e militar brasileiras, acabou sendo, mais adiante, posto nas costas de estudantes que lutavam contra o autoritarismo.

Isto mesmo: meses depois, jovens estudantes tiveram que responder pela azáfama, debaixo de torturas, sendo aquele o ano em que mais plenamente valeu o Ato Institucional nº 5, editado em dezembro do ano anterior. Presos por motivos diversos, que, aliás, será tema de outra crônica, esses jovens foram também enrolados no incêndio do paiol do “15”.

A parafernália armada em torno do incêndio do paiol do “15”, ai incluídas as tentativas de responsabilização improcedentes, deixa uma lição que, por sorte, aprendemos finalmente: o valor da democracia. Erros que possam provocar incêndios em quartéis, ou em qualquer outro lugar do mundo, existiram e vão continuar existindo. O autoritarismo e suas paranoias é que não devem mais nunca vigorar em nosso país.




Comentários


Comentar


Sidebar Menu