Rua do Silo,Borborema PB - Ramalho Leite



 Rua do Silo,borborema PB
12 de Novembro de 2017 / por Tião Lucena

Ramalho Leite

 

 

Quando eu era uma criança pequena lá em Borborema, subi algumas vezes pela escada de ferro que dava acesso ao teto, em forma de cone, de um silo existente no final da rua que tinha início na margem da linha do trem, antes chamada de Avenida Amazonas e hoje, Barôncio de Lucena. A partir dali, se iniciava a Rua do Silo. Um pequeno caminho, ligava o terreiro do silo ao horto dos eucaliptos que oferecia encanto e perfume aos arredores da igreja de Nossa Senhora do Carmo. Nunca procurei saber a origem daquele depósito de cereais e acho que, na cidade, ninguém conhece a sua história. O silo continua lá, imponente, testemunha daquilo que vou contar.

O presidente Solon de Lucena, um dos maiores gestores da Parahyba na primeira República, contratou no ano de 1921, o engenheiro americano H. Frank Machner para a construção de dois depósitos de cereais, a serem erigidos nas zonas secas do estado. Escolheu Arara e Catolé do Rocha para as primeiras unidades. Em mensagem à Assembleia, um ano depois, dizia: ”Feito para modelo e estímulo à curiosidade dos nossos agricultores, o silo construído em Arara mostrou às populações d’aquelle povoado e arredores como é possível conservar o milho e outros cereaes, a salvo das pragas que os atacam, ficando assim resolvido praticamente o problema da conservação dos mesmos e, s e houver um pouco de inciativa individual regularizada, de vez, a valorização d’aquelles gêneros de primeira necessidade, no desequilibro criado pelas demasias intempestivas da oferta e da procura. Com capacidade para cinquenta toneladas foram nelle guardadas, por espaço de 6 mezes, 1.700 cuias de milho havendo sido encontradas, no fim desse tempo, em perfeito estado de conservação.”(grafia da época)

Dois anos depois, o Presidente vangloriava-se da sua iniciativa, vez que, muitos proprietários, seguiram o exemplo do governo e mandaram construir outros depósitos à semelhança dos projetados pelo engenheiro americano.

Foi o que fez o major Barôncio de Lucena, nas suas terras da Vila de Borborema. Mandou construir o silo na parte mais elevada da Vila, em cima de uma lajedo, escavado em apenas seis centímetros para sua fundação. O silo tem dois compartimentos, separados por placa de concreto armado. O major inovou no seu modelo e colocou duas válvulas de descarga, permitindo que o silo fosse sendo esvaziado aos poucos, sem expor os cereais ao perigo com a abertura das portas de enchimento. O empreendimento custou oito contos de reis ( 8:000$000) e o Major pagou 40 dias de serviço aos pedreiros, 600 dias aos trabalhadores, além de 75 dias ao administrador da obra. A capacidade do silo era de seis mil e setecentas cuias de cereais. O administrador dessa ob ra, feita sob as vistas do Major Barôncio, foi o sr. Severino Guilherme de Figueiredo, residente em Timbauba( PE).

A ideia dos silos foi do Presidente Solon de Lucena mas o presidente João Suassuna, já eleito, avisou que pretendia fazer algumas alterações no modelo em voga. Pretendia o novo governante da Parahyba, a partir de 1925, mandar alterar o teto dos silos. Ao invés do seu formato em cone ou pirâmide, passaria a ter um teto em formato de funil, possibilitando o enchimento, por gravidade e, de forma mais rápida. Sendo proprietário de uma dessas unidades em Taperoá, Suassuna pretendia oferecer uma ajuda do Estado a quem desejasse os silos em suas propriedades. O Estado construiria e, no final, receberia a parte que competiria ao proprietário. Mandaria vir dos Estados Unidos, pelo menos, duas formas metálicas para facilitar o trabalho. Não tenho inform ação se esse propósito foi executado.

Em Pernambuco foi disseminado outro modelo de silo que chegou à Parahyba através de Princesa. Era o silo de ferro galvanizado. Um comerciante local, de nome Nebrídio Granja possuía uma infinidade desses silos e passou a ser um verdadeiro monopolista do comercio de cereais, em qualquer época do ano, pois o silagem lhe permitia enfrentar as oscilações de preços com a garantia de lucro certo. Uma fábrica desses depósitos de ferro foi instalada em Princesa pelo sr.Inocêncio Nobrega que, na produção dos silos empregava de seis a oito operários. Quem me leu até aqui, há de se perguntar onde encontrei esses detalhes que acabo de expor. Vou dizer: um jornalista nascido em Martins-RN, visitou a Parahyba em 1924 e registrou e m um livro suas impressões sobre o que viu nas cidades por onde passou. Fez o percurso de trem e onde tinha estação ele parou, conversou e anotou. Joaquim Ignácio Carvalho chegou ao senado da República.

Na nova república ou na novíssima, não lembro de nenhum governante que tivesse a preocupação de proteger a produção agrícola dos agricultores. Só Tarcisio Burity, no seu segundo período. Ainda hoje, quem andar pelo sertão e curimataú encontrará nas salas dos agricultores um silo metálico distribuído pelo seu governo. Mas essa é outra história.

O que desejei mesmo, com esse assunto, foi trazer à lide, a cidade de Borborema, onde nasci na beira da linha do trem e que, neste 12 de novembro, completa 58 anos de emancipação política. Invoquei a Rua do Silo e um pouco da sua história, em homenagem à data.

O que não consta no relógio de Aluísio - Ramalho Leite



o Afonso Campos pretendia ingressar na política no vizinho estado do sul. A reação familiar e campinense, tornou-o candidato à Assembleia Constituinte Estadual de 1934, abraçando o Partido Progressista da Paraíba, onde José Américo de Almeida pretendia acolher perrepistas e liberais interessados em pacificar o Estado após a revolução de 30. Foi sua primeira investida na política partidária e durou até o Estado Novo dissolver o Poder Legislativo. Em 1950, candidato novamente a deputado estadual, acredita que sua firme posição frente aos trágicos acontecimentos da Praça da Bandeira envolvendo americistas, argemiristas e membros da Policia Militar, resultou na expressiva votação para novo mandato. N&ati lde;o terminaria esse período, licenciando-se para ocupar cargo no setor jurídico do Banco do Brasil. A história política de Aluízio Campos está resumida em “Relógio do Tempo”, memórias precedidas por uma apresentação do seu contemporâneo, o imortal Juarez Farias.

O “Relógio” de Aluízio registra quase todo o seu tempo, inclusive, suas três tentativas de ingressar no Senado. A primeira, em 1962, como companheiro de chapa de João Agripino tendo como adversários Argemiro de Figueiredo, Draut Ernany e José Jofflily . Foram eleitos Agripino e Argemiro. Depois, em 1966 e em 1974, tendo Ruy Carneiro como adversário. Perdeu as duas. Na vez que deveria ganhar, em 1968, quando João Agripino no governo, patrocinou e elegeu Domício Gondim e Milton Cabral, Aluízio não foi convocado. Registra queixa de José Joffily que, sem nunca ter sido do Partido Socialista, dividiu o partido e ajudou a derrotá-lo em 1962. Após a ditadura de Vargas, optou pela UDN e integrou o grupo da Esquerda Democrática. Era a semente para criar na Paraíba o Partido Socialista Brasileiro, que presidiu por muitos anos. Aluízio quando fora de mandatos, atuou na área administrativa e esteve presente na formação de vários órgãos que impulsionaram o desenvolvimento do País, a exemplo do Banco de Desenvolvimento Econômico, Banco do Nordeste e SUDENE, encerrando sua carreira política como deputado constituinte de 1988.

O folclore sobre Aluízio é tão rico quando sua vida pública. Anotei algumas passagens: Na sua última candidatura ao Senado, Aluízio compôs chapa com Clovis Bezerra na primeira suplência. Na ocasião, eu disputava minha primeira candidatura a deputado estadual e rivalizava no brejo com o seu suplente. Aluízio julgou que eu não votaria nele, em função dessa disputa paroquial. Foi até a minha casa, em Bananeiras, à minha procura. Estando ausente, deixou-me um bilhete reafirmando sua confiança no meu apoio. Claro que eu votaria nele! Minha mãe, ao entregar-me o bilhete comentou: - Meu filho, que homem mais esquisito...Enquanto ele escrevia, tinha o olho virado na minha direção....Tranquilizei a minha mãe: - Ele tem um olho de vidro, mamãe!

O ex-prefeito Osvaldo Trigueiro era figura de proa do PSB de Aluízio e, na Capital coordenava a sua campanha para o Senado. Armado o palanque na Praça Tiradentes, na Torre, contratada a banda para animar o comício e a escola de Samba Malandros do Morro, mesmo assim, o público era diminuto. Aluízio reclamou: E o povo Osvaldo? – Ah! Fiz tudo que era da minha alçada. O povo, porém, é com você que é o candidato... O povo, na verdade, elegeu Ruy Carneiro que, certa feita, reclamou: “Não sei o que o Aluízio tem contra mim! Já tentou duas vezes tomar a minha cadeira no Senado!

Um grupo do MR8, célula esquerdista abrigada no MDB de Ulisses Guimarães, procurou Aluízio para firmar o compromisso de apoiá-lo e, perdia tempo em elucubrações ideológicas, sem chegar a uma definição. Aluízio sabia que o grupo desejava mesmo era um pouco de dinheiro para se movimentar e, resolveu encerrar o assunto: - Vamos ser francos: nem eu sou comunista sem vocês têm votos. Portanto, qual é o orçamento de vocês?

Acompanhei João Agripino e Aluízio em uma visita a Itabaiana. Ao sairmos do Colégio Estadual, um bonita jovem aproximou-se dos candidatos. Agripino, galanteador, destacou a beleza da estudante, que, rindo, agradeceu o elogio. Aluízio quis repetir o gesto e falou:- Que dentes lindos você tem... Agripino não se conteve e repreendeu: - Aluízio, cavalo é que se escolhe pelos dentes...

Ambos candidatos ao Senado, Agripino sempre falava antes de Aluízio. Em Arara, depois de passar por Esperança, Aluízio pediu para falar primeiro e repetiu o discurso de Agripino. Terminado o evento, João reclamou: - Você não tem vergonha de repetir o meu discurso? Aluízio, com sua reconhecida fleuma, respondeu: - João, quem paga esse carro de som e este palanque? – Você, Aluízio! - Quem paga esses cartazes pregados pelas paredes? - Você, Aluízio! Então, João, você não quer gastar nem discurso?

Aluízio Afonso Campos foi um grande paraibano que o tempo não esqueceu.

Terra a vista - Ramalho Leite



 Quando Cabral aportou nas costas da Bahia e, das naus de sua esquadra avistou-se um monte alto a que se denominou Monte Pascoal, começou a nascer um país que, quinhentos anos depois, ainda refletiria a semente plantada naquela terça-feira, 21 de abril. Não me acanho de repetir o lugar comum de que, a qualidade da gente trazida para ficar e se misturar com os índios não germinaria bons frutos. Pero Vaz de Caminha mandaria dizer a dom Manuel, o Venturoso, que o Capitão “mandou com eles (os índios) para ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. O degredado levava uma bacia pequena e duas ou tr ês carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se lá o houvesse”. Foi a primeira ação de corrupção com pagamento de propina que se registrou nesta terra de Vera Cruz.

“O Capitão, quando eles (os índios) vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço...acenderam-se tochas e eles entraram...um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra.E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!...Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Narrou o escrivão da frota.

Os portugueses, sem dúvida, estavam interessados no ouro e na prata. A procura de especiarias era só uma desculpa para quem saiu com destino às Índias e, desviado da rota por falta de vento terminou por descobrir novas terras. Os silvícolas pediam pouco. Encantaram-se com as contas de um rosário e pediram-nas de presente, enfeitando de logo seus pescoços. Através de gestos, propunham a troca das contas por ouro e prata que, ao que indicava, era abundante na nova terra. Os visitantes tomaram a resolução de levar dois daqueles índios, mesmo à força, à presença do Rei de Portugal, deixando em seu lugar dois degradados. A primeira tentativa de sequestro entre nós foi abortada pela sugestão de que, os degredados, ficando em terra, teriam muito mais a contar sobre o território conquistado. Assim foi feito e mandado dizer a El Rei:“E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui dois degredados quando daqui partíssemos”. Não esqueceu Pero Vaz de informar que, além dos degredados, “dois grumetes, que esta noite saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. Tutto buona gente!

“E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo” concluiria Pero Vaz. Na despedida, contudo, não deixou de cobrar do seu amo, um pequeno favor. Bastou demorar-se por aqui e respirar o nosso clima por alguns dias, para descobrir o jeitinho brasileiro. Escreveria ao final de sua famosa Carta: “E pois que, Senhor, é certo qu e tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé, a Jorge de Osorio, meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê.”Era a primeira notícia do nepotismo em terras brasilienses.

Lendo a Carta de Pero Vaz de Caminha, nosso primeiro testemunho escrito sobre a nova terra e sua gente, chego à conclusão de que o Brasil tem jeito. Basta começar tudo de novo...

Hospedando Frei Damião - Ramalho Leite



 As missões de Frei Damião eram um acontecimento em qualquer cidade do brejo ou do sertão paraibanos. Nos anos 1950 Borborema era premiada com a visita do capuchinho, sempre acompanhado do irritadiço Frei Fernando. Eram hóspedes dos meus pais. Um primeiro quarto da casa onde morávamos ficava reservado para os dois missionários. Sua caminhada começava pela madrugada. Quem o desejasse acompanhar teria que pular fora da rede ou da cama por volta das quatro horas da manhã. A escuridão ainda era total. Ao surgir os primeiros raios de sol, o suor já contemplava parte dos caminhantes, mesmo nos tempos de clima frio.

Em uma dessas missões pulei cedo da cama, vesti-me apressado e ainda limpando os olhos me joguei na rua. Corri para alcançar a procissão que já se derramava ligeira pelas ruas empoeiradas da Vila. Quando o dia clareou, pude olhar para as minhas calças curtas. Os bolsos estavam com seu forro à mostra. Eu vestira as calças pelo avesso. Como todos só prestavam atenção ao santo homem, fui recuando, recuando, até chegar, de costas, ao final da multidão. Aí então, parti correndo para casa onde me vesti corretamente e voltei ao cortejo.

Minha mãe cuidava pessoalmente dos seus hóspedes. Acompanhava sua alimentação e sempre reservava as melhores iguarias para a mesa dos frades. Alguém trazia uma macaxeira boa, outro, batata; e frutas as mais diversas. Eu queria participar desse manjar mas minha mãe não deixava. É pecado, dizia. O presente fora para Frei Damião. Afastava-me temeroso de ofender aos céus comendo das frutas trazidas para o frade. Umas beatas cuidavam de ajudar minha mãe. Forravam as camas, varriam o quarto e esperavam ganhar as bênçãos divinas com a proximidade daquele homem que diziam santo. Pela manhã, a cama de Frei Damião amanhecia com os lençóis intactos. Nenhum amasso que indicasse que dormira alguém naquele catre.

- É um milagre, dizia uma beata.

-O homem dorme a noite toda e não amassa os lençóis! acrescentava outra.

Que milagre que nada! O pobre homem, cansado das suas caminhadas diurnas e noturnas, já começava a entortar a coluna cervical e a adquirir aquele formato curvilíneo que encostava o seu queixo ao peito. Por recomendação médica, dormia no chão. Eis o mistério.

As missões de frei Damião eram uma festa. De toda parte vinha gente para ouvir o sermão noturno do capuchinho. A realização do crisma atraía multidões. Confessar-se com frei Damião era uma benção. Muitos faziam promessas a pagar com o ato de contrição perante o frei. Em uma dessas realizações missionárias meu pai foi padrinho de mais de cem crianças e adolescentes. Uma multidão passou a chamá-lo “padim” Arlindo. Frei Damião nunca perdeu o sotaque italiano. Pouco se entendia da sua fala, mas bastava o som da sua voz para alimentar a fé daquele povo. E os presentes chegavam: sacas de feijão, de arroz, de laranja, garajás de rapadura, cachos de banana, farinha de mandioca e sacos de batata doce. Quando o frade ia embora, um caminhão seguia atrás com os presentes, diretamente para o co nvento São Félix de Cantalice, no Recife, onde um dia seria sepultado.

As lembranças de Frei Damião são da infância. Na idade adulta avistei-o em missões em Bananeiras e Solânea. Quando candidato a deputado em 1974, regressando de Itaporanga, à noite, parei em Catingueira para ouvir frei Damião. Entrei pela porta de trás da Igreja e encontrei frei Fernando. Puxei conversa:

- Frei Damião tá cansadinho não está, frei Fernando?

- Cansadinho tou eu, dirigindo esse carrão por essas estradas cheias de lama... (A rodovia estava em construção pelo governo Ernani Satyro)

Continuava o mesmo frei Fernando que conheci quando eu era uma criança pequena lá em Borborema.

Havia rejeição de alguns padres ao estilo de frei Damião. Ele passou, então, a só visitar as paróquias quando convidado pelos vigários locais. No brejo, voltou muitas vezes a Dona Inês, hóspede de Chico Adolfo, pai do monsenhor Nicodemus que, depois, vigário de Guarabira, fez de frei Damião seu missionário mais frequente. Guarabira criou uma afinidade com o capuchinho e lhe concede verdadeira devoção. O nome de frei Damião serve de patrono a todo tipo de comércio. A cidade construiu um memorial em sua homenagem e uma das maiores estátuas do Brasil. Todos os anos, o brejo é mobilizado para a romaria de frei Damião. Seus restos mortais, porém, permanecem no convento do Recife, no interior da Igreja de Nossa Senhora das Graças. Dizem que, ainda hoje, é frei Damião que mantém a casa.( Cap.6 do meu livro ERA O QUE TINHA A DIZER, em edição)

 

Festa da Padroeira - Ramalho Leite



 

Falei antes na Festa da Padroeira de Borborema. Merece um capítulo. A comunidade católica de Borborema tem a proteção de Nossa Senhora do Carmo, sua padroeira. A igreja, situada no ponto mais alto da cidade, foi aos poucos melhorada. Não se tem precisão da data de sua construção. A sua única torre eu me lembro quando surgiu. Há fotografias da cidade, onde aparece o trem da Great Western parado para abastecer com água a Maria Fumaça, com o local da igreja ocupado, apenas, pela mata de eucaliptos. Como o trem aportou na cidade em 1913, está claro que a construção da matriz é posterior. Contam alguns que o dr. José Amâncio Ramalho mandou construir a igreja. Uma placa mandada fixar pelo próprio na entrada da matriz, desmente essa versão. O soba b orboremense é responsável pela construção das escadarias que dão acesso ao templo, satisfazendo a última vontade de sua esposa, como perpetuou em bronze: “ESTE PATAMAR E ESCADARIAS FORAM CONSTRUIDOS PELO DR.JOSÉ AMANCIO RAMALHO NO ANO DE 1946/ULTIMA VONTADE DE SUA ESPOSA D.LUIZINHA RAMALHO/ INAUGURADOS A 15 DE JANEIRO DE 1947/ QUINQUAGÉSIMO SÉTIMO ANIVERSARIO DO SEU NASCIMENTO/ (PROJETO DO DR.CARLOS FEST)”.

O projeto incluiu a implantação de seis estátuas de figuras bíblicas: Abraão, Moisés e Noé, do lado esquerdo de quem sobe e Matheus, Lucas e João, do lado direito. Os profetas foram fixados em cada um dos descansos da escadaria, toda feita em pedra. Quando minha mãe casou nessa igreja, em 1940, ao subir a íngreme ladeira, deve ter arrastado na poeira a calda do seu vestido de noiva.

Na minha infância/adolescência, um padre que marcou época foi o padre Cornélio Belo. Vigário de Serraria, sede da paróquia, vivia às turras com as lideranças de Borborema. Parece que frequentava a cidade, apenas, para cumprir tabela, como dizem os cronistas esportivos. Criticava muito os ausentes às suas prédicas. A estes, cognominava “católicos de rótulos de garrafa”. Diziam-se católicos mas não compareciam à igreja, recriminava. A festa da padroeira era motivo de choque entre o padre a comissão organizadora. As vezes conseguia se impor, outras não. Meu pai, organizador da festa por muitos anos, repelia suas idiossincrasias: a festa não é do padre, é do povo.

Interessante notar que, apesar de a Padroeira da cidade ser Nossa Senhora do Carmo, a festa era realizada no dia de São Sebastião e, para muitos, a festa era Dele. Para evitar discórdias, até os dias de hoje, na procissão do dia 20 de janeiro, dois andores percorrem as ruas conduzidos pelos fieis: um leva Nossa Senhora, outro, São Sebastião.

Antônio Nogueira Campos, comerciante e senhor de engenho, outro pioneiro que chegou a Camucá na mesma época de José Amâncio, era devoto de São Sebastião e, em assim sendo, mandou construir uma capela em terreno de sua propriedade. Terminada a festa oficial da paróquia, começava a dele. Os parques eram desmontados e remontados ao redor da capela. Até morrer, minha prima Lourdes Leite era uma espécie de capelã desse templo. A devoção do fundador, porém, teve continuidade durante toda a existência de sua viúva, d.Elisa Nogueira, uma guerreira que, mesmo em uma cadeira de rodas, ainda se divertia organizando os carnavais da cidade.

Os parques de diversão eram a alegria da meninada e também serviam para suas traquinagens. A onda, brinquedo que desapareceu, constava de uma bancada redonda onde todos se sentavam e, manualmente, homens fortes impulsionavam seus arcos, provocando uma oscilação em círculos que simulava as ondas do mar. Daí a denominação. Em uma dessas festas, eu e Gilson Escorel, de saudosa memória, saímos por traz da onda unindo com broches as saias das mulheres. Na hora da descida, estavam as moças com as saias emendadas com alfinetes de segurança. Quem saísse mais apressada rasgava a saia. Aliás, por pura maldade, o objetivo era esse mesmo.

Além da onda, havia as canoas. Nada mecanizado, tudo dependia da força física do frequentador e pagante, ou do empregado do parque, como no caso dos carroceis. Haviam dois, um de Severino Cordeiro, sem os cavalinhos e outro, de Pedro Vitorino: “No carrossé de Pedro Vitorino, corre homem, mulher e menino”. Não eram poucas as crianças e, até adultos, que desciam do carrossel vomitando as tripas. Tempos depois apareceu a sombrinha de Pedro Mecânico. Pelo nome do dono, já se conclui que a peça era motorizada. A roda gigante surgiria mais adiante. Mas o sucesso da festa era feito pelos serviços de alto falantes, oferecendo música para os ouvinte s: “de alguém para outro alguém”, era a mensagem dos tímidos. Havia os que aproveitavam a festa para declarar o seu amor: “Antônio do Camucá, oferece essa música a Toinha de Poço Escuro, como prova de admiração e carinho”. Outros, mandavam através da música a sua mensagem cifrada: “Verinha, escute essa melodia, de um alguém para você. Na voz maravilhosa de Nora Ney, o cartão postal de Ary Barroso – Risque”, que começava assim: Risque/ meu nome do seu caderno/ pois não suporto o inferno/ de nosso amor fracassado... (CONTINUA- Trecho do capitulo 5º do meu livro de memórias ERA O QUE TINHA A DIZER).

AS COROAS DE DOM PEDRO - RAMALHO LEITE



 É da autoria de Sergio Corrêa da Costa e tem o prefácio de Osvaldo Aranha, ambos diplomatas, o livro “As Quatro Coroas de D.Pedro I”. A nossa história proclama que D.Pedro de Alcântara, da Casa de Bragança, foi deixado pelo pai, D.João VI, tomando conta da Colônia desde a data em que regressou a Portugal. Quando declarou o Brasil independente, D. Pedro foi ungido Imperador e ostentou sua primeira coroa. Nesse mesmo ano de 1822, a Grécia teria lhe oferecido o cetro e a oportunidade de governar aquele pais, como vereamos adiante. Por outro lado, a Espanha, desde 1826 queria D. Pedro como seu governante por ele “haver asombrado al mundo le arrancan la admiracion aun de los que no pueden gozar sus benefícios”. A Espanha reiterou sua oferta em 1829 e 1830. Ao abdicar do trono brasileiro e regressar à sua pátria, D.Pedro teve que enfrentar o irmão D.Miguel para poder sentar, definitivamente, no trono de Portugal, como D.Pedro IV.

Devo registar em rápida passagem os antecedentes que levaram a Grécia a oferecer a coroa de soberano a D. Pedro. Mesmo sob a opressão dos turcos, o povo grego não desapareceu. E no exemplo de sérvios, rumenos e búlgaros ergueu-se para conquistar sua libertação, pela força das armas. Era abril de 1821 quando Atenas cai em poder dos patriotas e os otomanos ficam isolados na Acrópole. A luta dos patriotas gregos pela independência prosseguia vitoriosa até que, em dezembro, reunida uma assembleia com 67 deputados, foi proclamada solenemente a independência e elaborada uma constituição que transformaria a Grécia em estado federal. Uma expedição punitiva tentou reverter o processo, contudo, foi rechaçada pela esquadra grega. Nessa altura, com o quadro aind a indefinido, um enviado grego, capitão Nicolau Chiefala Greco pede uma audiência a D. João VI para oferecer a seu filho a coroa da Grécia.

Para Portugal, não era um “presente de grego”, na interpretação que se dá hoje à expressão. Vivendo do ouro que vinha do Brasil e inconformado com a permanência de D. Pedro entre nós, o governo de Lisboa avaliava com correção que, a permanência do Príncipe do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, na América, significava a perda iminente da sua mais rica Colônia. A oferta da Grécia à Casa de Bragança foi um achado. Seria impossível a D. Pedro recusar a coroa grega, optando por permanecer naquela “terra ignara”. Ledo engano. O Príncipe, proclamado Defensor Perpétuo do Brasil, não traiu a confiança da terra que abraçara e amava verdadeiramente. Para tristeza das Cortes, recusou a coroa da Grécia.

Por outro lado, a Espanha atravessava uma fase de terror. As sociedades secretas comandavam as ações violentas. Os liberais eram caçados e, a simples filiação à Maçonaria era punida com a morte. Foram fechadas as universidades e dissolvidas as academias. Os poetas foram recolhidos aos conventos. A disputa pelo poder envolvia Fernando VII, apontado como um fraco pelos ultrarrealistas e seu irmão D. Carlos, este um absolutista que virou ídolo. O país caminhava para a anarquia. Esse cenário mobilizou os liberais espanhóis em direção a D. Pedro, Imperador do Brasil e grande “bienhechor de los Pueblos”. “Ele lhes pareceu, então, o único homem capaz de estancar a sangria que minava as energias da nação espanhola”. Os liberais, em documento firmado em Gibraltar em 24 de agosto de 1826, convocam Dom Pedro a cingir uma tríplice coroa: Brasil, Portugal e Espanha.

A situação da Espanha tendia a se agravar. Fernando VII não tinha descendência masculina e Dom Carlos se proclamava o herdeiro, com o apoio do partido apostólico que impedia a sucessão do trono por mulheres. Fernando restabeleceu a prevalência feminina em face da sua filha Maria Cristina, a quem confiaria o poder. Morto, repentinamente, em 1832, volta o clima de guerra entre os partidário da soberana, os “cristinos” e os “carlistas”. Um pouco antes, em 1829 os liberais voltaram a insistir com Dom Pedro para que fosse assumir o trono espanhol e restituir a paz à “pobre Espanha, ensanguentada pela guerra civil”. Mais uma vez Dom Pedro recusou em nome da consolidação do império americano. Depois, poderia pensar na Europa e transformar a Península Ibéria em uma grande nação.

Por vota de 1830 uma reunião conjunta de todas as sociedades secretas de Portugal e Espanha resultou na decisão de oferecer a D.Pedro o título de Imperador da Ibéria e de preparar os dois países para a aclamação do soberano comum. Um enviado de nome Barreros chegou ao Rio de Janeiro com essa missão. Acreditam alguns historiadores que esse oferecimento teria antecipado a abdicação de dom Pedro ao trono brasileiro que, reconhecendo como terminada sua missão na América, aceitaria reinar na Península após afastar seu irmão D.Miguel do trono de Portugal e seu tio D.Fernando do trono espanhol. O enfrentamento do seu irmão em Port ugal atrasou os planos de D. Pedro e invalidou a tese de transformar Espanha e Portugal em uma só nação sob a coroa do Imperador da Ibéria.

As razões dessas recusas, mereceu explicações de Osvaldo Aranha: “ Sua fidelidade à raça de que foi símbolo e flor tornou-o indiferente às simples aventuras da ambição. Nem a Grécia, com todo o brilho do seu passado imortal, nem a Espanha, com o luxo da sua riquíssima tradição peninsular e ultramarina, puderam fazê-lo desviar-se da linha instintiva: viver para o Brasil, morrer por Portugal”.

Pois esse português de nascimento e brasileiro por adoção, está agora sendo caricaturado por uma emissora de TV. O desrespeito chega ao ponto de se colocar mais uma “coroa” da cabeça de D. Pedro. Esta injuriosa e humilhante: criaram um romance entre sua esposa, a princesa Leopoldina e, José Bonifácio, o Patriarca. A ficção ultrapassa limites que a história repudia. Fica o meu protesto.

 

A propina vem de longe - Ramalho Leite



 

Quando votei o Estatuto dos Servidores Públicos (LC 39, de 12 de dezembro de 1985) questionei seu principal redator, o procurador João Bosco Pereira, em função do artigo 258 que prescrevia entre as proibições funcionais: “X-receber ilicitamente, propinas, comissões ou vantagem de qualquer espécie, em razão do cargo ou função”. A explicação que recebi reportava-se ao entendimento de que propina seria a gratificação extra, paga por serviço normal, como as gorjetas, ou as comissões legalmente deferidas a servidores públicos. A lei não pretendia legalizar a propina, como se entende hoje no universo brasileiro, ou seja - quantia que se oferece a alguém para induzi-lo a praticar atos ilícitos ou contrários ao seu dever. Em Portug al, de onde veio o costume e também todos os maus costumes que herdamos, propina é a taxa de frequência paga pelo estudante em uma escola de ensino superior, para contribuir com seus custos.

Aos poucos, tanto lá como cá, o conceito foi sendo ampliado e, em livro publicado pelos idos de 1892, encontrei a seguinte referência à rainha- esposa de D.João V: “A Rainha, nossa senhora faz pouco ruído e não se fala nessa Princesa, nem eu sei que ela tenha vindo de Alemanha mais que pelas propinas que recebi do Conselho da Fazenda”. Eis uma primeira confissão, sem delação premiada.

No Primeiro Reinado houve momentos em que o poder de Domitila de Castro, a primeira-amante de D. Pedro, suplantava a força do trono. Por ela passavam todos os assuntos que cheirassem a ouro. Como exemplo, Paulo Rezzutti conta que D.Pedro estava acamado em função de uma surra que tomara de um marido ciumento. Domitila, a Marquesa de Santos, virou regente informal. À época, para se instaurar um processo, fazia-se uma devassa, isto é, uma investigação. O devassado, para não atrapalhar as investigações, era exilado. Conta, em suas memórias, o conselheiro Vasconcelos Drumont, que Domitila recebeu dinheiro do grupo de um tal Francisco Inácio “ não só para conseguir que a devassa fosse cancelada, mas também para a nomeação de um parente dele para o cargo de intendente de policia&rd quo;. Esse fato provocou o rompimento de José Bonifácio, o Patriarca da Independencia com D.Pedro.

Dom Pedro enfrentou problemas com revoltas armadas, mas também na Assembléia surgiram várias escaramuças, entre as quais, a criação da primeira Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os ministros da monarquia nascente. Caso os ministros fossem considerados culpados, D.Pedro seria obrigado a demiti-los. O Imperador empenhou-se pessoalmente na defesa dos seus ministros e, ainda segundo Dumont, corroborado pelo bispo Romualdo, teria chegado a pagar pelo voto de alguns deputados, prática que se arrastaria até chegar ao nosso estimado presidencialismo.
A proximidade entre d.Pedro II e o Barão de Mauá resultou em “intensa aplicação de dinheiro público nos empreendimentos de uma única empresa” como infere Marcos Costa. No inicio de 1850, Mauá era possuidor apenas de uma fábrica. Com o beneplácito do Imperador, em dois anos agregou aos seus negócios um banco (Banco do Brasil refundado), um ferrovia, uma empresa de navegação e ainda recebeu a concessão de vários serviços públicos. Sua fortuna era superior ao orçamento do Império. Nos dias de hoje, essa ação empreendedora que mudou a cara do Brasil seria objeto de uma investigação parlamentar, mesmo que terminasse em brioche, já que a pizza não era comum entre nós.

]Um pouco antes, com a chegada da Corte à Colônia, d.João VI deparou-se com o exercício da propina entre os agentes de sua alfândega. Além- mar, os embaixadores brasileiros em Londres também pegavam a sua na negociata dos empréstimos que o Brasil tomava, conforme registra em suas memórias, o embaixador Heitor Lira.

No Brasil, a propina sempre será tida como dinheiro obtido de forma ilícita, através do suborno, em atos de corrupção. Esteve presente na República Velha, quando foram registradas inúmeras obras suspeitas de sobre-preço. Entre nós,como lembrança dessa época, restam as estacas do Porto do Sanhauá, sonho da Parahyba que envergonhou Epitácio Pessoa. O moralismo, que chegou com os tenentes à Revolução de Trinta, conseguiu acabar com os “carcomidos”, os coronéis da política apontados como responsáveis pela corrupção. Derrubaram a velha corrupção e instalaram uma nova, como disse Motta Araújo. Chegou-se ao ponto de louvar “o rouba mas faz”.
A palavra propina, vem do latim, propinare, “dar de beber”, como me ensinou no Liceu o professor Raul Córdula. A propina, segundo consta, teria sido popular entre os gregos. Era costume entre eles, ao levantar a taça em brinde, beber, apenas, uma parte do seu conteúdo. O restante do vinho que permanecia na taça com que se brindara à saúde de alguém, chamava-se propina. Tempos heróicos aqueles, quando propina era, apenas, uma sobra de vinho.(Qualquer semelhança com os dias que vivemos é mera coincidência.Do meu próximo livro “Pequenas Histórias”).

De mestre escola a presidente - Ramalho Leite



 

 

Os acontecimentos que culminaram com a chamada Revolução de 1930, na Paraíba, terminaram por erigir um panteão de muitos heróis. Alguns verdadeiros, outros, nem tanto. João Pessoa, ao sacrificar-se, legou à história sua bravura cívica e sua coragem moral. O seu sangue, misturado às lágrimas dos paraibanos, foi o combustível para as mudanças que os tenentes vinham pregando desde 1922. Mas hoje quero falar da Velha Repú ;blica. Logo identifico um bravo, meu patrono da APL que, com destemor, nas paginas do seu jornal enfrentou a arrogância do poder e não sucumbiu ao seu aceno. Refiro-me ao jornalista Artur Aquiles.

Um outro destaque, concedo a Solon Barbosa de Lucena. Apontado como um fraco pelos seus oponentes, certa feita salvou esta cidade de um incêndio sem precedentes, por um gesto de coragem inusitado. Todo o Varadouro ardia em chamas. Um depósito de dinamite que seria utilizada nas obras do porto ameaçava explodir. Os trabalhadores recuavam com medo de serem atingidos, mesmo estimulados pelo presidente Solon de Lucena, chamado às pressas ao local do sinistro. Inopinadamente, sem pedir que seu gesto fosse copiado, entrou no armazém em chamas e saiu sobraçando uma enorme caixa de dinamite. A partir da daí, a coragem dos demais aflorou e o comércio da cidade baixa foi salvo da destruição. &A acute;lvaro de Carvalho(vice de João Pessoa) conta que Solon nunca vangloriou-se desse feito.

Solon de Lucena era filho de Virgínio de Melo e de Amélia Barbosa de Lucena. Sua mãe, que tinha o mesmo nome da avó, era sobrinha de Henrique Pereira de Lucena que, por ter agilizado a tramitação da Lei Áurea quando presidia a Câmara dos Deputados, recebeu da Princesa Isabel o título de Barão de Lucena. Este, por sua vez, era tio de Epitácio Pessoa. Esse parentesco abriu as portas do sucesso para Solon tornando-o apto a participar da oligarquia epitacista. Por razões não explicitadas, a certa altura de sua juventude, quando cursava o quarto ano, Solon largou a faculdade de direito do Recife e veio militar na sua terra natal. Ali ajudou a fundar o famoso Instituto Bananeirense. Na qualidade de mestre-escola, inicia a sua carreia de homem público e, já em 1912, teve o seu nome incluído na chapa de deputados.

Nessa mesma legislatura foi eleito presidente da Assembléia e, nessa condição, assumiria pela primeira vez a gestão estadual. Para que sentasse na cadeira governamental foi preciso que o presidente Castro Pinto renunciasse ao seu mandato, entregando o governo ao coronel Antonio Pessoa, primeiro vice-presidente e irmão de Epitácio. Por motivos de saúde, agravados por sua insatisfação com a escolha de Camilo de Holanda para sucedê-lo, Antonio Pessoa retirou-se para sua fazendo em Natuba entregando ao deputado Solon de Lucena a presidência do Estado. O segundo vice-presidente Pedro Bandeira Cavalcanti preferiu continuar como juiz de Guarabira, visando alcançar o cargo de des embargador.

Na sucessão de Camilo de Holanda (1916/1920), o primeiro presidente da era epitacista, volta à tona o nome de Sólon de Lucena, desde 1917, exercendo o mandato de deputado federal e reeleito para novo período. Chegou à chefia do executivo paraibano com o apoio até da facção oposicionista do monsenhor Walfredo Leal, tendo como vices presidentes Flavio da Silva Maroja e João Batista Alves Pequeno. Solon chegou ao mais alto posto da administração estadual após ser eleito para um único mandato estadual e dois federais, entre 1912 e 1920. Antes, foi secretario geral da gestão de Camilo e diretor do Liceu Paraibano.

Homem simples e honrado, Sólon de Lucena foi “um orador imaginoso e possuía poderosa inteligência” na definição de Apolônio Nóbrega. Enfrentou dificuldades e morreu pobre, na sua Bananeiras, no ano de 1926. Teve uma carreira meteórica firmada na sua capacidade, mas também impulsionada pelo parentesco com Epitácio, a quem devotava fidelidade irrestrita. No grupo político epitacista viria a chefiar os chamados “jovens turcos& rdquo;. Conta Cunha Pedrosa, em suas memórias, que até 1912 Solon era um modesto professor em Bananeiras, onde fazia oposição à poderosa família Rocha. No governo de João Machado (1908/1912), como professor primário, recebia a irrisória importância de 50 mil reis por mês. Pedrosa registra que lhe conseguiu um aumento de 10 mil réis. De mestre escola chegou à presidência do Estado em apenas oito anos.

A fazenda Pedra D´Àgua também pertenceu a Solon de Lucena e, após sua morte, foi adquirida pelo seu compadre, coronel José Fausto da Costa Lira, o farmacêutico que inventou a “vacina de cuspe”. Mas essa é outra história que já contei antes.

Como se fazia um senador - Ramalho Leite



 

Tudo remonta a Roma, inclusive o Senado. O nome vem do latim. Sen,senex,senior que, etimologicamente, significa velho, idoso. Entendia-se, então, que os mais idosos seriam os mais sábios. Aqui se entendeu que eles deveriam ser os “mais sabidos”. Da mesma origem, vem a palavra senilidade. Na sua verve, Dorgival Terceiro Neto costumava dizer que, para ser senador era preciso já ter feito três operações: cataratas, próstata e hemorróidas. Os tempos mudaram e o Senado já aceita até não operados de fimose. Mas, mesmo diminuindo a média etária dos seus membros, a chamada&nbs p; Câmara Alta continua a ser aquele “paraíso” batizado pelo senador Geraldo Melo(RN). Os oligarcas da República Velha mantinham-se sempre no exercício do mandato de senador e, da metrópole, impunham sua vontade aos seguidores que ficavam na província aguardando as ordens. Na antiga Parahyba foi assim até 1915 com o predomínio de Álvaro Machado e desde então, até 1930, com Epitácio Pessoa. Ambos moraram sempre no Rio e, esporadicamente, foram obrigados a visitar seus conterrâneos.

No ano de 1904 governava o nosso Estado o desembargador José Peregrino de Araujo e a eleição do seu sucessor já estava marcada para o dia 22 de junho. O presidente gostaria de eleger seu chefe de policia, Semeão Leal que, todavia, só completaria 30 anos, idade exigida para o cargo, no dia 11 de maio. Reformou-se a Constituição para conceder elegibilidade ao preferido do governo. Peregrino alcançou seu objetivo mas, enfrentou e venceu insistente campanha da imprens a capitaneada pelo valoroso jornalista Artur Achilles no seu “O Commercio”. Semeão tornou-se, de direito, elegível, mas faltava ser acolhido pela vontade do chefe da oligarquia alvarista, o próprio senador Álvaro Machado, que se sentiu desprestigiado com a indicação de um governante à sua revelia. Foi obrigado a visitar a Parahyba para resolver esse imbróglio.

A vontade do chefe era uma vontade de ferro. O comando foi exercido com tanta perfeição que o próprio Álvaro foi escolhido sucessor de Peregrino. Semeão teve que se conformar em ser o primeiro vice-presidente, mesmo sem a confiança do titular. A solução, mesmo satisfatória por restaurar a autoridade do chefe, não era do seu agrado. Para ele, o bom mesmo era viver no Rio e ter uma cadeira no Senado, mandando de lá as suas determinações. E passou a agir com esse objetivo. Sem ferir a Constituição ou a lei eleitoral, foram realizados três pleitos extraordinários assim motivados: quando assumiu o Governo, Álvar o abriu vaga no Senado e para o seu lugar elegeu o seu alter ego monsenhor Walfredo Leal que era deputado federal. Para a cadeira de deputado foi eleito Semeão Leal e, em conseqüência, abriu-se a vaga de vice, na qual foi entronizado o Monsenhor Walfredo. Para a vaga de Walfredo no Senado, foi novamente eleito o próprio Álvaro, que retornava em menos de um ano ao seu mandato senatorial e ao seio da família que nunca desejou morar na Paraíba. Para Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo,” na Velha Republica esses arranjos eram freqüentes, se bem que não edificantes”.

Na Nova República, nascida após a revolução de 1930, as coisas não mudaram muito. Houve até quem proclamasse que “houve apenas uma troca: os carcomidos velhos, pelos novos”. Os arranjos políticos do tipo acima narrado voltaram a se repetir. O exemplo que escolhi teve como protagonista o jornalista e empresário midiático Assis Chateaubriand. Em 1945 a Paraíba mandou para o Senado Adalberto Ribeiro e Vergniaud Wanderley. Em 1947, a terceira vaga foi preenchida por José Américo de Almeida e, eleitos os suplentes dos três: Carlos Pes soa, Antonio Pereira Diniz e Epitácio Pessoa Cavalcanti, filho do presidente João Pessoa. Chatô, “o Rei do Brasil” como foi consagrado na obra de Fernando Morais, queria ser senador, mas não existia vaga. Sua força era grande perante Getulio Vargas. Conseguiu que o senador Vergniaud Wanderley fosse nomeado ministro do Tribunal de Contas da União. Seu suplente, Pereira Diniz, então deputado federal, preferiu permanecer na Câmara mas foi compensado com um cartório no Rio de Janeiro. Para preencher a cadeira de senador pela Paraíba, foi realizada uma eleição suplementar em 1952. Chateaubriand foi candidato único, tendo Drault Ernani como suplente . Obteve cem por cento dos votos válidos e tornou-se nosso represente no Senado. Na Velha República, como na Nova, era assim que se fazia um senador.

A escola no tempo do Império - Ramalho Leite



A valorização da instrução pública era uma das prioridades do Império. Os governantes que passaram pela direção da província da Parahyba do Norte deixaram registrada essa preocupação primeira. Quando Pedro II visitou esta província, no Natal de 1859, nas cidades onde esteve, preocupou-se em conhecer as condições das escolas existentes. Seu exemplo foi seguido pelo gaúcho Silva Nunes, primeiro presidente a percorrer o nosso interior que, recebido nas câmaras municipais, inspecionava as escolas masculina e feminina, abordava os mestres e registrava a frequência. Silva Nunes que, por ser genro do Barão de Muritiba ainda seria eleito deputado pelo Espirito Santo e governaria a Bahia, em sua mensagem de despe dida aos paraibanos, deixou nos anais da Assembleia provincial seu conceito sobre a escola e os professores no território paraibano, do que, destaco: “Em Província nenhuma do Império são eles (os professores) remunerados como na Paraiba. Longe de censurável, é louvável esse procedimento dos legisladores da Província; cumpre, porém, que esse bom vencimento só o tenha quem verdadeiramente trabalhe e mereça”.(março de 1861)

Alguns anos antes, porém, coube a um baiano, bacharel de Olinda de 1832 e designado para presidir a Paraíba entre 1848 até 1850, mandar elaborar o primeiro regulamento da escola pública paraibana. Chamava-se João Antonio de Vasconcelos e, depois de governar a Paraíba, continuou sua carreira no Judiciário. Chegou a desembargador e presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, de onde saiu para ministro do Supremo, chegando à sua presidência. O regulamento para as escolas de Instrução Primária da Província da Paraíba do Norte data de 20 de janeiro de 1849 e foi elaborado em cumprimento à Lei Provincial nº 14 do ano anterior. Detalhes curiosos foram inseridos nessas normas, a começar do local a ser procurado p elo professor, que deveria ter “para sua aula, casa sadia, com sala grande, bem clara e arejada e em tudo apropriado ao estabelecimento de uma escola”.

A submissão à Igreja Católica e ao Império, deveria ficar explícita em cada sala de aula pois “em frente dos meninos, na escola, haverá uma Imagem de Cristo e o retrato de S. M. Imperial.” Nas paredes deveriam ser pregados os avisos em que se achem “traçados os principais deveres dos discípulos e as penas máximas da religião e da moral”. O professor ficaria no centro da sala ou na entrada, sobre um estrado de onde poderia, mesmo sentado, alcançar toda a classe. Na porta de toda escola seria inscrito o seguinte: “Instrução Primária pelo Método Simultâneo, Dirigido pelo Professor( aqui o nome do professor), diz a lei, que se preocupa, também, com a higiene: “A escola será varrida todos os dias e as janelas se conservarão abertas nos intervalos das lições” como foi escrito no artigo 6º do Regulamento.

O regimento da escola imperial detalhava as exigências disciplinares, as recompensas e os castigos. Fixava a idade mínima de seis anos para o ingresso na escola. Todavia, o aluno somente seria admitido caso provasse “ter tido bexiga ou sido vacinado” contra o mal. Entre os discípulos mais obedientes, assíduos e inteligentes, seriam escolhidos monitores para ajudar o mestre nas suas tarefas e, inclusive, um monitor-geral exclusivo para substituir ao professor na sua ausência, o que era “mui raro”. Aos monitores era recomendado chegar meia hora antes à escola, para “aparar as penas” e ajudar na organização dos livros e cadernos que deveriam estar em seus lugares antes do início das lições. “Cada discípulo, quando entrar, corteja o professor, vai por seu chapéu no lugar que está marcado com seu nome e número, depois volta a tomar assento no seu banco em silencio”. Se o aluno faltar, a família será comunicada. O professor não se familiarizará com seus alunos, “conquanto lhes deva ter muito amor”.

As recompensas aos alunos eram expressas em “bilhetes de satisfação”. O professor estimularia a disputa entre os seus pupilos, premiando as respostas corretas e, “nunca premiará se não a quem houver merecido”. Os alunos premiados teriam seus nomes expostos na escola e no domingo, após a missa, o professor lia essa “lista de honra”. Se o professor estivesse satisfeito com seus alunos, poderia proporcionar-lhes um passeio, durante um meio dia de feriado que seria concedido após um mês d e desempenho satisfatório.

Quem não obtivesse recompensas ou bilhetes de satisfação, estava fadado ao castigo. A indisciplina, a inaplicação, a má conduta seriam punidas exemplarmente. “Mas os discípulos nunca devem ser batidos”, adverte a lei. Os castigos autorizados eram: “Uma ou mais notas más; a perda do lugar alcançado em vários exercícios; a restituição ou privação de um ou diversos prêmios; a privação de uma parte ou da totalidade das recreações com aumento de trabalho”. E mais: “Os rótulos com as palavras falta de verdade, indisciplinado, falador, preguiçoso etc. designando a natureza do erro... são colocados em papelão pendurados ao pescoço do discípulo por um cordão, caindo-lhes sobre as costas, que assim conservarão somente dentro da escola”.(Hoje seria considerado Bullying ). Mas, de certa forma, o Império era magnânimo e até brando: “O ajoelhamento durante uma parte da aula, ou da recreação: este castigo nunca excederá de um quarto de hora”. No grupo escolar de Borborema, onde estudei, essa norma do Império ainda vigorava aí pelos anos 1950, sob o domínio da professora Jaldete. Para ela, porém, o ajoelhamento de frente para a parede não tinha tempo definido e, sob os joelhos, para os mais rebeldes, acrescentava alguns caroços de milho. Lembrando disso, me deu uma saudade enorme do castigo imperial.

Os imperadores e suas amantes - Ramalho Leite



 

 

 

Já escrevi sobre amantes de poderosos e, naquele texto, incluí gente da nossa época, a exemplo de Getúlio Vargas, Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek e certo general que dizia gostar mais de cheiro de cavalo, mas consumia muitas milhas em busca de um cangote feminino. De passagem, lembrei Pedro I, que dividiu seu reinado com a principal amante, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos. Acho que deixei em paz Pedro II, seu filho, um tremendo “come quieto”, que não ficava longe do pai em matéria de ocupar as camarinhas do Palácio.

A diferença entre pai e filho residia na seleção das eventuais companheiras de alcova. Pedro I era mais promíscuo. Apesar da Marquesa de Santos, com quem teve cinco filhos, ainda engravidou outra filha do brigadeiro Canto e Melo, de nome Maria Benedita, casada com o Barão de Sorocaba. Antes da marquesa, uma atriz francesa inaugurou seu caderno de traição à Imperatriz Leopoldina. Os costumes da época, pelo menos no ambiente das cortes, justificavam que o leito conjugal servia apenas para perpetuar a linhagem. As paixões e os prazeres era coisa para se conseguir no aconchego das amantes. Uma comerciante francesa, de nome Clemence Saisset, também lhe deu um filho bastardo. A atriz uruguaia Maria Del Carmem Garcia não lhe deu filho, deixando essa missão para a monja portuguesa Ana Augusta. No caderno do nosso primeiro Imperador ainda entraram uma escrava do Convento da Ajuda, a esposa de um general e uma atriz portuguesa, o que demonstra que ao voltar para Portugal, Pedro ainda carregava o fogo dos trópicos. Para encerrar, obteve favores sexuais da esposa de seu homem de confiança e, até, da filha do bibliotecário de dona Leopoldina.

Dom Pedro II era um galegão de um metro e noventa, pernas e voz finas, olhos azuis, mas tristes. Há quem diga, pelo abandono do pai e morte prematura da mãe. Conhecera a futura esposa por uma pintura da cintura para cima, obra de artista europeu. Pela pintura não dava pra saber que Tereza Cristina era baixa, feia e puxava por uma perna. Foi uma desilusão que o levou às lágrimas. Mesmo assim tiveram três filhos: o homem morreu ainda pequeno e as filhas Isabel e Leopoldina se transformaram na única esperança de Dom Pedro para um terceiro reinado. Isabel desempenharia papel importante e, ao assinar a Lei Áurea, assinou também a queda da monarquia. Mas quero falar das mulheres de Pedro II, a “ metade” que teria passado a vida procurando e, parece ter encon trado, na pessoa da preceptora de suas filhas, a Condessa de Barral. Ainda passaram pela biblioteca de Dom Pedro, transformada em alcova eventual, a Condessa de Villeneuve e Eponine Otaviano, esposa de um seu amigo de infância, a Condessa de La Tour e outras menos votadas. O Imperador era pouco generoso com suas amantes e, não foram poucos os maridos da Corte que, orgulhosos, chegaram à falência para permitir que suas consortes continuassem a freqüentar a “biblioteca” do Palácio São Cristovão.

A busca de Dom Pedro II por sua alma gêmea começou com Maria Lopes de Paiva, filha do barão de Maranguape, sua primeira paixão. Um filho bastardo de Pedro I, portanto seu meio irmão, era casado com Carolina Bergaro e foi à porta dessa dama que a ronda policial surpreendeu o Imperador e alguns amigos, animados pela bebida. Identificado o Imperador, o policial debulhou-se em desculpas e acordou seu chefe pela madrugada para contar o ocorrido na certeza de que estava encerrando sua carreira. O historiador americano Roderick Berman acredita que esse relacionamento de Dom Pedro II com a cunha da durou cerca de dez anos, na maior discrição. Pedro II recebera esmerada educação para, justamente, não ser comparado ao pai, devasso e inconseqüente ao ponto de conceder titulo de nobreza a quase todos os filhos bastardos. A todos não podia dar, pois foram contados mais de sessenta bastardinhos entre o Brasil e Portugal. Hoje, com os escândalos revelados na nossa Corte Republicana, haveremos de ter saudade dos escândalos do Império.(do meu livro GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE, a ser encontrado na Livraria do Luiz)

Os jovens turcos - Ramalho Leite



 

 

 

A queda do Império Otomano e a fundação da república turca teve como líder Mustafá Kemal Ataruk, militar graduado, revolucionário e primeiro presidente da Turquia. Antes, porém, ganhou renome com sua atuação na primeira guerra mundial. Lutou ao lado dos alemães e foi derrotado pelas forças aliadas. A partir de então, passou a liderar a Guerra da Independência Turca que culminou com a proclamação da república em substituição ao Império Otomano. Na sua juventude, por volta de 1907, promovido a capitão do exército, Mustafá passou a integrar o Comitê para a União e o Progresso, cujos integrantes eram chamados de “jovens tur cos”. A chamada “revolução dos jovens turcos” alcançou algum poder e chegaria finalmente à República sob a liderança de Kemal. A notícia da atividade kemaliana ganhou o mundo. No Brasil, Benjamim Constant defendia a tese do soldado-cidadão: antes de ser soldado, o militar seria um cidadão a serviço do regime republicano. Pregava a extinção das forças armadas que seriam reduzidas a atividades policiais vinculadas à ordem pública. Na oposição a ess a tese, a partir da Primeira Guerra, surgiram militares nacionalistas e defensores da profissionalização do exército. Até um jornal editavam: “A Defesa Nacional”. A essa geração de militares intelectualizados foi denominada de “jovens turcos”. Na Parahyba, não foram os militares, mas uma plêiade de políticos seguidores de Epitácio Pessoa que se apropriaram do nome e das idéias dos militares turcos e nacionais. Marcaram época e alcançaram o poder com o nome de “jovens turcos”.

Segundo Cunha Pedrosa, deputado, senador e ministro do TCU, os “jovens turcos” paraibanos reuniram-se pela primeira vez em 1916, na Fazenda Roma, em Bananeiras, residência de Solon de Lucena. O mentor do grupo era o coronel Antonio Pessoa, irmão de Epitácio, que deixara o governo da Parahyba nas mãos de Solon, então presidente da Assembléia. Esses jovens, a maioria egressa dos bancos da faculdade de direito do Recife, sonhava em suceder a geração que aportara na política paraibana a partir de 1880 e alcançaria a Primeira Republica. Os “jovens turcos” eram adeptos da pregação epitacista que buscava o desenvolvimento do estado, via integração do nosso interior produtivo com o mercado litorâneo. Essa união visava uniformizar o crescimento econômico que seria estimulado, sem dúvida, pela influência política de Epitácio no cenário nacional.Do outro lado estavam os “guelas”, assim chamados por sua preferência pela ocupação dos melhores cargos públicos.

Os “jovens turcos”, liderados por Solon de Lucena, era ainda integrado por Álvaro de Carvalho, que se agregara a Solon desde quando fizeram parte do corpo docente do Instituto Bananeirense. Chegou à presidência do Estado com a morte de João Pessoa. José Américo incorporou-se ao grupo a partir de 1917. Lá estavam Celso Mariz, Demócrito de Almeida, Walfredo Guedes Pereira, o grande prefeito da Capital na gestão de Solon, João Suassuna, A ntonio Pessoa Filho e outros menos conhecidos. Há quem defina os “jovens turcos” como um grupo de doutores do litoral que se opunha aos coronéis do sertão. Para Fernando Nóbrega, porém, essa hipótese se desmerece a partir da identificação que faz dos jovens turcos: José Parente, do Piancó; coronel José Pereira, de Princesa; coronel Targino Pereira, de Araruna; Benedito Queiroga, de Pombal; Solon de Lucena, pelo litoral e brejo; Celso Mariz, pelo sertão.Essa funalização expressa pelo ex-secretário de Suassuna sugere mais uma adesão dos coronéis ao grupo, quando este passou a dominar a política paraibana, a começar do governo de Solon de Lucena até Álvaro de Carvalho, passando pelo João, que era mais Pessoa do que turco. José Américo só chegaria ao poder após a revolução de 1930 e por eleição, na memorável campanha de 1950.

Os “jovens turcos” começaram a ocupar cadeiras no governo da Parahyba desde a gestão de Camilo de Holanda mas, hostilizados, revolveram abandonar o barco, deixando o governo sem deixar Epitácio. Demócrito foi Chefe de Polícia, Solon, secretário de governo e Antonio Pessoa Filho, prefeito da capital. Menosprezados como “parentes de Epitácio”, foram atormentados por Camilo até que pedissem demissão. Camilo passou a preferir seus próprios sobrinhos aos sobrinhos de Epitácio, não sem receber deste várias reprimendas.

Para Epitácio, Camilo no governo estaria “procedendo como não procederia um adversário.Basta notar que o seu governo só considera adversários os parentes e amigos mais íntimos, meus ou de minha família.Pelo menos só a eles trata como tais. Valfredo, Semeão,(dos Santos Leal) José Rodrigues (de Carvalho),Heráclito (chefe da oposição), para não citar senão os adversários, são cumulados de todas as deferências e favores...enquanto Solon, Pessoa Filho, Suassuna, Carlos Espínola, para indicar também só quatro amigos, são desc onsiderados ostensivamente” (centenária carta de Epitácio a Camilo em 6 abril de 1917).

Os “jovens turcos” Antonio Pessoa, Solon de Lucena, João Suassuna e Álvaro de Carvalho ocuparam a cadeira presidencial parahybana. Mustafá Kamel jamais imaginou que os seus “jovens turcos” teriam seu exemplo copiado nos confins do brejo paraibano, a partir da Fazenda Roma, na distante Bananeiras, onde morava Sólon de Lucena - o maior de todos os seus filhos.

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