‘O Paiz‘ visita o Estado - Ramalho Leite



O imigrante português João José dos Reis Junior, portador do titulo nobiliárquico de conde São Salvador de Matosinho, era o proprietário da casa número 63 da Rua do Ouvidor, no centro do Rio, onde, por inspiração de Quintino Bocaiúva, “o príncipe da imprensa brasileira” fundou e instalou “O Paíz”, jornal “independente, político, literário e noticioso”.

Era primeiro de outubro de 1884. O diário adotaria diversos perfis políticos ao tempo em que, enfrentava também, dificuldades financeiras. Sobreviveu até os anos 1930. Foi grande instrumento da causa abolicionista. Atravessou a República Velha sempre ao lado do poder. Intransigente adversário da Aliança Liberal, ao chegar à era Vargas, já estava nos estertores devido à longa noite de censura imposta a partir de 1924 na gestão de Artur Bernardes na presidência da Republica. O permanente “estado de sitio” amordaçou a imprensa e deixou em situação desfavorável os órgãos que se propunham a defender o governo, como era o caso de “O Paiz”.

Durante sua existência, o jornal registrou a passagem por sua redação de figuras eminentes da intelectualidade nacional, a exemplo de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Alcindo Guanabara, João Lage e Eduardo Salamone, este ultimo um veterano desde os tempos da fundação e que assumiria a chefia de redação a partir de 1891.Com sua sede invadida por uma multidão de fanáticos getulistas, e incendiada, a historia desse jornal chega ao final com suas rotativas arrematadas em um leilão pelo paraibano Assis Chateaubriand.

Eduardo Salamone, já referido anteriormente, redator chefe de “O Paiz”, esteve em visita à Paraíba e foi festivamente recebido pelos integrantes do jornal O Commercio, conforme noticia em sua primeira pagina a edição de 8 de maio de 1900. A rapidez da visita foi lamentada pelo jornal de Artur Aquiles que assim dirigiu-se aos seus leitores: “ A inesperada partida do porto de Pernambuco do vapor Planeta, não nos deo tempo sulfficiente para aparelharmos a recepção que merecia Eduardo Salamone, entretanto, proporcionamo-lhe quanto nos permittio a restrição do tempo e nas poucas horas que esteve entre nós manifestamo-lhe a satisfação, a ufania e apreço recebidas da imprensa e moços d’ esta terra.

A uma hora da tarde, em bonde especial, gentilmente offerecido pelo Sr Gerente da Companhia, percorremos todos as partes da cidade servidas por este meio de transporte, até que pelas 3 horas o notável homem de letras teve de regressar a estação central, a tomar o trem que o havia de condusir ao bojo do “Planeta” fundeado em Cabedello”.

O ilustre visitante estava acompanhado da esposa e dois filhos e foram hospedes de O Commercio. Na estação ferroviária estavam a esperá-lo o próprio Artur Aquiles, responsável pelo diário e seu co-proprietário, jornalista Eduardo Fernandes, e Affonso Gouveia. O tesoureiro Diomedes Cantalice deslocou-se até Cabedelo para abraçar o periodista carioca, também acolhido pelo correspondente de “O Paiz” entre nós, Tito Enrique da Silva. O jornal paraibano não esqueceu de registrar que a família visitante passou por alguns momentos de repouso,” preenchidos pela prosa castiça de Salamone” antes que lhe fosse servido um modesto almoço na residência dos moços Manoel de Carvalho,Joaquim Etelvino e Antonio Peixoto, “muitos distintos moços de nosso commercio”.

O Commercio fazia oposição ao governo estadual da Paraíba e aproveitou para alfinetar seus adversários, censurando a ausência de representante do jornal oficial A União, na recepção ao badalado jornalista brasileiro: “Tornou-se notável a ausência de qualquer dos confrades da “União” na recepção ao talentoso redactor do “Paiz”, tanto mais quanto fora ella avisada com antecedência do facto de sua passagem por esta capital. Eduardo Salamone é um dos luminares da imprensa do Brasil; eis a explicação da falta do nosso colega indígena,cuja preocupação exclusiva é, actualmente, a politicagem de aldeia e o engrossamento aos que afinam só pelo diapasão do partidarismo armado a dynamite”.

Detalhe curioso sobre a história desse importante periódico: Rui Barbosa só assumiria a chefia da sua redação por três dias, sendo substituído por Quintino Bocaiúva que ali permaneceu até ser nomeado ministro de Deodoro da Fonseca. Joaquim Nabuco, apesar de abolicionista, era monarquista e por divergir da linha editorial do jornal, que defendia a República, despediu-se de suas páginas.

E aqui termina a narrativa da visita de “O Paiz” à Paraíba.( Nas transcrições mantive a grafia da época)

Tio Pita deu a ordem - Ramalho Leite



 

Muito se tem escrito sobre os acontecimentos que culminaram com a chamada revolução de 1930. Não terei a veleidade de, neste pequeno espaço, analisar fatos ou emitir conceitos. Prefiro o registro dos acontecimentos deixando aos leitores seu juízo de valor. Todos sabem que Getúlio Vargas manteve o presidente Washington Luiz, de quem foi ministro da Fazenda, por longo período, acreditando na sua fidelidade. O gaúcho, enquanto permitia seus seguidores tramarem, em surdina, sua candidatura presidencial, negociava créditos federais para obras prioritários no Rio Grande do Sul. Uma carta de sua lavra, jurando apoio ao Catete, foi amplamente divulgada.

Posteriormente, outra missiva juntou-se à primeira no arquivo de Washington Luiz, com pensamento totalmente oposto. Osvaldo Aranha ouviu o seu desabafo: “A última carta de Getulio foi para mim uma surpresa brutal”, como conta Lira Neto em um dos três volumes sobre o caudilho dos pampas. À época, os fatos políticos eram gerados por cartas e telegramas. Getúlio terminou ganhando o apelido de “Getúlio Cartas”.

Decidida sua candidatura para enfrentar a chapa oficial, Getúlio precisava de um vice. Uma consulta feita por Washington Luiz sobre o apoio ao nome de Júlio Prestes, então presidente de São Paulo, para seu sucessor, recebera a aprovação da ampla maioria dos estados. Minas, de Antonio Carlos, a Paraíba, de João Pessoa e o Rio Grande, juntos, adotaram o NEGO paraibano e passaram a compor a chamada Aliança Liberal que apresentaria a chapa Getúlio presidente, João Pessoa, vice. Antes de se chegar ao nome de João Pessoa, sondaram Paulo de Frontin, senador pelo Distrito Federal e grande prefeito do Rio. Alegando ser amigo do Presidente, aderiu a Júlio Prestes. Outro consultado foi o Simões Filho, líder da bancada baiana na Câmara e fundador do jornal A Tarde. Este recusou, veementemente, e foi acusado por João Neves da Fontoura, líder gaúcho, de estar negociando para a Bahia a mesma posição na chapa oficial em troca de favores inconfessáveis. Chegaram aos empurrões. O vice escolhido foi o presidente dos baianos, Vital Soares. Subindo o mapa do Brasil, os emissários de Getúlio ainda procuraram Estácio Coimbra, presidente de Pernambuco. A sua negativa levou ao nome de João Pessoa, destacado governante da Paraíba que ganhara o noticiário nacional com medidas austeras e práticas inovadoras, enfrentando a política dos coronéis. “Só uma vassourada em regra pode purificar a vida pública, rebaixada por figuras sem significação e aproveitadores gulosos”, diria. Terminaram por varrê-lo.

O imposto que João Pessoa instituiu e que lhe valeu o epíteto de “João Porteira” visava fortalecer a economia interna e canalizar nossas exportações para o porto de Cabedelo, o que desagradou, principalmente, à praça pernambucana, acostumada desde os tempos coloniais a explorar as riquezas da nossa “capitania”. A reação não intimidou João Pessoa que avisou pelo jornal A União: “Os descontentes que se mudem para o Ceará ou Pernambuco, vivam por lá, e não se lembrem de voltar, porque voltando, terão de pagar a incorporação, ( era o imposto novo) talvez acrescida”. Pois esse espírito bravio, austero e que dava demonstrações de uma coragem exemplar, politicamente, era dependente do tio Pita, ou seja, seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente do Brasil e naquele tempo, membro da Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda.

Vejam o que nos narra Lira Neto: “Naquele fim de julho de 1929, dezenas de telegramas cruzaram o Atlântico pelo cabo submarino internacional que então servia às comunicações entre o Brasil e a Europa. Apesar do temperamento aguerrido e autoritário de João Pessoa, havia um ritual hierárquico a ser cumprido.Somente após o necessário consentimento de Epitácio- tio Pita, é que o sobrinho passou a ser abordado de modo direto pelos mensageiros de Getúlio....Na segunda feira, 29 de julho, Epitácio escreveu mensagem ao sobrinho para avisá-lo que autorizara o presidente mineiro Antonio Carlos a oficializar o convite (para vice de Getúlio). Isto significa que aceitarás”. Ordenou Epitácio Pessoa.

O professor Lira Neto vai mais longe na sua avaliação: “A despeito de representar um pequeno estado e de ter entrado na política paraibana pela janela das contingências oligárquicas, Pessoa vinha causando perplexidade nas lideranças estaduais mais conservadoras ao mandar cortar despesa supérfluas,demitir pessoal excedente, extinguir secretarias que funcionavam como meros cabides de emprego e impedir a reeleição indefinida dos intendentes municipais”.

De longe, porém, o tio Pita advertia: “Sei que as medidas que está tomando são todas de moralidade e justiça. Não estão acostumados a isto. A grita está sendo e há de ser enorme. Não se extirpam num instante hábitos enraizados desde muitos anos”.

A impaciência de João Pessoa levou-o ao trágico final. A mudança brusca que procurou imprimir aos costumes da terrinha, terminou por fulminá-lo. Seu cadáver seria o estopim que deflagraria o movimento de 1930. Mas essa é outra história.

‘Para não dizer que não falei de flores‘ - Ramalho Leite



 

 

Tenho ocupado esse espaço para uma volta ao passado ao invés de incursionar pelo presente. Não por alienação ou omissão, mas por vocação: amo a pesquisa e exalto a memória histórica como lições de antanho para nortear o futuro. Assim chegamos aos primeiros dias de um novo ano com a esperança nascente de que, nos próximos, a vida melhore e as flores voltem a exalar seus melhores perfumes.

Testemunhamos, ao longo desse período, uma invasão traumática às entranhas da Nação, revelando excrementos acumulados e acobertados pelo disfarce, a simulação, a impostura ou a fraude. “Nunca na história deste País” os olhos e os ouvidos de todos foram tão ofendidos pela ação nefasta de uns poucos que se protegiam com a certeza da impunidade. O império da lei prevaleceu e a Justiça invadiu territórios jamais acessados. Se antes apelavam aos quartéis e colocavam os tanques nas ruas, agora se preferiu acreditar “nas flores vencendo os canhões”. A democracia só floresce na paz.

Está por demais justificada a razão pela qual preferi compor os meus textos com a pesquisa e aproveitar da história seus aspectos mais pitorescos e inusitados, chegando ao burlesco. Preferi Pedro II como amante da Condessa de Barral, presente às aulas de suas filhas, ao tempo em que namorava ostensivamente sua preceptora. As peripécias de Pedro I, visitando as mais variadas alcovas e requisitando companhia intima desde as senzalas aos conventos, passaram por este recanto de página. Getúlio Vargas ameaçou por várias vezes o suicídio e o cometeu quando ninguém esperava. Foi um amante apaixonado pelo Brasil e pelas belas mulheres. No advento da República, o herói não teria sido Deodoro mas o seu cavalo. Pelo feito de conduzi-lo, permaneceu até o fim da vida com direito a fartura de feno e a honrosa aposentadoria. Foi o inventor da sinecura.

Preparo para este ano um novo livro a que denominei Gente do Passado Fatos do Presente e cuidei de me explicar: “quem já me conhece sabe que costumo colocar em fatos sérios um pitada de humor, dourar com ironia atitudes muitas vezes equivocadas e criticar com acidez atos que incomodam a perspicácia desse ativista político que já exerceu mandatos, ajudou outros a conquistá-los e, por isso mesmo acumulou a experiência que o transformou em um gestor publico requisitado por vários governos”. Com o perdão da imodéstia, quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo haverá de concordar com esse perfil.

A rememoração de fatos pretéritos é para mim uma forma de, ao lembrá-los, transmitir a certeza de que estou aprendendo e ensinando uma nova lição, para repetir Geraldo Vandré, que neste fim de ano revisitou a sua Paraíba. Nunca a pregação de sua canção esteve tão presente e necessária a incutir na mente dos brasileiros o desejo de mudança. Que cada um faça a sua parte: “vem, vamos embora que esperar não é saber/quem sabe faz a hora não espera acontecer”. (Republicado por incorreção dos personagens)

Os imperadores e suas amantes - Ramalho Leite



 Já escrevi sobre amantes de poderosos e, naquele texto, incluí gente da nossa época, a exemplo de Getúlio Vargas, Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek e certo general que dizia gostar mais de cheiro de cavalo, mas consumia muitas milhas em busca de um cangote feminino. De passagem, lembrei Pedro I, que dividiu seu reinado com a principal amante, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos. Acho que deixei em paz Pedro II, seu filho, um tremendo “come quieto”, que não ficava longe do pai em matéria de ocupar as camarinhas do Palácio.

A diferença entre pai e filho residia na seleção das eventuais companheiras de alcova. Pedro I era mais promíscuo. Apesar da Marquesa de Santos, com quem teve cinco filhos, ainda engravidou outra filha do brigadeiro Canto e Melo, de nome Maria Benedita, casada com o Barão de Sorocaba. Antes da marquesa, uma atriz francesa inaugurou seu caderno de traição à Imperatriz Leopoldina. Os costumes da época, pelo menos no ambiente das cortes, justificavam que o leito conjugal servia apenas para perpetuar a linhagem. As paixões e os prazeres era coisa para se conseguir no aconchego das amantes. Uma comerciante francesa, de nome Clemence Saisset, também lhe deu um filho bastardo. A atriz uruguaia Maria Del Carmem Garcia não lhe deu filho, deixando essa missão para a monja portuguesa Ana Augusta. No caderno do nosso primeiro Imperador ainda entraram uma escrava do Convento da Ajuda, a esposa de um general e uma atriz portuguesa, o que demonstra que ao voltar para Portugal, Pedro ainda carregava o fogo dos trópicos. Para encerrar, obteve favores sexuais da esposa de seu homem de confiança e, até, da filha do bibliotecário de dona Leopoldina.

Dom Pedro II era um galegão de um metro e noventa, pernas e voz finas, olhos azuis, mas tristes. Há quem diga, pelo abandono do pai e morte prematura da mãe. Conhecera a futura esposa por uma pintura da cintura para cima, obra de artista europeu. Pela pintura não dava pra saber que Tereza Cristina era baixa, feia e puxava por uma perna. Foi uma desilusão que o levou às lágrimas. Mesmo assim tiveram três filhos: o homem morreu ainda pequeno e as filhas Isabel e Leopoldina se transformaram na única esperança de Dom Pedro para um terceiro reinado. Isabel desempenharia papel importante e, ao assinar a Lei Áurea, assinou também a queda da monarquia. Mas quero falar das mulheres de Pedro II, a “ metade” que teria passado a vida procurando e, parece ter encontrado, na pessoa da preceptora de suas filhas, a Condessa de Barral. Ainda passaram pela biblioteca de Dom Pedro, transformada em alcova eventual, a Condessa de Villeneuve e Eponine Otaviano, esposa de um seu amigo de infância, a Condessa de La Tour e outras menos votadas. O Imperador era pouco generoso com suas amantes e, não foram poucos os maridos da Corte que, orgulhosos, chegaram à falência para permitir que suas consortes continuassem a freqüentar a “biblioteca” do Palácio São Cristovão.

A busca de Dom Pedro II por sua alma gêmea começou com Maria Lopes de Paiva, filha do barão de Maranguape, sua primeira paixão. Um filho bastardo de Pedro I, portanto seu meio irmão, era casado com Carolina Bergaro e foi à porta dessa dama que a ronda policial surpreendeu o Imperador e alguns amigos, animados pela bebida. Identificado o Imperador, o policial debulhou-se em desculpas e acordou seu chefe pela madrugada para contar o ocorrido na certeza de que estava encerrando sua carreira. O historiador americano Roderick Berman acredita que esse relacionamento de Dom Pedro II com a cunhada durou cerca de dez anos, na maior discrição. Pedro II recebera esmerada educação para, justamente, não ser comparado ao pai, devasso e inconseqüente ao ponto de conceder titulo de nobreza a quase todos os filhos bastardos. A todos não podia dar, pois foram contados mais de sessenta bastardinhos entre o Brasil e Portugal. Hoje, com os escândalos revelados na nossa Corte Republicana, haveremos de ter saudade dos escândalos do Império.

O imperador na Paraíba - Ramalho Leite



 Ramalho LEITE
O IMPERADOR NA PARAHYBA
Muito já se escreveu sobre a visita do Imperador Pedro II à Paraíba. Sabe-se que ele chegou à nossa capital na tarde de uma véspera de Natal. Era um sábado do ano de 1859.

Um vapor da Marinha do Brasil conduzia o monarca e sua numerosa comitiva nessa viagem de quatro meses pelas províncias. Cinco dias foram dedicados à Parahyba do Norte.

As cidades de Pilar, Mamanguape e Cabedelo tiveram a honra de ver de perto a coroa de D.Pedro que, a cavalo, conheceu ainda alguns engenhos da Várzea. A pompa com que foi recebido, as despesas do erário com as festividades, reformas e adaptações das instalações palacianas, tapetes, móveis e talheres condignos às bocas imperiais, importaram na abertura de um crédito especial para tal finalidade. Um conto de réis que mandaram da Corte foi insuficiente.

Há registro de que o Imperador tomara emprestado alguns contos de réis para arcar com as despesas da viagem. O tesouro imperial era parco de recursos, mas, assim mesmo, S.M., “do seu bolsinho”, fez algumas doações que, infelizmente, foram desviadas das suas finalidades.

Quem pensar que essa história de desviar dinheiro público é invenção Republicana, está muito enganado. Governava a Paraíba, quando da visita do monarca, o paraense Ambrósio Leitão da Cunha que foi deputado, senador e presidente, ainda, do Pará, Pernambuco, Maranhão e Bahia. No seu périplo pela Província, o Imperador teve ao seu lado o governante local que, como é costume até hoje, rogava ajuda real para todos os males que não podia resolver.Pedro II comoveu-se em duas oportunidades e resolveu atendê-lo. Não voltaria, jamais, para saber o resultado dos investimentos que fez. É essa a história que estou querendo contar...

Na visita à Santa Casa da Misericórdia, Dom Pedro efetuou um donativo de seis contos de réis para serem transformados, pelo governador local, em apólices da dívida pública em favor da entidade.

O novo governante, o gaúcho Silva Nunes, ao assumir, procurou saber como fora processada aquela operação, tomando conhecimento de que nada fora efetivado.

Determinou de imediato, a sua execução. Qual não foi sua surpresa ao ouvir do Inspetor do Tesouro que esse dinheiro, saído “do bolsinho” do Imperador, sumira em função das necessidades urgentes de outros serviços da província.

Naquele tempo, os sucessores ainda não brigavam com os antecessores, e Silva Nunes justificou a falha: “Sem dúvida, se por mais algum tempo permanece na administração o meu antecessor, teria realizado a sua intenção, satisfazendo assim as vistas do Soberano”.

Andando pela nossa cidade, Dom Pedro repudiou a localização do matadouro público, construído às margens de uma estrada com prejuízo para o meio ambiente. Novamente, como narra Silva Nunes em mensagem ao legislativo de então, o imperador entregou à presidência quatro contos de réis para a remoção do abatedouro para terreno mais condizente. “Sinto ter de dizer-vos (explica aos deputados provinciais) ainda esta vez que o estado dos cofres não me consente ocupar-me por ora com essa obra nem mesmo dispondo para seu começo desses 4.000$rs devidos à generosidade do Imperador, e de que meu digno antecessor viu-se obrigado a lançar mão para acudir a encargos urgentes da Província”.

Esse presidente Silva Nunes veio governar a Paraíba graças ao fato de ser genro do Barão de Muritíba, com grande influência na Corte onde era reverenciada essa nobre genrocracia. Tanto é, que saiu daqui para o Senado e governou outras províncias enquanto seu sogro viveu sob o manto protetor de Pedro II.

Foi o primeiro governante paraibano a visitar o nosso interior. Recebido com muitas festas por ande passava. viajou trinta dias a cavalo, comendo a poeira do sertão e a lama do brejo, além das iguarias dos banquetes.

Em sua primeira mensagem ao legislativo provincial relatou as duas peripécias do antecessor que resumi acima. Mas, ao que parece, era um homem pacato e não fazia mau juízo de ninguém.

Os desvios de verbas do seu antecessor mereceram pálida referência e nenhuma censura, sendo até justificadas.Ele, porém, prometeu consertar aquelas irregularidades: “Trato de economizar quanto posso para restituir essa soma ao fim a que foi destinada pelo Augusto Doador”.

Só quem não brigou com o antecessor, porque não o teve, foi Tomé de Souza, primeiro governador do Brasil. Eis outra exceção que, seguida desde então, teria evitado muitos episódios da nossa história.Quase ia esquecendo: o Imperador assistiu à Missa do Galo, à meia-noite, na Igreja da Conceição, ao lado do Palácio.

(Consultei Wilson Seixas e Maurílio Almeida.Nas transcrições, mantive a grafia da época.Neste Natal, completa 157 anos a visita do imperador)

Recortes de jornais - Ramalho Leite



 Recebi desde o início do ano passado, em meio eletrônico, o acervo de minhas atividades como deputado estadual, incluída a elaboração da nova Constituição do Estado. Projetos, requerimentos, indicações e discursos abordando os mais variados temas, foram resgatados e fazem parte do memorial da Assembléia. Somente agora foi possível mergulhar no passado e rever alguns assuntos que polemizaram os debates na imprensa, durante a elaboração dos trabalhos da Constituição de 1989. Graças a Cida Lobo, pude reviver aqueles dias em que, como líder do Governo Burity, enfrentava uma maioria ruidosa e aguerrida, preocupada, como dizia, em dar o melhor para a estrutura institucional da Paraíba. Havia também muita incompreensão.

O jornal “O Combate”, de propriedade do jornalista e ex-deputado Jório Machado, sob a assinatura de Sandra Moura (não confundir com a renomada arquiteta) traçava um perfil infame dos deputados constituintes: “...usam gravata e paletó.A maioria tem entre dois e quatro filhos.Quase todos são médicos e advogados com idade superior a 35 anos.Foram a eles a quem os mais de 1,6 milhão de eleitores paraibanos confiaram a tarefa de elaborar a Nova Constituição do Estado.Passados quatro meses da abertura dos trabalhos da Assembléia Estadual Constituinte, inúmeros paraibanos já têm a certeza de que essa confiança atribuída nas urnas aos 36 parlamentares não está sendo correspondida....salvando-se alguns, os parlamentares estão sem fazer nada na Constituinte.Para quem acompanha os trabalhos é fácil notar que eles caíram na ociosidade. Na verdade, muitos deles estão indo à Assembléia para fazer três coisas: dar entrevista, assinar a valiosa lista de presença ( cada deputado recebe 300 cruzados novos por participar de cada sessão constituinte) e jogar conversa fora.(08.07.1989).

“A pressa é inimiga da perfeição”, rebatia o presidente João Fernandes acolitado pelo o relator Egídio Madruga. A conclusão dos trabalhos ocorreria em 05 de outubro de 1989, debaixo de muitas críticas, poucos elogios e alguns protestos. O mais relevante deles protagonizado pelo Governador do Estado, Tarcisio Burity, que recusou o juramento à nova Carta, no que foi seguido pelo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Josias Pereira do Nascimento, ausente da Paraíba, e pelo seu substituto legal, o vice-presidente Evandro de Souza Neves, este justificando para tanto, uma decisão da Corte à qual pertencia.Na realidade, o Tribunal de Justiça estava inconformado com o aumento do numero de membros daquela Corte e, também, com criação do Conselho de Justiça, obra do Voto de Minerva do presidente João Fernandes, depois considerado inconstitucional pelo Supremo.

O governador Burity, por sua vez, apontava vários pontos da Carta que visavam não somente facilitar o seu afastamento do Governo como também à implantação de uma espécie de regime parlamentarista a que chamei de “parlamentarismo tupiniquim”. A maioria da Constituinte tentou fazer da nova constituição um instrumento de oposição a Burity. Não poucas vezes eu repeti: “Burity não é eterno”. O procurador Romero Nóbrega derrubou um a um na suprema Corte, os dispositivos estranhos ao corpo legal e que se chocavam com a Carta Federal. Ao se recusar a comparecer à solenidade de promulgação da nova Constituição, Burity muniu-se de um habeas-corpus, impetrado pelo seu advogado, Joacil de Brito Pereira.Nem por isso, o presidente João Fernandes deixou de, a cada dez minutos da sessão, convidar o governador ausente a tomar assento no lugar que lhe fora reservado. O mesmo procedimento não foi adotado com referência ao representante do Poder Judiciário.

“Burity foi grosseiro” disse João Fernandes ao Correio da Paraíba de 06.10.1989. Mas, comedido, anunciou que não tomaria qualquer decisão precipitada com relação aos ilustres ausentes que se negaram jurar à Carta, acrescentando, porém: Burity não foi apenas grosseiro com os deputados que trabalharam na elaboração do texto, mas praticou “um ato de desrespeito a todos os paraibanos”. Por outro lado, Burity justificou que não iriajurar uma Constituição com a qual ele discorda, e tem a intenção de recorrer ao Supremo. “Burity acha que a Constituição foi feita contra ele”, conclui o jornal. O fato gerou especulações de alguns juristas, inclusive o ministro Rafael Mayer, para quem, a ausência dos chefes dos dois poderes ao juramento da Carta poderia resultar na declaração de vacância dos seus cargos.

Nada disso aconteceu, mas Burity escreveu na sua história esse capítulo inusitado: foi o único governador do Brasil que se negou a jurar a Nova Constituição do seu Estado

Diógenes ‘Cascudo‘ da Cunha Câmara - Ramalho Leite



 

 

Graças à iniciativa do paraibano Adalberto Targino e seus confrades da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte fui honrado com a inclusão do meu nome entre os novos sócios da entidade, na categoria de correspondente. Em muito boa companhia: Berilo Ramos Borba, Roque de Brito Alves,Raimundo de Oliveira, Ralph Siqueira, Itapuan Botto Targino, Walber de Moura Agra,Ricardo Bezerra, além dos ausentes mas não menos destacados desembargadores Rogério Fialho e Fátima Bezerra Cavalcanti. A solenidade foi coroada com a posse de nova imortal, a advogada natalense Lúcia Jales.

Roubado da cena jurídica muito cedo, quando a tribuna parlamentar me convocou, mesmo assim percorri algumas searas que enriqueceram meu curriculum e me levaram à honra de pertencer àquele silogeu.Coube ao ex-reitor Berilo Borba traçar o perfil dos empossandos. Sobre a minha modesta pessoa escreveu: “nascido em Borborema, fez os primeiros anos do ensino médio aqui em Natal, onde teve de acompanhar as travessuras de “Pecado” que agitava a moçada.Terminou seu curso secundário no Liceu , em João Pessoa.Graduou-se em direito.Foi advogado militante e procurador.Na política foi vereador em Borborema e presidente da Câmara, deputado estadual e federal. Hoje é membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e da Academia Paraibana de Letras.Jornalista consagrado,cronista,historiador e escritor:autor de vários livros”.O jornalista consagrado vem da generosidade do orador.

Registro a espontânea acolhida dos membros da ALEJURN, entidade que reúne os mais representativos juristas da terra potiguar, desde o presidente Lúcio Teixeira, ao eterno presidente da Academia Norte Riograndense de Letras, o causídico, poeta e escritor Diógenes da Cunha Lima primo/irmão de Ronaldo, sobre quem publicou recentemente ilustrado trabalho lançado na nossa Academia de Letras. Seu admirador de longa data, pelo conjunto da obra, nossa ligação é também familiar. É Ramalho da descendência dos Amâncio Ramalho e viúvo de Moema Ramalho Tinoco, filha de Artur Tinoco e Carmésia, esta, filha do velho José Amâncio Ramalho, fundador da minha terra natal e pioneiro da energia hidroelétrica no nordeste brasileiro.

Diógenes é especialista em Luiz da Câmara Cascudo. Cascudo está para o Rio Grande como Gilberto Freyre para Pernambuco e José Américo para a Paraíba. Aliás, Cascudo tem algo mais em comum com Zé Américo: ambos foram depurados quando eleitos deputados federais em 1930. “O meu mandato durou três dias”, diria Cascudo. Desde então abominou a política. Zé Américo seguiu em frente. Diógenes esmiuçou a obra cascudiana, anotou conversas, guardou dedicatórias e se deliciou com suas cartas. Absorveu essa convivência de vinte anos e documentou seus melhores momentos. Para ele, Cascudo era um brasileiro feliz.A princípio, o mestre reclamou da definição: indiretamente, milhões de brasileiros seriam infelizes... Terminou por aceitar o conceito e proclamou: “sou o que Diógenes me chamou: um brasileiro feliz”. Eu acrescentaria: e de muito bom humor.O livro de Diógenes, “Camara Cascudo um brasileiro feliz”, já vai na quarta edição e inclui um Dicionário do Humor do renomado escritor,folclorista, sociólogo, antropólogo, historiador, poeta e professor de Direito Internacional Publico. Fundador da Academia de Letras do RN e de tantas outras instituições culturais fez jus à definição de Jorge Amado: “pobre de bens materiais, mas rico de alegria criadora”.

A simbiose entre Diógenes e Cascudo, resultado de uma longa convivência e respeitosa amizade levou-me a acrescentar Cascudo no nome do poeta para compor o titulo acima. O velho mestre não reclamaria. Seu discípulo, muito menos. Desde os treze anos, quando deixou Nova Cruz para continuar os estudos em Natal, Diógenes passou a freqüentar o casarão da Junqueira Ayres. Só saia de lá com a carinhosa ordem do dono da casa: vá baixar noutro terreiro! Foi assim que começou a “beber água na fonte”,cumprindo, com rigor e dedicação a recomendação paterna: “ Procure Cascudo. Câmara Cascudo é um rio, o resto tudo é riacho”.

 

Paraibanos pais da Republica - Ramalho Leite



Terminei de ler há pouco mais um livro do paranaense Laurentino Gomes- 1889. É o ultimo da trilogia que começou com o 1808 e continuou com 1822. Se todos os que cuidassem da história, narrassem os fatos da forma como ele o faz, todo mundo gostaria de ler livros de história. O singular da sua escrita é que ele conta os bastidores dos acontecimentos que a versão oficial não passou adiante. Até os detalhes sórdidos e o burlesco dos fatos e seus atores, são transmitidos aos que se debruçam sobre os livros. Foi assim com a transmudação da Família Real para o Brasil, a Independência e agora, a República que, para ele, foi fruto da existência de um imperador cansado (Pedro II), um marechal vaidoso (Deodoro da Fonseca) e um professor injustiçado (Benjamim Constant).

O Imperador deposto por um golpe de estado foi embarcado em uma madrugada para o exílio, mesmo tendo radicais, como o advogado paulista Silva Jardim, que pregavam o trucidamento da família real, a exemplo do que sofrera a Corte francesa de Luiz XVI onde a estrela fora Maria Antonieta. Deodoro teria aderido à Republica diante de um fato consumado: o manifesto publicado no jornal do abolicionista José do Patrocínio que, como o Marechal, era monarquista empedernido. Patrocínio, por ser negro, devotava amor infinito à Princesa Isabel, por motivos óbvios, sendo o responsável pelo titulo de A Redentora com que a filha de Dom Pedro entrou para a história.

Na movimentação militar que antecedeu o 15 de novembro, dois paraibanos se destacaram: um militar, o general Almeida Barreto e o jornalista Aristides Lobo, o primeiro nascido em João Pessoa e o segundo em Cruz do Espírito Santo. O jornalista viveu parte de sua vida em Alagoas onde, mais tarde, disputaria dois mandatos consecutivos de deputado geral, como eram chamados os parlamentares federais no Império. Expunha a defesa da mudança do regime no jornal A República, fundado por ele e outros companheiros de empreitada. Instalada a nova ordem, Aristides Lobo foi nomeado Ministro do Interior, cargo que ocupou por pouco mais de dois meses, rompendo com Deodoro.

A participação do paraibano Almeida Barreto foi mais polêmica. Conta Laurentino Gomes que o Visconde de Ouro Pedro, chefe do ultimo ministério monárquico, refugiara-se em um quartel e tinha a garantir sua integridade e da monarquia agonizante, justamente as tropas sob o comando do general Almeida Barreto. Sem que o governo soubesse, o general também estava comprometido com os golpistas, mas não tinha a absoluta confiança de Deodoro. Este, ao se deparar com as tropas diante do quartel, mandou intimar o general Barreto a mudar de posição. Como Pedro negou a Cristo três vezes, o general teria deixado de atender ao chamamento do proclamador da República. Na terceira convocação, irritado, Deodoro verbera:

- Menino, vá dizer ao Barreto que faça o que já por duas vezes lhe ordenei, ou então que meta sua espada no ...,pois não preciso dele!

O conteúdo chulo da frase de Deodoro tem sido amenizado por outros historiadores que preferem se referir a “frase impulsiva e vigorosa” ou “uma exclamação violenta”. Para o coronel Ernesto Sena, citado por Laurentino, Deodoro mandou o general meter “ a espada... na bainha”. Seja como for, o recado surtiu efeito. O general Almeida Barreto saiu do muro, juntou-se a Deodoro e, mais tarde, ganhou um mandato de senador pela Paraíba. Esteve aqui em visita, recebido com muitas festas. E hoje é nome de rua.( Do meu livro “Gente do Passado,Fatos do Presente”, à venda na Livraria do Luiz)

Umbuzeiro: Terra de grandes - Ramalho Leite



 
Para mim era desconhecida a informação de que a cidade de Umbuzeiro tem a mesma padroeira de Bananeiras - Nossa Senhora do Livramento. E ambas as paróquias devem o incentivo maior da edificação de suas matrizes ao abnegado pastor José Maria de Ibiapina. Data de 1870 a primeira Igreja de Umbuzeiro, situada à rua coronel Antonio Pessoa. Em Bananeiras, pela rua do mesmo nome chega-se à Matriz do Livramento, iniciada em 1861.Mas as ligações históricas entre os dois municípios não param por aí.
O major José Fabio Lira era prefeito de Umbuzeiro quando foi involuntàriamente envolvido em um conflito de ordem pessoal. Escapou de um atentado à bala e escolheu Bananeiras para sua nova morada. Levava uma carta do seu compadre “Toinho” Pessoa ( coronel Antonio Pessoa, irmão de Epitácio) para o primo Solon de Lucena, ao tempo uma liderança emergente no brejo.

O major Zé Fabio como era conhecido, era um autodidata e estudioso da biologia e da aplicação da flora regional aos males do corpo. Inventou uma vacina produzida pela saliva humana e com ela promoveu a cura de várias moléstias, inclusive diabetes e tuberculose, antes do surgimento da penicilina. Seu “método consistia na esterilização a frio do liquido bucal das pessoas sãs e novas e transmudando ainda vivo para os doentes”. Sua fama correu o mundo e o jornal carioca A Noite chegou a compará-lo com o cientista russo Voronoff que difundiu um tratamento de rejuvenescimento que lhe deu fama, ao tempo em que ganhava a censura dos órgãos médicos oficiais. José Fabio sabia estar à margem da lei e, por essa razão chegou a se evadir para outros centros urbanos fugindo da perseguição da Associação Médica da Paraíba. Deusdedith Leitão encontrou-se com ele em afogados de Ingazeira, Ceará. Sua maior frustração foi não ter oferecido a cura ao seu compadre e amigo Solon de Lucena.

Umbuzeiro tornou-se cidade a partir de 1938 apesar de município desde 1890. Deve ter sido na década de 1920 que o major Zè Fabio aportou em Bananeiras. Com ele “vieram” o coronel Antonio Pessoa, João Pessoa, Epitácio Pessoa e Castro Pinto que, juntos com Solon marcaram sua época. Por conta dessa ligação política e familiar esses filhos de Umbuzeiro passaram a denominar ruas e praças da cidade brejeira. Mas se Bananeiras era governista desde os tempos do coronel Felinto Rocha, Umbuzeiro, já no inicio do século passado ensaiava um coro oposicionista. Encontrei em O Comércio, jornal das classes conservadoras, na edição de sábado, 5 de maio de 1900, uma carta dos umbuzeirenses, denunciando Gama e Melo, “governo d´este infeliz Estado”.


A carta dos habitantes da terra de Epitácio fazia queixa ao governo através do jornal, contra “as arbitrariedades e violencias de que, a cada passo, somos victimas, por parte de uma autoridade tão ignorante quanto desmoralizada, e esse propósito é devido ao fato de não vermos para quem appellar, uma vez que o governo do Sr. Gama e Mello, é isso ai que todos nós presenciamos, mas para que ao menos o publico tenha conhecimento da nossa triste situação derigimo-vos estas linhas pedindo-vos que as publiqueis no vosso independente jornal”.

E não se pense que denúncias de fraudes eleitorais são coisas do presente. O relato dos umbuzeirenses nos dá a certeza de que sempre existiram: “começo relatando o que aqui ocorreu por ocasião da eleição, que se devia proceder hoje. Como é do costume n´esta terra, não se reunio a meza e isto pelo fato de ter o desmoralizado Sr. Toné, arvorado em chefe político, reunido, apenas 14 eleitores”. Segundo o missivista, a oposição reunia cerca de 71 votos que não puderam votar.

Ao que parece o Sr. Toné era um pequeno ditador e, segundo a nota, “despeitado com o numero esmagador dos nossos amigos, que impossibilitados de votar fizeram valer os seus direitos protestando perante a autoridade competente, o Sr. Toné, que desde pela manha se entregava as libações costumeiras, achou opportunidade de desabafar seu despeito, indo tomar uma faca de um nosso amigo, quando este se retirava para sua residência fora d´esta povoação”. E continua a carta, de um humor duvidoso: “o nosso amigo Manoel Tenente, moço morigerado e que colloca a integridade do seu caracter em altura onde os Toneis jamais conseguirão attingir, vendo o estado lastimo em que se achava o Sr Toné, não fez questão de entregar-lhe a referida faca retirando-se pacifica e precipitadamente, não com receio da autoridade, mas da pipa, pois podia dar-se um incendio...”

Para os umbuzeirenses responsáveis pela denuncia, o sr,Toné “ é uma autoridade que persegue tudo quanto é bom e honesto, deixa que neste distrito os ladrões andem impunemente, deixa que os cangaceiros freqüentem desasombrados este povoado e até lhes dá dinheiro...estamos nadando em um mar de infelicidades, pois alem de todas essas misérias,encontramo-nos a braços com uma seca horrorosa”.


Deve ter sido por não querer nadar nesse mar de infelicidades que o major Zé Fabio resolveu mudar-se para Bananeiras, mantendo-se sob o manto protetor de Nossa Senhora do Livramento. Amém.(Nas transcrições mantive a grafia da época)

Quase 200 anos de Vila - Ramalho Leite



 

 

 

Neste 16 de outubro, Bananeiras completa 136 anos de elevação à categoria de cidade. Deve-se ao então presidente da província da Parayba, José Rodrigues Pereira Junior, a assinatura da lei que emancipou seu território. Sua identidade política, porém, vem de mais atrás. Data de 10 de outubro de 1833 a elevação do povoado em Vila, por força de lei sancionada pelo presidente Antonio Joaquim de Melo. A povoação, até então, era parte da Vila Real de Brejo de Areia e antes, pertencera à jurisdição da Vila de São Miguel da Baía da Traição ou Vila de Mont Mor da Preguiça. A comarca de Bananeiras, foi instalada, porém, em 10 de outubro de 1857.

Com efeito, em mensagem enviado à Assembléia Provincial pelos idos de 1860 o então presidente da província, o gaucho Silva Nunes esclareceu que “divide-se a Província da Paraíba nas sete comarcas da Capital, Pilar, Bananeiras, Areia, São João,Pombal e Souza” e ressaltou: “em Bananeiras, existem como juízes letrados e efetivamente providos”. Na época do Império, o Estado e a Igreja se não eram um só corpo, eram um só espírito, e as ações de ambos se entrelaçavam. Daí por que, foi a Assembléia Provincial, em lei de 25 de abril de 1835, proposta pelo conselheiro padre Francisco de Holanda Chacon, que deu status de Freguesia à Capela de Nossa Senhora do Livramento, “outrora filial da Matriz de Brejo de Areia”.

A Paróquia, portanto, então denominada de Freguesia, completou 180 anos. Não se confunda, pois, com a idade da Igreja Matriz, apontada alhures como sendo inaugurada em 1861. A capela que deu origem à matriz é cercada de uma romântica lenda que envolve o livramento de um homem branco - Gregório da Costa Soares, aprisionado pelos índios e liberto por uma linda tapuia. A aflição do prisioneiro o fez rogar à interseção da Virgem do Livramento, prometendo que, caso escapasse com vida, mandaria erguer um templo no local do seu tormento. Foi o que fez: casou com a índia e doou a terra para a igreja. A segunda parte da historia se prova com documento, a primeira ninguém sabe quem contou.

A matriz não pode ter sido inaugurada em 1861, pois, em 1873 há registro oficial de que a obra de construção da matriz, “progride sob a administração de uma comissão e as despesas correm por conta de loterias extraídas na Corte,” conforme revelou o presidente Francisco Teixeira de Sá. Um pouco antes, em 1860, o citado presidente Silva Nunes esteve em visita a Bananeiras e “foi visitar a igreja sob a invocação do Coração de Jesus que serve atualmente de matriz, cujo exterior não é mau, achando-se ainda por terminar o interior; há material disponível para a edificação da matriz que se projeta”. Acrescentou, ainda, que seu antecessor no governo foi autorizado pela Assembléia “a mandar orçar e construir a nova matriz da vila do Ingá e reedificar a de Bananeiras”, mas se desculpou perante os deputados provinciais: “sinto porém dizer-vos, o estado de penúria dos cofres tem sido tal, que não permitiu ainda o começo de qualquer dessas obras...”

A planta para a reforma da matriz do Livramento data de 1858 e foi iniciativa do presidente Beaurepaire Rohan. À falta de recursos públicos, durava uma eternidade a construção de um novo templo. A matriz de Bananeiras não fugiu à regra e, falhando a ajuda oficial teve que recorrer às “esmolas do fieis”. Os “barões do café” deram sua contribuição e, em recompensa, ocupavam espaços elevados nas laterais da igreja. Daqueles púlpitos assistiam às missas e novenas, costume derrubado, literalmente, pelo monsenhor José Diniz, que destruiu as antipáticas tribunas.

Historiadores como Humberto Nóbrega, Maurílio Almeida, Celso Mariz, Wilson Seixas e o pesquisador Manoel Luiz da Silva, tiveram a preocupação de retratar a Bananeiras de antanho, cuja existência política está chegando aos 200 anos. A cidade agora é outra, e sedimenta um futuro que não envergonha um passado que “apaixona e empolga”, como disse Humberto Nóbrega. ( Republicado nos 137 de cidade e 183 anos de emancipação política.DO livro Gente do Passado,Fatos do Presente)

Vila de Bananeiras - Ramalho Leite



 

 

Uma povoação, no regime monárquico, adquiria sua independência política ganhando o status de Vila. Bananeiras, como povoado, estava inserida no mapa da Vila de São Miguel da Baía da Traição até que passou a integrar o território da Vila Real de Brejo de Areia em 1872. Seis anos depois, em 10 de outubro de 1833, foi dada emancipação política e criada a Vila de Bananeiras, “arrastando consigo os territórios de Guarabira, Cuité e Pedra Lavrada”, segundo Horácio de Almeida. O artigo segundo da lei que criou o novo município, ao invés de Pedra Lavrada, por certo fazendo parte de Cuité, se refere a Serra da Raiz. Guarabira chama-se, então, Independência.E prossegue Horácio: “em densidade demográfica, coloca-se Areia em terceiro lugar na Província, seguido apenas pela Capital e por Bananeiras. Nessa época, Bananeiras era a maior município do Brejo em extensão territorial, com uma área que ia até os limites de Areia ao Rio Grande do Norte, inclusive, o atual município de Araruna”.

Araruna esteve sob a jurisdição da Vila de Bananeiras até 11 de julho de 1877 quando se instalou como Vila, com a posse dos seus primeiros vereadores, perante o presidente Manoel da Costa Espínola, da Câmara de Bananeiras. Desde 1871, porém, nasceria a inconformação dos moradores de Araruna com a dependência de Bananeiras, principalmente devido à distância entre o distrito e a sede municipal. Araruna era administrada à distância pelos chefes políticos de Bananeiras. Um documento descoberto pelo historiador Humberto Fonseca de Lucena e firmado pelas figuras mais representativas de Araruna, datado de 1871, defende a criação daquele município. Os moradores da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Povoação de Araruna, Termo e Comarca de Bananeiras reclamavam a distancia de nove léguas para se alcançar a sede municipal onde “são obrigados a prestar serviço do júri, reunir colégio eleitoral e requerer qualquer ato judicial”. O Barão de Mamanguape, senador do Império e presidente da Província sancionou a lei 616 que criou a Vila de Araruna, desmembrando-a de Bananeiras.

Está comprovado, pois, que Bananeiras emancipou-se em 1833 quando foi elevada à categoria de Vila, ganhando foros de município independente. Dois anos depois, seria criada a Freguesia de Nossa Senhora do Livramento e, apenas em 1879, seria elevada à categoria de cidade. Era assim no passado. Hoje, um distrito tem a sede em uma Vila, e ganhando emancipação passa a ser uma cidade, sede do respectivo município. É, portanto um equivoco histórico e que precisa ser corrigido, referir-se a 16 de outubro de 1879 como data da emancipação política de Bananeiras. Esta é a data da elevação da Vila à categoria de Cidade. Independência política e administrativa Bananeiras possui há cerca de 182 anos, isto é, desde 10 de outubro de 1833, quando deu adeus à Vila Real de Brejo de Areia.

A comarca de Bananeiras, porém, seria criada, apenas, em 1857, pois permanecia vinculada à jurisdição de Areia desde que se tornara Vila. A Província, contudo, não se descurara da cobrança de impostos. Por volta de 1844 foi instalada a coletoria de Bananeiras e seu primeiro coletor foi Estevão José da Rocha, agraciado, quase trinta anos depois, com o titulo de Barão de Araruna. O cemitério de Bananeiras, onde procurei o tumulo desse Barão, como se procura uma agulha no palheiro e não encontrei, seria construído em 1856. Mas a Vila ganhou o Correio dois anos depois de sua emancipação política, em 1835. A energia chegou na segunda década do século passado, em 1919 e o trem apitou pela primeira vez depois do Túnel da Viração em 15 de novembro de 1925. Humberto Nóbrega registra que em 1908 havia uma rede telefônica ligando Bananeiras a Moreno e às fazendas Jardim, Cardeiro, Gamelas, Muquem, Roma, Pilões, Genipapo e Cananfístula. De Borborema, José Amâncio falava por telefone com as cidades para as quais vendia energia. Nos anos 1940, Pedro de Almeida foi buscar água na Bica do Gato e distribuiu na cidade. O distrito de Chã do Lindolfo, hoje quase um bairro da antiga Vila de Bananeiras foi fundada por Lindolfo Américo Ferreira Grilo, justamente o primeiro escrivão do cartório do registro civil de Bananeiras, instalado em 1888.

Uma curiosidade revelada pelo historiador bananeirado Humberto Nóbrega: o primeiro estrangeiro a fixar residência em Bananeiras foi o português Tomás de Aquino Freire de Andrade que ali aportou por volta de 1887. Acrescento eu: esse portuga viria a ser o pai de dona Maria Eugenia Andrade Bezerra, esposa de Francisco Bezerra Cavalcanti, de cujo casamento nasceu uma única filha: Azeneth Bezerra Aragão, minha sogra.

Outra curiosidade: a energia vinda da Hidroeletrica de Borborema não era lá essas coisas... Que o diga o padre José Pereira Diniz quando registrou no Livro de Tombo da Igreja de N S do Livramento que o dr.Jose Amâncio fornecedor de energia à Igreja desde 1930, mandou em 1938 cortar a luz da Igreja. Motivo: todas as vezes que se acendiam as luzes da Matriz, havia uma queda de potência na iluminação publica, resultando em multa municipal contra a empresa. Corrobora com esse fato, a história do professor Waldez Borges: seu pai, Manoel Soares, comprou o primeiro ferro elétrico da cidade e quando sua mãe ligava o ferro as lâmpadas dos postes piscavam e o povo reclamava: “Mané Soares ligou o ferro elétrico!” (do livro GENTE DO PASSADO,FATOS DO PRESENTE. Republicado em homenagem aos 183 anos de emancipação política de Bananeiras, e não 137, como se comemora amanhã,16)

Como era um dia de eleição - Ramalho Leite



 Quando eu “era uma criança pequena” lá em Borborema um dia de eleição era um dia de festa. Também de brigas e muitas discussões, logo esquecidas. Mas a estrutura montada para receber os eleitores, demandava recursos próprios e por isso, poucos tinham direito de pleitear votos. Somente a partir de 1974, com a Lei Etelvino Lins, que proibiu o fornecimento de transporte e comida aos eleitores, gente enxerida da minha qualidade pôde disputar um mandato de deputado. A lei do pernambucano, ex-ministro do TCU, senador e governador daquele estado colocou na responsabilidade da Justiça Eleitoral a organização do translado de eleitores da zona rural para a urbana onde se concentram a maioria das urnas. Alimentar eleitor virou crime eleitoral e, somente em casos excepcionais, a própria Justiça Eleitoral poderá fazê-lo.

Antes dos anos 1970, porém, a coisa funcionava de forma muito diferente. Vou contar o que me lembro. Em Bananeiras, UDN e depois a ARENA armavam um jiqui no armazém de fumo do Major Augusto e os eleitores enfileirados chegavam ao prato de comida. No braço recebiam uma marca de tinta, a exemplo do que fazem os palhaços com os meninos que os acompanham nas ruas, valendo o ingresso para o circo. A marca dos eleitores era para evitar que o “dito cujo” repetisse o prato. Mas antes de comer, tinham que mostrar o titulo para comprovar que já haviam votado.Na campanha de prefeito em 1963, Pedro Pessoa de Aguiar, o jovem que inventou oposição na Bananeiras redemocratizada, aludindo à marca gastronômica, pedia aos eleitores que não se deixassem “ferrar”, “como os bezerros de seu Mozart.” O deputado Clovis Bezerra e seu irmão Mozart investiam na estrutura do dia da eleição e a oposição somava votos sem gastar nada. “Comam lá e votem cá”, era a cantinela.

O deputado Clovis Bezerra distribuía dezenas de bois que seriam mortos e distribuídos na sede e nos distrito. Estes viraram cidades, mas o costume continuou. Meu pai, Arlindo Ramalho, era candidato a prefeito de Borborema e, de acordo com o eleitorado existente, tinha direito a três bovinos bem curtidos e ao aluguel de alguns veículos para o transporte de eleitores. Nada disso era fiscalizado. Não se prestava contas a ninguém. Era um acordo explícito entre o líder político e seus liderados. Quando matavam os bois, surgia outro problema: os bilhetes e os pedidos de quem se dizia enfermo e não poderia comer junto com os demais. “Minha carne eu mesmo preparo”, exigiam. Meu pai retalhava um dos bois com esses eleitores privilegiados. Os pacotes de carne eram embrulhados e enviados aos compadres e afilhados. Além disso, outras casas eram reservadas para a alimentação de algumas famílias “mais lordes”, que não queriam se misturar com a “plebe ignara”.

Sobre esses requintados eleitores, em uma reunião de véspera de eleição entre Clovis Bezerra, cabos eleitorais, motoristas transportadores e fiscais do dia da eleição, ele distribuía tarefas a alguns de seus correligionários. Olhou para o administrador do Engenho Caboclo, propriedade da família e orientou: - Compadre Ribeiro, as moças do Caboclo vão comer na sua casa. Seu Mica, um amigo do peito, resolveu ajudar: - Dr. Clovis, por que essas moças do Caboclo não já vêm comidas de lá? Foi uma risadagem geral.

O deputado Clovis Bezerra costumava visitar as cidades vizinhas no dia da eleição. Na casa do meu pai, onde estavam servindo refeições foi até o quintal. Abriu as panelas e resolveu orientar as cozinheiras. Pegou uma colher de pau e mexeu o seu conteúdo. Demorou-se na tarefa. - É assim que se faz, ensinou. Dionísio Pereira dos Santos, naquele ano o escalado pelo PSD para enfrentar meu pai nas urnas de Borborema, por cima do muro, testemunhou a aula de culinária do deputado. Quando perdeu a eleição, resumiu sua vindicta:

- Perdi a eleição mas obriguei o deputado a assar carne pros eleitores...

A cabine eleitoral era mesmo indevassável. No canto da parede, uma cortina encobria o sigilo do voto. As cédulas individuais eram depositadas nas urnas e o exercício do dia era a “troca de chapa”. Em uma eleição prometi ao deputado Silvio Porto que pelo menos meu irmão Antonio Carlos, depois promotor de justiça, votaria nele. Mas ele esqueceu e na hora de votar colocou na urna uma cédula de Clovis Bezerra. Quando descobri fui a procura de alguém para cumprir minha promessa.Só restou minha mãe, que não aceitou dar esse voto contra dr.Clovis. Ainda bem que alguns eleitores vieram de Guarabira e votaram em Silvio Porto.

Dia de eleição deixou de ser uma festa menos romântica quando surgiram os marqueteiros e com eles as pesquisas, a boca de urna e outras ações que passaram a exigir muito dinheiro. Melhor tivessem deixado o transporte e os bois. A exigência de muito dinheiro fez nascer a arrecadação espúria e, a partir daí... Acabou o meu espaço...

Sidebar Menu