Sou intensa, não faço parte da turma dos mornos - Leila Araújo



 Sou tão intensa que posso me apaixonar pela pessoa no primeiro encontro, na primeira conversa e me desapaixonar completamente no segundo. Definitivamente, não faço parte da trupe dos mornos onde tudo fica no meio termo, naquele chove e não molha, nos joguinhos infantis de esconde esconde, no medo de demonstrar sentimentos, na sensibilidade que habita frases como "Vamos com calma." Não! Sou aristotélica: Ou é, ou não é; ou é oito ou é oitenta; ou está frio ou está calor; Ou eu amo ou eu sou completamente indiferente.

O que eu percebo nas pessoas é uma falta de intensidade descomunal, as pessoas vivem na constante superfície. Não há entrega, os desejos tem a profundidade de um pires, o interesse é tão curto quanto o cérebro e tudo isso permite que o medo seja o carro chefe de qualquer relacionamento que não se preze. Pra mim, que não coloco as pontas dos dedos na água da piscina para ver se a água está fria, mas mergulho logo de cabeça porque a água sempre estará mais quente na superfície banhada pelo sol, e fria por fria a intensidade de sentir o inesperado é o que me interessa, vejo esta questão com um certo pesar e desdem porque as pessoas morrem de medo de sofrer, mas não percebem que sofrem mesmo assim e sofrem por ter medo de sofrer, de se entregar, de se machucar.

Vai sofrer assim mesmo porque não viveu, porque não se entregou, porque não amou, porque não se permitiu expor. A exposição é mesmo para poucos, porque só os conscientes de si permitem e não têm medo da mazelas que ela, inevitavelmente, nos traz. .

E eu que sou a intensidade em pessoa, que me entrego até o último fio de cabelo mesmo consciente que me derreterei como açúcar de tanto chorar caso o fim seja inevitável e deixo sangrar até quase virar hemorragia, acho esse superficialismo o maior drama a nos degradar nos dias de hoje. E detesto o drama porque ele nos mantém inertes no meio termo nos deixando seguros no passado, ausentes do presente, distantes do futuro.Mas amo a tragédia, porque ela é o impulso que te remete ao passado, te chacolha no presente e te lança para o futuro.

Os dramáticos consomem o drama, os trágicos vivem a tragédia sem consumir dela. Para o trágico o fundo do poço tem sempre uma enorme mola. Para o dramático o fundo do poço é o fim, e este é o medo dos que vivem no superficialismo- o fim. Confesso, sem qualquer pudor, que tenho mais medo do superficialismo que se fez estrada para grande maioria das pessoas desse novo tempo que do fim. O fim sempre nos impulsiona, o superficialismo padece no eterno nem lá nem cá da gangorra dos mornos. Mergulhem de cabeça ou pereçam com os dedos como termômetros a aferir a eterna superfície.




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