Monique e Nelma: espíritos de luz - Sérgio Botêlho



Mal havíamos nos recuperado da morte da jovem Monique, filha de Cristiano Machado e Socorro Oliveira, amigos de tanto tempo, eis que outra notícia enluta João Pessoa: a morte da jornalista Nelma Figueiredo.

Nos dois casos há pelo menos duas coincidências dolorosas: ambas eram conhecidas por um bom humor contagiante, a desanuviar qualquer ambiente, e, tanto uma quanto a outra morreram vitimadas pelo ainda terrível câncer.

Sempre que morrem pessoas, assim, tão jovens, com imensas contribuições a dar, ainda, para a história em seu derredor, o sentimento de perda se aguça, ainda mais, conduzindo a situação para o inevitável campo da tragédia.

De Monique, lembro bem de sua felicidade contagiante quando, ao lado do pai e da mãe, e da irmã Natasha, participava de eventos, já lutando contra a doença, mas, sobretudo, em nada transparecendo sofrimento ou transmitindo qualquer apelo comiserativo.

Sobre Nelma, vem a lembrança de uma jornalista irretocável, extremante autoconfiante, a inspirar colegas de profissão de ambos os sexos, seja na Assessoria de Imprensa do Detran, em O Norte, no Correio da Paraíba ou na Rede Paraíba de Televisão.
Quando assessorava a Secretaria de Comunicação, um tempo comandada pelo saudoso Luis Augusto Crispim e outro tempo pelo também pranteado Jório Machado, pude sentir o orgulho e o amor que este último nutria pelas netas Natasha e Monique.
Também nessa época, convivi mais amiudemente com a assessora de imprensa Nelma Figueiredo, como já disse, dos quadros do Detran, a exercer a profissão com a mesma dignidade e eficiência com que ia às ruas catar histórias para os órgãos de imprensa.
Antes, seja na redação dos Correio da Paraíba, onde trabalhei alguns anos, seja em O Norte, onde também exerci a profissão, seja em encontros habituais da imprensa em torno dos fatos, o convívio com Nelma era sempre em alto astral.

Ontem, ao tomar conhecimento dessa nova perda paraibana, consegui postar, não sem muita dor, uma mensagem para Nelma, no Facebook, e me dediquei, pelo resto da tarde a tentar absorver a notícia, pois me recusava a acreditar naquilo, no que compartilhei do mesmo sentimento explicitado por Nonato Guedes.
Semana passada, a notícia da morte de Monique nos provocou, a mim e a França, dor semelhante, que nos fez, naquele momento, como agora, indagar em protesto dirigido a não sei exatamente quem: como pode a humanidade ainda estar morrendo de câncer?

O protesto fica por conta das inúmeras conquistas científicas, inclusive no campo da saúde, empreendidas seres humanos, sem esquecer das viagens interplanetárias que já praticamente viraram rotina.

Ao mesmo tempo, mísseis intercontinentais estão a postos para aniquilar com a Terra, a qualquer momento, enquanto o câncer (sem que se esqueça, ainda, da fome que atinge milhões de seres, em todo o Planeta) continua matando pessoas de todas as idades, inclusive jovens alegres e benfazejas como eram Monique e Nelma, estas, tão próximas de nós, portanto, a nos causar mais sofrimento.

Como alivio a dores tão profundas, acredito que não tenhamos perdido de vez Monique e Nelma. Seus espíritos de luz haverão de permanecer pelos céus de João Pessoa, uma, a clarear a vida dos jovens, outra, as das redações da mídia pessoense. Ambas, a iluminar os caminhos de seus familiares e amigos, todos, profundamente consternados com as suas passagens.

MEMÓRIA PESSOENSE: Nininho, o “Fiapo de Ouro” - Sérgio Botêlho



Assim, fora do campo, andando pela rua, quem olhava pela primeira vez aquele rapaz franzino, vindo de Jaboatão dos Guararapes, para jogar futebol em João Pessoa, jamais imaginaria se tratar de um atleta.

Pequeno, olhar irrequieto, magrinho, Nininho, cujo apelido de “Fiapo de Ouro” diz tudo sobre a sua compleição física, no entanto, enquanto jogou no “Belo”, o glorioso Botafogo Futebol Clube, de João Pessoa, só deu alegrias à enorme torcida do clube.
Em campo, Nininho tanto driblava com grande desenvoltura quanto avançava na direção da área deixando os colegas na cara do gol e os adversários desconcertados, favorecendo memoráveis vitórias do então alvinegro pessoense.

Em virtude de sua enorme importância para o sofrido time pessoense, na época, aquele pernambucano de enorme magia futebolística logo tornou-se ídolo da entusiasmada torcida do Belo.

Quando falo “sofrido”, considero o clube nos anos 60, pois, em 1968, não havia vencido um campeonato sequer na década que estava se findando, com os times campinenses dominando o cenário do futebol paraibano.
Para quem não viveu a época, convém lembrar que, de 1960 a 1965, os campeonatos paraibanos foram, todos eles, vencidos pelo Campinense Clube, que se tornou hexacampeão, sendo o de 1966 ganho pelo Treze, para novamente, em 1967, o Campinense voltar a ser campeão.
Eram, dessa forma, oito anos de jejum para o Botafogo da Paraíba, o time que, desde sempre, reuniu o maior número de torcedores da Capital paraibana, sem, contudo, conseguir formar uma equipe, naquela década, que se impusesse sobre o poderoso futebol de Campina Grande.

Pela esperança de ver quebrado o domínio campinense, o “Fiapo de Ouro” envolveu de tal forma a torcida que rapidamente tornou-se um dos nomes mais conhecidos e festejados em toda a Grande João Pessoa.

Eram os tempos de futebol jogado, na Capital, nos estádios José Américo de Almeida, no Bairro dos Estados, e no Leonardo Vinagre da Silveira (Estádio da Graça) em Cruz das Armas, que se revezavam como palcos para espetáculos inesquecíveis dos grandes do futebol da Paraíba.

Finalmente, com Nininho, e, mais, Fernando, Lando, Lúcio Mauro, Toinho, Edson, Zezito, Lula, Nido, Dissor, Roberto, Zito Camburão, entre outros, o Botafogo da Paraíba alcançou o título de campeão paraibano, provocando uma festa espetacular em João Pessoa, no dia da vitória final contra o Treze.

Chamando a atenção de olheiros cariocas, Nininho ainda chegou a ser levado para treinar no Flamengo do Rio de Janeiro. No entanto, seus dribles e sua desenvoltura encantaram menos os dirigentes flamenguistas do que seu corpo franzino.

Mas, tivesse sido apenas a decepção de não ter emplacado num grande time do futebol brasileiro, tudo estava bem para Nininho. O tamanho do amor que lhe devotava a torcida botafoguense e o povo pessoense, por extensão, bastava para que ele fosse feliz até quando terminasse o seu futebol.

No entanto, em novembro de 1969, ao se submeter a uma operação corriqueira, complicações levaram Nininho à morte, com apenas 23 anos, provocando imensa comoção na cidade de João Pessoa.

Nininho, um pernambucano de Jaboatão de Guararapes, assim, é parte da história pessoense, ídolo permanente da torcida do Belo, herói dos campos de futebol da Paraíba, e, ainda, hoje, uma imensa saudade.

(A foto é do Blog do Professor Zezinho. Nininho é o último à direita entre os agachados)

MEMÓRIA PESSOENSE: O limite a espigões na orla da Paraíba Sérgio Botêlho



Quando tomou posse em 1966, eleito diretamente no pleito de 1965, após disputa com o então senador Ruy Carneiro, o ex-governador João Agripino, já encontrou as praias urbanas pessoenses com três edifícios altos: o Beira-Mar e o Borborema, no Cabo Branco, e o São Marcos, em Tambaú. Em 1967 era entregue o João Marques de Almeida, no Cabo Branco.

A continuar o ritmo das construções dos edifícios, com tendência a não parar, mais, certamente aquelas casas na primeira avenida das praias de Cabo Branco, Tambaú e Manaíra, teriam, hoje, desparecido completamente, em função do crescimento da cidade, da especulação imobiliária decorrente, e do progresso da indústria do turismo.
No entanto, em 1967, quando da elaboração da Constituição do Estado, João Agripino fez incluir entre os artigos daquela Carta da Paraíba, em seu artigo 164, que ficava “vedada a concessão de licença para construção de prédio com mais de dois pavimentos, na avenida da orla marítima, desde a praia da Penha até a Praia Formosa (esta, em Cabedelo)”.

A partir daí, segue a vida em João Pessoa e o crescimento urbano se acelera, com a construção de novos edifícios na cidade, acentuadamente em Cabo Branco, Tambaú, Manaíra. Ao mesmo tempo, cresce a pressão dos agentes imobiliários e empresários ligados à hotelaria e ao segmento do turismo, para que se pusesse fim à proibição de edifícios na orla.

Em 1982, o então governador Tarcísio Burity baixou um decreto de número 9.485, determinando que os projetos de urbanização, loteamentos, construções ou outras modificações entre 300 e 500 metros ficarão sob a jurisdição do Iphaep (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba).

Dessa forma, o governo removia uma das questões que mais celeuma provocava desde que João Agripino, lá atrás, fez incluir na Constituição da Paraíba a proibição dos espigões na orla marítima: os contrários à regulamentação diziam que a ocupação do solo urbano era atribuição legal dos municípios. Burity disse que não, ao delegar ao Iphaep parte fundamental dessa função.

Foi então que o Iphaep regulamentou três faixas de gabarito para construção de prédios, a partir da orla, sendo que na primeira e na segunda a altura máxima era de 9 metros (3 pavimentos), 14 metros (4 pavimentos) nas segunda e terceira faixas. Na quarta faixa, edifícios de 8 pavimentos. Manaíra, no entanto, acabou dividida em cinco faixas.

Foram essas determinações do Iphaep que acabaram influenciando a Constituição da Paraíba de 1989, já sob a égide da democracia, e o estabelecimento de uma ampla discussão a respeito, que mobilizou a sociedade pessoense, em especial, majoritariamente contrária a mudanças nos gabaritos das construções.

Em 1992, a Prefeitura de João Pessoa, no Plano Diretor da Cidade, seguindo a constituição estadual de 1989, estabeleceu os gabaritos para as construções em até 500 metros ao longo da orla e a partir da linha de testada da primeira quadra da orla em direção ao interior do continente, estabelecendo os cálculos que a construção de edifícios teria que obedecer a uma altura máxima de 12,90 metros.

No entanto, a celeuma continuou. As imobiliárias e o setor do turismo não se conformam com a proibição, e continua tentando modifica-la. Argumentam com o progresso econômico da cidade e questionam a tese de que a construção de edifícios na orla não impediria a circulação de ar para as quadras posteriores, bastando regulamentar a distância entre as construções.

Os contrários à liberação do gabarito argumentam com a densidade populacional e o esgotamento das possibilidades de trânsito e de infraestrutura litorâneas, o que iria piorar com o adensamento de edifícios na beira mar, atingindo em cheio a preservação e a qualidade ambiental.

O debate continua. Utilizem os comentários.
{Usando a memória e informações importantes contidas no trabalho A Questão do Gabarito na Orla Marítima de João Pessoa (bairros de Manaíra, Tambaú e do Cabo Branco) de Raphaela Cristina Claudino Moreira, apresentado ao Curso de Pós-Graduação em Engenharia Urbana, do Centro de Tecnologia, da Universidade Federal da Paraíba}.

Até o dia 19, a outra segunda-feira, estarei ocupado com a organização do livro sobre Memórias Pessoenses (Não Mora Mais Ninguém na Minha Rua-Memórias da Vida Pessoense). Assim, somente voltarei a publicar essas Memórias Pessoenses naquela data. Senão, não consigo organizar o livro. Forte abraço.

MEMÓRIA PESSOENSE: Italianos e seus descendentes em João Pessoa - Sérgio Botêlho



Meus avós João Galdino de Lima Botêlho e Adélia Medeiros de Lima Botêlho residiram até o final da vida de ambos na histórica Rua da República, na parte mais de cima da via, bem pertinho da Praça Venâncio Neiva, onde está o famoso Pavilhão do Chá.
Nessa parte da rua, e, ainda, na praça (os Sorrentinos), moravam famílias italianas que eu, menino, gravei na memória, até hoje. E, na decisão de escrever essas memórias pessoenses, não poderia deixar de discorrer sobre a forte presença de italianos, em João Pessoa.

Fui amigo, de residir na mesma rua, na Santo Elias, dos irmãos Gim e Marco Cantisani, eles e família moradores naquela via do Centro, já bem perto da Dom Pedro I. Na Arthur Aquiles, fomos vizinhos do casal Humberto e Consuelo Di Pace, e a filha Líbia Giovanna Di Pace.

Giana Sorrentino foi colega de colégio de minha filha Mariana, no IPEI, e, posteriormente, na UFPB. E, no movimento estudantil, construí amizade com Silvana Sorrentino, casada com o jornalista Fernando Moura. Na Reitoria da UFPB, a partir de parceria no trabalho, forjei amizade com Marcondes Timóteo.

Meu prezado amigo, Silvino Espínola, desde os bancos do Lins de Vasconcelos, passando pelo Astrea e pela vida universitária e cultural, até hoje, é outro desses descendentes italianos que tive a sorte de conhecer. Os irmãos Piccolli, chegados a João Pessoa vindos de Porto Alegre, na década de 70, são amigos, também. Perazzo, colega de Pio XII, é outro.

Os irmãos Franca são mais descendentes de italianos com quem estabeleci amizade, desde que fui colega de Damásio (Zito) Franca Filho, no Pio XII, até a administração de Chico Franca, da qual participei, na Prefeitura de João Pessoa. O saudoso vereador Di Lorenzo Marsicano foi amigo de lides políticas e de quem privei da amizade até o final de sua vida, assim como o atual deputado estadual Trocolli Junior.

Outro amigo construído ao longo da vida foi Roberto (Bob) Záccara, cuja família é tradicional residente da praia de Tambaú, ele, que foi dono do Parahyba Café, no Centro Histórico de João Pessoa, já alvo de nossas memórias. Na universidade, fiz amizade com Fernando e Selma Lianza, pelos quais tenho o maior apreço, e que continuam amigos aqui no Face. E, ainda, os Chianca, da Santo Elias, que chegam a ser contraparentes por conta do parentesco com primos meus.

Pessoalmente, conheci, também, o arquiteto Mário Glauco Di Lascio, ele, descendente da família Di Lascio, filho do também arquiteto Hermenegildo Di Lascio, o que me obriga a registrar a influência italiana começando pela arquitetura pessoense.
Assim, nas pesquisas que fiz, para bem fundamentar a postagem, terminei encontrando a presença italiana em vários dos prédios na capital paraibana, ainda, hoje bastante significativos, enquanto construções singulares.

O marcante prédio que abriga o Grupo Thomaz Mindello, entre a rua General Osório, a avenida Guedes Pereira e a Praça Aristides Lobo, por exemplo, é obra de um italiano, o arquiteto Pascoal Fiorilo, chegado a João Pessoa, na década de 20, diretamente da Itália.

Segundo a providencial Wikipedia, em verbete intitulado “Imigração italiana na Paraíba”, a influência italiana pode ser notada em outros prédios antigos da capital, a exemplo da Academia de Comércio Epitácio Pessoa, do coreto da Praça da Independência, da Associação Comercial da Paraíba ou da Loja Maçônica Branca Dias, assim como em construções da avenida General Osório.

Na cultura, segundo o livro A Presença Italiana na Paraíba, de Alfio Ponzi (citado pela Wikipédia) há a seguinte passagem sobre o progresso trazido pela comunidade para a capital paraibana: (...) na aurora da cinematografia paraibana, italianos como Stefano Conte, Giovanni Petrucci, Vicente Rattacaso e Grisi faziam-se proprietários dos primeiros cinemas da capital paraibana de nomes Morse, Popular, Pathé e Rio Branco. Destes, o Rio Branco, inaugurado em 1911 e precursor do cine Rex, que somente cerraria as portas na década de oitenta.

Na expectativa de que a publicação deste post - rápido, como devem ser os textos nas redes - possa provocar mais contribuições, reproduzo aqui a maioria dos sobrenomes italianos que passaram ou constituíram família e descendência em João Pessoa, segundo o livro de Alfio Ponzi: Abenante, Andrea, Doia, Apratto, Belli, Bichieri, Bocarelli, Cahino, Cantalice, Cantisani, Carbone, Cariolo, Castor, Cesarino, Chiacchio, Chianca, Ciraulo, Cirne, Congliere, Conte, Cosentino, Cozza, Creosola, Crudo, Dalia, D‘Andrea, Di Lascio, Di Lorenzo, Di Pace, Dore, Espinola, Falcone, Faraco, Franca, Fenizola, Fiorentino, Gerbasi, Germoglio, Giacomo, Gibelli, Gioia, Grillo, Grisi, Grecca, Guadagni, Guarnieri, Iaceli, Imbelloni, Iorio, Italio, Lauria, Lascio, Lianza, Lombardi, Lorentino, Magliano, Marsicano, Pavan, Pecorelli, Perazzo, Petrucci, Picorelli, Pizza, Poggetti, Ponzi, Protto, Primola, Prota, Rattacaso, Ricucci, Ritondale, Rivello, Sabella, Scarano, Sibelino, Sorrentino, Spinelli, Timoteo, Troccoli, Valentino, Visani e Zaccara.

MEMÓRIA PESSOENSE: Bar e restaurante Moicano - Sérgio Botêlho



Há experiências gastronômicas que passaram rápido por João Pessoa, mas, que deixaram marca, uma vez que, mesmo fugazes, ainda hoje são lembradas por quem as experimentou, naqueles momentos de sucesso.

Uma dessas experiências, como não poderia deixar de ser, existiu em Jaguaribe, terra das novidades em João Pessoa, e de tantas culturas mortas ou vivas naquele bairro tão tradicional da capital paraibana.

Falo do bar e restaurante Moicano ou O Moicano ou Moicanos, não consigo me lembrar exatamente, especialista em servir receitas feitas com os testículos do boi, e, que, pelo inusitado, acabou paradeiro de boêmios e comensais em geral.

Na época, comentava-se que moicano tinha diretamente alguma coisa a ver com a especialidade gastronômica oferecida, embora todos soubessem que os Moicanos eram uma Nação indígena que habitava a América do Norte antes e depois da chegada dos europeus.

Talvez, o nome que os Moicanos davam aos ovos do boi, quem sabe, ainda, a mais requintada gastronomia daquela nação indígena, responsável, o alimento, por fazerem dos índios americanos valentes e destemidos!

Houve quem garantisse, à época, que, beber comendo ovo de boi cozido, conforme era oferecido no referido bar e restaurante, fazia do boêmio um sujeito mais resistente aos efeitos conhecidos do álcool.

Pelo que andei pesquisando na sempre nova, surpreendente e bem informada Internet, são muitas as receitas com os escrotos do boi, principalmente ensopados, depois, é claro, de uma providencial limpeza.

Eu só sei que depois de algumas cervejas geladas ou whisky ou algumas cachacinhas, o ensopado de ovo de boi, devidamente cortado em cubos, e bastante temperado, tinha um gosto, embora forte, que satisfazia o freguês.

O Moicano funcionava ali por perto do antigo cine São José, que, por sua vez, ficava numa esquina, entre as ruas Senador João Lira e Floriano Peixoto, como já disse, no inexcedível bairro de Jaguaribe.

A mesma Jaguaribe de tantos barzinhos, alguns, sobre os quais já me reportei nessas memórias pessoenses, a exemplo do Luzeirinho, mas, também, do Bar do Zé, pelo que sei, ainda hoje firme e forte.

Não sei precisar quanto tempo o nosso bar e restaurante se demorou por Jaguaribe, e nem mesmo quem foi ou quem foram os investidores que o puseram em cena na vida gastronômica e boêmia de João Pessoa.

Sei, apenas, que ele existiu e que, pelo que me lembro, foi bem frequentado, tanto por homens quanto por mulheres pessoenses, jovens ou não, certamente por conta da novidade na gastronomia local.

Por ter sido, assim, bem frequentado e comentado, não sei bem o porquê de seu fechamento, um dia. Só sei que não ouvi falar, depois disso, em nenhum empreendimento semelhante especializado na iguaria.

MEMÓRIA PESSOENSE: Paulo Miranda - Sérgio Botêlho



 

Para se escrever a história da urbanização da área da Praia de Cabo Branco, o escrevinhador há de se lembrar de um cidadão pessoense de São José de Mipibu (sem qualquer contradição, nisso), chamado Paulo Miranda, que, até o final da vida, morou em casa construída em amplo terreno já perto da subida que leva à Praia do Seixas.

Lembro ainda de nosso herói destas linhas de agora, já do alto de seus mais de 90 anos, dirigindo um fusca, naquela subida para o farol do Cabo Branco, sob a apreensão de parentes e transeuntes em geral.

Mas, destemido, não queria largar o doce prazer de guiar seu automóvel por aquelas paragens que, em tempos de antanho, havia sido todas de sua propriedade.

Entre as irmãs, Paulo Miranda tinha Alaíde Miranda, mãe de uma ruma de Mirandas, muitos deles, entre os meus amigos do Face; porém, a ampla maioria, amiga de infância, alguns deles, no entanto, já encantados por outros planos.

Falo de Floriano, Golinha, Cecília, Elizabeth (Bebeta), Sandra, Betânia, Sânia, Paulo de Tarso e Diana. E, ainda, do primo deles, e sobrinho de Paulo Miranda, o velho amigo Ruy Barroso. Sem esquecer da amiga cabedelense Jânia Miranda.

Segundo Ruy Barroso, Paulo Miranda, ao correr de sua longa e lúcia existência de 106 anos teve cinco filhas (Jane, Judy, Janette, Jady e Jacy) as duas primeiras já falecidas. Netos, uns 25, e bisnetos são muitos, tataranetos uns cinco.

Conta a história – boa parte, creio, beirando a lenda – que Paulo Miranda estendia seus domínios iniciais até os confins do Cuiá, passando pelo atual território de Mangabeira, dividindo limites com terras dos Santos Coelho, da praia da Penha e adjacências.

Mas, de acordo, ainda, com Ruy, os domínios de Paulo Miranda eram “um pouco menor”, indo do edifício Borborema, no final da Beira Rio, até parte dos atuais territórios de Mangabeira e adjacências, o que inclui, ainda, o Jardim Cidade Universitária.

Impossível, assim, não levar em consideração a existência de uma figura, dessa maneira, tão importante para a formação urbana da cidade de João Pessoa, mais fortemente a partir de quando a cidade chega à orla, se expandindo ao longo da barreira do Cabo Branco, para o lado direito da Epitácio Pessoa, que abriu caminho da Praça da Independência até aqueles mares dolentes e tépidos, ao gosto de qualquer um.
Um dos netos de Paulo Miranda, o empresário Roberto Machado de Campos, tem, segundo li em matéria escrita pela jornalista Tereza Duarte, em seu blog turismodesenvolvimentopb, se ocupado da tarefa de preservar a memória do avô, no Parque Ecológico Bosque Dos Sonhos, próximo ao Farol do Cabo Branco, onde foi criado o Memorial Paulo Miranda.

O nosso herói do texto de agora, como se pode observar no soneto “O Cabo Branco”, registrou, em versos, seu amor pelo Cabo Branco. “Separado pelos ventos de outros mundos, e gerado na existência de outras eras, o Cabo Branco na passagem dos segundos, vai assistindo o passar das primaveras. Desafiando a própria natureza, sua ponte ligando o continente; sublime, senhor dessa grandeza, banhado pela luz do sol nascente. E a sutiliza das ondas lhe beijando, vai uma vem outra se evolando, se esvaindo no espaço cor de anil. E do verde da flora ele se veste, recebe o soprar do vento agreste, este acidente geográfico do Brasil!

A bem da verdade, é bom que se inscreva nessas memórias pessoenses, Paulo Miranda chegou a presidir a Academia Paraibana de Poesia, e deixou dois livros de sua autoria, Raios de Sol e Memórias de um Poeta, unindo-o definitivamente à cultura literária da capital paraibana, afora, é claro, à própria história de João Pessoa.
Essa figura de destaque da história pessoense, ao menos no seu caso, tem, nos descendentes, o cuidado com a preservação de sua memória, conforme a gente pode perceber, o que é muito importante para a própria preservação da memória da capital paraibana.

(A foto é do TripAdvisor)

MEMÓRIA PESSOENSE: Grupo Piollin - Sérgio Botêlho



É bom a gente falar de memória, para se referir à criação de uma nova realidade, em determinada época, quando o que foi criado continua rendendo e fazendo sucesso, justificando o ato originário.

As atividades da chamada cultura sensível sempre se constituíram numa marca a distinguir positivamente João Pessoa, mesmo em épocas onde praticamente nada ajudava tal processo de aderência cultural dos artistas pessoenses.

O cinema essencialmente paraibano, com destaque para a produção pessoense, que hoje está meio longe do que já foi um dia, floresceu sob condições extremamente adversas, tanto do ponto de vista financeiro quanto político, nas décadas de 50 e 60.
Por outro lado, o teatro sempre foi outra das marcas importantes da disposição pessoense – mas, louve-se, ainda, de Campina Grande, Cajazeiras, do estado inteiro, afinal -, mantido sob as mais indispostas condições.

Hoje quero lembrar uma iniciativa do final da década de 70, em anos de poucas luzes políticas e culturais, na qual jovens artistas paraibanos, capitaneados por Luis Carlos Vasconcelos, Buda Lira, Nanego Lira, Soia Lira, Servílio Gomes, Escurinho e Everaldo Pontes, entre outros, criaram o Piollin, homenageando o palhaço Abelardo Pinto, um dos mais importantes nomes do circo brasileiro.

Essa turma, desafiando todas as dificuldades, e em nome do amor à arte do teatro, montou uma empanada de circo, no interior do complexo da Igreja de São Francisco, ocupando, ainda, algumas salas vazias, por perto. Pronto, estava criado o Grupo Piollin.

No local, eles davam aulas de teatro, dança e música, atraindo crianças e jovens para uma saudável imersão cultural e artística, ao mesmo tempo em que formavam consciências libertárias e igualitárias.

O sucesso do grupo veio aos poucos, vencendo as dificuldades, interagindo com instituições e com comunidades dispostas a aceitar o trabalho pioneiro que estavam fazendo, com forte repercussão no meio universitário, mas, também, popular, especialmente no Roger.

Montaram e produziram peças por todo o tempo, até os dias de hoje, tendo como destaques, conforme pesquisa que fiz, para não esquecer de nada, no portal Paraíba Criativa e na Enciclopédia Latino-americana, as seguintes produções teatrais: A Viagem de um Barquinho (1978); Os Pirralhos (1978); Silêncio Total: Vem Chegando um Palhaço (1978); Vau da Sarapalha (1992); A Gaivota: Alguns Rascunhos (2006); Retábulo (2010); A Pá (2013).

Mas, foi com Vau de Sarapalha, uma obra que reescreve para a cena teatral o fabuloso e brasileiríssimo universo de Guimarães Rosas, em Sagarana, que o grupo consolidou o prestígio nacional e internacional do trabalho realizado a partir de João Pessoa.
Vau de Sarapalha foi considerada pela exigente crítica nacional de teatro, Barbara Heliodora (falecida em 2015) como o maior espetáculo do ano, além de ser detentora, a peça, do Prêmio Shell, na categoria especial, em 1993, tendo sido apresentada mais de mil vezes em várias cidades do Brasil e do mundo, a encher, a todo o tempo, qualquer teatro em São Paulo.

Nesse compasso, vários dos atores do Piollin já participaram e participam de produções nacionais nos campos da televisão, do teatro e do cinema, com premiações nacionais em diversas oportunidades.

Assim, fica inscrita nas memórias pessoenses a criação, um dia, em 1977, do grupo Piollin, merecedor de todas as homenagens que se possa prestar a eles, não apenas pela extraordinária contribuição cultural, mas, também, política, consagrando João Pessoa como território privilegiado da arte nacional

MEMÓRIA PESSOENSE: Edifício 18 Andares - Sérgio Botêlho



“Há lugares dos quais vou me lembrar, por toda a minha vida, embora alguns tenham mudado. Alguns para sempre, não para melhor. Alguns já nem existem, e outros permanecem. Todos esses lugares tiveram seus momentos”. In My Life – The Beatles – Tradução de Rita Lee (Em Minha Vida).

Me lembro, ainda, já no final da década de 60, mais precisamente, no ano de 1967, quando, ainda adolescente, passava em frente ao recém habitado Edifício Presidente João Pessoa, na General Osório com a Peregrino de Carvalho (antiga Ladeira da Carioca). De quebra, a localização e a altura do prédio sugeria uma das vistas mais belas da cidade, o que realmente acontecia.

Na calçada do prédio novo, o primeiro arranha-céu de João Pessoa, via alguns amigos meus, de colégio, pela calçada da General Osório, embaixo do prédio, em grupos, curtindo a novidade de residirem naquele espaço coletivo vertical.

Confesso que a imagem provocava inveja, pela novidade que era aquela de morar num edifício de apartamentos, numa época em que João Pessoa era praticamente toda horizontal, com poucos edifícios, assim, altos.

Naquele ano havia, no Centro, para moradia, altos daquele jeito, os edifícios Santa Rita e Caricé, apenas. Os demais eram em Cabo Branco e Tambaú: o João Marques de Almeida, o Beira Mar, o Borborema e o São Marcos.

Mas, o Presidente João Pessoa era diferente, alto e vistoso, e chamava a atenção pela comunidade que começava a ser constituída pelos seus moradores, principalmente por crianças e adolescentes, na época em que vigoravam as então chamadas “recas”.
“Recas” nada mais eram do que turmas de crianças, já mais taludas, e adolescentes, ajuntadas com base na proximidade geográfica de suas residências, geralmente acostumadas a fabricar seus próprios brinquedos, e sem que, nem de longe, sonhassem, ainda, com nada parecido à Internet.

Parêntesis para uma breve e necessária explicação: o edifício chamava-se oficialmente Presidente João Pessoa, mas, desde então, até hoje, ficou conhecido pela sua altura: Edifício 18 Andares. Um luxo!

Outro parêntesis na lembrança para um pouco de história devidamente pesquisada: o Edifício Presidente João Pessoa (o 18 Andares) pertencia ao governo federal, construído pelo antigo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários-IAPB.
Mais um pouco de pesquisa: o 18 Andares foi construído em cima do terreno que restou após a derrubada do prédio onde funcionava o Conservatório de Música Antenor Navarro, com a promessa, jamais cumprida, de o Conservatório funcionar no primeiro pavimento do edifício.

Pois bem. O 18 Andares tinha um problema de origem, pouco incomodativo, à época em que foi construído, mas, desestimulante com o passar do tempo. É que no prédio não foi construída qualquer garagem.

Com os poucos carros, então, a deficiência foi suportada. Mas, imagine, hoje, com o trânsito louco da General Osório, e de todo o Centro da cidade, o desastre que terminou sendo para quem residisse no prédio.

Junte-se a isso o desestimulante quadro de violência, no Centro, à noite, e os demais problemas estruturais naturalmente existentes num prédio antigo, e, então, a diminuição da magia foi a consequência inevitável.

Mas, houve um tempo, na João Pessoa da década de 60, em que o Edifício Presidente João Pessoa, o 18 Andares, chamou a atenção dos pessoenses, e, de toda a Paraíba, um atenção que o tempo e a modernidade se encarregaram de desfazer.

Enfim: apesar de construído em 1958 (portanto, o primeiro arranha-céu da cidade), o Presidente João Pessoa somente foi entregue em 1967, por conta de entraves burocráticos e da fusão, após 1964, de todos os institutos de aposentadoria que existiam na época.

(A foto, da época em que o 18 Andares foi construído, é do acervo do professor Arion Farias)

MEMÓRIA PESSOENSE: Dona Creuza Pires - Sérgio Botêlho



Hoje vou falar sobre uma figura entre as mais singulares que João Pessoa já teve. Uma mulher que marcou fortemente a vida pessoense, em sua época, e que deveria servir de exemplo às novas gerações.

Estou me referindo a dona Creuza Pires, que, em vida, experimentou dificuldades, a glória financeira, e, outra vez, dificuldades, e, nesses altos e baixos que a vida às vezes nos reserva, nunca deixou de ser o que sempre foi: uma criatura extremamente simples e brilhante.

Certamente, não poderia ser o que conseguiu ser na vida sem sua família, a exemplo do marido Adrião Pires, e dos filhos Marcos, David e Daniel. Ninguém é forte, sozinho. Mas, dona Creuza era singular.

Minha primeira lembrança da nossa heroína do texto de agora é nas Casas Pires, uma loja que funcionava na esquina da Maciel Pinheiro com a Barão do Triunfo, especialista no comércio de miudezas em geral, vendendo muito em João Pessoa, e para todo o interior da Paraíba. Época de Natal, então, era coisa de louco!, comunicativa, simples no vestir e na forma de se dirigir às pessoas, dona Creuza dominava a loja inteira, entre os balcões e as pilhas de mercadorias, de tal forma que podia ser confundida com uma funcionária normal da casa. O brilho e a determinação, no entanto, a distinguiam.

A minha próxima lembrança de dona Creuza é, já, no “Pirão”, a superloja de departamentos que o casal Pires inaugurou na Lagoa do Parque Solon de Lucena - como parte de um edifício com dezenas de apartamentos -, com direito a escada rolante e algumas centenas de funcionários.

Novamente, o flagrante da memória é a de sempre: , comunicativa, simples no vestir e na forma de se dirigir às pessoas, dona Creuza dominava a loja inteira, entre os balcões, as conversas com os clientes, e o espaço onde as moças, ela no meio, embalavam as mercadorias dos clientes.

A próxima imagem de dona Creuza é na Bagunça, depois do desastre do Pirão (ressalve-se, não por culpa do casal investidor, mas, de um infeliz empréstimo feito em dólar, no Banco do Brasil, que, numa maxidesvalorização da moeda americana, levou tudo de roldão, explicou o jornalista José Euflávio em reportagem de maio de 2007).

A Bagunça, que funcionou um tempo na Treze de Maio e outro tempo na Travessa Frutuoso Barbosa (na rua do IHGP), era uma pequena loja de miudezas onde tinha de tudo e à qual os consumidores recorriam como última instância.

Do mesmo jeito de sempre, , comunicativa, simples no vestir e na forma de se dirigir às pessoas, dona Creuza dominava A Bagunça inteira, entre os balcões e as pilhas de mercadorias, de tal forma que podia ser confundida com uma funcionária normal da casa.

Na sequência, a imagem que guardo é da vereadora Creuza Pires: hiperativa, comunicativa, simples no vestir e na forma de se dirigir às pessoas, ela continuava se distinguindo, agora, na Câmara, E, ainda encontrava tempo para se dedicar a trabalhos sociais importantes com pessoas idosas ou simplesmente carentes, além de um programa de rádio, na Tabajara.

Dona Creuza foi, definitivamente, uma pessoa ímpar durante o tempo que lhe coube viver, e muito mais ainda poderia ser dito sobre essa figura marcante da história de João Pessoa. Tenho certeza que, ainda, muito mais será lembrado.

Apenas, para terminar, creio que não seria exagero sugerir que, em algum lugar da urbe pessoense, já que a figura de dona Creuza cabe em qualquer espaço da capital paraibana, bom seria que ela dispusesse de uma lembrança forte, à altura de, ao menos, um busto, ou um espaço, para que as populações futuras possam lembrar quem ela foi, e em seus exemplos possam se inspirar.

MEMÓRIA PESSOENSE: Pindá e a poética Tambaú de outros tempos - Sérgio Botêlho



Há cenários da João Pessoa das décadas de 50 e 60 em que se misturam lembranças sombreadas pelo tempo, mas, que no íntimo, nos faz bem, já que nos remete a uma época de clara felicidade.

Uma dessas lembranças é a de um prédio, na beira-mar da chamada Ponta de Tambaú, onde, hoje, termina a avenida Rui Carneiro. O referido prédio ficava em frente ao antigo e icônico Elite Bar, cuja rememoração me foi sugerida pelo velho amigo de Pio XII, Marcelo Borges.

Nesse prédio existia um entreposto comercial, pelo que me lembro, que comercializava o resultado do trabalho feito, no mar, pelos velhos pescadores que compunham a comunidade de pesca da praia de Santo Antônio.

Para os que não sabem, Praia de Santo Antônio era como se chamava antigamente a praia de Tambaú do trecho que vai do final da atual Rui Carneiro até a Ponta do Cabo Branco. Daí a Paróquia de Santo Antônio e o edifício Santo Antônio.

O prédio na Ponta de Tambaú se chamava Pindá, e duvido que alguém, mesmo que na época fosse ainda menino, não se lembre dele, já que era naquele pedaço de praia para onde se mandava João Pessoa inteira para curtir o banho de mar.

O Pindá nos remete a imagens de Tambaú, a partir da beira-mar em frente ao Elite, até o imenso areal onde foi erguido o famoso hotel, ocupado por pescadores e seus barcos e jangadas que formavam a comunidade tradicional da orla marítima da capital paraibana.

O cenário a que nos referimos era composto, ainda, pela gente – os próprios pescadores e seus familiares – a consertar redes de pesca e a calafetar barcos em caiçaras ou ao sol pleno, dentro do universo que caracteriza a pesca artesanal.
Moravam ali por perto, mesmo, em casas na beira da praia e mais para dentro um pouco, uma configuração habitacional que foi se modificando à medida que Tambaú e Manaíra foram sendo urbanizadas e as pessoas de mais recursos foram comprando os terrenos mais próximos do mar.

Bela também, e bastante participativa, era a Procissão de São Pedro, padroeiro dos pescadores, quando se irmanavam comunidades de pescadores de Tambaú e Praia da Penha, as mais tradicionais da orla.

Se a chegada da urbe pessoense à orla demorou perto de quatro séculos, a urbanização de Tambaú, Cabo Branco, Manaíra e Bessa não precisou de mais de 30 anos para se completar, com todas as suas benesses e mazelas, naturalmente.
Contudo, os quase 400 anos que se passaram entre a fundação da cidade, no interior, à beira do rio Sanhahuá, em 05 de agosto de 1585, e a pavimentação da Epitácio Pessoa, em 1952, que impulsionou a urbanização da orla, foram suficientes para que, hoje, as praias urbanas de João Pessoa (com especial destaque para Tambaú e Cabo Branco) sejam, sem qualquer sombra de dúvida, as mais limpas de todas as capitais litorâneas, do país. Isso, por conta das soluções sanitárias que foram sendo encontradas, ao final, evitando a construção de emissários submarinos a conduzir os esgotos da cidade para o mar.

Essa é uma particularidade maravilhosa de João Pessoa, motivo de orgulho para todos nós, aqui alinhavada por conta da lembrança que tivemos de uma antiga construção, hoje inexistente, na beira-mar de Tambaú, a emoldurar um tempo poético.
Um tempo onde havia comunidades tradicionais na orla marítima pessoense que buscavam o sustento na pesca artesanal para comercializar o produto de seu trabalho naquele antigo prédio, na verdade, uma velha cooperativa chamada Pindá.

MEMÓRIA PESSOENSE: Edifício Santo Antônio e a década de 60 - Sérgio Botêlho




Na década de 60, a juventude vivia um sonho internacional de liberdade movido pelo rock and roll. No Brasil, mandava a Bossa Nova e a Jovem Guarda, movimentando os jovens brasileiros que rompiam com tradicionais costumes.

Em João Pessoa, não era diferente do restante do Brasil e do mundo. Tambaú começava a ser conquistada e os jovens eram os desbravadores daquela praia maravilhosa, reunindo-se em tribos ao longo de Tambaú, propriamente dita, e Manaíra.

Evidentemente, sem esquecer as praias de veraneio da Grande João Pessoa, principalmente as praias do Poço, Formosa e Ponta de Mato. Ali, também, nas épocas de férias, as turmas se formavam para curtir a vida que se estava descobrindo.
Lembro, mais fortemente, do pessoal que se encontrava na calçada do Edifício Santo Antônio, de calça Lee e pés descalços (a pegar bicho de pé pelo caminho) para tocar violão e cantar as músicas da Jovem Guarda, ocupando culturalmente a vetusta, embora, na época, recentemente habitável orla marítima de João Pessoa.

Sempre bom lembrar que a orla pessoense somente foi alcançada pelos habitantes da capital, assim, de maneira mais sistemática, com a construção de habitações definitivas, a partir do início da década de 50, com o calçamento da Epitácio Pessoa.
Na década de 60 o processo de urbanização de Tambaú, Manaíra e Cabo Branco estava ainda bem no começo. Havia inúmeros terrenos vazios além de água à flor da terra, por força da baixa posição da terra com relação ao nível do mar.

Dessa forma, nos tempos de inverno, em Tambáu, Manaíra e Cabo Branco, além, é claro, da longínqua e comprida praia do Bessa (esta, até pouco tempo), formavam-se lagoas extensas, com direito a peixe e rã, não mais que de repente.

Muriçoca, então, nem se fala. Aquilo era um imenso território de insetos, e, ainda, algumas doenças tropicais, naturalmente. Mais antigamente, ainda, até impaludismo fazia com que os pessoenses preferissem Poço, Formosa e Ponta de Mato para veraneio. Falo até a década de 40.

Pois bem. Naquela década de 60, um grupo grande de jovens, a maioria, residente ali por perto, outros, ainda, veranistas de João Pessoa e de Campina Grande, se reuniam naquele pedaço de praia, curtindo, também, as areias que um dia seriam cobertas pelo Hotel Tambaú.

Na beira mar, os barcos, os pescadores e uma bela e saudosa caiçara são testemunhas das curtições daquela juventude, durante o dia e a noite (assim, em tempo integral, nas épocas de férias), na beira do mar.

Por trás do Santo Antônio, havia um imenso terreno vazio. No local, pontificava um belo campo de voleibol que sediava torneios inesquecíveis, reunindo equipes escolhidas na hora. Uma maravilha.

Mais fantásticos ainda eram os assustados, aos moldes da época. A turma se reunia, vitrola e bebidas debaixo do braço, chegavam de surpresa na casa de alguém. Não me lembro de pais reclamando. Ao menos de público!

Nos assustados rolava dança até certa hora, tudo puxado pela onda da Jovem Guarda. Os pais preparavam “ponche”, à base de frutas. Mas, a turma, como já disse, não relaxava de levar alguma bebida que era consumida do lado de fora da festa.
Em junho, então, havia a festa mais esperada do ano, o São João, com direito a quadrilha ensaiadíssima, e a público cativo. Tempo bom, tempo bom, que não volta mais, aquele da década de 60 nas calçadas do Edifício Santo Antônio, da praia de Tambaú.

MEMÓRIA PESSOENSE: Kay France e a travessia da Mancha - Sérgio Botêlho




Foi em 1979 que a Paraíba comemorou uma das maiores conquistas internacionais empreendidas por gente da terra. Naquele ano, uma garota de 17 anos, filha de um professor de Educação Física, ex-pugilista, entrava para o seleto grupo de maratonistas mundiais que atravessaram o Canal da Mancha, na Europa.
A menina de 17 anos, de nome Kay France, filha do professor Sales, paraibana de João Pessoa, cruzou a nado um braço de mar que separa a Inglaterra da França, vencendo um trecho de 33 quilômetros.

Na oportunidade, 19 de agosto daquele ano de 1979, Kay France enchia de orgulho paraibanos, nordestinos, brasileiros, latino-americanos, mulheres e jovens atletas do mundo inteiro pois era a primeira paraibana, nordestina, brasileira, latino-americana e mais jovem maratonista, em todo o mundo, a cumprir o trajeto.

O espetáculo esportivo durou 11hs36min, entre a praia de Shakespeare, em Dover, na Inglaterra, e Wissant, na França, segundo registro para a história na fabulosa Wikipedia.

Durante o trajeto, Kay foi acompanhada por um barco que levava além de seus pais, o observador do Channel Swimming Association (CSA) responsável por atestar que a atleta fez a travessia e que as regras foram cumpridas, e uma equipe da TV Globo.
O feito pode ser creditado a um extraordinário exercício de força de vontade aliada à destreza, à confiança e à perseverança que marcaram a trajetória de Kay, desde o momento em que ela, com 12 anos, e sem saber nadar, ainda, decidiu que faria a travessia.

Nesse meio tempo, em um de seus treinos no litoral pessoense, ela desapareceu no mar, em pleno carnaval, deixando a capital paraibana aflita, para, à noite, reaparecer nas ondas que banhavam a Praia do Poço, sã e salva, dando seus pulinhos para tirar a água dos ouvidos, evidentemente. A notícia reanimou a folia.

Sobre o trajeto em si, no Canal da Mancha, em declarações dadas à imprensa, na época, a nadadora paraibana chegou a minimizar o esforço. Para ela, havia sido mais fácil atravessar o braço de mar que une os mares do Norte e Atlântico do que chegar até a Inglaterra para cumprir o feito.

Em 1996, Kay France perdia o pai, seu grande incentivador. Ao falecer, o professor Sales guardava duas alegrias: a de ter visto a filha realizar aquele grande feito internacional, e, na sequência, a de ela haver se formado em Medicina, segundo consta, bastante decepcionada com o esporte, então.

Hoje, além de médica conceituada Kay France empresta o nome a uma prova de maratona aquática, na praia de Cabo Branco, reconhecida pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, mas, sobretudo, é nome paraibano inscrito definitivamente no panteão da glória esportiva do nosso estado.

Ano que entra, 2019, exatamente em agosto, o feito de Kay France completará 40 anos, e, mais uma vez, deverá ser alvo de reportagens lembrando a conquista. Bom que a Paraíba possa, na oportunidade, prestar novas homenagens a Kay a fim de que ela se consolide como inspiração, não somente a atletas, mas à juventude estudiosa, como um todo.

Por tudo isso, Kay France não poderia ficar de fora das memórias pessoenses que temos postado nesse extraordinário meio de comunicação internacional, que é o Facebook, mas, que proximamente, terminarão, a Deus querer, em livro memorialista.

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