Ajudante de Papai Noel. - Marcos Pires



Ainda muito garoto eu acompanhava a comitiva do Papai Noel entregando presentes por toda João Pessoa. É que minha mãe, dona da maior loja do Estado, inventou que os pais que comprassem os brinquedos de natal na nossa loja, poderiam marcar uma data para que Papai Noel fosse até suas casas entregar esses presentes.

A infraestrutura da entrega se compunha de um caminhão baú e à frente uma Rural marrom, onde iam o motorista OX, o corneteiro, Papai Noel, eu e alguns outros maloqueiros do Miramar.

Entregar presentes na casa dos ricos era chato; descíamos na porta do casarão, o corneteiro morria de tocar mas só abriam a grade quando usávamos a campainha. Geralmente aparecia uma babá arrastando o filho do rico pelo braço, que quase sempre estava chorando e morrendo de medo daquela farandula. Acreditem, leitores, eu chegava a ter pena daquela criança.

Bom mesmo era entregar presentes no Varjão, Oitizeiro...bairros pobres. Quando nossa equipe aparecia no início da rua com aquelas bocas de som tocando “bate o sino”, era um furdunço. A garotada (com aqueles barrigões de fora, sujos de lama, narizes escorrendo) cercava o caminhão que descia vagarosamente as ladeiras esburacadas.

Ao chegar no endereço a família estava toda na porta da casa. Bastava o corneteiro dar o toque para Papai Noel descer da Rural e a mãe do garoto já chorava. Ao contrário do menino rico com medo, o filho do pobre corria para abraçar Papai Noel. Era uma alegria geral. Entregávamos o presente e a família fazia questão de oferecer um lanche, geralmente bolachas e ki-suco. Nos fundos da casa sempre rolava uma cervejinha para os mais velhos, inclusive para o Papai Noel, que muito prevenido andava com uns canudos para não sujar a barba.

À tardinha já estavam todos “alegres“, e foi num clima assim que terminamos as entregas do dia na Torre, em frente a um bar que servia rabada. A fome nos levou lá e os frequentadores espantaram-se com um Papai Noel entrando no bar. Um dos pinguços locais tentou fazer com o bom velhinho o que fizeram ao Doctor Ray no bar do cuscuz. Estourou uma briga fenomenal, da qual evidentemente saímos vencedores. Aquele Papai Noel era macho todo.

Muito orgulho do meu tio Polari, eterno Papai Noel.

Quero conhecer Caicó. - Marcos Pires



 Moro sozinho um flat com 14 metros, portanto qualquer hotel é minha casa. Some-se a isso minha paixão por viajar.

Mais que as cidades, entretanto, me fascinam seus habitantes. E conversando com amigos soube de histórias incríveis do povo de Caicó.

Uma vez aportou por lá um circo, desses bem mambembes, que só tinha um magico, um palhaço e a equilibrista. Pois não é que o povo fez um abaixo assinado ao Bispo e o circo foi obrigado a sair da cidade? Tudo por culpa do palhaço, que usava umas calças muito frouxas, penduradas em suspensórios que eram fixados num bambolê que o palhaço usava à guisa de cinturão. A graça do palhaço era passear entre o público, olhar para baixo a cada dois passos e suspirar bem alto: “-Eita, olha a lapa!”.

Em Caicó nasceu uma das maiores figuras do Judiciário nacional, Dr. Ridalvo Costa, que teve o privilégio de ser o primeiro Presidente do TRF5. E nessa condição decidiu homenagear a cidade natal. Chegou lá na tradicional festa de Santana, famosa pelo bom gosto e refinamento do evento. Aconteceu que os habitantes da cidade nem deram pela presença dele, prestigiando um seu irmão que era dono do posto de gasolina da cidade. Perguntados pela preferência, foram unânimes: “- É que Toinho vende fiado”.

Pois foi nessa festa de Santana, mais precisamente no baile de gala, que Rui Mariz, primo de Ariano Wanderley, decidiu ir. Havia um problema; ele era solteiro e só podiam entrar casais. Em Natal ele contratou as duas mais badaladas vocês sabem o que e comprou caríssimas roupas para orna-las. Pagou mil reais a cada uma e prometeu outro tanto se elas se comportassem como damas. Nem falar podiam. Na festa, apresentou ambas como filhas tímidas e matutas de um riquíssimo fazendeiro do Mato Grosso. Foi um sucesso. Todo mundo elogiando a beleza e a fina educação de ambas, que caladas limitavam-se a bebericar taças de champanhe. Mas como tudo se revela, eis que anunciaram a atração da noite; o cantor Beto Barbosa. Ah, leitores, pra que!

Foi ele começar a cantar “Adocica” e as beldades esquecerem educação, recompensa e compromisso. Subiram nas mesas e mandaram ver.

Preciso ir a Caicó, quem sabe na próxima festa de Santana?

As eleições da OAB - Marcos Pires



 Foi um prazer e um privilegio ter participado da eleição do Dr. Arlindo Delgado como Presidente da OAB aqui na Paraíba no início dos anos 2000. Éramos tantos amigos juntos que nada poderia dar errado, apesar dos obstáculos que superamos, sem contar umas fake news que chegaram ao ponto de criar uma certa cueca azul celeste (cala-te boca).

Lembro que a chapa adversaria, igualmente prenhe de excelentes amigos, conseguiu às vésperas da eleição uma liminar que com certeza prejudicaria nossas candidaturas, e nos reunimos numa sexta-feira (a eleição seria no domingo) para deliberar o que fazer. Acho que Zé Edísio e Delosmar deram o norte; precisávamos cassar a tal liminar mas estava em cima da hora para irmos ao TRF5 com um...um o que? Cada um dos 30 advogados presentes tinha uma ideia diferente. Harrison tentava a convergência com aquela sua maneira eclesiástica, mas estava difícil um consenso, até que uma nova dúvida surgiu; quem seria competente para despachar? Atrevidamente ligamos para um dos integrantes do TRF e lançamos a dúvida. Pacientemente ele explicou que na ausência do Presidente quem despacharia seria o Decano. Já que a Excelência estava de bom humor, um advogado sem noção jogou a bomba: “- E o senhor acha que é caso de mandado de segurança ou agravo? ”. Ele riu e disse: “- Bem, como sou eu o Decano, se vier para mim eu prefiro que seja um agravo”.

Cinco minutos depois, Zeca Porto, Carlos Aquino e eu no volante disparamos para Recife. Redigindo a petição com o carro a 180 por hora, vez por outra um catabiu (o menino Aquino dizia que eram oscilações excêntricas no asfalto) desmanchava tudo. Resumidamente conseguimos a liminar e no domingo ganhamos a eleição. Jamais esquecerei a alegria do Dr. Arlindo, cercado por todos nós, cantando o grito da vitória até que percebeu a letra (Arlindo é f...), e tomado de vergonha foi comemorar mais adiante, moderadamente.

Estas lembranças me vêm porque na próxima quarta feira teremos novas eleições para a OAB. Confesso que não iria votar, mas uma pessoa que amo demais me pediu o voto. E me deu um argumento insuperável: “Ô pai, você sempre nos ensinou que todas as pessoas têm que ter ao menos uma chance para mostrarem do que são capazes”.

Acho a atual direção muito bacana. O Presidente é discreto, trabalhador e é um colega corredor. Mas não posso fugir do que ensinei a vida inteira. Todos têm que ter uma chance. Com todo o respeito aos demais, votarei em Carlos Fabio.

No frigir dos ovos - Marcos Pires



Recebi esta contribuição de V.M., o cearense mais paraibano do Brasil.

“- Marcos, observe como a língua portuguesa é rica em expressões! Veja o quanto o tema “alimento” está presente nas nossas metáforas. Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem ideias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa. E não adianta chorar as pitangas ou simplesmente mandar tudo às favas. Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos. Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha; são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa; com a faca e o queijo nas mãos eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese…). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou. O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado, se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha. O pepino é só seu e o máximo que você vai ganhar é uma banana; afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco…A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar de vez em quando é normal. O importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.

Entendeu o que significa “no frigir dos ovos" ?”

Meus heróis. - Marcos Pires



Esses heróis que a história nos legou merecem meu respeito. Mas na minha idade e vivendo nesse Brasil catártico, não resta tempo para admirar quem arrisca a vida por uma ideia ou se martiriza por um sonho.

Meus heróis estão ali na esquina, no dia a dia. Às vezes quase famosos, tipo subcelebridades. Um exemplo recente é Marta, que ganhou pela sexta vez o título de melhor jogadora de futebol do mundo.

Marta joga numa seleção que há muito não sente o cheiro de títulos mundiais. Vale o registro de que futebol feminino no Brasil é praticamente desconhecido. Mas foi nesse contexto que ela se destacou. Também me motiva comparar Marta às tais “personalidades” do mundo da bola, como esse menino Neymar, muito bom de queda e de gastar. Só para definir o que digo; quem de vocês já ouviu dizer que Marta estava em baladas, namorava famosos ou ia e vinha pelo mundo a bordo do seu jatinho? Mas a minha heroína estava lá no palco da FIFA pela sexta vez com a mesma emoção e com a mesma simplicidade que caracterizam meu tipo de herói.

Também fazem meu tipo de heróis os corredores paraibanos da assessoria de corridas ZK, que no último domingo brilharam na Maratona de Buenos Aires.

Não porque correram bem, alguns baixando tempo e outros surpreendendo, como Mãe Leca, Otávio e Adelmar, que jamais haviam corrido mais de 21 Km. Só iriam correr meia prova, ou seja, dos 42 Km da Maratona eles só estavam preparados para a metade, mas num momento de total superação completaram todo o percurso. Aos que perguntavam como havia conseguido, Mãe Leca repetia Romário: “- Treino é treino, jogo é jogo”.

Isso é do esporte mesmo; ganhar, perder, completar ou não uma prova. O que diferencia atletas de heróis é que a organização da prova falhou e faltaram medalhas para os corredores que chegaram mais para o fim da prova. Foi naquele momento que nasceram meus novos heróis.

Me deu um orgulho danado, desses de encher os olhos d’agua, ver os atletas paraibanos veteranos de maratona, todos detentores de ótimos tempos, retirarem do peito suas medalhas e dá-las de presente aos atletas noviços que completavam pela primeira vez o percurso da Maratona.

Me diga, leitor, qual dos candidatos a qualquer cargo das próximas eleições seria capaz de um gesto desses?

O ditador supremo - Marcos Pires



  Nessa reta final de campanha, as mais disparatadas notícias nos chegam pelas redes sociais. Dois grupos de extremos políticos diferentes estão no mesmo caminho; pretendem simplesmente o adiamento das eleições por um ano, até que um dos candidatos recupere plenamente a saúde e o outro recupere sua elegibilidade e sua liberdade.

A vingar essa conversinha, teremos um ano inteiro sem governante, porque Temer vai para casa ou para a cadeia em janeiro de 2019. E quem fica no comando do país até lá?

Eu lancei essa questão no zapzap e muitos amigos me indicaram para o posto. Ou seja, eu seria o ditador de plantão durante o ano de 2019 DESDE QUE implantasse as ideias que eles encaminharam junto aos seus votos de confiança em mim.

A ideia mais recorrente foi antecipar a retirada do nome de todo mundo do SPC.

Como governante, eu também teria que atrelar o preço da cerveja ao óleo diesel, porque todas as vezes que houvesse aumento do combustível, os caminhoneiros fariam greve e o preço seria reduzido. Tal medida beneficiaria ao mesmo tempo os caminhoneiros e os cachaceiros.

Mãe Leca pediu para que eu diminuísse o percurso das Maratonas que ela corre, que é de 42 Km. Algo como 5 Km já seria do seu agrado.

As mulheres seriam obrigadas a receber de bom humor os maridos que chegam meio bêbados de madrugada em casa. Em compensação eles teriam a obrigação de emprestar às esposas seus cartões de credito para elas irem às compras nos shoppings centers uma vez por semana.

Houve uma sugestão no mínimo exótica; que no meu governo fossem contratadas cartomantes para toda a população. Já que o SUS disponibiliza teoricamente médicos para todo mundo, por que não cartomantes? Só assim os pobres poderiam evitar de torcer pelo Vasco, eleger políticos que irão roubar e cair fora de chifres que ainda serão postos.

Por aqui eu vou parando, na certeza de que pelo menos uma dessas ideias conta com sua simpatia, elegíveis leitores. O que há de comum entre todas é que são absolutamente inexequíveis. Mas são propostas de quem quer seu voto.

Tenham cuidado; o voto é uma arma que tanto mata as más práticas políticas quanto induz ao suicídio da democracia quando mal dado.

Emagrecer comendo - Marcos Pires



Quando tive que perder 30 quilos passei a conviver diariamente com esse tipo de sonho; emagrecer sem deixar de comer, porque eu adorava comer. Mas deixei de “gostar” das comidas e aprendi a gostar somente do que me faz bem. Parece até relação amorosa, hem?

Num determinado momento eu fui tão apaixonado por comida que se um pãozinho de alho fizesse cafuné eu namorava com ele. Naquele tempo eu achava que fome era o único sentimento que valia a pena ter; os outros sentimentos mais cedo ou mais tarde me ferravam. E passei a observar os casais amigos e a interferência da comida em seus relacionamentos. Quando estavam bem nos casamentos comiam pizza juntos, mas quando brigavam e se separavam, cada qual que comesse suas alfaces para reentrar em forma. Já fui testemunha do fim de um casamento durante uma palestra sobre emagrecimento. O palestrante falava de alimentos que nos prejudicam muito tempo depois de ingeridos, como a carne vermelha, refrigerantes, e por aí foi. De repente voltou-se para a plateia e perguntou se alguém conhecia algum alimento que fizesse mal mais de vinte anos depois de ingerido. Um senhor gorducho sentado ao lado da esposa levantou-se; “- Eu sei, o bolo do meu casamento”. Ah, leitores, a esposa meteu a bolsa na cabeça do coitado e retirou-se puxando-o pelo colarinho. Que cousa!

Acontece que os homens engordam e não estão nem aí; já as mulheres que estão acima do peso rezam muito menos para emagrecer do que pedem a Deus para suas amigas engordarem mais que elas. São interessantes as mulheres; elas comem muito, principalmente doces, mas querem emagrecer, da mesma maneira que compram muitos vestidos mas dizem que nunca tem o que vestir na hora de sair.

Minhas amigas são absolutamente sinceras no tema. Teresa me perguntou: “- Ô Marcos, por que será que Deus faz engordar ser tão mais fácil que emagrecer? ”. Eu não soube responder, mas uma coisa é certa; pesquisas indicam que as mulheres adoram ouvir :1 - Eu te amo; 2 - 50% de desconto e 3 - Como você emagreceu.

Minha amiga S. me contou a verdadeira a história do Paraiso. Segundo ela, a serpente teria tentado diversas maneiras de convencer Eva a comer a maçã, sempre sem sucesso. Até que sibilou nos ouvidos de Eva: “- Come, besta, maçã emagrece”. Deu no que deu.

Chega-se assim à inevitável conclusão que emagrecer comendo é como promessa de político; há sempre quem acredite.

E os feriados, hem? - Marcos Pires



Na próxima sexta feira teremos mais um feriado. Pouco importa se é o dia da pátria, o dia das mães ou o dia da pizza; nós brasileiros adoramos feriados, a ponto de fazermos nossos calendários com base nos feriados. Só quem está de férias é que não dá o devido ao valor a um bom feriado.

Já perceberam, queridos leitores, que temos feriados ruins, bons e excelentes? Um feriado que cai num domingo é mais inútil do que olhos azuis em gente feia, me dizia a amiga J. F.. Essa amiga é daquelas que mede a sanidade das pessoas pelos feriados. “- Ô Marquito, se no começo do ano você vai logo procurar no calendário o seu aniversário e os feriados, está provado cientificamente que você é normal”. Será?

Mas voltemos aos feriados ruins, bons e excelentes. Do feriado ruim já tratei aqui, é aquele desperdiçado por cair num domingo. Os bons feriados caem na semana, de preferência numa sexta-feira ou na segunda-feira. Meu primo dizia que começar a semana com um feriado é como começar um jantar pelo pudim. Se eu pudesse escolher, votaria nos feriados que caem nas segundas-feiras, se bem que com essa perspectiva costumamos enforcar as tardes das sextas-feiras anteriores.

Quando eu comecei a desenvolver esse assunto estava próximo a um amigo que é desses religiosos fanáticos. Pois ele me disse que os feriados da igreja católica não deveriam poder ser usufruídos por ateus. E sublimou sua crença: “- Amigo, imagina que quando Ele nasce você ganha presente, quando Ele morre você ganha feriado e quando Ele ressuscita você ganha chocolate. Não é à toa que Jesus é tão querido”.

Numa coisa, entretanto, todos concordamos independentemente de nossas crenças religiosas; agosto é o pior mês do ano, porque não tem nenhum dia feriado. Deve ser por isso que chamam agosto de mês do cachorro louco.

Mesmo com religiões diferentes há mais o que nos unir no gosto pelos feriados. Por exemplo a raiva da babaquice daqueles calhordas que para se exibirem dizem que honram os feriados. Por exemplo; assistem aos desfiles no 7 de setembro e trabalham no dia 1 de maio. Tudo certo, com diz Van Van…por que então esse pessoal não honra o dia 2 de novembro, quando comemoramos finados?

Claro que mesmo um feriado bom, daqueles que caem na segunda-feira, pode se estragar com a chuva. Mesmo assim, feriado com chuva é igual a motel sem cama, sempre dá pra fazer alguma coisa.

No mais, o Brasil que eu desejo é aquele em que os feriados virem rotina.

Comprando leis - Marcos Pires



 Fui ao Rio de Janeiro com Mãe Leca no último fim de semana para correr a Meia Maratona Internacional e depois da prova estávamos relaxando no piscinão de Ramos, que fica em frente à pensão na qual nos hospedáramos, ouvindo um grupo de turistas estrangeiros ao nosso lado conversar sobre o Brasil. Lá pras tantas uma das moças pediu emprestada a câmara de ar (pneu de trator, obviamente) que Mãe Leca usa em suas incursões aquáticas, e isso nos levou a participar das conversas do grupo.

Identificado como Advogado, o interesse dos gringos voltou-se para os esclarecimentos que eu poderia dar sobre nosso sistema jurídico.

Meus novos amigos quiseram saber sobre aquela história das empreiteiras terem comprado leis, as tais Medidas Provisórias que beneficiavam seus interesses. É que no pais deles o máximo que se consegue comprar é um Deputado aqui, um Senador ali, sempre no varejo. “- Aqui no Brasil as operações de corrupção são feitas no atacado, mister Pires? Porque para transformar uma MP em lei é necessário que o Congresso vote, pois não? Compram-se quantos parlamentares de cada vez? ”

Para explicar o Brasil, contei a eles uma história verdadeira, acontecida numa grande cidade do nosso interior, ocorrida nos anos 60. Deu-se que o Governador da Paraíba foi visitar uma escola pública e encantou-se com o rapazinho que administrava a cantina. Com menos de 15 anos era desenrolado e ativo. O Governador puxou conversa com aquele garoto e perguntou o que ele precisava a título de incentivo. “- Se o senhor dispensasse o recolhimento do ICM eu poderia baixar o preço dos lanches que sirvo aos alunos”. Após muitas gargalhadas Sua Excelência determinou ao Secretário de Fazenda que fizesse o tal decreto. Afinal, uns poucos refrigerantes não iriam prejudicar a arrecadação estadual.

Meses depois o Governador recebeu a visita da diretoria do maior fabricante de cigarros do país. Pensava que tratariam da instalação de uma fábrica no Estado. Qual o quê! Era uma reclamação contra o tal decreto, que permitia a alguém que eles não conheciam, tomar conta de todo o mercado de cigarros da região, levando à falência os tradicionais clientes da fábrica.

Aquele menino cresceu e enriqueceu. Eu o conheci e me tornei seu fã.

Conserta-se disco voador - Marcos Pires



 Faz tempo que ninguém dá notícia do aparecimento de discos voadores, me cobrou o leitor na fila do supermercado. Por acaso eu teria alguma novidade sobre o assunto? Não, infelizmente não. Novidades nesse setor por aqui só os ETs da política. Na verdade, nunca vi um disco voador, mas o leitor tinha razão. Parece até que os discos voadores saíram da moda.

E como meus leitores sabem que adoro conversar com eles, o meu colega de fila de supermercado propôs outra questão, essa verdadeiramente instigante. “- Ô jornalista, me diga uma coisa; se aparecer um disco voador e os ETs me pedirem para leva-los ao nosso líder, a quem o senhor acha que devo me dirigir? Eu penso que não deveria ser ao Presidente Temer, porque esse não lidera nada, está em fim de governo e a conversa que se ouve é que será preso no ano que vem. Pensei em levar os ETs para serem apresentados ao próximo presidente, mas como não sei quem será eleito acho que deveria começar pelo ex Presidente Lula, só que tenho dúvida se a Juíza do Paraná permitiria…é bem capaz que sim, né? Já deixou tanta gente entrar naquela carceragem! Me guiando pelas pesquisas acho que eles deveriam visitar também o capitão Bolsonaro, mas aí pode ser que o homem se esprite e queira enquadrar os espaciais. Com Ciro Gomes não seria muito diferente…eita homem bruto! O certo mesmo seria levar os ETs para conversarem com Marina. Eu acho que eles têm uma certa conexão. O que o senhor acha, escritor? ”

Eu? Eu acho é graça.

Saí do supermercado e fui pesquisar o assunto. Descobri que a partir de 1990 a Paraíba foi prodiga no avistamento (é o termo técnico) de OVNIs, principalmente nas cidades de Pilõezinhos, Jacaraú e Bayeux. Descobri que em quase todos os casos os discos voadores pretendiam sugar os seus avistadores através de feixes de luz, mas sempre eram detidos porque os paraibanos intuitivamente descobriram formas de defesa que iam da abertura do guarda-chuva à proteção da copa de arvores. Cá comigo pensei: “- Como devem ser burros esses ETs. Afinal, desenvolvem altíssima tecnologia que permite atravessar galáxias e não sabem como fechar um guarda-chuva”.

Mas por que essa preferência dos discos voadores pela Paraíba? Um amigo campinense deu a dica: “- Marcão, se um disco voador quebrar e precisar trocar o carburador, onde é que você acha que eles vão procurar especialistas em conserto de disco voador ?”.

Sou fã número um da inventividade dos irmãos de Campina Grande.

Foi nas filas - Marcos Pires



Como não poderia deixar de acontecer, essas gigantescas filas que se formaram nos postos de gasolina em consequência do movimento dos caminhoneiros geraram uma interação nunca antes vista entre os proprietários de automóveis sequiosos por comprar muito mais caro a gasolina nossa de todos os dias.

Negócios começaram a ser discutidos e fechados, antigas amizades escolares foram relembradas, romances foram engatados e até um chifre foi flagrado. De início eu não acreditei muito nessas conversas, mas fui pessoalmente conferir, e logo fiquei impressionado com o comercio que se estabeleceu naquelas filas. Lembram daquele afro-descente Jacaré? Pois é, não tem nem um par de sandálias havaianas decente, quanto mais um automóvel, mas estava na fila vendendo “a vez”. Localizava motoristas que não faziam questão de passar para trás na ordem de atendimento em troca de uma grana e oferecia “a vez” a quem estava na rabeira da fila. Havia começado cobrando 40 reais, mas já estava nos 75 “contos”, como ele ainda teima chamar nossa moeda. Rachava o capilé com os “proprietários” dos automóveis que concordavam em ceder sua posição. Naquela altura já faturara mas de 300 reais.

No entanto, negócios muito mais substanciosos estavam sendo realizados. Soube de fonte segura que corretores de automóveis saíram das agencias pilotando veículos dos estoques, colocando-os nas filas e oferecendo trocas vantajosas aos motoristas que pacientemente esperavam horas para abastecer. Quando havia hesitação do incauto, davam a cartada final: “- Olha só, chefia, além do prazo de 36 meses para pagar a diferença, ainda dou o carro com o tanque cheio”. Tiro e queda.

Além dos negócios um outro fator me chamou a atenção; as paqueras descaradas que estavam rolando entre os sequiosos motoristas. Cantadas de toda sorte(?), algumas terríveis, como aquela do pedreiro que pilotava uma moto de cilindrada mínima: “ - Gatinha, posso completar o seu tanque? ”, e em seguida fez uma comparação da mangueira da bomba de gasolina com o seu... deixa pra lá.

Como não podia deixar de ser, um candidato a deputado apareceu na fila fazendo sua propaganda eleitoral, prometendo de um tudo. Igualzinho aos outros, mais com um diferencial; sua equipe de campanha assumia o lugar dos motoristas enfileirados nos postos e ia acompanhando a fila vagarosamente, enquanto os proprietários dos veículos eram levados a um trailer estacionado do outro lado da rua, onde tomavam agua gelada e cafezinho.

O chifre? Ah, leitores, o candidato descobriu a esposa na garupa de uma possante moto, cujo jovem e marombado condutor esperava a vez de abastecer. A partir daí foi o que se viu.

Anacleto & Eduardo - Marcos Pires



 
Mesmo depois de morto Anacleto Reinaldo ainda manteve contato comigo. Na verdade, um dia depois do seu falecimento meu celular tocou e no visor o autor da chamada era Anacleto. Depois de muita adrenalina atendi e do outro lado quem falava, usando o telefone de Anacleto, era seu assessor “Lapa de corno”. Queria saber se o meu compromisso com Anacleto sobreviveria à morte dele. Em resumo eu dava ao amigo, toda semana, o que ele codificou como “empurrão”; uma pequena ajuda para a produção dos seus programas radiofônicos. Com Lapa de corno o compromisso passou a ser semanal. Sempre em memória de Anacleto.

Ah, curioso leitor; você não conheceu Anacleto? Pois bom, uma rapidinha dele. Com seu metro e trinta de brabeza e altura, apresentava seu programa diário no rádio quando entrou a jovem trazendo no colo uma criança. Reclamou que o pai do menor abandonara mãe e filho e não dava pensão. Tratava-se de militar chamado (digamos) Batista. Anacleto incorporou a raiva e esbravejou no microfone: “- Soldado Batista, cabra safado, cachorro, sem vergonha, viado, corno...”e por aí foi até o limite do seu vocabulário. Dia seguinte, mesmo horário, programa ao vivo e no ar, adentra o estúdio um sargento fardado e armado, que Anacleto imediatamente identificou como o militar que ele insultara na véspera. Antes da autoridade falar qualquer coisa, o bravíssimo radialista atacou: “- E acaba de chegar aqui o general Batista, que ontem foi difamado por uma meretriz, uma marafona, uma mulher de rua, que atacou a honra desse exemplo do Duque de Caxias. Receba, meu general, nossa solidariedade”. Tudo certo.

Pois um dia deu-se que eu acompanhava meu enorme amigo Eduardo Albuquerque numa audiência em Santa Rita. À época Eduardo era Procurador Geral de Justiça em Brasília, e no momento em que íamos ao fórum Anacleto ligou pedindo mais um “empurrão”. Expliquei que falaria depois porque estava com Eduardo, que chegara de Brasília para uma audiência. Ao desligar ouvimos no rádio Anacleto dizendo que eu estava acompanhado de uma das maiores autoridades do país, que Eduardo era o máximo e rasgou um quilo de elogios.

Horas depois, voltando da audiência com Eduardo, recebi uma ligação de Anacleto, com quem acertei a grana. Ao final, ele emendou: “- Ô Doutor Marcos, e quem é mesmo esse pomba de galinha desse Eduardo que eu tanto elogiei? ”.

Saudades de Anacleto Reinaldo.

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