Meus heróis. - Marcos Pires



Esses heróis que a história nos legou merecem meu respeito. Mas na minha idade e vivendo nesse Brasil catártico, não resta tempo para admirar quem arrisca a vida por uma ideia ou se martiriza por um sonho.

Meus heróis estão ali na esquina, no dia a dia. Às vezes quase famosos, tipo subcelebridades. Um exemplo recente é Marta, que ganhou pela sexta vez o título de melhor jogadora de futebol do mundo.

Marta joga numa seleção que há muito não sente o cheiro de títulos mundiais. Vale o registro de que futebol feminino no Brasil é praticamente desconhecido. Mas foi nesse contexto que ela se destacou. Também me motiva comparar Marta às tais “personalidades” do mundo da bola, como esse menino Neymar, muito bom de queda e de gastar. Só para definir o que digo; quem de vocês já ouviu dizer que Marta estava em baladas, namorava famosos ou ia e vinha pelo mundo a bordo do seu jatinho? Mas a minha heroína estava lá no palco da FIFA pela sexta vez com a mesma emoção e com a mesma simplicidade que caracterizam meu tipo de herói.

Também fazem meu tipo de heróis os corredores paraibanos da assessoria de corridas ZK, que no último domingo brilharam na Maratona de Buenos Aires.

Não porque correram bem, alguns baixando tempo e outros surpreendendo, como Mãe Leca, Otávio e Adelmar, que jamais haviam corrido mais de 21 Km. Só iriam correr meia prova, ou seja, dos 42 Km da Maratona eles só estavam preparados para a metade, mas num momento de total superação completaram todo o percurso. Aos que perguntavam como havia conseguido, Mãe Leca repetia Romário: “- Treino é treino, jogo é jogo”.

Isso é do esporte mesmo; ganhar, perder, completar ou não uma prova. O que diferencia atletas de heróis é que a organização da prova falhou e faltaram medalhas para os corredores que chegaram mais para o fim da prova. Foi naquele momento que nasceram meus novos heróis.

Me deu um orgulho danado, desses de encher os olhos d’agua, ver os atletas paraibanos veteranos de maratona, todos detentores de ótimos tempos, retirarem do peito suas medalhas e dá-las de presente aos atletas noviços que completavam pela primeira vez o percurso da Maratona.

Me diga, leitor, qual dos candidatos a qualquer cargo das próximas eleições seria capaz de um gesto desses?

O ditador supremo - Marcos Pires



  Nessa reta final de campanha, as mais disparatadas notícias nos chegam pelas redes sociais. Dois grupos de extremos políticos diferentes estão no mesmo caminho; pretendem simplesmente o adiamento das eleições por um ano, até que um dos candidatos recupere plenamente a saúde e o outro recupere sua elegibilidade e sua liberdade.

A vingar essa conversinha, teremos um ano inteiro sem governante, porque Temer vai para casa ou para a cadeia em janeiro de 2019. E quem fica no comando do país até lá?

Eu lancei essa questão no zapzap e muitos amigos me indicaram para o posto. Ou seja, eu seria o ditador de plantão durante o ano de 2019 DESDE QUE implantasse as ideias que eles encaminharam junto aos seus votos de confiança em mim.

A ideia mais recorrente foi antecipar a retirada do nome de todo mundo do SPC.

Como governante, eu também teria que atrelar o preço da cerveja ao óleo diesel, porque todas as vezes que houvesse aumento do combustível, os caminhoneiros fariam greve e o preço seria reduzido. Tal medida beneficiaria ao mesmo tempo os caminhoneiros e os cachaceiros.

Mãe Leca pediu para que eu diminuísse o percurso das Maratonas que ela corre, que é de 42 Km. Algo como 5 Km já seria do seu agrado.

As mulheres seriam obrigadas a receber de bom humor os maridos que chegam meio bêbados de madrugada em casa. Em compensação eles teriam a obrigação de emprestar às esposas seus cartões de credito para elas irem às compras nos shoppings centers uma vez por semana.

Houve uma sugestão no mínimo exótica; que no meu governo fossem contratadas cartomantes para toda a população. Já que o SUS disponibiliza teoricamente médicos para todo mundo, por que não cartomantes? Só assim os pobres poderiam evitar de torcer pelo Vasco, eleger políticos que irão roubar e cair fora de chifres que ainda serão postos.

Por aqui eu vou parando, na certeza de que pelo menos uma dessas ideias conta com sua simpatia, elegíveis leitores. O que há de comum entre todas é que são absolutamente inexequíveis. Mas são propostas de quem quer seu voto.

Tenham cuidado; o voto é uma arma que tanto mata as más práticas políticas quanto induz ao suicídio da democracia quando mal dado.

Emagrecer comendo - Marcos Pires



Quando tive que perder 30 quilos passei a conviver diariamente com esse tipo de sonho; emagrecer sem deixar de comer, porque eu adorava comer. Mas deixei de “gostar” das comidas e aprendi a gostar somente do que me faz bem. Parece até relação amorosa, hem?

Num determinado momento eu fui tão apaixonado por comida que se um pãozinho de alho fizesse cafuné eu namorava com ele. Naquele tempo eu achava que fome era o único sentimento que valia a pena ter; os outros sentimentos mais cedo ou mais tarde me ferravam. E passei a observar os casais amigos e a interferência da comida em seus relacionamentos. Quando estavam bem nos casamentos comiam pizza juntos, mas quando brigavam e se separavam, cada qual que comesse suas alfaces para reentrar em forma. Já fui testemunha do fim de um casamento durante uma palestra sobre emagrecimento. O palestrante falava de alimentos que nos prejudicam muito tempo depois de ingeridos, como a carne vermelha, refrigerantes, e por aí foi. De repente voltou-se para a plateia e perguntou se alguém conhecia algum alimento que fizesse mal mais de vinte anos depois de ingerido. Um senhor gorducho sentado ao lado da esposa levantou-se; “- Eu sei, o bolo do meu casamento”. Ah, leitores, a esposa meteu a bolsa na cabeça do coitado e retirou-se puxando-o pelo colarinho. Que cousa!

Acontece que os homens engordam e não estão nem aí; já as mulheres que estão acima do peso rezam muito menos para emagrecer do que pedem a Deus para suas amigas engordarem mais que elas. São interessantes as mulheres; elas comem muito, principalmente doces, mas querem emagrecer, da mesma maneira que compram muitos vestidos mas dizem que nunca tem o que vestir na hora de sair.

Minhas amigas são absolutamente sinceras no tema. Teresa me perguntou: “- Ô Marcos, por que será que Deus faz engordar ser tão mais fácil que emagrecer? ”. Eu não soube responder, mas uma coisa é certa; pesquisas indicam que as mulheres adoram ouvir :1 - Eu te amo; 2 - 50% de desconto e 3 - Como você emagreceu.

Minha amiga S. me contou a verdadeira a história do Paraiso. Segundo ela, a serpente teria tentado diversas maneiras de convencer Eva a comer a maçã, sempre sem sucesso. Até que sibilou nos ouvidos de Eva: “- Come, besta, maçã emagrece”. Deu no que deu.

Chega-se assim à inevitável conclusão que emagrecer comendo é como promessa de político; há sempre quem acredite.

E os feriados, hem? - Marcos Pires



Na próxima sexta feira teremos mais um feriado. Pouco importa se é o dia da pátria, o dia das mães ou o dia da pizza; nós brasileiros adoramos feriados, a ponto de fazermos nossos calendários com base nos feriados. Só quem está de férias é que não dá o devido ao valor a um bom feriado.

Já perceberam, queridos leitores, que temos feriados ruins, bons e excelentes? Um feriado que cai num domingo é mais inútil do que olhos azuis em gente feia, me dizia a amiga J. F.. Essa amiga é daquelas que mede a sanidade das pessoas pelos feriados. “- Ô Marquito, se no começo do ano você vai logo procurar no calendário o seu aniversário e os feriados, está provado cientificamente que você é normal”. Será?

Mas voltemos aos feriados ruins, bons e excelentes. Do feriado ruim já tratei aqui, é aquele desperdiçado por cair num domingo. Os bons feriados caem na semana, de preferência numa sexta-feira ou na segunda-feira. Meu primo dizia que começar a semana com um feriado é como começar um jantar pelo pudim. Se eu pudesse escolher, votaria nos feriados que caem nas segundas-feiras, se bem que com essa perspectiva costumamos enforcar as tardes das sextas-feiras anteriores.

Quando eu comecei a desenvolver esse assunto estava próximo a um amigo que é desses religiosos fanáticos. Pois ele me disse que os feriados da igreja católica não deveriam poder ser usufruídos por ateus. E sublimou sua crença: “- Amigo, imagina que quando Ele nasce você ganha presente, quando Ele morre você ganha feriado e quando Ele ressuscita você ganha chocolate. Não é à toa que Jesus é tão querido”.

Numa coisa, entretanto, todos concordamos independentemente de nossas crenças religiosas; agosto é o pior mês do ano, porque não tem nenhum dia feriado. Deve ser por isso que chamam agosto de mês do cachorro louco.

Mesmo com religiões diferentes há mais o que nos unir no gosto pelos feriados. Por exemplo a raiva da babaquice daqueles calhordas que para se exibirem dizem que honram os feriados. Por exemplo; assistem aos desfiles no 7 de setembro e trabalham no dia 1 de maio. Tudo certo, com diz Van Van…por que então esse pessoal não honra o dia 2 de novembro, quando comemoramos finados?

Claro que mesmo um feriado bom, daqueles que caem na segunda-feira, pode se estragar com a chuva. Mesmo assim, feriado com chuva é igual a motel sem cama, sempre dá pra fazer alguma coisa.

No mais, o Brasil que eu desejo é aquele em que os feriados virem rotina.

Comprando leis - Marcos Pires



 Fui ao Rio de Janeiro com Mãe Leca no último fim de semana para correr a Meia Maratona Internacional e depois da prova estávamos relaxando no piscinão de Ramos, que fica em frente à pensão na qual nos hospedáramos, ouvindo um grupo de turistas estrangeiros ao nosso lado conversar sobre o Brasil. Lá pras tantas uma das moças pediu emprestada a câmara de ar (pneu de trator, obviamente) que Mãe Leca usa em suas incursões aquáticas, e isso nos levou a participar das conversas do grupo.

Identificado como Advogado, o interesse dos gringos voltou-se para os esclarecimentos que eu poderia dar sobre nosso sistema jurídico.

Meus novos amigos quiseram saber sobre aquela história das empreiteiras terem comprado leis, as tais Medidas Provisórias que beneficiavam seus interesses. É que no pais deles o máximo que se consegue comprar é um Deputado aqui, um Senador ali, sempre no varejo. “- Aqui no Brasil as operações de corrupção são feitas no atacado, mister Pires? Porque para transformar uma MP em lei é necessário que o Congresso vote, pois não? Compram-se quantos parlamentares de cada vez? ”

Para explicar o Brasil, contei a eles uma história verdadeira, acontecida numa grande cidade do nosso interior, ocorrida nos anos 60. Deu-se que o Governador da Paraíba foi visitar uma escola pública e encantou-se com o rapazinho que administrava a cantina. Com menos de 15 anos era desenrolado e ativo. O Governador puxou conversa com aquele garoto e perguntou o que ele precisava a título de incentivo. “- Se o senhor dispensasse o recolhimento do ICM eu poderia baixar o preço dos lanches que sirvo aos alunos”. Após muitas gargalhadas Sua Excelência determinou ao Secretário de Fazenda que fizesse o tal decreto. Afinal, uns poucos refrigerantes não iriam prejudicar a arrecadação estadual.

Meses depois o Governador recebeu a visita da diretoria do maior fabricante de cigarros do país. Pensava que tratariam da instalação de uma fábrica no Estado. Qual o quê! Era uma reclamação contra o tal decreto, que permitia a alguém que eles não conheciam, tomar conta de todo o mercado de cigarros da região, levando à falência os tradicionais clientes da fábrica.

Aquele menino cresceu e enriqueceu. Eu o conheci e me tornei seu fã.

Conserta-se disco voador - Marcos Pires



 Faz tempo que ninguém dá notícia do aparecimento de discos voadores, me cobrou o leitor na fila do supermercado. Por acaso eu teria alguma novidade sobre o assunto? Não, infelizmente não. Novidades nesse setor por aqui só os ETs da política. Na verdade, nunca vi um disco voador, mas o leitor tinha razão. Parece até que os discos voadores saíram da moda.

E como meus leitores sabem que adoro conversar com eles, o meu colega de fila de supermercado propôs outra questão, essa verdadeiramente instigante. “- Ô jornalista, me diga uma coisa; se aparecer um disco voador e os ETs me pedirem para leva-los ao nosso líder, a quem o senhor acha que devo me dirigir? Eu penso que não deveria ser ao Presidente Temer, porque esse não lidera nada, está em fim de governo e a conversa que se ouve é que será preso no ano que vem. Pensei em levar os ETs para serem apresentados ao próximo presidente, mas como não sei quem será eleito acho que deveria começar pelo ex Presidente Lula, só que tenho dúvida se a Juíza do Paraná permitiria…é bem capaz que sim, né? Já deixou tanta gente entrar naquela carceragem! Me guiando pelas pesquisas acho que eles deveriam visitar também o capitão Bolsonaro, mas aí pode ser que o homem se esprite e queira enquadrar os espaciais. Com Ciro Gomes não seria muito diferente…eita homem bruto! O certo mesmo seria levar os ETs para conversarem com Marina. Eu acho que eles têm uma certa conexão. O que o senhor acha, escritor? ”

Eu? Eu acho é graça.

Saí do supermercado e fui pesquisar o assunto. Descobri que a partir de 1990 a Paraíba foi prodiga no avistamento (é o termo técnico) de OVNIs, principalmente nas cidades de Pilõezinhos, Jacaraú e Bayeux. Descobri que em quase todos os casos os discos voadores pretendiam sugar os seus avistadores através de feixes de luz, mas sempre eram detidos porque os paraibanos intuitivamente descobriram formas de defesa que iam da abertura do guarda-chuva à proteção da copa de arvores. Cá comigo pensei: “- Como devem ser burros esses ETs. Afinal, desenvolvem altíssima tecnologia que permite atravessar galáxias e não sabem como fechar um guarda-chuva”.

Mas por que essa preferência dos discos voadores pela Paraíba? Um amigo campinense deu a dica: “- Marcão, se um disco voador quebrar e precisar trocar o carburador, onde é que você acha que eles vão procurar especialistas em conserto de disco voador ?”.

Sou fã número um da inventividade dos irmãos de Campina Grande.

Foi nas filas - Marcos Pires



Como não poderia deixar de acontecer, essas gigantescas filas que se formaram nos postos de gasolina em consequência do movimento dos caminhoneiros geraram uma interação nunca antes vista entre os proprietários de automóveis sequiosos por comprar muito mais caro a gasolina nossa de todos os dias.

Negócios começaram a ser discutidos e fechados, antigas amizades escolares foram relembradas, romances foram engatados e até um chifre foi flagrado. De início eu não acreditei muito nessas conversas, mas fui pessoalmente conferir, e logo fiquei impressionado com o comercio que se estabeleceu naquelas filas. Lembram daquele afro-descente Jacaré? Pois é, não tem nem um par de sandálias havaianas decente, quanto mais um automóvel, mas estava na fila vendendo “a vez”. Localizava motoristas que não faziam questão de passar para trás na ordem de atendimento em troca de uma grana e oferecia “a vez” a quem estava na rabeira da fila. Havia começado cobrando 40 reais, mas já estava nos 75 “contos”, como ele ainda teima chamar nossa moeda. Rachava o capilé com os “proprietários” dos automóveis que concordavam em ceder sua posição. Naquela altura já faturara mas de 300 reais.

No entanto, negócios muito mais substanciosos estavam sendo realizados. Soube de fonte segura que corretores de automóveis saíram das agencias pilotando veículos dos estoques, colocando-os nas filas e oferecendo trocas vantajosas aos motoristas que pacientemente esperavam horas para abastecer. Quando havia hesitação do incauto, davam a cartada final: “- Olha só, chefia, além do prazo de 36 meses para pagar a diferença, ainda dou o carro com o tanque cheio”. Tiro e queda.

Além dos negócios um outro fator me chamou a atenção; as paqueras descaradas que estavam rolando entre os sequiosos motoristas. Cantadas de toda sorte(?), algumas terríveis, como aquela do pedreiro que pilotava uma moto de cilindrada mínima: “ - Gatinha, posso completar o seu tanque? ”, e em seguida fez uma comparação da mangueira da bomba de gasolina com o seu... deixa pra lá.

Como não podia deixar de ser, um candidato a deputado apareceu na fila fazendo sua propaganda eleitoral, prometendo de um tudo. Igualzinho aos outros, mais com um diferencial; sua equipe de campanha assumia o lugar dos motoristas enfileirados nos postos e ia acompanhando a fila vagarosamente, enquanto os proprietários dos veículos eram levados a um trailer estacionado do outro lado da rua, onde tomavam agua gelada e cafezinho.

O chifre? Ah, leitores, o candidato descobriu a esposa na garupa de uma possante moto, cujo jovem e marombado condutor esperava a vez de abastecer. A partir daí foi o que se viu.

Anacleto & Eduardo - Marcos Pires



 
Mesmo depois de morto Anacleto Reinaldo ainda manteve contato comigo. Na verdade, um dia depois do seu falecimento meu celular tocou e no visor o autor da chamada era Anacleto. Depois de muita adrenalina atendi e do outro lado quem falava, usando o telefone de Anacleto, era seu assessor “Lapa de corno”. Queria saber se o meu compromisso com Anacleto sobreviveria à morte dele. Em resumo eu dava ao amigo, toda semana, o que ele codificou como “empurrão”; uma pequena ajuda para a produção dos seus programas radiofônicos. Com Lapa de corno o compromisso passou a ser semanal. Sempre em memória de Anacleto.

Ah, curioso leitor; você não conheceu Anacleto? Pois bom, uma rapidinha dele. Com seu metro e trinta de brabeza e altura, apresentava seu programa diário no rádio quando entrou a jovem trazendo no colo uma criança. Reclamou que o pai do menor abandonara mãe e filho e não dava pensão. Tratava-se de militar chamado (digamos) Batista. Anacleto incorporou a raiva e esbravejou no microfone: “- Soldado Batista, cabra safado, cachorro, sem vergonha, viado, corno...”e por aí foi até o limite do seu vocabulário. Dia seguinte, mesmo horário, programa ao vivo e no ar, adentra o estúdio um sargento fardado e armado, que Anacleto imediatamente identificou como o militar que ele insultara na véspera. Antes da autoridade falar qualquer coisa, o bravíssimo radialista atacou: “- E acaba de chegar aqui o general Batista, que ontem foi difamado por uma meretriz, uma marafona, uma mulher de rua, que atacou a honra desse exemplo do Duque de Caxias. Receba, meu general, nossa solidariedade”. Tudo certo.

Pois um dia deu-se que eu acompanhava meu enorme amigo Eduardo Albuquerque numa audiência em Santa Rita. À época Eduardo era Procurador Geral de Justiça em Brasília, e no momento em que íamos ao fórum Anacleto ligou pedindo mais um “empurrão”. Expliquei que falaria depois porque estava com Eduardo, que chegara de Brasília para uma audiência. Ao desligar ouvimos no rádio Anacleto dizendo que eu estava acompanhado de uma das maiores autoridades do país, que Eduardo era o máximo e rasgou um quilo de elogios.

Horas depois, voltando da audiência com Eduardo, recebi uma ligação de Anacleto, com quem acertei a grana. Ao final, ele emendou: “- Ô Doutor Marcos, e quem é mesmo esse pomba de galinha desse Eduardo que eu tanto elogiei? ”.

Saudades de Anacleto Reinaldo.

Um Tribunal sem vergonha - Marcos Pires



Acusações de nepotismo e uma decisão judicial demitindo mais de 300 servidores foram apenas uma parte do inferno astral que se abateu sobre o Tribunal Regional do Trabalho da Paraíba e Rio Grande do Norte (13ª Região). Mesmo com a divisão posterior das jurisdições pela implantação do TRT 21ª Região, que assumiu a parte do Rio Grande do Norte, nossa Justiça do Trabalho continuou passando por momentos terríveis.

Alguns amigos que foram injustiçados e a quem sempre renderei homenagens e respeito à memória perderam-se no caminho e não puderam ver o final da história. História incrível, onde chegou a ser executada à época uma intervenção no Tribunal com o afastamento de todos os seus membros, algo inédito até então.

Os servidores passaram uns tempos falando de lado e olhando pro chão (como disse Chico Buarque) mesmo sem terem sido remotamente citados nas supostas irregularidades, o que fazia ainda maior a dor sentida. Foram dias especialmente tristes aqueles em que chegou a ser cogitada pura e simplesmente a extinção do TRT da Paraíba, que voltaria a ser um apêndice do Regional de Pernambuco, de quem se tornara independente depois de muitos anos de luta. Imagino como deve ter sido difícil para cada Juiz e cada servidor cada dia de trabalho logo após a debacle, movidos somente pela fé e pela esperança.

Mas deu certo. Tão certo que o Ministro Lelio Bentes, Corregedor Geral do Tribunal Superior do Trabalho acaba de concluir correição no TRT da Paraíba e destacou a sua celeridade e agilidade. Chegou à conclusão de que nós temos um Tribunal que fica em primeiro lugar entre os Tribunais de médio porte do Brasil com relação à produtividade, e mesmo juntando todos os Tribunais, inclusive os maiores, destaca-se o TRT da Paraíba no honroso quarto lugar. Tem mais; também é o Tribunal com o menor resíduo de processos e menor prazo que medeia desde a entrada dos processos e suas sentenças entre todos os Tribunais de médio porte do país.

Isso dá um orgulho enorme aos servidores e Juízes. Esse é o exemplo que nós, brasileiros, estamos precisando seguir em meio ao caos e ao descrédito que se abateram sobre nossa amada nação. Temos que pegar emprestado dos vitoriosos sobreviventes do TRT a esperança e a fé que os fizeram vencer as adversidades.

Os brasileiros precisam agir imediatamente para que os políticos sem-vergonha que todo dia vendem parte das nossas esperanças não tenham mais mandatos, e que enfim sejamos um povo sem vergonha do país onde nascemos.

Amem!

Quando eu chegar no céu. - Marcos Pires



 Não tenho a menor dúvida de que irei para o céu quando não tiver mais como me divertir aqui. Por isso fico perguntando aos amigos como é que eles imaginam que seja o céu. Para M., um gordo exponencial, o céu é um lugar mágico, onde os gordos podem comer tudo o que quiserem, inclusive muitas sobremesas, aí incluídos o pudim com furinhos, tortas de limão e chocolate e muito sorvete, sem que engordem uma grama. Ao contrário, quanto mais comerem, mais os gordos emagrecerão.

Já o B. é um amigo que gosta de, como direi..., comentar sobre a vida alheia. Há quem o chame de fofoqueiro, alguns até de fuxiqueiro, que seria a sublimação dos fofoqueiros. Pois bom; o B. acha que no céu não haverá necessidade de escarafunchar a vida alheia, porque é só acessar o computador divino que lá estarão registrados todos os malfeitos dos humanos que sejam dignos de uma boa fofoca. Só que no céu não há pecado nem maldade, e no meu entender celestial as fofocas estariam entre os dois. Por isso perguntei a ele de que adiantaria saber dessas histórias cabeludas se não teria com quem fofocar. “- Deixa de ser besta, Marcão; vez por outra deve ser aberta uma janelinha para o inferno e nessas horas eu conto tudinho aos amigos daqui que foram ser diabos lá”.

O amigo Z. é sabido. Ele imagina que no céu terá vantagem em tudo; assim tipo comprar uma dúzia de laranjas e receber uma grosa. Para Z. os bancos do céu errarão sempre em favor dos clientes quando fizerem os lançamentos em suas contas correntes e as operadoras de cartões de credito esquecerão de mandar as faturas para cobrar dos usuários.

Já minha amiga C. é daquelas pessoas que reclamam de tudo e de todos. Aliás, eu estou convencido que ela, bem no íntimo, adora ser mal atendida ou ter um prejuízo, só para poder reclamar. Ela disse que imagina o céu com um enorme balcão de reclamações para atender aos anjos. Sem filas e com muitas secretárias, ar condicionado, cafezinho e água gelada. Nada de reclamações por telefone, porque isso de passar horas pendurada no celular com uma atendente invisível (e sempre cair a ligação) já é o inferno aqui na terra.

Eu só achei estranho essa coisa de fazer reclamações no céu. Se é o céu, reclamar do que? A amiga abespinhou-se. “- Oxente, se lá não tiver do que reclamar prefiro mil vezes ir para o inferno”.

Que cousa!

O que os motoboys veem - Marcos Pires



marcos@piresbezerra.com.br

 

Assim como os garçons dos diversos restaurantes da praia que se reúnem no bar do pastel para sus hilariantes conversas madrugada adentro depois que o expediente termina, os motoboys também tem essa mania. Depois de muito tentar, finalmente consegui ser aceito num desses papos, apresentado pelo motoboy que trabalha com a farmácia onde compro meus oitocentos remédios mensais.

Minha curiosidade foi despertada pelas inusitadas histórias de todos os tipos, desde problemas com o transito ao que mais me empolgou; os clientes que eles atendem.

Um dos motoboys, que trabalha com restaurantes, contou que foi entregar uma pizza no apartamento de uma senhora que ele estima ter mais de 75 anos. Ela autorizou sua subida e quando ele chegou à porta, ela estava enrolada numa enorme toalha, como se tivesse sido surpreendida ao entrar no banho. Pediu que ele colocasse a pizza na mesa da sala enquanto ia pegar a grana. Quando ele virou-se para receber o dinheiro, ela deu um jeitinho de fazer a toalha cair. “- Rapaz, eu dei uma carreira escada abaixo que cheguei no térreo mais ligeiro do que havia subido pelo elevador. E olha que eram doze andares”. Dois outros motoboys que estavam na roda da conversa conheciam a cliente, que praticara o mesmo expediente com eles. Pelo que disseram a estratégia da romântica balzaquiana não surtiu nenhum efeito.

Muitos dos motoboys queixaram-se da entrega que fazem de cerveja, sempre com reclamações de que está quente, mesmo sendo transportada em caixas de isopor. A bronca aumenta quando quem pediu as cervejas está no meio de uma festa e já embalado no álcool. Aliás, sobre isso de festas é impressionante as histórias que contam meus amigos motoboys. O que eles veem de festas malucas não dá pra contar. Vez por outra os clientes ao receberem as encomendas convidam os motoboys para as festas. Neste ponto achei arretado o profissionalismo deles. Nunca aceitam, mesmo porque sempre tem outras entregas para fazer. Mas me interessou demais a confirmação, por alguns deles, de uma certa autoridade que vez por outra faz pedidos de madrugada para mimosear parrudos garotões de praia, bronzeados e tatuados, exibindo músculos inflados, a quem a excelência chama de seus sobrinhos. O engraçado é que toda vez que as entregas são feitas os tais sobrinhos são diferentes.

Deve se tratar de uma família enorme, hem?

Os brasileiros - Marcos Pires



 Povinho danado esse, viu? Meu colega escritor Ariano contava que sempre ia aos domingos tomar caldo de cana e comer pão doce no mercado São José, em Recife. Na porta um ceguinho mendigava e Suassuna lhe dava uma grana. Foram tantos anos de esmolas que o ceguinho identificava Ariano pelos passos. Um dia saudou: “- Seu Ariano, estou precisando de um favor seu”. Meu colega escritor se pôs ao dispor. “- Sabe o que é, seu Ariano? É que eu gostaria que o senhor adiantasse quatro semanas de esmolas porque eu vou tirar um mês de férias”. É, amigos leitores, no Brasil é assim.

Esses brasileiros são fantásticos mesmo quando confessam crimes. Prestem atenção nessa história absolutamente verdadeira. Numa cidade do nosso interior o cidadão tinha uma bodega onde vendia de um tudo, inclusive agua mineral, pela qual cobrava 1 real a garrafa. Um concorrente estabeleceu-se bem em frente a ele e começou a baixar os preços. Para vocês terem uma ideia do estrago, a agua mineral que ele vendia a 1 real o concorrente passou a vender a cinquenta centavos. Claro que ele ficou possesso. Passava o dia reclamando aos clientes, encostado no balcão. “- Tá vendo só, seu Francisco. Eu trabalho que nem um condenado todo dia há mais de 20 anos. Aí vem um amarelo safado desses e quer me quebrar. O senhor imagine que ele está vendendo a agua mineral pela metade do meu preço. E olha que eu tenho fabricação própria. É um marginal”.

Esses brasileiros são incríveis. Numa outra cidade de nosso interior um desses nossos conterrâneos era conhecido por não pagar suas contas. Um dia ele foi à loja de seu Eurípedes e disse que queria comprar a tesoura que estava na vitrine. O seu Eurípedes, antevendo o prejuízo com o calote, tentou convencê-lo a não comprar a tesoura em sua loja: “- Compadre, na loja de dona Chiquinha essa tesoura está pela metade do preço, é melhor você comprar lá”. Mas o velhaco não deu trégua: “- Ah não, compadre Eurípedes, não vou fazer uma desconsideração dessas com você. E tem mais, já dei minha palavra, vou comprar é aqui”. Essa discussão demorou quase uma hora, e enfim o dono da loja cansou. Foi buscar a tesoura e a promissória a vencer em 30 dias para o caloteiro assinar. Preencheu a promissória e quando terminou, deu um suspiro e desabafou: “- Olha aqui, compadre, eu sei que o senhor não vai pagar essa promissória, mas que eu botei pra lascar no preço, ah, isso eu botei”.

Eita povinho que eu amo.

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