MEMÓRIA PESSOENSE: O prédio de A União na Praça João Pessoa - Sérgio Botêlho




Até início da década de 1970 o conjunto arquitetônico que formava o espaço urbano centralizado pela Praça João Pessoa era bem mais harmônico do que o existente na atualidade, harmonia perdida em função do desafinamento provocado pelo prédio onde ainda hoje funciona a Assembleia Legislativa.

No lugar da AL o que existia era o prédio da Imprensa Oficial, órgão de comunicação oficial do Estado, responsável pela edição diária do jornal A União, do Diário Oficial do Estado e de outras publicações eventualmente do interesse do governo.
(Em prédio no Distrito Industrial, o jornal União, fundado em 02 de fevereiro de 1893 - portanto, há 25 anos -, continua a ser editado diariamente, sendo o único órgão de imprensa, diário, pertencente ao Estado, no país. A Editora A União também segue publicando o DOE).

Inaugurado em 1926, o prédio da Imprensa Oficial passou a fazer companhia aos da Escola Normal (hoje, Tribunal de Justiça da Paraíba), do Palácio do Governo, da Igreja Nossa Senhora da Conceição (demolida em 1929), e da Faculdade de Direito.
É verdade que entre esses prédios havia séculos de diferenças, já que o conjunto formado pelo Palácio do Governo, da Igreja Nossa Senhora da Conceição e da Faculdade de Direito, obras dos jesuítas, datavam, ainda, dos séculos XVI e XVII.
Contudo, os estilos dos anos 1920 impressos nos prédios da Escola Normal e de A União terminavam não eram, assim, tão radicalmente desconformes com os de seus vizinhos mais antigos na praça, do que aconteceu com a chegada do prédio da AL.
No centro desse conjunto, estava a então Praça Comendador Felizardo Leite, antes, chamada, pela ordem cronológica de Pátio do Colégio, Largo do Paço, Jardim Público, e, depois, a partir de 1930, batizada de Praça João Pessoa, até os dias de hoje.

Com a plausível justificativa de dar uma sede definitiva ao Poder Legislativo, aproveitando, ainda, para constituir, em João Pessoa, uma praça com os três poderes, o então governador Ernani Sátyro resolveu derrubar o histórico prédio da Imprensa Oficial.

De nada adiantaram, e me lembro bem, as resistências manifestadas pela gente da intelectualidade contrária àquela intervenção urbana – resistências, naturalmente, tímidas, tendo em vista o regime autoritário vigente -, pois o prédio foi colocado no chão.

Em seu lugar foi erguido o atual prédio da Assembleia Legislativa da Paraíba, visivelmente destoante do conjunto arquitetônico geral, confirmando os temores manifestados pelos que fizeram resistência à derrubada do prédio antigo de A União.
Curioso é que ao longo da década de 70, outros prédios históricos foram derrubados pelo Brasil afora, como se a intenção dos governos de então fosse apagar a história. Um dos exemplos foi a demolição do Palácio Monroe, no Rio de Janeiro, até hoje lamentada pelos cariocas.

Outra curiosidade é que foi o próprio Ernani quem construiu, inaugurou e começou a usar um centro administrativo, onde passaram a funcionar os órgãos estaduais do governo, e, inclusive, um Palácio dos Despacho, em Jaguaribe, fora da Praça João Pessoa, desconjuntando, na prática, a Praça dos Três Poderes.

Certamente, uma intervenção desse porte não seria feita nos dias de hoje, onde a preocupação preservacionista é muito maior, junto com o poder de mobilização popular. Mas, naquela época, o que fazer? Hoje, é só lamentar.

MEMÓRIA PESSOENSE: Ágaba e Sady - Sérgio Botêlho



Fazia pouco mais de um ano que em São Paulo acontecera a Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, uma reunião de artistas que impôs profundas modificações nas artes brasileiras, com fortes repercussões nos costumes.
Na verdade, a década de 20 - logo após a I Guerra Mundial, da qual o Brasil participou por meio de tropas enviadas à Europa – ficou conhecida como um momento de importantes mudanças nos costumes por todo o mundo ocidental.

As mulheres adotaram comportamentos mais desamarrados de cânones religiosos e sociais extremamente rígidos, vigentes até o Século XIX, e, então, livraram-se dos espartilhos, passaram a mostrar as pernas, metidas com a moda das melindrosas, e a usar maquiagem.

Dessa forma, a Semana de 22 marca, no Brasil, esse movimento por mais liberdades a sacodir o mundo, ao lado do Tenentismo, um movimento de jovens oficiais do Exército que percorreram o Brasil na defesa do voto secreto, e de reforma na educação pública.
No Rio de Janeiro, desde 1919, a cientista Bertha Lutz, filha de Adolfo Lutz, outro cientista famoso, dera início à luta pelo voto feminino, fundando a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

Contudo, a Paraíba continuava dominada, mais do que nunca, por arraigadas ideias patriarcais, sem qualquer sopro de modernidade, algo que, apenas, embalava os sonhos contidos da juventude pessoense.

As mais importantes instituições de ensino na capital paraibana eram o Lyceu (assim, com ‘y’, como na época) e a Escola Normal. O Lyceu, no prédio que depois passou a ser a Faculdade de Direito, e a Escola Normal, no local onde hoje funciona o Tribunal de Justiça.

A separar os dois educandários, a Praça Comendador Felizardo Leite, que depois da morte de João Pessoa passou a ter o nome do ex-presidente da Província, assassinado pelo advogado João Dantas, em Recife, em 26 de julho de 1930.
Preocupados com as paqueras entre as moças da Escola Normal e os moços do Lyceu, as autoridades educacionais da época, dominadas pela Igreja e seus dogmas mais conservadores, proibiram que rapazes “estacionassem” na calçada da Escola Normal.

Para garantir o cumprimento da ordem, foi determinado que a Guarda Civil montasse prontidão no local, em nome dos bons costumes e em defesa da família na capital paraibana. E, assim foi feito.

Estava, assim, composto o quadro político-social para a tragédia. Num sábado, em 22 de setembro de 1923, o jovem Sady Castor Correia Lima, do Lyceu, chegou-se até a calçada da Escola Normal, em nome de uma paixão chamada Ágaba Gonçalves de Medeiros, da Escola Normal.

Logo foi abordado por um guarda civil, vulgo Guarda 33, daí estabelecendo-se uma discussão que resultou na execução sumária do jovem Sady. Para completar a tragédia, 15 dias depois, Ágaba se suicida, causando enorme comoção na sociedade pessoense.

Revoltados, os estudantes do Grêmio 24 de Março, do Lyceu, promoveram manifestações pela cidade, em protesto contra as mortes, tendo como objetivo derrubar aquela retrógrada determinação. Ao fim e ao cabo, apenas o Guarda 33 acabou penalizado.

A história de Ágaba e Sady não deixa nada a dever aos mais célebres personagens de Shakespeare, representando um contraponto importante, e sinistro, ao tradicionalismo, ao coronelismo e ao patriarcalismo que marcaram a história paraibana.

Creio que, como disse a Luciano Henriques, que sugeriu a recuperação da história, ser esse um tema do maior significado para um filme. Não sei o porquê de, até hoje, isso não ter sido realizado, assim como já aconteceu com outra história pessoense, igualmente trágica, de Anayde Beiriz e João Dantas.

De minha parte, está, aí, recuperada a história de Ágaba e Sady, que, embora não faça parte de minhas memórias, por óbvio, não pode ser apagada, jamais, das memórias pessoenses, em sua parte mais triste.

(Recorri às informações contidas em brilhante tese de Doutorado, defendida por Favianni da Silva, na Universidade Federal do Ceará, intitulada “O Caso Sady e Ágaba: O Crime da Praça Comendador Felizardo Leite e a Revolta dos Estudantes do Grêmio 24 de Março na Parahyba de 1923”, afora pesquisas na Wikipédia, e no texto “Sady e Ágaba: Uma trágica história de amor”, no blog culturapopular2.blogspot.com.br)
(Foto de 1921 da Praça Comendador Felizardo Leite (atual Praça João Pessoa), palco da tragédia Ágaba-Sady, ainda com o coreto no centro. Aos fundos, o prédio da Escola Normal, atualmente Tribunal de Justiça da Paraíba. Crédito da foto: História Crítica-Universidade dos Andes)

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MEMÓRIA PESSOENSE: as tardes de xadrez no Cabo Branco - Sérgio Botêlho




Havia mais tempo que a sede central do Cabo Branco era ocupada por enxadristas. Pelo que pesquisei, isso acontecia, desde a década de 50. Cheguei no final da década de 60 e início da década de 70, e parte da turma era a mesma, onde pontificava o doutor Arnaldo Tavares.

Segundo tomei conhecimento pelas pesquisas que fiz - evidentemente, para saber mais sobre o assunto -, eram contumazes frequentadores, desde o princípio, Fernando Amaral Marinho, Jeová Mesquita, Romero Peixoto, desembargador Espínola, Arnaldo Carneiro Leão e Herul Sá. Muitos desses continuavam nos fins de 60 e começo de 70.
Eu não gosto de citar nomes nesses artigos que faço de memória já que frequentemente esqueço de quem não deveria esquecer, e, nesse sentido, espero ser corrigido por quem de direito que venha a ler essa crônica.

Das pessoas com quem convivi nas disputas de xadrez no Liceu Paraibano e na Federação de Xadrez, em Manaíra, lembro de Fernando Melo (presidente da Federação), de Frank Lins (enxadrista mais festejado da época), Washington Rocha, Ivo Bechara, Silvino Espínola, José Mário Espínola, Rômulo Marinho, Arnaldo Tavares (filho) e Flávio Tavares... e, a memória falhou, pois tinha muito mais gente.

Jogar xadrez no Cabo Branco do centro não era privilégio somente dos associados. Desde que o eventual interessado tivesse a mínima noção do que estava fazendo com as pedras no tabuleiro, era muito bem-vindo.

O importante era o jogo, que era jogado da maneira mais rápida que existe na modalidade, o chamado xadrez relâmpago, onde, em cinco minutos, ou o sujeito conclui o jogo ou o jogo estava perdido. Dois relógios, um para cada contendor, avançam ou param ao toque da mão do jogador.

O combinado era esse a fim de que houvesse oportunidade à todos, já que era elevada a quantidade de jogadores que ficavam por ali, peruando, esperando sua vez. O silêncio era a regra geral, mas, quem podia impedir as gozações dos jogadores, eventualmente?

A sala ocupada pelos enxadristas era a primeira sala, à direita, logo depois do hall de entrada onde se postavam aqueles sócios mais antigos do Cabo Branco, diariamente, a rever amigos de velhas jornadas e jogar conversa fora.

Na parte de cima do Cabo Branco ficava o pessoal do carteado e da sinuca, estabelecendo, no conjunto, um grande movimento, ainda mais com o restaurante que funcionava no térreo, ao pé da escada, na parte final da sede.

De vez em quando chegava em João Pessoa algum enxadrista famoso nacionalmente e o Cabo Branco servia de local para a realização de partidas chamadas simultâneas, por conta de o famoso jogar com vários enxadristas ao mesmo tempo.

É uma forma de jogar que exige bastante daquele que está se exibindo, como grande-mestre que tem de ser no jogo de xadrez, ainda mais pelo fato de os competidores não serem, embora teoricamente mais fracos, tão bobos, assim.

Hoje a sede do Centro não pertence mais ao Esporte Clube Cabo Branco, pois teve de ser leiloada para honrar dívidas, embora esteja, graças à intervenção do Estado, em pé, e intocável, a provocar saudades, nos velhos frequentadores ainda vivos, em função dos momentos de glória patrocinados por um dos dois clubes sociais mais famosos da história de João Pessoa.

E foi acatando a sugestão da amiga Neuza Cavalcante, leitora que é dessas mal traçadas memórias pessoenses, que resolvi adiantar o assunto, já no prelo. Ao passar pela sede central do Cabo Branco, nesses dias, bateu um banzo em Neuza, e, ao me fazer a comunicação do referido banzo, ela acabou me contagiando.

MEMÓRIA PESSOENSE: Oca do Piá - Sérgio Botêlho



Há equipamentos de lazer, do tipo bares, em João Pessoa, que se fizeram efêmeros, mas, que deixaram suas marcas, seja pela localização ou pelo cardápio ou pelas bebidas que eram servidas ou o conjunto dessas coisas. O fato é que não desapareceram, e “zé fini”.

Um desses equipamentos funcionou vizinho ao Edifício Cannes, na urbaníssima praia de Tambaú, no mesmo espaço onde tempos depois se instalaria o icônico Maravalha-Clube dos Solteiros, que já foi assunto de artigo nesta série de memórias pessoenses.
Na época, Tambaú estava desenvolvendo a vocação de centro de divertimento preferido da população pessoense, pois, desde o início da década de 50 que a avenida Epitácio Pessoa recebera calçamento, facilitando o deslocamento de massas humanas cada vez mais numerosas àquela praia urbana, para curtir ou para morar.

É por esse tempo que começaram a surgir novos bares e restaurantes na orla marítima a se juntarem ao Elite Bar que, durante anos, reinou absoluto na orla marítima, e que ainda haveria de brilhar muito pela década de 70 afora.

Lembro, hoje, da Oca do Piá, um barzinho maneiro, como se diz na modernidade, que servia tira-gostos simples, afora cerveja, whisky e o indefectível Ron Montilla, uma verdadeira coqueluche das décadas de 50-60, normalmente entornado com Coca-Cola, formando a dupla conhecida como Cuba Libre.

Calculo a data de funcionamento da Oca do Piá como sendo entre os anos de 1966 e 1969, já com o edifício Cannes construído, esta, uma obra de 1965 segundo estudo da arquiteta e urbanista Patrícia Alonso de Andrade, intitulado Verticalização em João Pessoa-Produção do Espaço e Transformações Urbanas.

O formato do bar era mesmo de uma oca, imitando uma cabana indígena, havendo muitas mesas do lado de fora, pois, dentro, o espaço era mais diminuto e não cabia tanta gente quanto o bar terminou acolhendo em alguns dias de glória.

A Oca do Piá entrava em função tanto durante o dia quanto a noite, podendo ser entendido, no turno da noite, como local de aquecimento para noitadas mais endiabradas pelas discotecas-boates que iam surgindo, na época.

A cobertura do bar, naquele formato de cabana indígena, era de palha, mesmo, transformando o local em algo singular na vida noturna da capital paraibana, especialmente na orla marítima, que ia se transformando, aos poucos.
Tambaú foi palco de outros bares que fizeram sucesso por determinados momentos, como, por exemplo, a Moeda, se o espírito não me engana, do mesmo Pedro que era dono do Pietros, na Lagoa.

A Moeda, já na década de 70, palco de jornadas intermináveis de cerveja misturada com o jogo do xadrez, ficava praticamente vizinho ao edifício São Marcos, quase de frente para o Hotel Tambaú, na mesma Avenida Tamandaré onde existia a Oca do Piá.
O que caracterizava a Oca do Piá era mesmo o ambiente diferentemente decorado. Mas, lembro que havia um bom atendimento dos garçons, incansáveis a servir piratinhas e piratões para a turma, normalmente, majoritariamente de jovens.

Penso que os vizinhos do Edifício Cannes não deviam gostar muito da Oca do Piá devido ao natural barulho dos amantes da alegria. Problema, evidentemente, transferido, com acréscimo de algazarra, para o Maravalha.

Pois, assim, fica inscrito nessas memórias pessoenses o bar Oca do Piá que, um dia, desapareceu do mapa, mas, que não ficou esquecido, merecendo estar sendo lembrado, agora, aqui, no maravilhoso Facebook.

MEMÓRIA PESSOENSE: Corrinha - Sérgio Botêlho




Entre as primeiras notícias que recebi nesta quinta-feira, 11, pela manhã, uma delas provocou, em mim, imensa tristeza. Lena, minha irmã, chorosa, me informou que Corrinha havia morrido.

“Como, assim?! A morte apagou o sorriso de Corrinha?! Não podia ter começado o dia de forma mais terrível do que essa. Logo, grupos do whatsapp e gentes e grupos do Facebook começaram a divulgar a notícia, ao mesmo tempo que os blogs noticiosos.

Junto com a notícia, a indefectível foto da grande rainha do Cafuçu, espalhada nas redes sociais, chocava pela alegria que sempre a caracterizou, com aquele sorriso largo, permanente, sincero, ingênuo e profundamente emocionante, de toda a sua vida. Impossível não chorar!

Nascida em Cajazeiras, Corrinha chegou em João Pessoa para cativar - da mesma maneira com que já se comportava em sua terra de nascimento - a todos com quem fez amizade, distribuindo sua marca registrada, que era aquele sorriso.

Mulher de seu tempo, Corrinha não se eximiu de participar ativamente dos movimentos que se lhe apresentavam como afirmativos, a exemplo de sua atuação no processo de consolidação do movimento dos professores, na Ampep.

Daí para o Folia de Rua, e para o Cafuçu, foi um passo normal, assumindo, rapidamente, uma a uma as características de uma pessoense imensamente identificada com a terra que ela escolheu para derramar sua alegria contagiante.
Me perdoem, mas, tive que suspender o post que havia programado para hoje, sempre levado ao ar entre as 19hs e as 20hs30min, de cada dia, no Facebook, para que pudesse inscrever, desde já, na parte mais saudosa das memórias pessoenses a nossa querida Corrinha.

Pois bem. Embora pareça inacreditável, Corrinha agora é saudade. Ela passa a compor as figuras inscritas nas lembranças indeléveis da história da capital paraibana, no escaninho da felicidade e dos fatos positivos de João Pessoa.
Escrevo, confesso, buscando conter as lágrimas e, nesse esforço contínuo, penso que Corrinha está apenas voltando ao planeta de onde veio, primeiro para Cajazeiras e, depois, para a nossa terra querida, nossa, e, mais do que evidentemente, dela, também.

É porque começo a achar que Corrinha apenas está retornando a um espaço onde todos vivem sorrindo, um território onde moram eternamente os encantados, assim como ela, agora, sempre e sempre sorrindo.

E, nesse devaneio, ponho-me a pensar que seu retorno deve ser muito mais motivo de felicidade, para todos nós. Receio, assim, que possa estar sendo extremamente egoísta em desejar reter, entre nós, um espírito de luz tão brilhante, quanto foi Corrinha, quando sua terra se encontra, na verdade, em outro plano mais elevado e mais feliz.

Mas, o fato é que existe a saudade, sentimento que passa a nos dominar, irresistivelmente, a partir de agora, algo que nem Corrinha, em sua extrema bondade e alegria, vai conseguir arrancar de todos nós que com ela convivemos.

Queira Deus que um dia possamos todos nos encontrar com ela, e, neste momento, rir e rir muito, zombando das infelicidades que teimam em vir se apresentando, nestes tempos terríveis, dos quais nossa amiga mangou enquanto pôde.

Vá em paz, querida amiga!

MEMÓRIA PESSOENSE: o Underwood - Sérgio Botêlho



Não foram poucos os educandários, na história da Educação, em João Pessoa, incluídos no rol das instituições do tipo “pagou-passou”. Sendo privada (mas, não confessional), era o suficiente para o disse-me-disse ter início, algumas vezes com histórias “verídicas”, do tipo “eu vi” ou “quem me disse foi alguém de lá, mesmo”.

Não creio que tenha havido outra instituição na capital paraibana a sofrer mais esse tipo de ataque do que o Underwood, escola, que, nas décadas de 50-60, existia na Duque de Caxias, por trás do prédio de A União (que depois, virou aquele troço desconexo do conjunto arquitetônico da Praça João Pessoa, onde funciona a Assembleia Legislativa).

As histórias ganhavam mais cores, ainda, por ser um educandário onde a maioria dos alunos tinha origem nas camadas sociais menos favorecidas. Sendo assim, a fama passava a ser ainda mais forte, na suposição de que alguém de mais posses tenderia, mesmo, a ser beneficiado, por sua condição, e, portanto, corresse para o Underwood à procura de aprovação.

Na verdade, tratava-se, coisa que pouca gente procurava saber, de uma Escola Técnica de Comércio, dirigida pela professora Osmarina de Almeida Carvalho, na verdade, uma instituição dedicada, desde os idos de 1928, a formar, entre outros profissinais, técnicos em Contabilidade com destino à atividade comercial.
Tomei conhecimento mais detalhado da história buscando informações na Internet, como sempre faço, sobre o assunto que pretendia postar, aqui, no Facebook, parte dessa série dedicada à memória pessoense. A memória, pura e simples, apenas me conduzia à lembrança do Underwood e da carga existente contra a instituição.
Assim, pesquisando, me deparei com um texto resultado de pesquisa acadêmica realizada pelo Grupo de Pesquisa em História da Educação Contábil (GHEC) da Universidade Federal da Paraíba – Campus IV – Litoral Norte, na cidade de Mamanguape, assinado por José Jassuipe da Silva Morais e António Gomes Ferreira, ambos, doutores em Educação.

Foi a professora Osmarina, fiquei sabendo por conta do texto, a responsável, depois de intensa e incansável batalha por apoio ao Ministério da Educação e Saúde da época, para construção daquele prédio próprio da Duque de Caxias, quando a Escola Técnica de Comércio Underwood deixou a General Osório, um prédio alugado.

Segundo apuraram os pesquisadores, a escola mantinha os cursos Básico de Comércio, Técnico de Comércio, mas, também, Jardim da Infância, Primário, Preparatório ao exame de admissão, Datilografia e Estenografia (Taquigrafia). Foi possível saber, ainda, que o Underwood, assim como todos os colégios da época, era rigoroso no quesito disciplina.

Mas, há, sobre a Escola Técnica de Comércio Underwood, elementos, na pesquisa, que contribuem para a sua má-fama, perto do fim, fruto, precisamente, das crescentes necessidades de recursos, da concorrência da Academia de Comércio Epitácio Pessoa, e da diversificação dos cursos, para além dos especificamente destinados a formar trabalhadores para o Comércio.

Porém, segundo os pesquisadores, enquanto foi possível, a professora Osmarina conseguiu concretizar o propósito original da educação para o trabalho, mesmo enfrentando forte repercussão negativa na imprensa paraibana, quando do seu fechamento, que aconteceu na década de 1960.

MEMÓRIAS PESSOENSES: Bandas marciais de 60 - Sérgio Botêlho



Os desfiles colegiais de Sete de Setembro, em João Pessoa, eram cercados de muita beleza plástica, com as escolas secundaristas se esmerando no fardamento, nas alegorias e nas evoluções. Uma beleza!

Em meio a tudo isso, havia as bandas marciais, um espetáculo à parte! E, nesse tempo aconteciam, mesmo, os concursos envolvendo as bandas, o que geralmente significava uma disputa de grande competitividade.

No meu tempo, as três bandas que mais fortemente disputavam a preferência de eventuais jurados, e, aplausos do povo, eram as do Getúlio Vargas, do Liceu Paraibano e do Lins de Vasconcelos.

Também havia as bandas do Pio XII (esta, aqui e acolá, fazia bonito) e da Escola Técnica Federal (que também não fazia feio), que eu lembre. Cheguei a participar das bandas do Lins e do Liceu.

Falo, deixe esclarecer, dos desfiles de Sete de Setembro até os anos 60, uma vez que, após os anos 70, uma nova banda de um novo colégio particular acabou incluída entre as melhores, que foi a do IPEP.

Além dos movimentos coletivos sincronizados, das batidas diferenciadas e corretamente executadas, dos novos dobrados (simples, porque feitos para instrumentos de sopro sem grandes possibilidades musicais), algumas dessas bandas tinham suas balizas.

No caso, as que mais se utilizavam da apresentação de belas moças, a provocar a felicidade da rapaziada, eram as bandas dos colégios particulares, principalmente as do Lins de Vasconcelos e do Getúlio Vargas (onde brilhava minha amiga, querida, Marilda Macedo).

À frente de toda a banda, incluindo o maestro, as balizas realizavam acrobacias e deslocamentos sincronizados diversos, envolvendo muitos dos movimentos da ginástica artística, revelando força, equilíbrio, concentração e graça.

As balizas compõem, ainda hoje - porque as bandas marciais não morreram - um conjunto visual que ajuda bastante no desempenho da banda como um todo, podendo ser consideradas como expressão mais em evidência do espírito do grupo.

Os desfiles de Sete de Setembro eram geralmente realizados no conjunto urbano composto pelo circuito interno do Parque Solon de Lucena e avenida Getúlio Vargas, com o Cassino da Lagoa servindo de palanque para autoridades.

Alguma vez, o circuito envolvia a Praça da Independência, a Corálio Soares de Oliveira, com dispersão na Getúlio Vargas. Houve ano, ainda, que o palanque das autoridades foi armado na Getúlio Vargas. Tempos depois, é que a Beira Rio foi utilizada.

Ao menos três instrutores de banda me vêm à memória, e eles eram disputados pelos colégios da mesma forma que são os técnicos de futebol: Velosinho, Inácio e Luis da Banda. Mas, havia outros que a memória resolveu trair.

Afora os desfiles de Sete de Setembro, na capital, outros momentos de belas disputas entre as bandas tinham vez na cidade de Carpina, em Pernambuco, quando se apresentavam bandas de outros estados nordestinos.

Ficam, assim, registradas, nessas memórias pessoenses, as bandas marciais dos colégios pessoenses que brilharam, principalmente na década de 60. E quem lembrar mais, que conte.

MEMÓRIA PESSOENSE: As matinais carnavalescas da AABB - Sérgio Botêlho



 
“Me lembro tanto e é tão grande a saudade, que até parece verdade, que o tempo ainda pode voltar (...) E frevo ainda apesar da quarta-feira no cordão da saideira vendo a vida se enfeitar”. Um tempo desses, havia as matinais da AABB.

Nos tempos em que no carnaval de João Pessoa brilhavam os clubes, onde se destacavam o Cabo Branco e o Astrea (sem esquecer, naturalmente, os animados carnavais do Clube dos Sargentos, em Jaguaribe), havia um outro clube, comandado pelos funcionários do Banco do Brasil, que tinha o seu próprio brilho.

Enquanto o clube de Miramar e o de Tambiá se revezavam, à tarde (para a criançada), e à noite (para os adultos), a AABB realizava seus carnavais, sem concorrentes, pela manhã.

A disputa pelos convites e ingressos para as matinais da AABB era grande, e, na hora da folia, os carros ocupavam os espaços ao longo de Pedro II, já que o estacionamento do clube restava impossibilitado de atender os foliões.

Herói musical dos carnavais pessoenses, em todos os clubes à disposição, o maestro Vilô e sua orquestra por vários anos abalou o pequeno salão da AABB, abrindo com a Vassourinha para levantar os foliões.

Falar em pequeno salão, tal limite físico nunca foi empecilho para que as matinais da AABB atraíssem tantos foliões, em busca da mais pura alegria, e, se possível, de encontrar uma cara metade para uma diversão ainda mais ao gosto de Momo.
Os brincantes, então, pulavam mesmo nas mesas, no bar do clube, na rua, no estacionamento, em tudo quanto era de canto, já que o som da orquestra alcançava bem mais longe do que exigia o espaço que era oferecido pelo clube.

O frevo pernambucano e as marchinhas de carnaval eram mais do que suficientes para sustentar a folia, até o seu final. Capiba e Nelson Ferreira eram nomes que, com suas composições, davam um brilho extra ao carnaval das terras irmãs de Pernambuco e Paraíba.

“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon cadê teus blocos famosos, Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apôs-Fum, dos carnavais saudosos”. Era o momento do frevo-canção de Nelson Ferreira a aumentar os encantamentos entre os namorados.
Mas, logo voltava o tumulto maravilhoso quando a orquestra puxava Capiba: “Eu quero ver carvão queimar, eu quero ver queimar carvão, eu quero ver daquí a pouco pegar fogo no salão”. E, não dava outra, as dependências da AABB pegavam fogo.
E o cheiro de lança-perfume rescendia no salão, misturado aos confetes e às serpentinas e às vozes em coro dos foliões braços para o alto e as pernas se confundindo no embalo daquele ritmo absolutamente mágico.

As matinais da AABB duravam a tarde inteira e chegavam à boca da noite. Os foliões mais comedidos aproveitavam um espaço de quatro ou cinco horas para um cochilo, precedido de necessária reidratação e um pouco de alimento. Os mais dispostos, pegavam direto.

Porque, depois, era embarcar nos carnavais do Astrea e do Cabo Branco, até o dia raiar, numa pisada que ia até a quarta-feira, de manhã, quando, não raramente, a orquestra a animar o Cabo Branco deixava as dependências do clube puxando os foliões até a praça, senão, ninguém ia embora.
Houve um tempo que era assim.

MEMÓRIA PESSOENSE: O Ponto de Cem Reis - Sérgio Botêlho



 
Reginaldo ainda está no mesmo local, ali naquela ponta da calçada do Paraíba Palace Hotel, mais perto da Praça 1817. Boquinha, que tinha o seu negócio mais próximo da Duque de Caxias, infelizmente, segundo me informa Cristiano Machado, faleceu, e quem toma conta do ponto é sua filha.

Estou falando de dois tradicionais pontos de venda de jornais e revistas, da Paraíba e do Brasil, que, há décadas, funcionam no Ponto de Cem Réis, e que serviam de ponto de encontro e muita conversa sobre política e demais assuntos do noticiário, diariamente, em grupos de pessoas das mais variadas tendências ideológicas ou partidárias, em décadas anteriores.

Já não havia mais o Café Alvear, cujo ambiente foi tão bem descrito pelo mestre Gonzaga Rodrigues, e que, de alguma forma, se assemelhava com o que continuou sendo o Ponto de Cem Reis, posteriormente, com as bancas de jornais, e, ainda, o Café Santa Rosa e o Café São Braz, cada um na sua época, e do seu lado.

Nomear as figuras que frequentavam aquelas conversas diárias, com maior afluência, nos finais de tarde, é um risco evidente, já que a memória, certamente, será traiçoeira e muito capaz de deixar que um ou outro nome escape, o que termina se configurando em clara injustiça para quem acabar esquecido.
Mas, eram muitos, desde jornalistas, passando por intelectuais, escritores, poetas, gente ocupada ou desocupada, aparentemente doidos e aparentemente sãos, curiosos e desatentos, todos, por ali, parados no tempo, sem pressa alguma, porque os apressados passavam, enquanto a conversa continuava, em voz alta, senão ninguém ouvia.

O Ponto de Cem Reis, principalmente ali perto daquelas duas bancas de jornais, se constituía em um verdadeiro sarau público e espontâneo, porque não programado, e, justiça seja feita, tanto antes da construção do Viaduto Damásio Franca quanto depois que o equipamento urbano dividiu o espaço daquela Praça Vidal de Negreiros, e, ainda, a opinião pública.

O que mudou foi o alambrado de metal separando a calçada do ‘abismo’, lá embaixo, por onde passavam ônibus e carros, vindos da parte baixa da cidade na direção da Lagoa do Parque Solon de Lucena. Alambrado, este, que, justiça seja feita, serviu bastante para acomodar as pessoas que, nele, passaram a se encostar ou se debruçar.

E o papo rolava solto. Foi por ali que se passaram os chamados anos de chumbo, onde, independente dos arapongas de plantão, discutia-se a plenos pulmões a situação do governo, onde, críticos e defensores, se digladiavam, em meio ao avanço do tempo e dos acontecimentos, ao redor. Era algo meio que irreal, mas, muito verdadeiro e desassombrado.

Pois bem. Hoje me deu uma saudade do Ponto de Cem Reis, danada, especialmente desses tempos de tanta conversa, por ali por perto dos jornaleiros Reginaldo e Boquinha, do Café Santa Rosa e do Café São Braz, da barbearia do Paraíba Hotel, e de sua calçada. Tempos bons, que, mesmo mantidas algumas características locais, não é, hoje, a mesma coisa.

Foi no Ponto de Cem Reis onde o velho Mocidade pronunciou vários de seus discursos, contra ou a favor, pois posicionamentos políticos pouco importavam ao velho tribuno. Também era ali que o poeta Caixa d’Água costumava fazer suas declamações aos ouvidos atentos dos espectadores eventuais.

Considero aquele espaço urbano de João Pessoa uma espécie de guardião a céu aberto do espírito pessoense, já que por ali transitaram, durante séculos, com certeza, a esmagadora maioria de nossa gente, e, ainda, dos que passaram pela capital paraibana, ou que na Paraíba do Norte resolveram acampar.

MEMÓRIA PESSOENSE: Liceu Paraibano - Sérgio Botêlho



Quando pusemos os pés no Liceu Paraibano, em 1967, o colégio representava um dos principais centros de ensino da Paraíba, sendo os seus cursos Científico e Clássico os mais conceituados do estado.

Às gerações mais novas, uma explicação: o que se chama hoje de 2º Grau, na época era denominado de Científico (de Engenharia e de Medicina, separados) e de Clássico (para quem iria seguir Direito e demais cursos de Humanidades).

O Liceu era uma espécie de funil para os que pretendiam ingressar na Universidade Federal da Paraíba. Ali estudavam os que haviam concluído o Ginasial (hoje, as quatro últimas séries do 1º Grau), tanto nas escolas de ensino público quanto nas de ensino privado.

Carregando o peso de ter sido o centro de formação intelectual mais importante da Paraíba, desde a época do Império, por onde passaram líderes políticos, poetas, escritores, críticos literários e cientistas que fizeram história no estado e fora dele, o Liceu era um grande desafio para todos os que ali chegavam.

Firmava-se em todos um sentimento de enorme orgulho pelo fato de estar frequentando a mesma escola pela qual já passaram essas pessoas. Você estava, afinal, no mais tradicional colégio de ensino de todo o estado.

Para quem vinha das escolas de ensino privado, o primeiro choque era o da liberdade. Afora a disciplina no interior do colégio, evidentemente, em seus corredores e salas de aula, o controle da chegada no Liceu nada tinha a ver com o que havia, por exemplo no Pio XII, Lourdinas, Colégio das Neves, Pio X ou Lins de Vasconcelos.

Você podia perder a primeira, ou até a primeira e a segunda aulas, mas, chegar para a terceira. Sebastião era o inspetor geral do Liceu, na minha época, duríssimo, e, até, mal digerido pelos estudantes, na época (depois, até virou amigo). Mas, ele nada podia fazer contra os ‘atrasados’, no horário.

Quando ingressei no Liceu, a instituição era dirigida pelo professor Ivan Guerra, extraordinário diretor, que, mesmo diante do arbítrio, nunca deixou alunos do Liceu, líderes do movimento, principalmente, abandonados diante de detençoes efetuadas pelo regime.

Outro choque, este, de forte e maravilhoso impacto, era o encontro, nas mesmas salas de aula, de rapazes e moças, tanto uns quanto outros, em sua maioria. acostumados, nos tempos de ginásio, a escolas específicas para meninos e meninas.

Ah! Aqueles canos do muro da frente do Liceu, onde moças e rapazes sentavam à vontade para bater papo em intervalos de aulas! Aquilo era uma magia, uma felicidade, uma libertação, exatamente numa época em que o mundo experimentava profundas transformações de costumes, justamente capitaneadas pelos jovens.

Nas páginas de jornais, você encontrava greves quase no mundo inteiro, tanto em países capitalistas quanto comunistas, em sua esmagadora maioria, comandadas pela juventude, que ouvia Beatles e Rolling Stones, afora The Woo, Jane Joplin, Jimi Hendrix etc etc.

Na França, por exemplo, quase a juventude tomava o poder em 1968, durante uma greve que paralisou o país, o que não aconteceu por conta da decisão do movimento operário francês, comandado pelo Partido Comunista, de se retirar do movimento. Os jovens, no entanto, permaneceram nas trincheiras.

Esse era o clima que envolvia os estudantes do Liceu Paraibano naquela segunda parte da década de 60. E, daquela geração, somente não surgiram grandes líderes para o futuro do estado do próprio país porque o regime autoritário resolveu fechar todas as portas da Democracia, em dezembro de 1968, com o AI-5, prejudicando, enormemente, a própria vida pessoal dessas lideranças, e o futuro deles, enquanto quadros dirigentes, para prejuízo da Paraíba e do Brasil.

MEMÓRIA PESSOENSE: Cavaco chinês - Sérgio Botêlho



Armado de um cilindro, às costas, e tocando sem parar um triângulo, o vendedor de uma iguaria bastante famosa, principalmente nas décadas de 50 e 60, em João Pessoa, se anunciava com boa distância.

Não tinha menino que não ficasse alvoroçado para que os pais comprassem aquele alimento, cujo gosto mais se parecia com o da hóstia distribuída pelos padres durante as comunhões, só que, no caso, mais marronzinha.

Tratava-se do conhecidíssimo cavaco chinês, principalmente por quem viveu essa época, ofertado como se fosse uma espécie de canudo, bem sequinho e crocante, mas, que, uma vez na boca, se desmanchava como se fora mesmo uma hóstia.
O cavaco chinês, que, conforme pesquisei, não tem nada de chinês, podendo ter origem portuguesa ou indiana, é classificado na categoria dos biscoitos e feito por meios quase artesanais, mantendo aqauele gosto suave.

Nas décadas de 50 e 60, os vendedores de cavaco chinês se misturavam a outros vendedores de porta em porta, além dos prestadores de serviços diversos, cada um com uma forma diferentes de se anunciar.

Além dos cavaqueiros, vamos chamá-los, assim, tinham os amoladores de tesoura, os soldadores de panelas, os encanadores, os compradores de vidros quebrados ou inteiros, e de tudo o que fosse de velharia imprestável, em casa.
Alguns desses, até, já mencionei em artigo de outro dia, aqui, mesmo, no Face, a exemplo dos compradores de jornais velhos, e dos próprios prestadores de serviços, agora relembrados, neste artigo do momento.

Lembro, por exemplo, que verduras, frutas, inhame, macaxeira, tudo isso era vendido na porta das casas, pelos verdureiros animados e de vozes empostadas, tais quais locutores experimentados de rádio.

Ao redor de João Pessoa, havia um imenso e saudável cinturão verde, em sítios espalhados pelo Roger, Mandacaru, Jaguaribe, Cruz das Armas, Marés, Oitizeiro, Rua do Rio, principalmente, a produzir hortaliças e frutas em módulos familiares.

Isso garantia aos pessoenses, então, diretamente, na porta de casa, adquirir produtos absolutamente desprovidos de agrotóxicos, que, por sinal, nem era coisa que se ouvia falar naquela época.

Registre-se que João Pessoa - assim como todo o Litoral e regiões mais próximas - sempre foi beneficiada por muita chuva, possuindo, portanto, terra fértil e muito própria à agricultura, hoje, infelizmente, inteiramente ocupada pelo avanço da urbanização.
Sem falar no tradicionais leiteiros, que, a partir desse mesmo cinturão verde, levavam leite do peito da vaca, como se costuma dizer, também às portas das casas. O cuidado era, apenas, para não se comprar leite com água. Já tinha muito malandro na época! rsrsrsrs

Mas, pelo menos não era leite pasteurizado ou mantido em caixas à base de conservantes misteriosos. Lembrando que até soda cáustica já foi encontrada, um dia desses, em inspeções realizadas pelos órgãos de controle do Estado

MEMÓRIA PESSOENSE: Nau Catarineta, em Cabedelo - Sérgio Botêlho



O folclore sempre foi muito forte na cidade de João Pessoa, especialmente em bairros como Torre, Cordão Encarnado, Roger, Mandacaru, Tambaú, e nas cidades de Bayeux, Conde, Alhandra, Pitimbu, Baía da Traição e Cabedelo, tudo parte da Grande João Pessoa, e quase tudo conurbado.

Mas, das minhas lembranças, com relação ao folclore, de infância e juventude, uma das mais fortes, ao lado dos cabocolinhos, no carnaval de rua, é a da Nau Catarineta, em Cabedelo, geralmente encenada no Forte de Santa Catarina, mas, também, nas tradicionais festas de São Sebastião, padroeiro cabedelense, na segunda metade do mês de janeiro.

O passeio a Cabedelo, algumas vezes, feito como tarefa escolar, outras, por puro prazer, já, de maior idade, nos punha em contrato com uma das mais belas e tradicionais manifestações culturais de origem portuguesa, largamente espalhadas pelo país.

Estive pesquisando, até para reavivar a memória, e acrescentar informações à lembrança da Nau Catarineta, e descobri que no bairro da Torre (originalmente, Torrelândia), havia um grupo popular que encenava a Nau Catarineta sob o nome de Barca, devidamente pela expedição folclórica coordenada por Mário de Andrade, em 1938.
Aliás, essa manifestação popular, que conta histórias dos tempos da navegação lusa pelos mares afora, toma vários nomes, além de Nau Catarineta, como barca, marujada, fandango e chegança-de-marujo.

“Truléu, léu, léu, truléu da Marieta, que nós somos marinheiros dessa Nau Catarineta”. Ao som dessa e de outras cantigas, cordões de marujos e de oficiais dançam marcada e dramaticamente reproduzindo dificuldades ou batalhas em alto mar.

Interessante anotar - diante dessa recordação de nosso folclore, hoje, tão relegado a segundo plano frente à globalização da cultura – isso, que estamos fazendo, ou seja, que essas manifestações populares já foram valorizadas a nível, mesmo, de obrigações incluídas em nosso sistema escolar.

Outra anotação: o insigne paraibano, Ariano Suassuna, inclusive, tem, entre suas obras, um musical armorial, à base de pífanos e rabecas, dedicado à Nau Catarineta, muito bonita de se ouvir, e que pode ser tranquilamente acessada pela Internet.
Estive, ainda ontem, conversando com a amiga Jânia Miranda, cabedelense de quatro costados, e soube que a Nau Catarineta continua se apresentando em Cabedelo, normalmente, o que é sensacional.

Principalmente, quando sabemos do declínio absoluto das manifestações folclóricas em João Pessoa, o que é péssimo não apenas como decepção por conta de um mero saudosismo, mas, como enfraquecimento dos nossos traços culturais.

Recordar a Nau Catarineta, tão expressiva como lembrança de infância e adolescência, é, obrigatoriamente, evocar os trabalhos um dia desenvolvidos por Altimar Pimentel, tenente Lucena, José Nilton, Dadá Gadelha, Osvaldo Trigueiro, entre outros, que dedicaram ou que continuam dedicando suas existências ao estudo e à preservação da cultura popular, na Paraíba.

Fica então marcada entre as memórias de João Pessoa, que venho postando, aqui, no Face, as excursões a Cabedelo, que, durante um certo período da infância, era distrito pessoense, para ver e ouvir, com deleite, as apresentações da Nau Catarineta.

MEMÓRIA PESSOENSE: Café Alvear - Sérgio Botêlho



Há uma obra definitiva sobre o significado do Café Alvear para a vida social e intelectual de João Pessoa, e ela foi escrita pelo mestre Gonzaga Rodrigues, um dos mais importantes cronistas brasileiros, em estilo e inspiração.

Em sua obra, Gonzaga rememora a importância sociológica e emocional do espaço onde se degustava o café, além de outras culinárias típicas de um Café, ali no indefectível Ponto de Cem Reis, hoje, tão dessemelhante.

O cronista mor de nossa província revisitou, em sua obra, uma época em que o Café Alvear servia de ponto de encontro para políticos e intelectuais de vários matizes, além de outras figuras, nem tanto, assim.

O Alvear servia como uma espécie de liquidificador de ideias, cujo resultado terminava por influir, mesmo, no mundo da política e na cabeça de jovens jornalistas ou idealistas na consolidação ou desmanche de teses em conflito no mundo real.

A impressão de Gonzaga, transmitida em sua obra, justamente de nome Café Alvear, são as de um jovem já imerso no campo das letras e das ideias, sobre o alcance sensível daquele ponto comercial tão cheio de significantes para a formação da vida pessoense.

Me limito a recordar outro aspecto do Café Alvear, este, extraído da memória de uma criança da década de 50, exatamente, eu, acostumado a levantar cedo pronto para uma vitamina de banana, um cuscuz Bondade, um pão da padaria Paraibana e uma xícara de café Alvear. Assim fortalecido, só restava zarpar para o Pio XII.

A gente acordava com o cheiro vindo da fábrica do Alvear, o preferido das donas de casa da época, que funcionava na Miguel Couto, bem próximo ao então Foto Condor, de Ariel e Arion, e daquelas barbearias, ali, algumas, ainda em plena função.

O nosso café do dia-a-dia era comprado naquela pequena fábrica onde o grão passava pela moagem, transformando-se naquele pó - pronto para, em casa, virar um delicioso café - a ser comercializado para o cidadão comum da velha capital paraibana.

Esse processo final da produção do café em pó era feito, ali mesmo, no Centro de João Pessoa, com a chaminé espalhando aquele aroma tão característico, e inconfundível, que já se tornara uma característica odorífica da cidade.

Evidentemente, falo de uma outra João Pessoa, que não a de hoje em dia. Era uma João Pessoa menos numerosa, evidentemente, mais romântica, mais devagar, e, por tudo isso, mais permissiva a uma fabriqueta dessas no Centro de sua urbe.

Para nós, que morávamos nas redondezas, a fábrica do café Alvear era uma mão na roda, não apenas por aquele cheiro de todas as manhãs, mas, sobretudo, pela proximidade geográfica entre a nossa casa e o ponto de venda.

Um dia, o Alvear fechou, e, lembro de minha mãe reclamando de que seria difícil encontrar, dali avante, um outro café em pó que merecesse a confiança das donas de casa de João Pessoa.

Louvava-se, já na época, a vantagem, em gosto e pureza para os consumidores, sobre outros cafés industrializados. Mas, acabou, e, hoje, faz parte, apenas, da saudade. Saudade de uma época em que João Pessoa tinha, em pleno Centro da cidade, uma fábrica de café.

MEMÓRIA PESSOENSE – Pindobal - Sérgio Botêlho




Uma das ameaças mais fortes e eficazes às crianças pessoenses nas décadas de 50 e 60 era Pindobal. “É bom estudar senão você vai para Pindobal”, diziam os pais, estabelecendo um verdadeiro estado de pavor a quem se revelasse preguiçoso para o estudo.

A chantagem acabou criando, sobre a Escola Correcional de Pindobal e o adjacente Abrigo de Menores Jesus de Nazaré, imagem de verdadeiro campo de concentração onde só deviam existir anjos do mal.

As duas instituições funcionavam no município de Mamanguape, na Fazenda Pindobal, que tem esse nome, certamente, por conta de abundante existência, no local, de palmeiras chamadas pindobas, nome dado pelos índios.

Era um horror! O nome Pindobal estabeleceu-se entre a criançada como algo na categoria de um verdadeiro inferno, onde crianças eram colocadas para sofrer, sem parar, apenas por não se disporem ao estudo.

Quem, durante certo tempo, dirigiu Pindobal foi o tenente Lucena, figura extraordinária e sobre a qual já dediquei um desses artigos sobre as memórias pessoenses publicadas aqui nesse espaço do Facebook.

Pois bem. Quando publiquei a memória do Tenente Lucena, tive o prazer da participação, por meio de um post, da amiga, também deste Face, Rosa Virgínia Lins, que, justamente, havia sido aluna do Abrigo de Menores Jesus de Nazaré, e pegou o período da direção do tenente.

Depôs, Rosa, naquele momento: “Concordo em tudo descrito ....episódio a parte...como interna do abrigo de menores Jesus de Nazaré onde tivemos oportunidade de cantar em um coral criado por ele {Tenente Lucena}, contávamos os dias para os ensaios pois nos trazia grande alegria...nos ensinou muito e até criou um meio empolgante de falar cantando nome da instituição nos dando prazer era assim ‘Abrigo de Menores Jesus de Nazaré xiiiiiiiiiiii doooooo’ era só alegria aqueles momentos...”.

Bom. Vocês estão vendo que o cenário de Pindobal não devia ser exatamente o que os pais daquela época pintavam a respeito, se constituindo em abrigo a histórias de pessoas que acabaram tendo, ali, fortes experiências de vida. E mudaram seus futuros.
E, vejam só, encontrei na maravilhosa Internet um manifesto bem recente da autoria de pessoas vinculadas a uma ONG, de nome Pindobal, em Mamanguape, se colocando contrárias à criação, pelo governador Ricardo Coutinho, de um sistema prisional na Fazenda Pindobal.

“Aquele lugar tem história em nossa cidade, onde diversas pessoas de lá saíram e conseguiram uma vida digna”, apelam os signatários da carta, em determinado trecho, revelando o carinho com que Pindobal é tratado pelo povo mamanguapense.

Decorre da argumentação a certeza da existência de muita gente de bem, hoje, a exemplo da amiga Rosa Virgínia Lins, com fortes e positivos depoimentos a serem dados, em função da vida encaminhada ou reencaminhada nos bancos de PIndobal.
Creio, mesmo, que aquela experiência, que nos foi tão mal transmitida, um dia, possa receber cada vez mais apoio das autoridades, e, quem sabe, servir como belo argumento para um filme de elevado perfil artístico-educacional.

Pindobal, em Mamanguape, é memória pessoense, também.

MEMÓRIA PESSOENSE: Árvores que fizeram história - Sérgio Botêlho




As árvores, quanto mais ligadas às experiências coletivas, mais históricas elas se transformam. Há casos, até, de experiências individuais que acabam transformando as árvores em seres eternos, como é o caso do pé de tamarindo imortalizado por Augusto dos Anjos.

Há, pelo menos, três dessas árvores, na cidade de João Pessoa (ao menos, das que me recordo mais fortemente) que guardam enorme ligação com a vida pessoense, por décadas a fio, e que permanecem vivíssimas na memória de várias gerações da nossa capital.

De comum, elas possuíam um elevado porte e se erguiam majestosas no cenário urbano da Cidade da Paraíba, derramando sombra generosa por vasta área onde haviam fincado suas enormes e portentosas raízes.

Uma dessas árvores ficava bem no caminho que muitas vezes percorria quando retornava do Pio XII ou, mais tarde, do Lins de Vasconcelos, para a minha residência, ali, mesmo, no Centro da cidade.

Falo num belo pé de ficus que existia na Praça Rio Branco, mais para a Duque de Caxias, bem em frente à antiga Rádio Patrulha e ao lado da Delegacia da Receita Federal. Era um verdadeiro monumento da natureza.

Passaram-se décadas – podendo, mesmo, ter chegado à condição de árvore centenária – da existência daquela imensa árvore naquele pedaço da área central de João Pessoa, a desafiar a passagem do tempo e a urbanização da capital paraibana.
A outra, é uma gameleira que havia no Roger, também, por décadas, e que passou a ser referência a moradores e a quem quisesse melhor se achar naquele tão tradicional bairro de João Pessoa.

A gameleira do Roger é uma dessas árvores de maior carga poética na história da cidade das Acácias, fazendo parte da memória espontânea, não apenas da população local, como, ainda, de todos os que, um dia, passaram por baixo ou ao largo de sua sombra.

Em sua existência, no cruzamento da Gama e Melo com a Dom Vital, a gameleira do Roger acabou substituindo o próprio nome da rua, já que a Dom Vital passou a ser conhecida, durante o tempo de vida da árvore, como rua da Gameleira.

A outra dessas árvores ficava no início da praia de Manaíra, na altura do antigo Elite Bar, e, certamente, alcançou mais fama que as outras duas sobre as quais estou falando, já que fez sucesso na Paraíba e outros estados.

A gameleira servia de refúgio contra o sol a quem procurava a praia, em João Pessoa, vindo dos mais diversos municípios do estado, e, também, é claro, da própria capital paraibana. Era ali perto o ponto final do bonde e dos ônibus urbanos com destino a Tambaú, e das ‘sopas’ turísticas que chegavam do Interior.

O tempo, junto com o crescimento da malha urbana pessoense, aí incluídas, é claro, as calçadas e o asfaltamento das ruas, se encarregaram de matar esses espécimes da flora que, por muito tempo, embelezaram João Pessoa.

Há outras histórias de árvores famosas em João Pessoa, especialmente, em Jaguaribe e Cruz das Armas. Mas, infelizmente, não fazem parte da memória que foi captado por minhas retinas, na querida João Pessoa.
Quem souber, que conte mais...

MEMÓRIA PESSOENSE: Polícia Mirim - Sérgio Botelho



Na década de 60 deu-se início, em João Pessoa, a uma malfadada experiência no campo da repressão a menores. Note-se que a violência envolvendo menores, naquela época, tinha alguns, porém, bem menos parâmetros a ver com a violência de hoje.
Era uma violência, para início de conversa, em meio a uma população muito menos numerosa que a de hoje, embora, pelas mesmas razões, fincadas na miséria. Mas, ainda, sem a motivação extra no tráfico de drogas.

Os meninos de rua, na década de 60, eram poucos e conhecidos pelos nomes. Ao menos, os que se aventuravam a perambular pelo Centro, furtando aqui e ali. Em geral, viviam nos cinturões de pobreza, como sempre, nos limites as áreas periféricas da capital paraibana. Ou seja: regiões onde as famílias passavam, e, ainda passam, por dificuldades extremas para sobreviver.

Porém, achou-se, na época, que era necessário vestir meninos como soldados, arma-los com cassetetes, e solta-los nas ruas para prender outros meninos que, na mesma situação deles, os policiais mirins, também eram muito pobres.

A sede da Polícia Mirim, se não me falha a memória, ficava na Diogo Velho, ao lado da então Faculdade de Enfermagem hoje Residência Universitária Feminina, já bem perto da esquina com a Pedro II.

Não precisa dizer o medo que a pirralhada tinha da tal Polícia Mirim, especialmente as crianças que moravam no Centro, ou no Roger, Cordão Encarnado e Jaguaribe, caminhos naturais desses meninos vestidos de policiais.

Para nós, que não sabíamos exatamente o que aqueles policiais mirins combatiam, qualquer coisa que estivéssemos fazendo - e as crianças do Centro brincavam muito nas ruas e nos parques, principalmente na Lagoa - era motivo de apreensão.
Decorrente desse estado permanente de apreensão, a Polícia Mirim conseguiu estabelecer um certo estado de beligerância entre a ‘corporação’ e a criançada. Não foram poucas as escaramuças havidas entre crianças, nos bairros, e os policiais mirins.
De vez em quando, a gente escutava, nos colégios, façanhas contadas, por colegas, de brigas ocorridas em vários bairros da cidade. O fato é que forjou-se uma forte animosidade das crianças para com a Polícia Mirim.

O final da Polícia Mirim, em João Pessoa, é como um enredo de desfecho previamente sabido, pois, acabou em uma tragédia que continua sendo chorada por todos quantos dela (da tragédia) se recordam.

A indelével marca ainda hoje pode ser vista à direita de quem entra pelo principal portão do Cemitério Senhor da Boa Sentença, representada pelo túmulo de uma menina de 13 anos, um dos mais visitados do nosso principal ‘campo-santo’.
A sepultura, lotada de ex-votos e velas acesas, sempre, é de uma criança chamada Maria de Lourdes, que, acusada de roubo por seus patrões, acabou sendo levada à Polícia Mirim, “para confessar o crime”.

Depois de seviciada, foi morta a porretadas por aqueles despreparados policiais-crianças, sob o comando de algum celerado, louco para arrancar uma confissão capaz de agradar a família acusadora.

Pena que, mesmo após essa, e outras tragédias que tais, ainda exista quem considere que o caminho para combater a violência é a violência, e, não, o investimento em escolas e na melhoria de vida das populações mais necessitadas.

MEMÓRIA PESSOENSE: Os velhos ‘cinemas’ - Sérgio Botêlho



A minha mais forte e saudosa lembrança das salas de projeção cinematográficas da João Pessoa das décadas de 50 e 60 é a representada pelas matinais de domingo no Cine Rex, que funcionava na esquina da Duque de Caxias com a Peregrino de Carvalho.

Antes, tínhamos que ir à missa, logo bem cedo, celebrada pelo Padre Juarez na vizinha Igreja da Misericórdia. Depois, vinha a diversão, no cine Rex, onde uma das atrações que mais prendiam as crianças eram os cine-seriados.

Do lado fora (na calçada da Peregrino de Carvalho) do “cinema”, denominação normalmente usada para designar as salas de projeção de... cinema, havia a venda ou troca livre de figurinhas que preenchiam os contumazes álbuns vendidos pelos “fiteiros” (bancas de revista).

Na sequência, as sessões eram barulhentamente acompanhadas pela meninada, especialmente nos velhos filmes de faroeste ou de aventuras. Depois de prender a respiração nas cenas em que os bandidos pareciam se encaminhar para uma indesejada vitória, a criançada explodia em palmas e vivas e pancadas nas cadeiras acolchoadas do Rex quando o “artista”, enfim, vencia a parada. Era uma alegria maravilhosa!

Com a inauguração do requintando Cine Municipal, em 1965, o Centro de João Pessoa passou a abrigar seis salas de cinema: o próprio Municipal e o também requintado Plaza (ambos, na Visconde de Pelotas), o citado Rex, o Cine Brasil (na descida da Guedes Pereira), o Cine Felipeia (na esquina da rua General Osório com a da República) e o Astoria (também na Rua da República). Confesso que não lembro perfeitamente se quando da inauguração do Municipal o Astória ainda funcionava. Mas, na década de 50, sim.

Na cidade baixa, vizinha ao Centro, havia, ainda, o Cine São Pedro, na São Miguel, nos limites do Cordão Encarnado, bem próximo ao Cemitério da Boa Sentença.

Praticamente cada bairro de João Pessoa tinha a sua sala de cinema, ente as décadas de 50 e 60: em Jaguaribe, o cine Jaguaribe, o São José, e o Santo Antônio (este, mais confortável); na Torre, o cine Torre e o Metrópole; em Cruz das Armas, o Bela Vista, o Glória e o Guarani (este, em Oitizeiro); e o São Luiz (em Mandacaru). Enfim, o cine Santa Catarina, em Cabedelo, que, à época, era distrito de João Pessoa.

Na década de 70, após a inauguração do Hotel Tambaú (em 1971) surgiu o Cine Tambaú, que passou a fazer parte do rol das mais chiques salas de cinema da capital paraibana. Mas, nesse tempo, grande parte dos cinemas de bairro ou haviam fechado as portas ou estavam em franca decadência.
O quadro revela a importância que a arte cinematográfica sempre teve em João Pessoa, o que, certamente, inspirou cineastas paraibanos, até as décadas de 50-60, desde Walfredo Rodrigues, passando por Linduarte Noronha, Wladimir Carvalho, Ipojuca Pontes, Carlos Aranha, João Ramiro, com forte motivação para a existência de vários cineclubes entre as décadas de 60 e 70, na capital paraibana.

Foi todo esse amor pelo chamada sétima arte o que forjou críticos de cinema das estirpes de Willis Leal, Barreto Neto, Jomard Muniz de Brito, João Batista de Brito, Carlos Aranha, Jurandy Moura, Sílvio Osias, entre outros, que enriqueceram a memória escrita sobre filmes, atores e cineastas em João Pessoa e no Brasil.
Um dia, essas salas de cinema espalhadas pelos bairros se acabaram. Hoje, elas até chegam a ser bem mais numerosas, na capital paraibana e em outras capitais e grandes cidades brasileiras, que passaram por fenômeno semelhante.

Falo das salas de cinema espalhados pelos shoppings de todo o país, a acolherem filmes aos borbotões produzidos por uma indústria cinematográfica cada vez mais produtiva e mais rica, em vários países do mundo.

É que o cinema, desde que foi criado, passou a enfeitiçar a humanidade que dele tomava conhecimento, desde que os irmãos Lumière exibiram as primeiras imagens em movimento obtidas pelos seus cinematógrafos, no final do século 19 (1895).
Agora, duvido que as salas de cinema dos shoppings tenham a capacidade de incluir, de forma massiva e democrática, a maioria da população dos bairros, como era o caso dos velhos ‘cinemas’, em João Pessoa.

MEMÓRIA PESSOENSE: a Missa do Galo, na Catedral - Sérgio Bôtelho



Neste ano de 2017 não haverá, como em tempos pretéritos, a Missa do Galo, na Basílica de Nossa Senhora das Neves, no centro da cidade de João Pessoa. Aliás, conforme vem ocorrendo há alguns anos, na capital paraibana.

O consolo é que essa é a história que vem sendo escrita na esmagadora maioria das cidades brasileiras, especialmente, as maiores, que estão sacrificando tradições tão sagradas, porque ligadas à religião.

A verdade é que a violência está matando a Missa do Galo, uma prática cristã que remonta ao primeiro século depois do nascimento de Jesus, e que faz parte desse ritual católico, sempre à meia noite, entre 24 e 25 de dezembro de cada ano.

Conta a história cristã que à meia-noite do dia 24 de dezembro um galo teria cantado de maneira mais forte que o normal, para anunciar o nascimento de Jesus, e, por isso, muitas igrejas, especialmente as mais antigas, têm um galo em seus campanários.

Quando éramos pequenos, ainda, íamos, todos, à Missa do Galo, logo após o jantar de Natal (servido de forma um pouco antecipada) sempre celebrada pelo arcebispo, na, ainda, Catedral de Nossa Senhora das Neves, a igreja-mor do catolicismo, em João Pessoa.

Nos arredores da catedral, as ruas eram repletas de gente moradora daquelas residências, todas, da General Osório, Duque de Caxias, Ladeira da Borborema, Visconde de Pelotas, Praça do Bispo, Roger, Conselheiro Henriques etc. etc.

As irmãs do Colégio das Neves, que, nessa época do ano, estavam de férias, e, em retiro, marcavam presença na Missa do Galo, juntamente com os alunos do Seminário Arquidiocesano, que funcionava onde hoje existe o Colégio Estadual do Roger.

O Centro inteiro era totalmente habitado - e, principalmente, não havia o medo que hoje está instalado por força de uma violência, sem fim -, o que transformava a área central de João Pessoa numa imensa festa, com epicentro na Catedral.

Para enfeitar as noites de Natal, a decoração da cidade, sempre esperada com grande expectativa, pela população, transformava a ocasião em um instante de felicidade, comentado pelo resto do ano.

Neste ano de 2017, resta, à população pessoense, e de tantas outras capitais e grandes cidades do país, se contentarem com a Missa do Galo, direto do Vaticano, celebrada pelo papa Francisco.

Contudo, para a data não passar em brancas nuvens, o arcebispo Dom Delson estará celebrando uma missa de Natal às 18 horas, deste domingo, 24. Não é a Missa do Galo. Mas, paciência!

MEMÓRIA PESSOENSE: Parahyba Café - Sérgio Botêlho



 
Não é necessário ter existido há décadas para que uma coisa qualquer seja lembrada com saudade. Às vezes, nem é preciso ter deixado de existir para que a tal coisa seja ligada a uma época, por exemplo, que deixou saudade.

No caso em pauta, o Parahyba Café, de Bob Záccara, empreendimento recente, coincidindo com o início do Século XXI, não existe, mais. Mas, existiu e marcou um intervalo particularmente interessante da vida cultural pessoense.

As noites no Parahyba Café, movidas a um bom whisky, cerveja ou vinho, e tira-gostos requintados, fizeram da Praça Antenor Navarro, na cidade baixa, um ambiente efervescente nos primeiros anos da primeira década de 2000.

Incansável na tarefa de reerguer a vida social naquela parte mais histórica da capital paraibana, bem pertinho de onde nasceu a Cidade Real de Nossa Senhora das Neves, em 05 de agosto de 1585, Bob Záccara comandava o empreendimento, integralmente.
O espaço interno do Parahyba Café não era dos maiores, e, ali, eram dispostas poucas mesas, mesas trabalhadas, elegantes. Mas, para fora, tomando uma parte da praça, não somente havia muitas mesas como elas eram bastante disputadas.

Bob, com sua empreitada, acabou atraindo outros equipamentos turísticos ao local. Na esquina da praça com a parte lateral da Igreja São Pedro Gonçalves, por exemplo, o vereador, compositor e cantor, Fuba, montou seu diretório cultural, com bar e tudo.
O jornalista Fernando Moura foi outro que se deslocou para a Praça Antenor Navarro, com seu escritório da Texto-Arte, atraindo clientes para a vida cultural que ia se abrindo naquela maravilhosa parte da urbe pessoense.

No primeiro andar, do prédio vizinho ao Parahyba Café, passou a funcionar, por algum tempo, um espaço para shows, com direito a dancing, onde se apresentavam bandas locais, com casa cheia, nos dois ambientes conjugados.

Lembro bem de que, em visita a João Pessoa, o então governador de Rondônia, José de Abreu Bianco, curtiu bastante um show dedicado à Jovem Guarda. Com ele, estávamos eu e Floriano Miranda, responsável pela ida do rondoniense.
Foi também naquela época que o projeto Folia de Rua inscreveu a Praça Antenor Navarro como roteiro de suas manifestações, sendo exatamente, lá, onde se encerravam as programações anuais do pré-carnaval de João Pessoa.

Tendo tudo a ver com o ambiente sócio-cultural que ia se formando, do outro lado da praça, existia a Fundação Cultural de João Pessoa-Funjope, vinculada à Prefeitura de João Pessoa, um dos órgãos municipais responsáveis pela vida na praça, onde foi construído, inclusive, um palco para shows.

Infelizmente, o projeto de revitalização da Praça Antenor Navarro não progrediu o suficiente para que todos esses empreendimentos continuassem de vento em popa, e, um dia, Bob teve de fechar suas portas, transferindo-se para a Usina Cultural, em Cruz do Peixe. Depois, cansou, de vez.

Contudo, foi o Parahyba Café um acontecimento importante da vida pessoense, enquanto existiu na Praça Antenor Navarro. Um espaço urbano que precisa ser efetivamente revitalizado, o que somente será possível com a construção de escolas, universidades, e, sobretudo, de moradias. Fica o registro.

MEMÓRIA PESSOENSE: Balbino - Sérgio Botêlho




Como imaginar que naqueles tempos mais tranquilos de João Pessoa, calma, devagar, com índices de criminalidade muito abaixo do que hoje esteja definido como limite para mensurar a violência pudesse ter entre suas figuras mais famosas, de então, um lutador-policial.

Na verdade, a sua tarefa de lutar esportivamente era para as horas vagas, quase um hobby, pois imagine o que é ser um combatente profissional – no caso do nosso herói, no jiu jitsu, e, não de boxe, como era mais comum, então – em tempos onde preponderava o amadorismo em quase todos os esportes, na Paraíba. Até o futebol estava mais para coisa de amadores.

Na verdade, a profissão que garantia o sustento da família do cidadão de quem estamos falando era a atividade policial, ainda que com soldos ínfimos, exatamente na sua parte mais exposta, que era a do policiamento ostensivo, no combate frontal ao crime.

Estou a lembrar de uma figura quase lendária para quem viveu, principalmente, as décadas de 60 e 70, na capital paraibana, e pode acompanhar, ao vivo ou por meio de histórias as mais incríveis, umas verdadeiras outras puras lendas, a atuação de Balbino.
Lembro bem da figura de Balbino, um negro de compleição física atlética, estatura mais para alta do que para baixa, a se destacar, pelo porte e pelo semblante, de seus demais colegas de farda quando das rondas da Rádio Patrulha.

Isso, mesmo, da Rádio Patrulha, que era a denominação dada a esse destacamento da polícia militar, mais ou menos ao estilo dos Bopes de hoje, porém, muito, mas, muito mais romântico e menos espetacular que seus similares contemporâneos.

A Rádio Patrulha funcionava ali na esquina da Rua Duque de Caxias com a Braz Florentino, de frente para a Praça Barão do Rio Branco, muito perto da Samdu, que ficava na rua da Catedral (a respeito do qual já escrevemos uma dessas crônicas memorialistas), e, ainda, do Hospital de Pronto Socorro. Tudo a ver.

Em sua atividade desportiva, Balbino, o mais das vezes, achava a cobertura de gente mais ‘e$tribada’, bem mais pela paixão pelo esporte do que pela rentabilidade que as lutas, então, costumavam proporcionar. A não ser, por exemplo, quando as lutas serviam de campo para apostas, com resultado financeiro. Ai, Balbino virava figura importantíssima.

A presença de Balbino nas rondas da Rádio Patrulha, geralmente, em cima de caminhonetes de bancos laterais, com exposição total dos policiais, era motivo de respeito por parte da bandidagem. Menos, porém, se essas rondas envolviam gente ‘da sociedade’, numa época em que o sobrenome de família soava quase equivalente a uma patente militar.

Contudo, creio que não exista um cidadão, adulto ou, mesmo criança, que tenha vivido a época de Balbino que dele não se lembre, e, de muitas de suas histórias, umas de glória e outras, mesmo, de derrota. Quem sabe, a maioria.

De qualquer forma, é impossível escrever memórias pessoenses sem inscrever o nome de Balbino, junto com a da Rádio Patrulha, que deve ser outro, digamos, assim, verbete em meio a essas histórias que venho escrevendo. Acho, mesmo, que Balbino merecia uma dessas estátuas a perpetuar as nossas figuras mais populares. Tenho absoluta convicção disso.

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