AS COROAS DE DOM PEDRO - RAMALHO LEITE



 É da autoria de Sergio Corrêa da Costa e tem o prefácio de Osvaldo Aranha, ambos diplomatas, o livro “As Quatro Coroas de D.Pedro I”. A nossa história proclama que D.Pedro de Alcântara, da Casa de Bragança, foi deixado pelo pai, D.João VI, tomando conta da Colônia desde a data em que regressou a Portugal. Quando declarou o Brasil independente, D. Pedro foi ungido Imperador e ostentou sua primeira coroa. Nesse mesmo ano de 1822, a Grécia teria lhe oferecido o cetro e a oportunidade de governar aquele pais, como vereamos adiante. Por outro lado, a Espanha, desde 1826 queria D. Pedro como seu governante por ele “haver asombrado al mundo le arrancan la admiracion aun de los que no pueden gozar sus benefícios”. A Espanha reiterou sua oferta em 1829 e 1830. Ao abdicar do trono brasileiro e regressar à sua pátria, D.Pedro teve que enfrentar o irmão D.Miguel para poder sentar, definitivamente, no trono de Portugal, como D.Pedro IV.

Devo registar em rápida passagem os antecedentes que levaram a Grécia a oferecer a coroa de soberano a D. Pedro. Mesmo sob a opressão dos turcos, o povo grego não desapareceu. E no exemplo de sérvios, rumenos e búlgaros ergueu-se para conquistar sua libertação, pela força das armas. Era abril de 1821 quando Atenas cai em poder dos patriotas e os otomanos ficam isolados na Acrópole. A luta dos patriotas gregos pela independência prosseguia vitoriosa até que, em dezembro, reunida uma assembleia com 67 deputados, foi proclamada solenemente a independência e elaborada uma constituição que transformaria a Grécia em estado federal. Uma expedição punitiva tentou reverter o processo, contudo, foi rechaçada pela esquadra grega. Nessa altura, com o quadro aind a indefinido, um enviado grego, capitão Nicolau Chiefala Greco pede uma audiência a D. João VI para oferecer a seu filho a coroa da Grécia.

Para Portugal, não era um “presente de grego”, na interpretação que se dá hoje à expressão. Vivendo do ouro que vinha do Brasil e inconformado com a permanência de D. Pedro entre nós, o governo de Lisboa avaliava com correção que, a permanência do Príncipe do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, na América, significava a perda iminente da sua mais rica Colônia. A oferta da Grécia à Casa de Bragança foi um achado. Seria impossível a D. Pedro recusar a coroa grega, optando por permanecer naquela “terra ignara”. Ledo engano. O Príncipe, proclamado Defensor Perpétuo do Brasil, não traiu a confiança da terra que abraçara e amava verdadeiramente. Para tristeza das Cortes, recusou a coroa da Grécia.

Por outro lado, a Espanha atravessava uma fase de terror. As sociedades secretas comandavam as ações violentas. Os liberais eram caçados e, a simples filiação à Maçonaria era punida com a morte. Foram fechadas as universidades e dissolvidas as academias. Os poetas foram recolhidos aos conventos. A disputa pelo poder envolvia Fernando VII, apontado como um fraco pelos ultrarrealistas e seu irmão D. Carlos, este um absolutista que virou ídolo. O país caminhava para a anarquia. Esse cenário mobilizou os liberais espanhóis em direção a D. Pedro, Imperador do Brasil e grande “bienhechor de los Pueblos”. “Ele lhes pareceu, então, o único homem capaz de estancar a sangria que minava as energias da nação espanhola”. Os liberais, em documento firmado em Gibraltar em 24 de agosto de 1826, convocam Dom Pedro a cingir uma tríplice coroa: Brasil, Portugal e Espanha.

A situação da Espanha tendia a se agravar. Fernando VII não tinha descendência masculina e Dom Carlos se proclamava o herdeiro, com o apoio do partido apostólico que impedia a sucessão do trono por mulheres. Fernando restabeleceu a prevalência feminina em face da sua filha Maria Cristina, a quem confiaria o poder. Morto, repentinamente, em 1832, volta o clima de guerra entre os partidário da soberana, os “cristinos” e os “carlistas”. Um pouco antes, em 1829 os liberais voltaram a insistir com Dom Pedro para que fosse assumir o trono espanhol e restituir a paz à “pobre Espanha, ensanguentada pela guerra civil”. Mais uma vez Dom Pedro recusou em nome da consolidação do império americano. Depois, poderia pensar na Europa e transformar a Península Ibéria em uma grande nação.

Por vota de 1830 uma reunião conjunta de todas as sociedades secretas de Portugal e Espanha resultou na decisão de oferecer a D.Pedro o título de Imperador da Ibéria e de preparar os dois países para a aclamação do soberano comum. Um enviado de nome Barreros chegou ao Rio de Janeiro com essa missão. Acreditam alguns historiadores que esse oferecimento teria antecipado a abdicação de dom Pedro ao trono brasileiro que, reconhecendo como terminada sua missão na América, aceitaria reinar na Península após afastar seu irmão D.Miguel do trono de Portugal e seu tio D.Fernando do trono espanhol. O enfrentamento do seu irmão em Port ugal atrasou os planos de D. Pedro e invalidou a tese de transformar Espanha e Portugal em uma só nação sob a coroa do Imperador da Ibéria.

As razões dessas recusas, mereceu explicações de Osvaldo Aranha: “ Sua fidelidade à raça de que foi símbolo e flor tornou-o indiferente às simples aventuras da ambição. Nem a Grécia, com todo o brilho do seu passado imortal, nem a Espanha, com o luxo da sua riquíssima tradição peninsular e ultramarina, puderam fazê-lo desviar-se da linha instintiva: viver para o Brasil, morrer por Portugal”.

Pois esse português de nascimento e brasileiro por adoção, está agora sendo caricaturado por uma emissora de TV. O desrespeito chega ao ponto de se colocar mais uma “coroa” da cabeça de D. Pedro. Esta injuriosa e humilhante: criaram um romance entre sua esposa, a princesa Leopoldina e, José Bonifácio, o Patriarca. A ficção ultrapassa limites que a história repudia. Fica o meu protesto.

 




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