O farmacêutico que inventou uma vacina e ficou famoso - Ramalho Leite



 O epíteto de “Vornoff Brasileiro” foi dado ao major José Fábio da Costa Lira, farmacêutico em Bananeiras mas nascido em Umbuzeiro, onde foi prefeito municipal. O jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, em edição de 11 de agosto de 1936, na primeira página, revela a existência, “no interior da Parahyba, do autor de um processo a que se atribuem curas assombrosas”. Doentes com tuberculose, câncer, lepra e diabetes eram objeto de tentativas de curas pelo método que denominou “lymphotherapia” e que consistia na “transmutação do princípio vital que afflora de certas glândulas de creanças e menores, desde que estejam sãs, par a pessoas doentes, isto é, para aquelas cuja energia orgânica esteja perturbada, diminuída ou esgotada”, explica José Fabio, para finalmente comparar: “se posso dizer, é a voronofftherapia simplificada”.

Ao usar o neologismo voronofftherapia, o criador da famosa “vacina de cuspe”, como ficou conhecida a injeção que aplicava nos enfermos, refere-se ao cirurgião russo radicado em Paris, Serge Voronoff (1866-1951) que foi pioneiro em método de transplante e prometia recuperar e garantir a vitalidade, a plena atividade física e mental… por meio do enxerto de glândulas sexuais de primatas não humanos, conforme explica Renata Moehlecke, da Fiocruz. A reportagem de “A Noite” sobre o “modesto farmacêutico do interior” também aludia à possibilidade de seu sistema provocar o rejuvenescimento e garantir uma “velhice mais sadia e mais alegre”.
O jornal carioca mandou a Bananeiras um repórter ouvir o esculápio, para tentar explicar aos leitores a razão da sua fama que já alcançava a Paraíba e os vizinhos Rio Grande do Norte e Pernambuco. Tal qual uma romaria, doentes de toda parte vinham pedir arrego na Farmácia de Zé Fábio. Sua atividade, porém, foi considerada irregular pela Sociedade de Medicina da Paraíba e ele mesmo reconhece – “sei que venho agindo fora da minha profissão, pois não sou médico, mas comprehendo também que a sciencia não pode ser patrimônio de uma classe”… Revela que suas experiências não fazem “victimas” e, conformado, conclui: “j&aacute ; me compensam as emoções de ter com o meu méthodo aliviado algumas dores humanas”

Depois do pronunciamento negativo da entidade médica paraibana começaram as perseguições ao boticário. O vigário de Bananeiras, José Pereira Diniz, “na qualidade de guia dos destinos espirituaes da parochia” ao tomar conhecimento de que José Fábio havia dito que “ a lymphotherapia provinha de uma missão divina recebida de um espírito superior que não era o Deus da religião de vocês”, resolveu interpelá-lo por carta, devidamente registrada no Livro de Tombo da Paróquia. As respostas às indagações do sacerdote foram atendidas uma a uma. “O meu methodo de cura lymphotherapia ou sialotherapia é resultado de estudos cient& iacute;ficos publicados em dois livros e um memorial inédito lido perante o corpo médico do Hospital Pedro I, de Campina Grande” informa. E conclui o cientista autodidata: “Vossa Reverendíssima sabe que tenho ideias espíritas, mas, que em tempo algum as empreguei para a cura do corpo e sim para as do meu espírito”.

Proibido de exercer suas experiências na Paraíba, o major José Fabio da Costa Lira (naquele tempo em Bananeiras todo ilustre era major) mudou-se para Serra Negra, no Rio Grande do Norte. Em pouco tempo, a categoria médica local agiu contra sua atividade. Deusdedith Leitão, conta em “Inventário do Tempo” que era um jovem viajante e, na sua faina comercial, encontrou José Fabio em plena atividade em Lavras de Mangabeira, no Ceará. E tomou a “vacina de cuspe” por recomendação de sua mãe, crente dos resultados advindos da injeção “milagrosa”. “Era o que ele chamava de salioterapia que nada mais era de que a saliva transformada num liquido injetável que se indicava a qualquer tipo de doença”, explica Deusdedith.

O trabalho experimental de José Fabio da Costa Lira está detalhado no livro “Da Lymphotherapia ao Physio-Pschismo” publicado em 1924 sob o patrocínio do seu compadre Sólon de Lucena, então presidente do Estado. Ele narra os resultados satisfatórios de seu método de curar e revela, na reportagem de 1936 que, conseguiu curar a tuberculose, “onde reste ainda uma parte do pulmão e espero retrogradar a lepra ao estado de eczema, como já tenho feito da tuberculose uma bronquite commum. Conforme observações mais recentes, consegui reduzir o assucar, num diabético, a mais da metade, e levantar-lhe as forças, dissipar-lhe a catarata e abater a febre do enfermo”.

Correligionário dos Pessoa, compadre e amigo do coronel Antônio Pessoa a quem chamava de Toinho, foi por ele escolhido prefeito de Umbuzeiro. Desgostoso da política local, trazendo uma carta de apresentação de seu chefe político para Solon de Lucena, em Bananeiras instalou-se e se tornou, além de amigo/irmão de Sólon, seu colega, como professor de francês no Instituto Bananeirense, por eles fundado, ao lado de Dionísio Maia e outros.

Foram vãs as tentativas do avô de Waldir dos Santos Lima em legalizar o seu método cientifico de curar. José Fabio da Costa Lira teria que se conformar com o apoio moral que recebia dos que alcançavam a saúde plena. Não acumulou fortuna, mas lhe sobraram sofrimento e frustrações, fruto das perseguições sofridas ao longo da existência. Sua maior consternação, porém, foi não ter conseguido, com a lymphotherapia, prolongar a vida do seu compadre Solon de Lucena. O clima saudável do curimataú, da Fazenda Pedra D´Àgua, onde morreu o ex-presidente da Paraíba foi insuficiente para a sua cura.

Na UTI se respira vida - Ramalho Leite



 RAMALHO LEITE
NA UTI SE RESPIRA VIDA

Para quem nunca foi levado a extrair uma unha encravada, ser hóspede de uma unidade de terapia intensiva é uma aventura inusitada. Colocado em leito de posição privilegiada, podia avistar outros à minha frente e o movimento frenético de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e outros auxiliares que se revezam a cada vinte e quatro horas. Os intensivistas cuidam de homens e mulheres, adultos ou crianças, que necessitam de melhores cuidados, quase sempre pós operatórios ou preventivamente, visando estabilizar um paciente com a saúde em risco.

O conceito de terapia intensiva vem do século dezenove, quando em pela guerra da Crimeia, por volta do ano de 1854, alguém teve a ideia de separar pacientes graves de não graves e a partir de então estabeleceu uma vigilância continua, de dia e de noite sobre seu estado de saúde. Atribuiu-se a inciativa a Florence Nightingale, que ficou conhecida como a Dama da Lâmpada, pois conduzia uma lamparina durante a noite procurando os enfermos mais graves para separa-los dos menos graves. Mas a primeira UTI com esse nome, veio surgir em Boston, nos EE.UU pelo ano de 1927, através de um neuro- cirurgião chamado Walter Dandy, conforme me revela a Wikipédia. No Brasil, o honraria de encarar o tratamento intensivo foi conferido, historicamente, à Ana Nery, tida como Heroína da Pátria e pioneira da enfermagem no Brasil, principalmente em função de sua atuação, ao lado do marido e filhos na guerra do Paraguai.

Mas deixemos o bravos brasileiros que perderam avida nos pântanos paraguaios e nas batalhas navais e voltemos à UTI onde estive internado por alguns dias. Um ambiente de ansiedade. O isolamento provoca a angustia. Só há o desejo de rever as pessoas que amamos e que, no outro lado de uma parede, fazem fila para um abraço carinhoso, às vezes, não correspondido, por razões obvias. O velhinho de cabelos branco corre célere até o leito onde sua companheira dorme. Trouxeram-me lágrimas o gesto de carinho. Merecia uma foto. Mas proíbem celular naquele ambiente. O filho, mais ágil ainda que o marido aflito, procura um rosto, e faz carinho na face materna que parece não responder aos afagos. Lembrei minha mãe que padeceu em um daqueles tálamos. Vendo aquele filho acarinhar a mãe enferma, quanto me arrependi de, em nome da minha covardia, ter deixado de ir abraça-la. Preferia guardar a lembrança da sua imagem em vida. Agora tenho certeza que ela teria ficado muito feliz em me ver, mesmo que fosse pela última vez.

Foi uma boa invenção essa tal de UTI. O paciente, quando está em condições, pode avaliar os serviços que lhe estão prestando. Melhor ainda quando a luta de todos é coroada de êxito e o interno sai dali, recuperado, saudável. Numa UTI se respira vida. Acho que não incomodei muito. Bastava um sinal, e alguém já sabia que eu pedia o famoso bico de papagaio. Usei e abusei do bicho. Em hora nenhuma, porém, precisei avisar para todos, como o senador, o que desejava fazer...

Na chegada de Cabral nasceu a corrupção no Brasil - Ramalho Leite



Quando Cabral aportou nas costas da Bahia e, das naus de sua esquadra avistou-se um monte alto a que se denominou Monte Pascoal, começou a nascer um país que, quinhentos anos depois, ainda refletiria a semente plantada naquela terça-feira, 21 de abril. Não me acanho de repetir o lugar comum de que, a qualidade da gente trazida para ficar e se misturar com os índios não germinaria bons frutos. Pero Vaz de Caminha mandaria dizer a dom Manuel, o Venturoso, que o Capitão “mandou com eles (os índios) para ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. O degredado levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as d ar ao senhor, se lá o houvesse”. Foi a primeira ação de corrupção com pagamento de propina que se registrou nesta terra de Vera Cruz.

“O Capitão, quando eles (os índios) vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço…acenderam-se tochas e eles entraram…um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra.E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!…Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Narrou o escrivão da frota. < /span>

Os portugueses, sem dúvida, estavam interessados no ouro e na prata. A procura de especiarias era só uma desculpa para quem saiu com destino às Índias e, desviado da rota por falta de vento terminou por descobrir novas terras. Os silvícolas pediam pouco. Encantaram-se com as contas de um rosário e pediram-nas de presente, enfeitando de logo seus pescoços. Através de gestos, propunham a troca das contas por ouro e prata que, ao que indicava, era abundante na nova terra. Os visitantes tomaram a resolução de levar dois daqueles índios, mesmo à força, à presença do Rei de Portugal, deixando em seu lugar dois degradados. A primeira tentativa de sequestro entre nós foi abortada pela sugestão de que, o s degredados, ficando em terra, teriam muito mais a contar sobre o território conquistado. Assim foi feito e mandado dizer a El Rei:“E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui dois degredados quando daqui partíssemos”. Não esqueceu Pero Vaz de informar que, além dos degredados, “dois grumetes, que esta noite saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. Tutto buona gente!

“E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo” concluiria Pero Vaz. Na despedida, contudo, não deixou de cobrar do seu amo, um pequeno favor. Bastou demorar-se por aqui e respirar o nosso clima por alguns dias, para descobrir o jeitinho brasileiro. Escreveria ao final de sua famosa Carta: “E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé, a Jorge de Osorio, meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê.”Era a primeira notícia do nepotismo em terras brasilienses.

Lendo a Carta de Pero Vaz de Caminha, nosso primeiro testemunho escrito sobre a nova terra e sua gente, chego à conclusão de que o Brasil tem jeito. Basta começar tudo de novo…

Os dois barões de Ramalho: Um brasileiro e outro português



Vim descobrir recentemente por que a família da minha esposa fazia restrições ao seu casamento comigo. Para casar, tive que roubar a moça. O coronel Camporra, irmão do Barão de Araruna era seu trisavô. Com essa ascendência nobre, como permitir a união com o filho de um plebeu, cujo mais ilustre membro familiar era tenente da Guarda Nacional? Mas a história abre caminhos e a genealogia nos leva a conhecer o passado. Em busca desses ancestrais encontrei Joaquim Inácio Ramalho, Barão de Ramalho, um ilustre homem do direito, contemplado com todas as honrarias do Segundo Império. Um dia ainda vou reivindicar esse título de nobreza. Só não sei perante qual juízo...

Filho de um espanhol, o futuro barão nasceu a 6 de janeiro de 1809, em São Paulo. Os irmãos Antônio Nunes Ramalho (parente da Elba) e Anna Felisberta Ramalho foram seus pais de criação, recebendo deles o sobrenome Ramalho. Foi dos primeiros alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco onde se bacharelou em 1834 e foi doutor em 1835. No ano seguinte já era professor substituto da mesma escola onde se graduara. Dez anos depois foi eleito vereador e presidente da Câmara de São Paulo. Sua destacada atuação lhe valeu a nomeação, através de decreto imperial, para a presidência da Província de Goiás, até 1848 quan do se elege deputado geral por Goiás. No retorno, foi deputado provincial paulista, por duas legislaturas. É ainda comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo.

Conselheiro do Governo Imperial lidera um grupo de advogados para fundar o Instituto dos Advogados de São Paulo, ativo ainda hoje. Depois de aposentado como catedrático da Faculdade de Direito foi distinguido pelo Império com o baronato. Denominado Barão de Água Branca, em homenagem à cidade alagoana do mesmo nome, recusou o título. Somente aceitaria o título de Barão, caso houvesse referência à família de sua esposa Paula da Costa Ramalho, filha de um dos Ramalho que o criara. Assim, em 28 de maio de 1887, torna-se o Barão de Ramalho. Nomeado diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ocupa esse cargo até sua morte em 15 de ago sto de 1902, aos 93 anos.

Em artigo sobre os Notáveis do Direito, Alessandro Hirata, livre docente da USP, considera o Barão de Ramalho “um exemplo de carreira dedicada à academia. Passou a maior parte de sua longa vida nos bancos da São Francisco. Sua atuação é modelo não apenas para a tradicional faculdade paulistana, mas para todo o mundo acadêmico jurídico”.

Acabei de falar sobre o Barão de Ramalho brasileiro. Dona Maria II, de Portugal, contudo, destacou um político do Açores com o título de Barão do Ramalho. Chamava-se Antônio Tomé da Fonseca Carvão Paim Câmara, o 1º Barão. Seu neto, Antônio da Fonseca Carvão Paim da Câmara, foi o 2º. Barão e além de político e jornalista foi governador civil, por diversas vezes, do distrito de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada até 1878. Cavalheiro da Casa Real, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, eram alguns dos seus títulos. Era formado em Ciências Naturais pela Unive rsidade de Bruxelas.

Com essa ascendência nobre, tanto brasileira quando d’além mar, juntei a Casa dos Aragão com a Casa dos Ramalho e ainda hei de reivindicar o meu título de nobreza. O coronel Camporra que me aguarde! (Do meu livro A HISTÓRIA COMO EU CONTO)

Nosso primeiro governador civil indicado por militares -Ramalho Leite



A notícia da deposição da Família Real chegou à Parahyba por telegrama. A República estava nascendo, mas por aqui, não havia um republicano para recebê-la. O paraibano Albino Meira, professor da Faculdade de Direito do Recife e único defensor da República entre nós, foi candidato à Assembleia Geral do Império e obteve míseros vinte e quatro votos. Confirmado o golpe militar comandado por Deodoro da Fonseca, assumiria a chefia do executivo o tenente-coronel Honorato Caldas que por doze dias tumultuados, se fez governador. Terminou preso e recambiado para a antiga Corte por ordem de Benjamim Constant, ministro da Guerra. Passou o governo ao capitão Oliveira Cruz, até a posse do governador nomeado, Ven&aci rc;ncio Neiva, juiz de Catolé do Rocha. Este, irmão de dois oficiais do exército, teve sua indicação reforçada pelo general Almeida Barreto e venceu Albino Meira, republicano histórico, patrocinado por Aristides Lobo, Ministro do Interior do governo provisório.

Venâncio Neiva tomou posse como governador no dia seis de dezembro de 1889. Epitácio Pessoa, que há pouco mais de um mês chegara à Corte para tentar a sorte, sob a sombra do Barão de Lucena, seu tio, regressou à Parahyba para assumir o cargo de Secretário Geral do Estado, ao lado de Coelho Lisboa, nomeado Chefe de Polícia, ambos os postos, de escolha federal. Dos três que formaram esse primeiro governo, somente Coelho Lisboa podia se dizer republicano. Foi um governo, provisório, literalmente: Epitácio saiu com dez meses para ser deputado constituinte e, Coelho Lisboa rompeu logo com o governador. Voltaria ao poder no governo seguinte, integrando-se à duradoura oligarquia de Álvaro Machado, nascida com a ascensã o de Floriano Peixoto à presidência da República.

Apesar da inexistência de muitos republicanos militando nestas plagas dos tabajaras, a partir da certeza da queda da monarquia, a Parahyba inteira “passou a manifestar convicções republicanas ou pelo menos, a disposição de servir ao novo regime”. Disso serviu-se o governador Venâncio Neiva para escolher auxiliares e dirigentes municipais, todos oriundos do antigo regime e das fileiras do partido conservador ao qual pertenceu o chefe do executivo. Osvaldo Trigueiro Mello, registra que, “só não podemos dizer que não se derramou uma lagrima pelo Império, por que o ultimo Chefe de Polícia, Sá e Benevides, ao ser informado dos acontecimentos, disse a Eugenio Toscano de Brito, como os olhos rasos de águ a: “A Republica será a desgraça desse país”. Coube a Venâncio Neiva a missão de organizar politicamente o Estado e foi ele que outorgou a nossa primeira constituição, a 25 de abril de 1891.


A Constituição Estadual, na parte referente a eleições e funcionamento da Assembleia, entraria em vigor de imediato. Sua vigência integral, todavia, dependia da aprovação dos deputados constituintes. Instalada a Assembleia, Venâncio Neiva foi eleito e tomou posse como governador, agora respaldado pela letra da Lei Maior, fato ocorrido em pleno São João de 1891. Mas, somente em agosto, a Carta seria promulgada pela Assembleia presidida pelo deputado Manoel da Fonseca Xavier de Andrade. Era a data da fundação da cidade de Nossa Senhora das Neves.


Pela Carta de 5 de agosto de 1891, o governador, com mandato de quatro anos, seria substituído nas suas ausências por um dos três vices e, não podia ser reeleito. Precisava ter mais de trinta e cinco anos para exercer o cargo. O Poder Legislativo era composto de um Congresso com trinta membros para um mandato de quatro anos, mas, a sua metade, seria renovável de dois em dois anos. As leis dependiam, como ainda hoje, da sanção do governador. A eleição era pelo voto direto, porém, não secreto. Era o chamado “voto de cabresto”.


Por outro lado, o Poder Judiciário, formado pelo Superior Tribunal de Justiça e constituído por cinco desembargadores, incluía ainda o júri criminal, os tribunais correcionais e os juízes de direito e os distritais. Eleito da mesma forma dos deputados seriam os prefeitos, que cuidariam da gestão municipal com a parceria de um Conselho de nove membros na Capital e sete nos demais municípios. Com o novo golpe de Deodoro, agora fechando o Congresso, Venâncio Neiva não tomou partido e limitou-se a declarar que a Paraíba continuava em paz. Caindo Deodoro, com ele foram derrubados todos os governadores. Venâncio Neiva ainda resistiu por alguns dias, até que foi forçado a renunciar. Seu vice não esquentou a prin cipal cadeira do estado. Depois de passar pela chefia de uma junta governativa, a Parahyba recebeu como governante o major Álvaro Machado que se manteria no poder até que sua oligarquia fosse substituída pela de Epitácio Pessoa, a partir de 1915.


Assim nasceu a República na Parahyba.( Do meu livro, A HISTÓRIA COMO EU CONTO)

Jô Soares na missa de Dom José - Ramalho Leite



 

Jô Soares, o teatrólogo, escritor, humorista, musicista, ator e jornalista nasceu em berço de ouro. Até a adolescência, sua residência foi o maior e mais refinado hotel brasileiro, o Copacabana Pálace, na famosa praia do mesmo nome. Correndo ao redor da piscina, ainda menino, ouvia o chamado do jornalista Assis Chateaubriand, o Chatô: - Ôi paraibano! Oi paraibano! Ao que o pequeno gordo respondia: - Eu sou carioca! Chatô, contudo, acrescentava: -Filho de paraibano, paraibano é!


Filho de Orlando, sobrinho de Orris e Oscar Soares, estes, nomes vinculados à cultura e à política da Paraíba nas primeiras décadas do século XX, eis as raízes paraibanas do gordo mais famoso do Brasil que acaba de nos brindar com o segundo volume de sua Biografia Desautorizada. Ambos os livros retratam a vida do autobiografado, crescendo paralelamente à evolução do teatro, do rádio e da televisão entre nós. Sua trajetória faz parceria com centenas de nomes que nos acostumamos a admirar, inseridos na literatura, no teatro e nos jornais, inclusive, no irreverente “O Pasquim”, produto, entre outros, de nomes como Ivan Lessa, Milhô Fernandes, Ziraldo e o próprio Jô que enfrentavam com galhardia a tesoura dos censores credenciados pela caserna pós 1964.

Orris Soares, tio avô de Jô, juntamente com o irmão Oscar fundaram, em outubro de 1908 o jornal O Norte, de saudosa memória. É dele a iniciativa e organização da edição do “Eu e Outras Poesias”, cujo prefácio ainda hoje serve de espelho aos que se debruçam sobre a vida e obra do paraibano do século. Por sinal, conta Jô, foi Orris que deu a notícia da morte de Augusto dos Anjos ao imortal Olavo Bilac. O baiano indagou: -“ Quem é Augusto dos Anjos?” Após ouvir alguns versos do pranteado paraibano, teria dito o príncipe dos poetas: -“ Fez bem em morrer. A poesia não perdeu muita coisa”. Para Ariano Suassuna, segundo Jô, a literat ura deveria agradecer a Orris Soares o fato de Augusto ser hoje um poeta conhecido.

Jô Soares confessa que se sente feliz em “relembrar e também de resgatar a importante presença cultural e política da Paraíba na vida nacional da primeira metade do século XX, hoje injustamente esquecida. Por ter, ao lado de Minas Gerais, apoiado o Rio Grande do Sul na chamada Aliança Liberal, a Paraíba e seus filhos ganharam um papel de peso na Capital da Republica após a Revolução de 1930”, registra.

Entre os talentos do Jô Soares deixei de incluir acima, sua missão religiosa, como Ministro Extraordinário da Eucaristia. Fazia sucesso nas igrejas, vestido de branco ou de roxo, atendendo às filas dos que recebiam a comunhão. Dom Helder, em Olinda, chegou a dizer baixinho, que a sua fila estava maior: - Você está tomando os meus fieis... Dom Avelar Brandão, em Salvador, também abria as portas da sua igreja para o famoso Gordo. Na Paraíba, esteve presente na missa de “dom José Maria Pires, que, por ser negro, era chamado carinhosamente de dom Pelé, embora preferisse ser chamado de Dom Zumbi.”

Para concluir, passo a palavra ao Jô Soares: “Ajudei também na comunhão em Joao Pessoa, terra de papai, na missa celebrada por dom Jose Maria Pires, o arcebispo da Paraíba, ele morreu há pouco tempo com quase cem anos. Quando chegou a hora do sermão, d. Jose Maria puxou uma folha de papel e eu pensei: Puxa, eis ai um Bispo que deve ser fraco de oratória, precisa trazer o sermão por escrito. Ai notei que ele nem olhava para o papel. Começou a pregar com uma beleza de oratória. Perguntei ao meu assistente:

- Mas falando tão bem, por que trouxe o sermão por escrito?

-Porque o DOPS o obriga a mandar uma cópia de cada sermão antes de pronunciá-lo
Então me virei para a porta da Igreja e vi dois tipos com cara de agentes do DOPS, papel nas mãos para conferir se o bispo dizia exatamente o que estava escrito ali. Aliás, no jubileu sacerdotal de d. Helder, foi d.Jose Maria quem falou numa bela homilia.

Sinto orgulho imenso de ter concedido a comunhão com esses três homens, três religiosos, três brasileiros corajosos.”

Bastidores da Independência de Borborema e Dona Inês - Ramalho Leite



 Decorria o ano de 1958 e a discussão principal da Câmara de Vereadores de Bananeiras era a emancipação política dos distritos de Borborema e Dona Inês. Moreno, já fora transformada na cidade de Solânea e, quem foi contra, como o vereador Antônio Vaz, agora se penitenciava e passava a concordar com o desmembramento das duas outras comunidades. O vereador Arlindo Ramalho apresentou o projeto de Resolução que autorizava a separação de Borborema. A discórdia estava na fixação dos limites. O vereador Elói Farias foi o primeiro a se colocar contra, logo após a leitura do projeto, em voz alta, pelo vereador Arlindo. Para ele, queriam acabar com Bananeiras e via em tudo isso um desastre para o município. Foi contestado pelo vereador Antônio Costa que, sendo representante do distrito, pugnou pela sua independência. Os vereadores Manoel de Medeiros Guedes, mais conhecido como Santos Guedes e Claudio Maia pediram licença e se retiraram do recinto, fato que mereceu reprimenda do vereador Arlindo, autor do projeto.

O projeto inicial que autorizava a separação de Borborema, que tomou o nº 34, foi aprovado por dois terços dos presentes. A discordância estava na inclusão de Vila Maia no território de Borborema, fato veementemente contestado pelo vereador Santos Guedes. O vereador Arlindo, visando convencer seu companheiro, levou delegação de borboremenses à Câmara para discussão desses limites e informou que estivera na Capital a chamado do deputado Humberto Lucena, para, justamente, detalhar os linhas do mapa de Borborema. O vereador Eloi Farias advertiu que, em breve, estaria em discussão também, a separação de Dona Inês e, mais uma vez seria contra. O vereador Arlindo Ramalho indignou-se com a falta de solidariedade dos vereadores Eloi Farias, Claudio Maia e Santos Guedes. Este, aproveitou para protestar contra o comportamento do vereador Arlindo, que, irritado, teria rasgado a sua lei

e jogado em cima dos presentes, no que foi contestado severamente pelo acusado.

Quando começou o ano legislativo de 1959 os ânimos estavam mais serenados e os vereadores já tinham a palavra de apoio dos deputados locais. A partir de então, o assunto da emancipação dos dois distritos passou a ter uma tramitação mais pacífica. No dia 06 de abril daquele ano, uma sessão extraordinária foi convocada com aquela pauta específica. Com a palavra, o vereador Arlindo que representa Borborema e se diz um batalhador pela causa da sua independência. Leu alguns artigos dos jornais sobre o assunto e pediu que a sessão fosse suspensa para a discussão, com mais calma, dos limites dos novos municípios, uma vez que os vereadores Manoel Leonel e Jaime Pereira pronunciaram-se, igualmente, pelo desmembramento do distrito de Dona Inês. Esse clima mais sadio e mais sereno, diferente das sessões anteriores, não deixou de ser registrado pelo vereador Antônio Costa.

Com a palavra de apoio dos deputados Clovis Bezerra e Orlando Cavalcanti, os vereadores udenistas e pessedistas que resistiam à redução do território de Bananeiras deram-se por vencidos. Coube ao vereador Santos Guedes fazer a leitura do novo projeto e ao vereador Eloi Farias apelar para que a paz voltasse a reinar no recinto e que, os antigos distritos não guardassem mágoa da sua sede. Posto em discussão, os projetos de Resolução 35 e 36 que autorizavam o desmembramento de Borborema e Dona Inês foram aprovados, a unanimidade de votos, em três sessões seguidas, a última delas, às 22 horas do dia 17 de abril do ano de 1959.No próximo ano, essas duas cidades estarão completando do 60 anos de emancipação política. (Fonte: atas da Câmara Municipal de Bananeiras)

Vige como tem São João - Ramalho Leite



O imortal Jackson do Pandeiro gravou e fez sucesso com uma música onde proclama: “Vige com tem Zé/ Zè de baixo, Zé de riba/Tesconjuro com tanto Zé/Como tem Zé lá na Paraíba”. Mais adiante, acrescenta: “só de Zé tem uns cem na Prefeitura”. Na “prefeitura” do genial alagoa-grandense pode ter muito Zé, mas passando pelo Governo da Paraíba os Zé foram poucos. No Império, Zé Tomás Nabuco (1831); na Regência, Zé Luiz Lopes Bastos(1834/35);No Segundo Reinado, Zé da Costa Machado(1844) e Zé Vicente de Amorim, além do mais famoso, Zé Teixeira de Vasconcelos, o Barão de Maraú(1867/68). Na República, Zé Gomes, Zé Mariz, Zé Américo, Zé Fernandes e Zé Maranhão . Mas quando se trata de João, homônimo do nosso governante recentemente eleito, a safra é enorme. João Azevedo Lins Filho é o sétimo João da era republicana, como veremos adiante. Fosse vivo, o nosso Jackson modificaria sua letra e diria: Vige como tem João, lá na Paraíba.

Quando ainda éramos uma Capitania, a Parahyba foi governada por Capitães Mores. Desde sua fundação, passando pelo período de domínio holandês e pela incorporação à Capitania de Pernambuco, fomos governados por nove joãos:João Tavares (1586/88), João Barros Correia (1605/07), João Rabelo de Lira (1612/16), João de Brito Correia(1620/23),João Fernandes Vieira (1655/57),João do Rego Barros(1663/70), João da Maia Gama (1708/17),João de Morais Valcassar (1719/1720),João de Abreu Castelo Branco(1722/29).

No Império, os governadores com prenome João, nomeados por Pedro I foram os seguintes: João de Araújo Cruz, JoãoMarinho Falcão e João Bandeira Cordeiro, indicados cada um por duas vezes para o cargo. A seguir assumiram o comando da Província da Parahyba os seguintes delegados imperiais: João de Albuquerque Maranhão, João Gomes de Almeida e João Ribeiro de Vasconcelos Pessoa. Durante a Regência, apenas um João foi nomeado: João de Moura Magalhães (1838/39).

No Segundo Reinado, a caneta de Pedro II referendou os nomes de João de Albuquerque Moreira (1848), João Antônio de Vasconcelos (1848/50), João Capistrano Bandeira de Melo (1853/54), João José Inocêncio Pagi (1866) e João da Mata Correia Lima (1877).

Proclamada a República, o nosso primeiro João fundou uma oligarquia que só seria derrubada em 1915, com a vitória de Epitácio Pessoa e fundação de sua própria oligarquia. Trata-se de João Lopes Machado, (1908/12) ocupante da cadeira de governador mais de uma vez. Adorava ser senador e morar no Rio e, enquanto permanecia distante da província, mantinha um seu preposto guardando o posto governamental. Em seguida surgiria João de Castro Pinto (1912/15) que, com sua renúncia, abriu vaga para o primeiro Pessoa, o cel. Antônio da Silva Pessoa. João Suassuna (1924/28) assume após Solon de Lucena e tem um trágico fim, acusado injustamente de participação na morte do seu antecessor, outroJoão, este Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (1928/30). Com a convoca&cce dil;ão de José Américo para o ministério de Getúlio Vargas, assume o seu vice, João Fernandes de Lima (1951/54). Dez anos depois, chega a vez de João Agripino Filho, (1966/70) eleito no último pleito direto permitido pelos militares pós 64.

Teríamos que esperar mais trinta anos para assistir à ascensão de outro joão ao governo da Paraíba: João de Azevedo Lins Filho, professor, engenheiro e servidor público desde estagiário na prefeitura de João Pessoa. Fez nome na construção de obras e execução de serviços essenciais aos objetivos de administrações municipais e estaduais. Como destacado membro de uma equipe de governo comandada por Ricardo Coutinho, foi escolhido para ser submetido ao referendo popular e passar a conduzir a partir de 2019, o projeto da Nova Paraíba, nascido em 2011 e que merecia ter continuidade. O povo paraibano confiou nessa proposta e sacramentou seu nome, com uma votação jamais registrada. Para quem o apontava como um desconhecido, fora dos quadros políticos e sem experiência de mandatos eletivos, fadado ao f racasso eleitoral, refaça seu juízo: seu nome é JOÃO. ( Fossemos relacionar os ocupantes provisórios da cadeira de governador, lembraríamos entre os zés, Soares Madruga e Lacerda Neto e entre os joãos, o deputado João Fernandes da Silva).

 

Maranhão repete Argemiro – Ramalho Leite




Argemiro de Figueiredo foi deputado estadual, federal e senador. Governou a Paraíba entre 1935 e 1940, atravessando, inclusive, o período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Em 1946 foi eleito deputado constituinte e integrou um grupo de parlamentares que se dedicaram mais de perto à elaboração do novo texto constitucional que vigorou até os juristas fardados nos doarem uma Emenda como Carta Maior da República.

Sua carreira registra alguns tropeços eleitorais, como por exemplo, a derrota que sofreu em 1951 na disputa pela prefeitura de Campina Grande, seu berço político, perdendo para Plinio Lemos. No pleito municipal, Argemiro obteve pouco mais de onze mil votos, insuficientes para suplantar os treze mil do seu opositor. Antes, Zé Américo o derrotara na batalha pelo governo da Paraíba.Três anos depois, com votação consagradora, era eleito senador derrotando Assis Chateaubriand e o poderio econômico influenciado pelos Diários Associados, de sua propriedade.
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Ao ser cassado pelo AI-5, José Maranhão era correligionário de Argemiro, ambos abrigados na sigla petebista fortalecida sob a liderança de Goulart, após a morte do patrono Getúlio Vargas. Deputado estadual com os direitos políticos suspensos por dez anos, ao retornar, voou mais alto e alcançou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Passou a vice-governador de Antonio Mariz. A morte de Mariz em pleno mandato mudou a sua história e a história da Paraíba. Reeleito governador, deixaria o cargo para uma disputa vitoriosa ao Senado, voltando depois ao cargo de governador por decisão judicial, pois perdera o pleito na contagem dos votos.

Em 2010, Maranhão tentou renovar seu mandato de Governador. Não logrou êxito. Ricardo Coutinho venceu. Zé já acumulara muitos mandatos e em 2012 procurou conquistar um que lhe faltava no currículo, disputando a prefeitura da Capital. Conseguiu, apenas, 18,87% dos votos válidos. Amargou um insucesso que não lhe fazia falta. Sem mandato, quiseram lhe tirar o comando partidário. Reagiu com as forças que possuía e reafirmou sua liderança no comando da legenda que já fora de Rui Carneiro e de Humberto Lucena.

Na presidência do PMDB atravessou a crise de abstinência do poder a que não estavam acostumados seus correligionários, e após especulações de uma candidatura ensaiada para deputado, terminou ungido como candidato a senador. Foi eleito quase sem sair de casa. Sua obra falou por ele e resultou em vitória, apesar de ter enfrentado um jovem promissor na política da Paraíba e um político experimentado nas lides eleitorais.

A trajetória de Maranhão e Argemiro se assemelham. Ambos, após sofrerem uma derrota para governador e para prefeito, conseguiram conquistar um mandato senatorial de oito anos. Argemiro perdeu para governador em 1950, para prefeito em 1951, foi eleito senador em 1954; Maranhão perdeu para governador em 2010, para prefeito em 2012 e se elegeu senador em 2014. A história às vezes se repete.

Deputados à moda antiga - Ramalho Leite



Nos dias de hoje as casas legislativas são entidades fartas em recursos e seus membros recebem uma remuneração difícil de ser somada. Antigamente, um deputado federal tinha que enfrentar “esse marzão” como dizia Ernani Satyro, para desestimular Walter Arcoverde a tentar uma cadeira igual à sua. Depois vieram as passagens aéreas e o velho Rui Carneiro fazia questão de lembrar o risco que corria ao enfrentar um avião da “Panair”. Brasília tornou o exercício do mandato um paraíso com direito a verba para moradia, passagens, comunicação e otras cositas más… Até bem pouco tempo, o direito às passagens para o Estado de origem, incluía, também, um bilhete extra para se matar a saudade do Rio de Janeiro. Comparando, as mordomias do passado remoto seriam risíveis hoje, pois, incluíam até um estábulo, onde os deputados guardavam suas montarias.

Com a evolução das coisas, os subsídios dos deputados também evoluíram. Na Paraíba, ainda alcancei deputado vendendo antecipadamente seus rendimentos. Posso dizer que, quando secretário do Poder Legislativo acabei esse comércio de juros altos, transferindo para o Banco do Estado o pagamento dos parlamentares e afastando os agiotas da tesouraria da Assembléia. Esses foram problemas republicanos mais recentes. Mas ninguém pense que durante a Monarquia o exercício dos mandatos eram gratuitos. Naquele tempo, Celso Mariz informa que os deputados ganhavam de acordo com a distancia entre sua cidade de origem e a Capital. Pagava-se por léguas. E o negócio era meio rigoroso. Contavam-se as léguas de vinda. Ao Imperador não interessava como o deputado retornaria aos seus pagos. As pressões foram grandes e no final da Monarquia passaram a contar as lég uas de ida e volta, pois ninguém é de ferro… Tudo isso dava quatro mil réis diários e mil e duzentos réis por légua a ser percorrida. Quem faltasse não recebia.

Com a República o subsídio alcançava dez mil réis diários e trezentos réis fixos “para o trem, a fatiota nova, o transporte dos queijos que traziam para o chefe do partido” ironiza Celso Mariz, deputado nos idos de 1924-27, quando já se percebia uma representação de um conto de réis e quarenta mil réis de diária, ou jetom, palavra que apropriamos do francês ( jeton). Os tempos modernos fixaram o subsídio parlamentar em duas partes, uma fixa para declarar ao Imposto de Renda, e uma variável que servia de incentivo ao comparecimento das sessões. A nossa ultima Constituição vedou o pagamento de jetom pela presença, até em sessões extraordinárias e, antes como agora, a ausência continuada vive sob a ameaça de cortes nos contracheques dos faltosos .

Mesmo com um recesso prolongado, a produção legislativa, tanto no passado quanto no presente abordava os mais variados assuntos. Se em 1947, o deputado Pedro de Almeida preocupou-se com o prejuízo que os caprinos soltos poderiam conferir à agricultura de subsistência, muito antes, nos idos de 1862, o presidente Francisco Araujo Lima, desta Província da Paraíba do Norte, editou uma lei que protegia as cabras de leite, por servirem para “amamentação das crianças”. As cabras de leite poderiam ser criadas soltas, desde que conduzissem “cangas de quatro palmos” e fossem recolhidas até as seis horas da tarde. Esta exceção, aberta para as criações da Vila de Campina Grande, não atingiam bodes, ovelhas, porcos e cães que, caso encontrados soltos pela fiscalização, seriam os seus proprietários multados em dois mil réis.

Para incentivar o cultivo do café, em Bananeiras e Areia, a Assembléia Provincial estabeleceu um prêmio ao cafeicultor que exportasse pela primeira vez em um ano, duas mil arroubas de sua produção.

Estas reminiscências históricas me fazem lembrar que o jornalista e historiador Rui Leitão ocupa uma cadeira no IHGP. Torço para que, principalmente, dê continuidade às pesquisas de seu genitor, Deusdedith Leitão, recuperando até os nossos dias a memória do Poder Legislativo.(do livro Gente do Passado, Fatos do Presente)

Mariz um político coerente - Ramalho Leite



 O amigo velho Ernani Satyro , quando censurado por contestar o regime que ajudara a implantar e lhe exigiram coerência, respondeu bem humorado:“quem tem coerência tem idéia fixa e quem tem idéia fixa é doido”. Logo, não se exija coerência dos políticos, pois a política é dinâmica e muda como as nuvens, levando nos ventos das mudanças, os seus protagonistas. Antonio Marques da Silva Mariz, promotor de justiça, prefeito, deputado, senador e governador, não era adepto dessa teoria. O silogismo dele era outro e não partia de premissas falsas. Podia a política mudar, ele mesmo mudar de partido, mas não renunciava aos seus princípios. Estes eram imutáveis. Nos vinte anos da ausência de Mariz, muitas passagens de sua vida pública vieram à tona. Escolhi duas, que representam sua paixão pela coerência e firmeza de princípios:

O cenário era o gabinete do senador Humberto Lucena, em Brasília. Os aliados do governo e integrantes da bancada federal paraibana foram reunidos pelo ex-governador João Agripino. Agripino prometera ao presidente Sarney o apoio unânime de seus correligionários à tese dos cinco anos para o mandato presidencial que estava prestes a se findar.Passou essa informação aos deputados e foi ouvindo um a um. A maioria era a favor dos cinco anos, mas havia discrepâncias: João Agripino Neto, Cássio Cunha Lima e Antonio Mariz.

Agripino começou cobrando a posição do próprio filho. Agripino Neto reafirmou sua posição em favor dos quatro anos para o mandato presidencial, todavia, afirmou: “se o partido fechar questão, eu voto pelos cinco anos”. Chegando a sua vez, Cássio acompanhou a posição de Agripino Neto, apesar de defender o mandato de quatro anos, mas diante do “fechamento de questão”, não iria contrariar o partido. Mariz ouviu seus companheiros, contudo, não esperou ser cobrado: “Sou a favor dos quatro anos de mandato. Se o partido fechar questão, continuo votando a favor dos quatro anos”, encerrou o assunto. Fui testemunha da contrariedade de João Agripino.

Na batalha pela indicação para governador da Paraíba, pela via indireta, a ARENA estava dividida em dois blocos. O capitaneado pelo governador Ivan Bichara defendia a indicação do senador Milton Cabral e o outro queria a ascensão do deputado Mariz. Os ânimos ainda não estavam acirrados e os blocos dialogavam entre si. Conseguimos um encontro de Mariz e seus contestadores com a participação também dos que o apoiavam.

O cenário foi o antigo Elite Bar, de saudosa memória, em Tambaú, em frente à gameleira também desaparecida. A mesa que se formou era enorme, acomodando doze deputados de ambas as facções. Houve quem lembrasse a Ceia Larga, sem a presença do Cristo, mas com alguns candidatos a Judas. Pelos governistas falou o deputado Egidio Madruga expondo seus pontos de vista, mas asseverando que, pessoalmente, nada tinham contra o nome de Mariz. Como o processo de escolha era uma incógnita, qualquer um poderia ser escolhido, disse Egídio. Aquela reunião era para abrir o diálogo, por isso, “queremos saber, de logo, qual a sua posição com relação a nós que não o apoiamos, caso seja escolhido governador”? A resposta veio rápida, no estilo inimit&aac ute;vel de Mariz:

- Se eu for governador, vou ensinar vocês a ser oposição durante quatro anos.

O desfecho desse episódio todos sabem: o escolhido para governar a Paraíba foi o professor Tarcísio de Miranda Burity.

A fidelidade do eleitor - Ramalho Leite




RAMALHO LEITE

Iniciei minha vida pública como vereador em Borborema, aos 18 anos. Desde que comecei a ter noção das coisas, porém, já se respirava política na minha casa. Aprendi e não esqueci até hoje o jingle de Argemiro de Figueiredo para governador, “com Renato (Ribeiro) seu maior batalhador” e que concluía: “ Zé de Almeida, o seu bonde vai errado sim senhor!”. A música ficou nos meus ouvidos e o barulho da derrota dos candidatos do meu pai, na velha UDN, também. José Américo foi o governador eleito em 1950.

Acompanhando as campanhas políticas, guardei lembrança de alguns eleitores que se mantinham fieis ao seu candidato e, fizesse chuva ou sol, no dia da eleição, cumpriam seu dever cívico, e de fidelidade. Havia exceções.

Severino “Doido” foi a exceção mais expressiva.Era famoso em função das carraspanas que tomava e dos discursos que pronunciava em praça pública. Meu pai o protegia e sustentava durante quatro anos, na esperança de que, no dia da eleição estivesse sóbrio para dar seu voto. Quando estava em Borborema ficava hospedado em uma dependência da casa dos meus pais, e raramente voltava a Moreno para visitar seus familiares. Diferente de outros bêbados de rua, quando chegava ao auge do porre, ao invés de ser levado para a cadeia, era rebocado para o quartinho dos fundos da casa de seu Arlindo. Quatro anos de cuidados não bastavam. No dia da eleição, ninguém sabe como, se embriagava e não votava. Tempo perdido – reclamava meu pai.

A compensação era Luiz Santana, melhor dizendo compadre Luiz Santana, ferroviário e amigo fiel de meu pai. Ele era o termômetro do resultado eleitoral. Luiz Santana chegou para votar? Era a pergunta. Se chegou, era sinal de vitória. Servia como pesquisa. Transferido de Borborema para outras estações do trem, chegava na véspera da eleição. Ouvi dizer, certa feita, que ele estava vindo de Mossoró, e utilizara vários transportes para atender àquele chamado, não da lei, mas do seu compadre.

Na campanha de 1960, Borborema realizou sua primeira eleição na condição de cidade. Meu pai candidato a prefeito, Pedro Gondim a governador e Jânio Quadros a presidente. Era essa a chapa de Luiz Santana, a esta altura, morando na Ilha do Bispo, em João Pessoa, mas com domicilio eleitoral em Borborema, pois “não posso largar compadre Arlindo”. A eleição de prefeito foi apurada em 24 horas, mas a de governador, ainda demorou alguns dias. Voltei à Capital para retomar minhas aulas no Liceu, e foi aqui que comemorei a vitória de Pedro Gondim, com quem trabalharia mais tarde.

Como estudante, morava na casa dos meus avós e fui para a rua acompanhar uma passeata que vinha da Ilha do Bispo juntar-se às comemorações da vitória de Pedro, no Ponto Cem Reis. A multidão, com bandeiras e fotografias pregadas em pequenas varetas, gritava a uma só voz: O homem é Pedro, o homem é Pedro! No meio daquela gente, avistei um dissidente. Seu grito divergia dos demais: “Viva Compadre Arlindo, Viva Compadre Arlindo” e agitava a fotografia de meu pai pregada em um cabo de vassoura. Era Luiz Santana, o ferroviário, comemorando a vitoria do seu compadre para prefeito de Borborema.

Esses exemplos de fidelidade do eleitor ao candidato desapareceram do cenário político. Antes, desapareceu a fidelidade do eleito ao seu representado. Eis a razão! (Republicado por incorreção… do eleitor ou dos candidatos ? )

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