A vida do médico Marinônio Lopes de Mendonça - Francis Lopes de Mendonça



 Há médicos que são comerciantes da Saúde e há médicos que são movidos por compaixão, a exemplo do meu saudoso avô Marinônio Lopes de Mendonça, que foi médico em Cabedelo, cidade portuária da Paraíba entre o rio e o mar, nos tempos em que os médicos eram diferentes dos médicos de hoje.

Claro, tinham de ser porque o mundo era diferente na década de 50. Os hospitais eram raros e raros também eram os laboratórios. Como uma espécie de Sherlock Holmes, valendo-se de pistas mínimas, meu avô tinha de descobrir o criminoso que deixava suas marcas no corpo do doente.

Naquele lugar abandonado e miserável, a inteligência dele era decisiva. Meu avô era um herói solitário que atendia na sua farmácia unha encravada, cachumba, desidratação, bronquite, pneumonia, parto, prisão de ventre, resfriado, crupe, disenteria, gonorréia, berne, conjuntivite, furúnculo, hemorróidas, lombriga, dor de garganta, coqueluche, tosse de cachorro, verruga, indigestão e por aí vai.

E ele tinha de ser humilde, pois quando não havia mais jeito todo mundo recorria aos seus préstimos na luta contra a morte e o sofrimento frequentes. E com freqüência, meu avô recebia como pagamento uma galinha de capoeira, duas dúzias de ovos, um bode – e mais a eterna gratidão das pessoas humildes que tinham sido atendidas e não podiam pagar.

Deus no céu e o “seu Mário” na terra - eram as valias dos mais pobres. Hoje em dia, quando se pensa num médico, pensa-se em alguém portador de um conhecimento especializado: o listão deles se acha no catálogo da Unimed.

Cada médico é uma unidade biopsicológica móvel portadora de conhecimentos especializados e que executa atos sobre o corpo do paciente. No tempo do meu avô, era muito diferente.

Os médicos tinham, fora os conhecimentos, vocação para execução dos atos sobre o corpo do paciente. Mas o que fazia um médico não eram os seus conhecimentos de ciência médica.

A ciência médica era algo que lhe era exterior e que ele levava consigo como se fosse uma pastinha. É que qualquer um pode possuir conhecimentos científicos. Mas a alma de um médico não deve se achar nem no lugar do saber e nem no lugar do bolso, mas no lugar do amor, da compaixão.

O que devia caracterizar a nossa classe médica, mesmo – pelo menos no imaginário popular – devia ser o fato de ser movida por compaixão. Compaixão, na sua gênese etimológica, significa “sofrer com um outro”.

A compaixão devia ser a mais humana das características dos nossos médicos. Porque toda pessoa que procura um médico está sofrendo. E o nosso povo pobre é aquele que mais sofre e morre nas filas desumanas do SUS, esperando até seis meses por uma oportunidade de tratamento.

Bem que a nossa classe médica podia se inspirar na frase que eu vi escrita numa porta do Conselho Regional de Medicina: "O médico necessita ser um especialista em gente”. É esse tipo de sentimento transformado num princípio ético que todo médico brasileiro deveria ser obrigado a afixar no seu consultório, para nunca mais se esquecer...




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