Nem lhe deram uma cova - Tião Lucena



 

Hoje eu revi Maurilio Javari, o grande amigo de Luiz Otávio.Eu disse grande? Pois menti. Maurilio foi o único amigo de Luiz Otávio. Tanto foi, que é, hoje, o único que ainda chora a sua morte. Os outros amigos de Luiz não era amigos de Luiz, eram amigos do radialista, gostavam de se promover às suas custas.Mas bastou Luiz morrer para ser esquecido por todos eles.

Maurilio me dá notícias de Luiz depois de morto. Ele não ganhou túmulo no Cemitério Senhor da Boa Sentença. Sua cova está escondida, debaixo de uma moita. E não tem letreiro identificando quem está debaixo da moita. Virou indigente. E eu me pego a pensar no Luiz em vida, no Luiz paparicado, chaleirado, endeusado, convidado para festas e rapapés, frequentador festejado dos salões palacianos, confidente de governadores, de desembargadores, de deputados, de senadores, até de arcebispos.
Maurilio está com artrose nos dedos. Artrose e artrite. E enviuvou. Depois de muito procurar, achou o amor da sua vida. Mas o romance só durou três anos. A moça morreu de câncer e Maurilio ficou só. Já ficara só com a ausência do seu amigo Luiz Otávio. Agora ficou na solidão que ronda a viuvez.

Ele chorou. Eu o deixei chorar. Chorar é bom para o coração.

Mas me peguei a pensar no que o futuro nos reserva. A morte, essa coisa certa na nossa existência, nos revela uma ingratidão enorme. E me dei razão por ter decidido abrir mão dos afagos gratuitos. Não vou aos restaurantes de tapinhas nas costas, não compareço aos canapés praieiros. Eles são superficiais. Eles são uma fábrica daqueles amigos descartáveis que viviam ao redor de Luiz Otávio.

Quando eu morrer, já sei que nem visita desse povo vou receber no velório. Mas de logo abro mão delas. Contentar-me-ei com um toco de vela que algum vagabundo boêmio, de noites indormidas e de tetos incertos, colocar na minha mão.




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