O machadiano Dr. Simão Bacamarte moderno - Virgolino de Alencar

 No conto “O Alienista”, Machado de Assis cria e descreve o inusitado cenário da Vila de Itaguaí, onde o Dr. Simão Bacamarte, médico, metido a cientista freudiano, funda a Casa Verde, um asilo para o qual ele leva os loucos da cidade, internando-os compulsoriamente.

 

No seu experimento, Dr. Bacamarte chega à conclusão de que os loucos que ele internara não eram tão anormais assim, dando alta e liberando todos. E, na sua visão um tanto distorcida, os alienados a merecerem internamento eram os cidadãos antes considerados normais. E compulsoriamente vai internando as pessoas da cidade, criando um ambiente de verdadeiro terror.

Mutatis, mutandis, o Brasil está se transformando na Vila de Itaguaí, e há, sem uma identificação clara, como uma força oculta, um Dr. Bacamarte com uma Casa Verde, em endereço não revelado. As experiências desse Dr. Bacamarte do Brasil do século XXI está causando terror idêntico ao personagem de Machado de Assis.

 

O novo cientista freudiano, que não mostra a cara, suprimiu a primeira etapa da experiência, deixando soltos e livres os loucos e os bandidos assassinos do país, que passaram a ser seus serviçais. A sua ação está sendo diretamente sobre os cidadãos normais, que ele está forçando-os a se trancarem em casa, porque, se saírem às ruas, serão levados para a Casa Verde que, no caso brasileiro, só sairá de lá para o cemitério. Se não for internado, o perigo é mesmo, em decorrência da morte por bandidos, assaltantes, acidentes de carros e trens ou por explosões de aviões adredemente preparados pelo oculto Dr. Bacamarte, para espatifarem-se em colisão no ar ou em pistas de aeroportos que funcionam como cilada para os passageiros.

Dr. Simão Bacamarte da era atual é ativo, vigilante, tentando a todo custo, todo dia, o ano inteiro, empurrar cidadãos para o internamento em sua Casa Verde, cidadãos honestos, trabalhadores, criadores e produtores de bens, serviços e ideias para a sociedade.

O cidadão que tem sua morada financiada a alto custo, que adquire seu automóvel com dificuldade, que precisa viajar de avião a serviço ou a negócio, vive à espreita do perigo que lhe cerca pela atividade do Dr. Bacamarte, que o tem como alienado, como elemento perigoso para o poder representado pelo auto-nomeado purificador das mentes.

 

Os auxiliares e enfermeiros desse Dr. Bacamarte estão em eterna vigilância, patrulhamento diuturno, censurando o que o cidadão pensa, o que o cidadão expressa pelos meios de comunicação, vigiando o que o cidadão faz, sendo objeto da fúria dos adeptos do bacamartismo o fato de ser um componente da classe média esclarecida, que não aceita e não engole os experimentos e as ações do pseudo-psicoterapeuta e sua estranha teoria.

 

Portanto cidadão honesto, sadio, trabalhador, que pensa e se expressa livremente, muito cuidado, porque os serviçais do invisível Dr. Bacamarte estão de olho em você e podem, compulsoriamente, mandá-lo para a Casa Verde.

Como o de Machado de Assis, o Bacamarte atual afirma que a questão é ideológica, tratando-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo é ele mesmo. “Reúno em mim a teoria e a prática” diz auto-suficiente. Porém muitos acham, como achavam os conterrâneos do Bacamarte machadiano, que não há alienados em Itaguaí/Brasil, a não ser o próprio Dr. Simão da época moderna.


No Brasil real, vamos levar o novo Dr. Bacamarte para o Pinel.





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