Leila Araújo fala das cenas de terror que viveu



 Quinze para as fucking quatro da manhã. lembro que minha filha falou pra eu fechar a casa há horas atrás, vou na sala fechar a janela, vou para a cozinha Imagino alguém entrando em casa, fico com um certo medo e rapidamente afasto o pensamento, embora ainda sinta uma certa presença ruim.
Abro a geladeira e resolvo comer um pãozinho - vai ser bom para dar uma acordada, tenho alguns compromissos logo mais. A presença ruim continua, sinto um arrepio estranho.


Uma sombra.
E lá está ela, a barata.
Andando bem calmamente pela cozinha, a bicha é enorme, cascuda, insolente. dou um belo dum grito AI SENHOR ME PROTEGE (a gente fica numa religiosidade nessas horas).


Respiro fundo. Eu sou adulta, eu tenho trezentas vezes o tamanho dela. Só que ela continua andando. Ela me olha (sim, ela tava me olhando, eu tenho certeza).
Me lembro que no banheiro tem remédio de inseto, pego o spray e volto decidida a matá-la. no caminho, penso na escala de ódio que o vizinho sentiria caso eu acordasse ele agora: "amigo, é muito sério, tem uma barata do tamanho de um cavalo dentro da minha cozinha, meu pão tá lá dentro aberto esperando o recheio, eu não vou conseguir dormir, viver, criar minha filha, sabendo que um ser dessa magnitude coabita o meu lar".

É, ele sentiria ódio, melhor preservar a amizade.
Volto. não encontro mais a tal. Não tenho coragem de entrar (vai que ela tá entrada esperando pra se jogar em mim com mais três colegas do mesmo tamanho?), lanço uns jatos de spray ao vento, coisa que pra ela deve ser channel number five, né?
Ela deve inclusive gargalhar do baygon inútil que eu tenho. Tô até imaginando esse inseto dos infernos na maior gargalhada do mundo.

Mas cês acham que ela ficou sumida rindo de mim? ficou nada. Voltou a desfilar pela cozinha, me ignorando solenemente - Começo a achar que esse horário é dela, não meu. melhor ir dormir.
Não.
Em uma atitude corajosa e madura, resolvo encerrar logo essa baboseira (e esse texto): Detetizo toda sala pra ela não passar, saio correndo, me tranco no quarto e fico pensando quantos anos terei que viver trancada aqui até que eu esqueça das cenas de terror vividas essa noite.




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