O último presidente da Parahyba - Ramalho Leite



 

Pelo decreto número 01, de 15 de novembro de 1889, que instituiu a República Federativa do Brasil, as antigas províncias imperiais passaram a se denominar estados. Seus gestores seriam chamados de governadores e nomeados na qualidade de delegados do governo provisório que se estabelecera sob a chefia do marechal Deodoro da Fonseca. A primeira Constituição republicana, de 24 de fevereiro de 1891, mudou a designação dos administradores estaduais para presidentes de estado. Assim, o primeiro governante da Parahyba, o juiz Venâncio Neiva era tratado por governador. Seu sucess or, o major do exército Álvaro Machado seria o nosso primeiro presidente do Estado. O último foi o intelectual e imortal, um dos fundadores da nossa Academia de Letras, Álvaro Pereira de Carvalho, que sucedeu a João Pessoa.

Até receber das mãos de João Pessoa o cargo de presidente da Parahyba, o professor Álvaro de Carvalho percorreu um longo caminho. Encontrei-o em 1908, nas páginas de “A Cidade de Bananeiras”, em um sábado festivo, participando ao lado do mestre-escola Sólon de Lucena, ambos acadêmicos de direito, de solenidade no Instituto Bananeirense. O jornal narra sua participação: ”Nesse momento assomou a tribuna o professor Álvaro de Carvalho. A oração do nosso talentoso colega, além dos bens lançados conselhos sobre a responsabilidade e o objeto da educaç&ati lde;o de nosso tempo,foi um brado sincero de estimulo,uma cadeia de palavras confortantes e animadoras para os que ensinam e os que aprendem”. A platéia ouviu ainda a Solon de Lucena, sem imaginar que, em futuro próximo seriam os dois, nomes de elevada projeção no cenário político estadual. Há quem atribua a Celso Cirne a iniciativa de levar para o distrito de Moreno o professor Álvaro de Carvalho, depois, requisitado por Sólon, para Bananeiras, e com ele irmanado na caminhada que empreenderam até o fim de suas vidas.

Com Solon de Lucena, Álvaro de Carvalho incorporou-se aos “jovens trucos”, grupo epitacista de vanguarda que acreditava na força do mercado do interior incorporando-se ao litoral, para promover o desenvolvimento do Estado. A ascensão de Solon ao governo da Parahyba levaria Álvaro ao seu secretariado e, depois, ao mandato de deputado federal, donde saiu para exercer a primeira vice-presidência do Estado. Aí começaram os seus dissabores. O crime da Confeitaria Glória iria encontrá-lo à frente do governo. Na noite anterior, João Pessoa lhe passara o cargo. De substituto eventual, tornou-se presidente efetivo com a morte do titular. Começava a gestão, que durou 70 dias, do último presidente da Parahyba. Era 26 de julho de 1930.

Na véspera, Álvaro tentara demover João Pessoa dessa temerária viagem ao Recife, cidade infestada de inimigos. Seu irmão Osvaldo, desejava acompanhá-lo. Foi demovido da idéia, sob a ameaça, caso insistisse, de desistir da viagem projetada.O que tem de acontecer tem muita força, diria José Américo. A triste notícia chegou ao início da noite e “espalhou-se célere e, dentro em pouco, a Paraíba levantava-se desvairada como um só homem, num grito horrível de desespero e de vingança”,conta Álvaro de Carvalho. O sucessor de João Pessoa manteve todo o secretariado escolhido pelo pranteado morto. E era dentro desse corpo que se tramava a conspiração que culminaria na chamada Revolução de 1930. Juarez Távora estava escondido “na casa do meu líder na Assembléia, e eu não o sabia”. Logo na manhã de 4 de outubro a Revolução fez de Álvaro a sua primeira vitima.

Segundo José Américo, “não foi deposto oficialmente, a meu pedido.Nossas relações tinham esfriado, mas eu devia esse gesto.Pensei encontrá-lo sucumbido e estava,admiravelmente sereno, a mostrar que a hora da adversidade era também a das afirmações”. Para Álvaro de Carvalho essas “relações esfriadas” só chegaram ao seu conhecimento a partir da publicação das memórias do autor de A Bag aceira em 1948. Desde então, afastaram-se definitivamente: “Mas continuo a julgá-lo, hoje, como sempre: honesto,apaixonado,medianamente sociável para os que o procuram,agressivo para os desafetos,cheio de excelências para o seu Eu, virtude que as posições exaltaram,talvez desmesuradamente”, escreveria anos depois.

Homem comedido e, preocupado, apenas, em atender aos reclamos da sua consciência, Alvaro de Carvalhoa não agradou aos mais apaixonados seguidores do Presidente imolado. A Revolução estava sendo tramada ao seu redor, sem que ele tomasse conhecimento de nada. Gerou-se uma agressiva desconfiança contra seus atos. Foi censurado até por designar o tratamento de Excelência ao presidente da República, a quem se queria atribuir responsabilidade pela morte de João Pessoa. Considerado, injustamente, um traidor dos ideais defendidos pelo seu antecessor, teve que se afastar na Para&iacu te;ba por alguns anos. Foi levar sua experiência de professor à juventude da cidade de Santos. Pobre a vida inteira, regressando ao Estado, conseguiu uma modesta moradia para a família através do antigo Montepio. Nessa casa da rua Artur Aquiles foram feitas as primeiras reuniões da Academia Paraibana de Letras.

Membros do Congresso Nacional registraram-lhe o perfil, nas homenagens tributadas por ocasião de sua morte, em 1952. O então deputado Samuel Duarte, encaminhando o requerimento de pesar, destacou: “Os acontecimentos de 30 o surpreenderam no exercício da Suprema Magistratura do Estado e ele se conduziu com tal espírito de tolerância, de elevação e de patriotismo que pode conquistar a admiração de seus próprios adversários”.

“No tumulto que caracterizou seu breve período de governo, conduziu-se o dr. Álvaro de Carvalho com inexcedível dignidade,deixando em nossa história política um alto exemplo de fidelidade aos deveres do seu partido e mais particularmente à liderança de Epitácio Pessoa”, registrou o deputado Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Mello. Para o jornalista Assis Chateaubriand, à época senador, Álvaro de Carvalho “como mentor da juventude do Liceu Paraibano, como guia político dos seus concidadãos fazia questão de ser impecável, antes de tudo, com a sua consciência”.

Darei, afinal, a palavra, a esse grande paraibano de quem me ocupo hoje, para encerrar, neste espaço, sua pequena grande história: “Tres dias depois da Revolução, voltei ao Liceu e assumi o meu posto de professor.Deste modo,renunciei ao cargo que ocupava e à vida publica em que fui mal sucedido.Decididamente não tinha o estofo onde se talham os heróis”. ( Consultei Ademar Vidal, Osvaldo Trigueiro Mello e Álvaro de Carvalho em, “Nas Vésperas da Revolução”)

O trabuco venceu a lei (3) Ramalho Leite



 “Deus não permitirá a vitória do trabuco sobre a lei”(João Pessoa)

 

Já vimos como chegou ao povo gaúcho e aos mineiros, a noticia da morte de João Pessoa. Na capital federal, o jornal A Noite fez circular, na segunda feira, dia 28 de julho, uma edição especial. O crime ocorrera no sábado, no Recife. Essa a manchete de primeira página: “O assassínio do Presidente João Pessôa”, com os subtítulos: “A surpresa e a rapidez da aggressão-A arrogância do criminoso-Detalhes das ocorrências em Pernambuco”. E acrescentava em tipos menores: “O corpo do chefe do Poder Executivo da Parahyba abandonado no necrotério do Recife-Em rigorosa pronptidão as tropas federais”. A referência ao abandono do corpo prende-se ao fato de a polícia haver proibido a entrada dos amigos que desejavam velar o corpo do presidente morto. Dois deles, Agamenon Magalhães e Caio Lima Cavalcanti, testemunhas ocular do delito, foram cientificados dessa decisão.

A primeira noticia que chegou ao Rio, em despacho telegráfico dirigido ao jornal A Noite estava assim redigida: “O advogado João Duarte Dantas agora no Café Glória, desfechou vários tiros no presidente João Pessoa, que morreu immediatamente. O chauffeur, defendendo-o, atirou de pistola em João Dantas.O cadáver do presidente da Parahyba foi transportado para uma pharmacia próxima”.

A edição especial do vespertino carioca começava por dizer que “ O vulto majestoso de João Pessoa, a figura intrépida que os ímpetos de uma revolução e a implacável hostilidade do governo central não conseguiram abater nem humilhar, tombou, ante-hontem, na capital pernambucana, sob os olhos da policia do Recife, aos tiros de um assassino. O baque desse corpo, estremeceu, de norte a sul, o vasto Brasil e a tristeza , a indignação e a vergonha se misturaram,envolvendo o coração do nosso povo,porque a brutalidade, a crueza e o inopinado desse crime representam um golpe de traição premeditado e desferido friamente”.

O morte de João Pessoa era o estopim que faltava para ativar a revolução que se tramava desde as coxilhas gaúchas à serra da Mantiqueira, com raízes infiltradas na nossa pequenina, onde o capitão Juarez Távora agia na clandestinidade. Escondido “no porão da casa do líder do meu governo na Assembleia estadual, e apesar disso, eu não o sabia” revelaria Álvaro de Carvalho, sucessor de João Pessoa. Para os revolucionários, o objetivo era fazer respingar nas mãos do presidente da Republica o sangue do paraibano imolado. Na câmara dos deputados, Lindolfo Collor em inflamado discurso indaga: “Caim, que fizeste de teu irmão? Presidente da República, que fizeste do presidente da Parahyba?”. João Pessoa, que para muitos não era revolucionário, já que não admitia “a vitoria do trabuco sobre a lei”, terminaria tendo o seu corpo inanimado transformado em bandeira da revolução que seria vitoriosa mese s mais tarde, sob o comando de Getulio Vargas.

Mas Vargas sempre relutou em assumir esse comando. Os interesses do Rio Grande junto ao governo de Washington Luiz o faziam tergiversar e, por vezes, jurar lealdade ao Presidente que o fizera Ministro da Fazenda. Flores da Cunha, prócer gaúcho que naquele ano de trinta acabara de chegar ao Senado, ameaçou abandoná-lo diante do seu silencio: “Nem por ser o ilustre dr. Getúlio Vargas um homem calmo, refletido,ponderado e que pesa bem suas responsabilidades,nem por isso ele deve estar menos abalado do que nós pela infâmia cometida (o crime de João Dantas). Estou certo de que ele corresponderá aos ans eios do povo rio-grandense como estou certo de deixar de o acompanhar se ele assim não agir”.

A pressão sobre Getúlio crescia. Batista Luzardo também protestou em Uruguaiana, sua terra natal. “Não vim chorar a morte do grande brasileiro.Vim sim, ao lado dos meus irmãos uruguaianenses,interpelar ao povo e ao governo do Rio Grande sobre os compromissos que assumimos com a gloriosa Paraíba”. O que prendia Getulio era a governabilidade do seu estado. Mas depois da morte de João Pessoa, até essa governabilidade ficara comprometida e, seus adeptos, já pretendiam fazer a revolução “com ou sem Getúlio” conforme revela Lira Ne to, seu ultimo biógrafo.

A morte de João Pessoa, se para uns, tornara-se motivo para a revolução que defendiam, para outros, a interferência do Exercito na pacificação de Princesa, fizera desaparecer “a razão maior que poderia justificar o protesto armado”, decidiu Borges da Fonseca, chefe do Partido Republicano do Rio Grande. A afirmativa de Borges reforçou a posição dúbia de Getúlio: ...”vocês querem que eu me aventure, se dr. Borges é contrário?” indagou aos seus fiéis seguidores e revolucionários de primeira hora, Osvaldo Aranha, João Neves e Flores da Cunha que, incorporados foram lhe exigir uma decisão. Para convencer Getúlio era preciso modificar a posição de Borges de Medeiros. Feito isso, só lhe restou concordar com o movimento que eclodiria em outubro.

Aparentemente, no Rio Grande reinava a calmaria. A única movimentação aparente referia-se à escolha da gaucha Yolanda Pereira como a mais bela do universo, para alegria de Getulio. No norte, a Parahyba de João Pessoa comemorava a recuperação da saúde de sua miss, senhorita Otilia Falcone. A revolução era armada nos subterrâneos. No palácio Piratinin, sede do governo gaucho, Getulio Dorneles Vargas consulta o relógio e pergunta a Osvaldo Aranha: “É para hoje? - É para hoje”, responde um Aranha felicíssimo. Era 3 de outubro de 1930. Rebentara a revolução armada e, contrariando o desejo de João Pessoa, “o trabuco venceu a lei.”(Mantive a grafia da época, nas transcrições)

O trabuco venceu a lei (2) - Ramalho Leite



 

“Deus não permitirá a vitória do trabuco sobre a lei”(João Pessoa)

 

A minha narrativa sobre os acontecimentos que culminaram com a morte do presidente João Pessoa, prende-se mais à forma como essa infausta noticia foi recebida fora dos limites paraibanos. Já vimos como o povo gaúcho, com Getúlio Vargas à frente, foi surpreendido. Interessa-me agora registrar, como o outro parceiro da Aliança Liberal, o estado de Minas Gerais reagiu ao sacrifício de João Pessoa, naquele 26 de julho de 1930. Além de associar-se à bancada gaúcha nas manifestações de pesar, os parlamentares de Minas, em nome do seu governo, colocaram-se à disposição dos familiares do ilustre morto. O presidente minei ro, Antonio Carlos, recomendou ao seu líder, deputado José Bonifácio, que juntas, as bancadas de Minas e Rio Grande promovessem as homenagens ao presidente desaparecido.

Logo às primeiras horas da noite daquele sábado, 26 de julho, a notícia chegou às alterosas por via telegráfica. Abalada com o fato, a população mineira começou a se aglomerar nas principais praças à procura de noticias mais detalhadas do grave acontecimento. O governo, reunido com todo o secretariado, tinha o mesmo objetivo: aguardar maiores esclarecimentos. João Pessoa fora o candidato a vice-presidente de Getulio e seu nome, mesmo derrotado, permanecia ativo nas mentes dos brasileiros que desejavam mudanças revolucionárias na política nacional. Getulio Vargas no Rio Grande, Antonio Carlos, em Minas e João Pessoa, na Para&ia cute;ba, formaram a tríplice aliança na busca de um novo horizonte para o Brasil. A máquina governista, porém, conseguira se impor e elegera o paulista Julio Prestes. A morte de João Pessoa seria a bandeira a impulsionar as mudanças pregadas pelos conspiradores, ávidos por derrubar o governo de Washinton Luiz.

Antes, porém, era preciso manter acesa a chama e, o sangue de João Pessoa, seria o combustível ideal para abastecer a vontade dos que ainda teimavam em se manter longe da conspiração. Em Minas, o governo mandou publicar a seguinte nota: “O Governo do Estado de Minas Gerais, considerando que o bárbaro assassínio de que acaba de ser victima o presidente João Pessoa constitui motivo da mais justa e vehemente mágua para quantos, cultuando a Republica e a Federação, amam devotadamente a pátria brasileira; considerando que o povo mineiro,pelos seus sentimentos e ideaes, se vincul ou a tão insigne personalidade por laços de profunda amizade e admiração; considerando o seu heroísmo, na defesa da autonomia da gloriosa Parahyba, e, portanto, na defesa do principio federativo, base da organização política da pátria, a cujo serviço se sacrificou até o martyrio,resolve, como expressão de máxima dor e tributo de homenagem a sua imperecível e excelsa memória, decretar luto por três dias em todo o território mineiro”(“O Minas Gerais”/A Noite, Rio, 28.07.1930).(mantive a grafia da época)

A praça da Liberdade, em Belo Horizonte, foi o palco do encerramento de passeatas, coroadas com discursos inflamados dos partidários da Aliança Liberal. Faziam coro aos jornais mineiros, que fizeram circular edições especiais e registraram que “desapparece a mais notável personalidade política revelada no paiz nos últimos tempos”(O Minas Gerais). No domingo de luto que se seguiu à morte de João Pessoa, os cinemas e outras casas de espetáculos mineiros cerraram suas portas em homenagem à memória do presidente da Parahyba. As forças militares e policiais entraram em rigorosa prontidão. O governo federal determinou o en vio de tropas federais para a Parahyba. Era tarde demais para João Pessoa. Serviu, porém, para encerrar o conflito de Princesa, cujo “território livre”, então, passou ao controle do exercito brasileiro, sem ingerência, porém, nos assuntos político-administrativos do Estado, em respeito à sua autonomia, como registra Álvaro de Carvalho,sucessor de João Pessoa.

O jornal “A Noite”, do Rio, procurou ouvir membros da oposição paraibana. Na residência do deputado Artur dos Anjos, encontrava-se o desembargador Heráclito Cavalcanti, chefe oposicionista. Até eles já chegara a noticia de que o povo, em protesto, ganhara as ruas e incendiara a residência do senador José Gaudêncio, cuja família fora asilada na Capitania dos Portos.O desembargador Heráclito deu o seguinte depoimento: “Eu não comprehendo o destemor e a imprudência do dr.João Pessoa, indo ao Recife, no momento mais agudo da luta, quando a capital pernambucana era o refúgio dos nossos conterrâneos perseguidos pela sua policia”. E concluiu: “Resta-nos um consolo e este é de que o assassínio não foi praticado por uma pessoa de segunda ordem, hypothese em que os nossos adversários poderiam emprestar-nos responsabilidade no crime, mas por um advogado, homem de sociedade, independente”.

Epitácio, que tinha em João Pessoa o seu sobrinho preferido, estava fora do país e telegrafou à viúva: “Ferido também no fundo do coração, não tenho expressões manifestar senhora, filhinhos, toda desolação e immensa dor”.(Consultei jornais mineiros e cariocas)

O trabuco venceu a lei (1) - Ramalho Leite



 Era julho de 1930. Na Capital da Parahyba, a Escola Normal e o Liceu Paraibano eram os estabelecimentos de ensino mais avançados. O estado estava convulsionado com a rebelião surgida no município de Princesa Isabel, declarado “território livre” pelo deputado e coronel José Pereira Lima. Era presidente da Parahyba o ex-ministro do Tribunal Militar, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa. Para combater os rebeldes, faltava ao presidente o indispensável apoio do governo federal, com quem perdera o diálogo desde a mais recente eleição presidencial, disputada e perdida por Getúlio Vargas, tendo o paraibano como integrante da sua chapa. A tudo João Pessoa r ecorria para conseguir armar sua polícia e manter a integralidade dos seus domínios, dividido pela insurreição. As alunas da Escola Normal encetaram uma campanha visando arrecadar fundos para reforçar os cofres do estado. Foram, incorporadas levar ao presidente o produto daquela ação cívica. O diretor da escola fez, em nome da instituição, um patriótico discurso. No seu agradecimento, emocionado e penhorado, João Pessoa concluiu: “Deus não permitirá a vitória do trabuco sobre a lei”. Permitiu! Nove dias depois desse encontro do presidente com as jovens normalistas que o cobriram de flores vermelhas, seu corpo chegava a esta capital, coberto de flores brancas . Fora vítima do trabuco.

A tragédia da confeitaria Glória, no Recife, foi o estopim que deflagrou a chamada revolução de 1930, entronizando Getulio Vargas no Catete por prazo indeterminado. Dali só sairia em 1945, com a promessa de um retorno triunfal. Era 26 de julho. João Pessoa, contrariando a opinião dos que o cercavam, dirigiu-se à capital pernambucana, cidadela inimiga e acolhedora dos que lhe faziam oposição. Entre estes estava o advogado João Dantas, injuriado com a campanha que o governo da Parahyba movia contra si e seus familia res, publicamente, através do jornal oficial A União e, disfarçadamente, em ações policiais nos redutos eleitorais dos Dantas. João Dantas procurou vingança quando soube da presença do seu inimigo no Recife. Saiu à procura de João Pessoa pelos lugares mais prováveis, encontrando-o na confeitaria cujo nome, por coincidência, escreveria a sua triste glória. “Eu sou João Dantas!”. Puxou a arma e atirou. “Canalha, não se mata assim covardemente um homem”, teria dito a vítima. O agressor foi rechaçado pelo motorista do presidente, recebendo um tiro superficial. Preso, réu confesso, perdeu a vida enquanto hóspede na Casa de Detenção.

Como a Parahyba recebeu essa noticia, é tema que ocupou muitas mentes. Interessa-me contar como o restante do Brasil chorou a morte de João Pessoa. A Parahyba formou com Minas Gerais e o Rio Grande do Sul a chamada Aliança Liberal para enfrentar a candidatura de Julio Prestes, o vitorioso governador paulista. O presidente Washington Luiz quebrara a gangorra do “café com leite”, acordo das lideranças civis com beneplácito militar, que visava colocar, alternadamente, um paulista e um mineiro na presidência da Republica. A repetição de um paulista preteriu a vez de Minas. Os gaúchos aproveitaram o ensejo para empin ar a candidatura de Vargas. Com fraude ou não, a verdade é que a chapa oposicionista Getúlio/João Pessoa foi derrotada pelos governistas.

Naquela noite de 26 de julho, Getúlio Vargas estava com a família no Cine Central, em Porto alegre. De repente acenderam as luzes e alguém subiu ao palco e gritou: “João Pessoa foi assassinado”. Enquanto a platéia, atônita, tentava descobrir os detalhes do crime, Getúlio saía de mansinho e retornava ao palácio do governo. As informações que chegavam ao sul eram ainda incompletas, mas já adiantavam que o presidente paraibano fora vitima de um adversário político. No Clube do Comércio estava sendo realizado um banquete em homenagem a Osvaldo Aranha, que estava deixando o governo ga ucho para se dedicar à conspiração, evitando comprometer Getúlio. Alguém passou um bilhete para o homenageado. O jantar foi imediatamente suspenso e todos se dirigiram ao Palácio do Governo. Antes, porém, Osvaldo Aranha e outros eminentes oradores, como João Neves da Fontoura, falaram à multidão que se formara rapidamente, diante da comoção provocada pela trágica noticia.

Osvaldo Aranha começou: “Quero afirmar aos que me ouvem neste instante que podem voltar para suas casas, certos de que não vão desonrar seus lares nem suas tradições...Está para breve a hora em que o povo do Rio Grande há de se redimir dos insultos com que o poder nos tem procurado diminuir e há de transformar o sangue de João Pessoa na ressurreição e reintegração da Republica brasileira...Mais hoje, mais amanha, será vingada a morte de João Pessoa”. Para os defensores da revolução, o difícil era convencer Getulio Vargas a dar uma voz de comando. “Vargas conservou-se, todo o tempo, hermético, como nunca”, revelaria João Neves, citado por Lira Neto.

Virgilio de Melo Franco, político mineiro, chegou a Porto Alegre no momento da eclosão da comoção pública com a morte de João Pessoa. Foi levado à presença do presidente gaucho. A cidade estava em agitada desordem cívica. As passeatas se sucediam, os comícios eram improvisados, mas Getulio era uma esfinge. Seu silencio era ensurdecedor!.( Consultei Lira Neto, em “Getúlio” e jornais da época) (CONTINUA)

Ascensão e queda de Camilo de Holanda - Ramalho Leite



 

Na primeira República, após a vitória de 1915 que lhe deu a chefia política do Estado, Epitácio Pessoa indicou Francisco Camilo de Holanda para mandatário da Parahyba. Sua escolha não foi das mais pacíficas. Encontrou barreira no irmão de Epitácio, coronel Antonio Pessoa, que o detestava. Antonio Pessoa era o vice-presidente do Estado em exercício, face à renúncia do presidente Castro Pinto. A escolha de Camilo irritou Antonio Pessoa a tal ponto que o fez abandonar o cargo e retirar-se para a sua fazenda em Natuba. Entregou o governo a Solon de Lucena, presidente da Assembleia. Camilo era general médico e reformou-se como tal. Sua carreira política registra o exercício de vários mandatos de deputado federal: em 1900, 1909, 1912 e 1915. Portando, deixou a Câmara para assumir a presidência da Parahyba em 1916, até 1920.

A gestão de Camilo de Holanda foi das mais profícuas. Erigiu a Escola Normal, prédio onde hoje se encontra o Tribunal de Justiça, e a sede de A União; abriu a avenida Epitácio Pessoa e construiu a praça Venâncio Neiva, sem o Pavilhão do Chá, que foi obra de João Pessoa, conforme lembra Osvaldo Trigueiro Melo. Construiu a balaustrada das Trincheiras, onde, alguns anos mais tarde, Osvaldo Pessoa,como prefeito, plantou um estátua do seu construtor. O volume de obras despertou o ciúme da oposição, que lhe moveu impiedosa campanha, alegando desperdício e desvio de verbas. Chegaram a, maldosamente, chamar o seu período de “governo do racha” numa alusão dúbia e injusta à qualidade das obras e a possíveis beneficiamento de correligionários. Nada, porém, teria sido provado. A honra de Camilo permaneceu intacta e reconhecida pelos seus pósteros. Remanesce, apenas, como censura, uma carta de Epitácio, em janeiro de 1920, que pergunta: “Por que despender mil contos numa Escola Normal?”.

Epitácio Pessoa chefiava a política da Parahyba à distância, com a caneta em mão de ferro. Por cartas e telegramas, dava as ordens e era obedecido. Por alguns, a exemplo de Solon, cegamente. Por outros, como Camilo, dentro das suas próprias conveniências. E quando Epitácio indicou um sobrinho para governar o estado encontrou os maiores obstáculos às suas determinações. Mas essa é outra história. Quero contar como, Camilo de Holanda, para quem Epitácio abriu um exceção e lhe ofereceu jantar, quando de sua escolha para a presidência da Parahyba, terminou proibido de sentar à mesa de qualquer integrante da família Pessoa, apesar dos reconhecidos serviços prestados à oligarquia que dominou a terrinha por mais de quinze anos.

Um grupo de epitacistas autodenominados de “jovens turcos” era ligado ao coronel Antonio Pessoa e fazia oposição a Camilo. Poucos dias depois de se tornar inquilino do Palácio, Camilo acreditou na existência de um complô para matá-lo. O matador seria alguém da confiança do prócer dinamarquês e naturalizado campinense, Cristiano Lauritzem. O facínora estaria escondido na casa do prefeito Antonio Pessoa Filho aguardando o momento de eliminar o presidente. De imediato, Camilo mandou cercar a casa do prefeito da capital à procura do pseudo as sassino. Essa ação policial foi levada ao conhecimento de Antônio Pessoa que, apoplético com a desfeita, sofreu um ataque fulminante.

Ao tomar conhecimento do passamento do ex-presidente Antonio Pessoa, o juiz federal Caldas Brandão dirigiu-se ao Palácio, como de praxe, para apresentar as condolências ao chefe do Executivo. O presidente Camilo, mesmo educado com o visitante, jocosamente, asseverou: “Ora, Caldas, você se dando a esse trabalho...Com a chegada de Antonio Pessoa, o inferno vai dar três dias de festa”. Esse fato inusitado aprofundou as mágoas dos epitacistas ligados ao Coronel morto e, em consequência, Antonio Pessoa Fi lho deixou a prefeitura da Capital. Por outro lado, Solon de Lucena, que chefiava os jovens turcos, nomeado Secretário Geral do Estado, recusou-se a assumir o cargo. O humor fúnebre de Camilo, segundo contam, teve continuidade: constrangido, Caldas Brandão teria procurado o bispo, Dom Aurélio de Miranda Henriques que, por sua vez, procurou confirmar com Camilo aquele agressivo remoque contra Antonio Pessoa. Camilo, só fez piorar a situação: “Jamais diria tal coisa! Que mal Satanás me fez para eu lhe desejar essa péssima companhia?

Na sucessão de Camilo de Holanda, Epitácio ainda era Presidente da República. O destino de todo ex-presidente do Estado, sempre foi a Câmara ou o Senado. Camilo estava na lista dos deputados que seriam eleitos em 1920. Eis que chega ao Catete a viúva de Antonio Pessoa para contar a desfeita de Camilo com a memória do seu marido. A viúva queria a retirada do nome de Camilo da chapa federal. Epitácio telegrafou a Caldas Brandão pedindo confirmação da ti rada zombeteira de que fora testemunha. Confirmada a versão, Epitácio concedeu a Camilo o direito de anunciar sua renúncia à candidatura. Na sua resposta Camilo negou o fato: “Informação caluniosa levada ao seu conhecimento por quem jamais terá coragem de sustentá-la minha presença, não passa de intriga. Causando admiração ser acreditada.Deposito, pois, suas mão, minha candidatura”. Epitácio não acreditou em Camilo e simplesmente o alijou da chapa e da vida pública. Nunca mais foi nada na Parahyba. Em 1930, tentaram ressuscitá-lo incluindo seu nome na relação de candidatos de oposição a João Pessoa. Foi substituído por João Suassuna.

Relegado ao ostracismo e alimentando até a morte um ódio incontido pelos Silva Pessoa, Camilo chegou ao fim da vida morando em uma modesta pensão no Rio de Janeiro, onde passou a viver com seus proventos de general médico reformado. Seu único luxo era uma viagem sentimental, todo ano, para o veraneio em Praia Formosa, Cabedelo.( Consultei Osvaldo Trigueiro Albuquerque Melo, Apolônio Nóbrega, Ademar Vidal e Lin da Lewin).

O dia em que queimaram ‘A União‘ - Ramalho Leite



 

 

O presidente Solon de Lucena realizou, na Parahyba, um dos mais operosos governos de que se tem notícia, na República Velha. Também pudera! Na presidência da nação estava seu parente e chefe, Epitácio Pessoa. Este, paraibano de Umbuzeiro, aquele, de Bananeiras. O jornal Cidade de Bananeiras, edição de 19 de junho de 1908, dá notícia da presença do mestre-escola Solon, ao lado do também professor Álvaro de Carvalho, no encerramento do semestre letivo do Instituto Bananeirense, renomada escola local que educou várias gera&ccedi l;ões. Alguns anos mais tarde, os dois professores citados alcançariam o mais alto cargo do Estado. Sólon, interinamente, na qualidade de presidente da Assembleia, entre os anos 1912-1915 e eleito, a partir de 1920 até 1924. Álvaro, após a morte trágica de João Pessoa,de quem era primeiro vice-presidente. Em setembro de 1923, por pouco, Solon não foi deposto do cargo de presidente da Parahyba.

É essa a história que quero contar. Era um sábado, 22 de setembro de 1923. As duas principais escolas da Parahyba eram o Liceu Paraibano e a Escola Normal, localizadas ambas na praça comendador Felizardo, hoje, João Pessoa. O monsenhor João Milanez, diretor da escola normal, visando preservar a decência de suas alunas e a manutenção da ordem pediu uma autorização especial ao chefe de Polícia, Demócrito de Almeida, para que a Guarda Civil p oliciasse a praça e impedisse os encontros dos jovens alunos dos dois estabelecimentos de ensino público. Essa vigilância foi entregue ao guarda Antonio Menezes, de número 33. Por conta própria, o padre estabeleceu uma linha imaginária, cognominada de “linha da decência”, cuja travessia era proibida aos jovens do Liceu, enamorados ou não, das suas normalistas e vice-versa. Naquele sábado, Sadi Castor Correia Lima ao tentar aproximar-se de sua namorada Ágaba Gonçalves de Medeiros foi impedido pelo guarda civil citado.

Da discussão entre o Guarda 33 e o estudante, surgiu um tiro que atingiu, mortalmente, o jovem Sadi, de 25 anos, que viera de Soledade estudar na capital. O monsenhor Milanez não tinha a menor idéia de que o guarda encarregado na vigilância da praça era um homem violento e com antecedentes criminais. A morte do estudante comoveu o estado e mobilizou seus colegas, revoltados com o crime, atribuído à responsabilidade das autoridades constituídas a começar do Presidente do Estado até o Chefe de Polícia e, principalmente, ao diretor da Escola Normal. Um enterro simbólico do padre, acompanhado de perto pela polícia, seguiu até a sua residência onde foi depositado o caixão fúnebre. A repercussão quase derruba o pres idente Solon de Lucena que agiu rápido e, como ainda hoje acontece, fez o pau quebrar-se no espinhaço do mais fraco. O presidente, de imediato, exonerou o diretor Milanez e suspendeu, por decreto, as aulas das duas escolas. Para substituir Milanez, foi nomeado o monsenhor Pedro Anísio, um conterrâneo do presidente. Um mês depois, o fato criminoso ainda em evidência, é agravado pelo suicídio da namorada enlutada.

No domingo, 23 de setembro, quando o sepultamento do estudante Sadi era realizado, os estudantes do Liceu permaneciam com o espírito alterado. As passeatas, os discursos inflamados, serviam para reavivar a ferida recentemente aberta. Ao tomar conhecimento de que a edição do jornal A União, daquele dia, “registrara de maneira agressiva e impiedosa o crime da tarde anterior”, como registra Apolônio Nóbrega, os estudantes que já haviam apedrejado a sede da Guarda Civil e transitavam em atitude agressiva perante o Palácio do Governo passaram a recolher nos pontos de v enda do jornal A União todos os exemplares entregues à distribuição. Amontoados em praça pública, foram queimados em sinal de protesto. A Parahyba, que no passado assistira ao empastelamento e ao incêndio de jornais da oposição, a exemplo de “O Commercio”, de Artur Aquiles e, de “O Combate”, do jovem Boto de Menezes, pela primeira vez, testemunhava uma atitude de intolerância contra seu jornal oficial. (Consultei “História Republicana da Paraíba” e “Política e Parentela na Paraíba”, de Apolônio Nóbrega e Linda Lewin, respectivamente)

 

 

A fala do Trono - Ramalho Leite



 

 

 

 

No início de cada sessão legislativa, é da tradição democrática, o envio pelo Poder Executivo de mensagem ao Poder Legislativo, em todos os níveis: municipal, estadual e federal. A tradição virou norma, e entre nós, está inserta no artigo 86, inciso IX, da Constituição do Estado da Paraíba, na competência exclusiva do Governador. A Carta fala em “remeter mensagem à Assembleia Legislativa, por ocasião da abertura da sessão legislativa, expondo a situação do Estado e solicitando as providências que julgar necessárias”. Às vezes, o chefe do executivo prefere apresentar o balanço das atividades do governo, pessoalmente, notadamente, quando esse balanço é positivo e revela um acervo de obr as e ações importantes para o desenvolvimento do Estado. Foi o que fez na semana passada o governador Ricardo Coutinho, por mais de uma hora, diante de um plenário em silêncio e impressionado com revelações que muitos desconheciam, ante à pouca publicidade da gestão. A essa presença governamental se cognominou de Fala do Trono pois, sua origem, vem do regime monárquico e tinha no soberano seu principal protagonista. A prática nasceu no Reino Unido. Na Holanda preferem a denominação de Dia do Príncipe e se assemelha à Noruega. Na Suécia, o monarca faz um pequeno discurso antes da prestação de contas do Primeiro Ministro, o mesmo ocorrendo no Japão. No Brasil, Pedro I introduziu o costume, imortalizado, contudo, pelo Imperador Pedro II, cujo cenário foi objeto de tela do nosso Pedro Américo.

 

A Fala do Trono, do pintor Pedro Américo, mostra o Imperador como figura central da tela, de pé diante do trono sobre um tapete vermelho, segurando na mão esquerda a espada e na direita o cetro. À direita do monarca identificam-se várias figuras do Império, como o barão do Rio Branco e o duque de Caxias. No alto, em uma tribuna, vê-se a imperatriz Tereza Cristina e a princesa Isabel, todos aguardando a palavra do Imperador, vestido nos seus majestosos trajes. Pedro II falaria perante e na abertura da Assembleia Geral. A obra de Pedro Américo está no Museu Imperial.

 

Era tradição no Brasil Imperial os discursos proferidos pelos imperadores e regentes nas reuniões de abertura e de encerramento do ano legislativo da Assembleia Geral. Diante de deputados e senadores, o monarca discorria sobre os problemas que enfrentava na condução do país e as propostas para tentar resolvê-los. Na fala de abertura de 1830, Pedro I preconizava leis que facilitassem o acesso à terra e acordos internacionais para por fim ao tráfego de escravos: “O tráfego da escravidão cessou e o governo está decidido a empregar todas as medidas que a boa fé e a humanidade reclamam para evitar a continuação de qualquer forma ou pretexto que seja: portanto julgo de indispensável necessidade indicar-vos que é conveniente facilitar a entrada de braços &u acute;teis. Leis que autorizem a distribuição de terras incultas e que afiancem a execução dos ajustes feitos com os colonos, seriam de manifesta utilidade e de grande vantagem para a nossa indústria em geral”.

 

Na Fala do Trono de 1888, abrindo os trabalhos da Assembleia, a Princesa Isabel, recebida pelos parlamentares na sede do Senado, defende o fim do trabalho escravo. A Lei Àurea seria aprovada dez dias depois do discurso da Princesa, em regime de urgência. Presidia a Assembleia o deputado Henrique Pereira de Lucena, pernambucano com raízes na Paraíba. Em agradecimento ao seu esforço pela aprovação da Lei Áurea, a princesa Isabel lhe outorgou o título de Barão de Lucena.

 

Na sua última Fala do Trono, o imperador Pedro II começou dizendo que “animam-me esperanças, que a pátria deposita em seus eleitos, todas as vezes que, a eles reunido, venho abrir os trabalhos legislativos”. Prosseguiu registrando as boas relações do seu Império com as potencias estrangeiras que “continuam, felizmente, a ser da mais cordial amizade”. A situação interna, na visão do imperador, era próspera e de absoluta tranquilidade. Mas, já naquele tempo, uma seca inclemente perturbava a ação do governo e inutilizava o trabalho agrícola, sem “renascer as esperanças com as primeiras chuvas”

 

Ontem como hoje, a preocupação com a instrução pública se voltava para a formação profissional. Para o Imperador “sobressai a criação de escolas técnicas adaptadas às condições e conveniências locais” e ainda, preconiza a criação de duas universidades, uma no sul e outra no norte “donde partirá o impulso vigoroso e harmônico de que tanto carece o ensino”. A idéia de criação de escolas técnicas, mais de um século depois, encontrou na província da Paraíba um executor dedicado. Hoje são oferecidas mais de três mil vagas nas Escolas Técnicas Integrais Cidadãs espalhadas por este estado, com garantia de ampliação.

 

Em sua última mensagem, Pedro II tinha as vistas voltadas para a acomodação de imigrantes que começavam a chegar ao País para substituir o trabalho servil. E disse à Assembleia: “Para fortalecer a imigração e aumentar o trabalho agrícola, importa que seja convertida em lei, como julgar vossa sabedoria, a proposta para o fim de regularizar a propriedade territorial e facilitar a aquisição e cultura das terras devolutas. Nessa ocasião resolvereis sobre a conveniência de conceder ao Governo o direito de desapropriar, por utilidade pública, os terrenos marginais das estradas de ferro, que não são aproveitadas pelos proprietários e podem servir de núcleos coloniais”.


Convém registrar as palavras finais do Imperador Pedro II dirigidas à Assembleia: “Augustos e Digníssimos Srs. Representantes da Nação: Muito haveis feito pelo progresso e felicidade de nossa Pátria, porém muito resta ainda por fazer em uma nação nova, de extenso território, cheia de riquezas naturais e votada pela Providencia aos mais esplendidos destinos. Se é grande o encargo que assumis, não é menor o vosso patriotismo e o Brasil o recorda com a mais segura confiança. Está aberta a sessão”( Nas transcrições mantive a grafia da época)

 

Princesa vista lá fora (3) - Ramalho Leite



 RAMALHO LEITE
PRINCESA VISTA LÁ FORA (3)

 

 

Na imprensa de todo o País repercutiam os acontecimentos que tinham como palco o território livre de Princesa. Os rebeldes comandados pelo deputado e coronel José Pereira infligiam sucessivas derrotas à nossa briosa policia militar, aquartelada no Piancó e entrincheirada nos arredores das cidadelas ocupadas pelos pereristas. Lutando em território que conheciam com a palma da mão, os rebeldes levavam vantagem diante das tropas legais. Além do mais, enquanto o presidente João Pessoa tinha dificuldade em aparelhar suas fileiras, os rebeldes recebiam armas e munição através da fronteira com Pernambuco, onde os primos de João Pessoa, com seus interesses comerciais na Paraíba dificultados pelo parente, resolveram se alinhar com o coronel Pereira.

Apesar das dificuldades, a PM conseguia ser armada de forma clandestina, fugindo ao cerco que o governo federal impunha à Paraíba . O jornal “A Noite”, do Rio, em sua edição de 9 de maio de 1930, publicou notícia oriunda de Princesa: “Entre o material aprehendido pela columna de Marcolino Diniz, no combate do Gavião, foram encontradas munições que assignalam aquisição clandestina feita pelo Governo do Estado e contendo os nomes e firmas que serão oportunamente divulgadas”. Segundo o noticiário, a tropa de Marcolino “destroçou a polícia parahybana” e fez mais de doze prisioneiros, alguns deles feridos. E concluía: “ o deputado José Pereira mandou internal-os no hospital de sangue recomendando o melhor tratamento para todos”.

O noticiário da capital da República dá conta de que o presidente João Pessoa recorreria ao Supremo Tribunal Federal visando conseguir comprar armas e munições para sua polícia. Divulgava o Diário de Notícias, em 3 de julho de 1930: “ O STF, ao que estamos informados, vae ser solicitado a pronunciar-se sobre o caso da Parahyba, porque em favor do Sr. João Pessoa será requerido um recurso judiciário, que lhe permitta adquirir armamentos e munições para a policia estadual, baseado em que cabe ao governo do Estado manter com a sua policia a ordem interna”. Na justificativa se propagava qu e o território paraibano estava convulsionado por bandoleiros e o Presidente não poderia armar sua policia em virtude dos impedimentos opostos pelo governo federal.

A guerra era também travada nas páginas dos jornais. Divulgava-se, com ênfase, apoios recebidos pelo presidente João Pessoa e, por outro lado, as estratégias armadas para atacar Princesa. Algumas notícias tinham cheiro de terrorismo. Vejamos esta: “Recife, 9, (especial para A Noite): O deputado José Pereira recebeu o seguinte telegrama, procedente da Parahyba: “Nosso amigo Heitor Santiago acaba de informar estar inteirado de fonte official, que Princeza será bombardeada, de hoje até sábado, por um avião que se encontra em Teixeira, e que empregará gazes asphyxiantes fabricados num laboratório allemão de Rio Tinto...Confio na altivez dos princezenses, que manterão,serenos, sua defesa heróica. Abraços (a) João Dantas”. A essa altura, o lado rebelde pressentia que João Pessoa tinha pressa em acabar com a luta de guerrilha instalada nas cercanias de Princesa, antes que um projeto de intervenção no Estado, fosse aprovado.

O Jornal do Comercio, do Recife, pintava um João Pessoa apavorado com a iminência de uma intervenção. Publicou e mandou para a imprensa do Rio, o seguinte despacho: “Parahyba, 8, Aterrorizado com a possibilidade de uma intervenção federal, o presidente João Pessoa, procura por todos os meios, insinuar e até forçar manifestações de protesto pelo Estado, com objectivo de impressionar o povo e provocar grande repercussão em todo o paiz.Nesse sentido tem exercido forte pressão até junto aos alumnos das escolas da capital do estado, que foram obrigados a andar de porta em porta, angariando assignaturas para telegramas de protesto contra a intervenção federal, dirigidos aos altos poderes da Republica. A todos os collegios e escolas publicos e particulares em toda a Parahyba foram transmittidas instruções com o mesmo fim”

As manifestações de solidariedade ao presidente, imolado alguns dias depois, entretanto, surgiam espontâneas e, até inusitadas. “O maior proprietário da Parahyba hipoteca solidariedade ao Sr.João Pessoa”. O jornal A Noite , do Rio, na edição de 3 de julho contava que o Sr. Alfredo Atahyde, que é “talvez o maior proprietário desta Capital”, acumulou uma fortuna de dois milhões de contos de reis. Procurou o presidente e disse: “com satisfação e orgulho, a um aceno do presidente João Pessoa, recolheria elle imediatamente ao Thesouro do Estado essa importância.”. As alunas da Escola Normal, por outro lado, cobriram João Pessoa de flores em visita devidamente documentada e relatada na imprensa do sul.”Parahyba, 17- Cerca de trezentas alunas da Escola Normal estiveram ontem em Palácio, onde foram entregar a sua contribuição para as viúvas dos soldados mortos em Princeza.Falou em nome das alumnas o Sr.Matheus de Oliveira, diretor da Escola, tendo o presidente João Pessoa agradecido em vehemente discurso terminando por dizer: Deus não permitirá a vitória do trabuco sobre a lei.As alumnas cobriram o Sr.João Pessoa de flores vermelhas”...Nove dias depois, o presidente paraibano voltaria do Recife coberto de flores brancas! O trabuco venceu!(Nas transcrições,mantive a grafia da época.Obs. O Sr. Alfredo Atahyde veio a ser sogro do ex-governador Clovis Bezerra, portanto, avô do ex-deputado Afrânio Bezerra)

Princesa vista lá fora - Ramalho Leite



 

Como vimos anteriormente, os despachos telegráficos do secretário José Américo de Almeida designavam de cangaceiros as tropas formadas pelos rebeldes do coronel José Pereira. Raramente o tratamento de “bandidos” era esquecido quando a referência era dirigida aos comandados do soba princesence. Há exemplo publicado: “Comunicam de Piancó que o acampamento do tenente Mauricio foi atacado fortemente pelos “pereristas”, repelidos com perdas.”(Diário de Notícias,Rio,8.06.1930)

O jornal da capital federal também refletiu em suas páginas memorial de proprietários rurais sertanejos, aflitos com a ação de cangaceiros, não distinguidos dos rebeldes pereristas. O presidente João Pessoa recebeu assinado por Vicente Leitão o seguinte despacho telegráfico: “ Levo ao conhecimento de v.ex. que um grupo de setenta cangaceiros há três dias que vem praticando neste município toda sorte de depredações. Na estrada de rodagem que liga esta cidade a Malta acabam elles de incendiar minhas propriedades e de outros amigos nos lugares Baudarra, Padrinho e Várzea Redonda.Hoje esse grupo se acha acampado em Ipueira na casa de Dondon Dantas.A população está preparada para a defesa.Confiamos em que tome enérgicas providências o intemorato governo de v.ex. Saudações”.

“A impaciência das tropas para acabar de vez com a revollta de Princeza” como mandou dizer ao Presidente João Pessoa o Sr. José Américo, exigia uma ação mais efetiva. A nossa polícia tentava avançar em um campo minado pelo conhecimento dos pereristas, recrutados nas terras áridas do sertão. As emboscadas sucediam-se e as perdas de vidas humanas aumentavam as estatísticas. Um mecânico chamado João Barros inventou uma máquina de “reenchimento de cartuchos já deflagados offerecendo-a ao governo do estado”. Para quem estava a padecer de armamento e tinha dificuldade em importar munição, foi um achado. Imaginou-se, ainda, atacar a cidadela do coronel Pereira pelo ar. O Diário de Noticias publicou o fato como auspicioso aos que queriam o fim do estado de guerra.”Recife-Comunicam de Piancó que o avião Garoto, tripulado pelo aviador Roland que como se sabe fugiu do campo do Ibura, desta cidade, tomando o rumo da Pahyba recebendo ali grande quantidade de explosivos estando prompto para voar sobre Princeza. Afirma-se que o aviador Roland procederá dentro de alguma horas , ao bombardeio daquela cidade, quartel general das força do coronel Jose Pereira”. O coronel, por outro lado, tomou conhecimento dos preparativos para bombardear sua cidade e preparou os melhores atiradores para alvejar “o apparelho que voa”.O jornal do Comercio do Recife, repercutiu também essa notícia.

Havia uma guerra também de contra-informação. Outro despacho telegráfico divulgado no DN, servia para tranqüilizar os pereristas: “Recife- Segundo as noticias que corem aqui, o avião Garoto retirado do campo de Ibura pelo aviador Reynaldo Gonçalves, tendo partido de Piancó não foi visto sobre Princeza,nem voltou ao ponto de partida.Presume-se o apparelho ter soffrido qualquer desarranjo”. Note-se que o nome do piloto já mudou. Há noticia de que o aviador, que era estrangeiro, teria falecido em Piancó, onde ficou para sempre. A verdade é que Princesa nunca foi bombardeada, a não ser, com panfletos, apelando para o rendimento dos seguidores de José Pereira.

Enquanto esse cenário permanecia indefinido e só teria desfecho após a morte de João Pessoa, na capital federal havia outra preocupação maior, como indicam os destaques jornalísticos. As misses de Minas Gerais e da Paraíba estavam atrasadas para a apresentação no Concurso Internacional de Beleza. Os representantes dos dois estados pediram prazo para permitir a presença das duas distintas senhoritas. Prazo negado, os dois ficaram fora do concurso e os juízes Nóbrega da Cunha e Manoel Henriques da Silva, representantes desses estados perderam seus mandatos na comissão julgadora. Não duvido nada que esse primeiro entrevero que uniu Minas à Paraíba tenha servido também de alicerce para a futura Aliança Liberal. O Rio Grande, terceiro estado aliancista, este chefiado por Getúlio Vargas, todavia, seguia tranqüilo, com sua miss, Yolanda Pereira, sendo recebida festivamente no Cassino Beira Mar. ( Nas transcrições mantive a grafia da época)

A Princesa lá fora - Ramalho Leite



 

O que já se escreveu sobre a rebeldia do deputado José Pereira contra o governo de João Pessoa, daria uma biblioteca exclusiva sobre o assunto. Não terei a veleidade de romper com os liames que vinculam o historiador aos fatos, até por que, nessa história, nunca houve imparcialidade. Os escritos levam os resquícios da paixão vivida à época e, poucos se deram ao trabalho de narrar aqueles dias tormentosos fugindo da visão dicotômica: contra ou a favor de Zé Pereira ou de João Pessoa. O paraibano acostumou-se com as versões que, ao longo desses quase noventa anos, passaram por suas mãos e alimentaram suas mentes. Nos nossos dias, não é incomum encontrar-se um descendente de perrepista ou de liberal, ainda alimentando o ódio do passado. O que despertou minha curiosidade, para voltar ao assunto, foi a visão que lá fora, outros brasileiros tiveram do cenário aqui vivenciado ou a versão que chegava ao restante do país, através da imprensa. Tomei como paradigma o Rio de Janeiro e, como veículo, o Diário de Notícias, jornal editado na capital da República.

Entre os dias 08 e 13 de julho de 1930, enquanto a manchete daquele periódico dedicava-se a um “Concurso Internacional de Belleza” e à escolha da Miss Brasil, no miolo, uma coluna era mantida sob o titulo: “A Luta Armada na Parahyba”. Os subtítulos eram reveladores- “ Os últimos momentos de Princeza - O governo exige a rendição”.Eram as informações do secretario de segurança, José Américo de Almeida, transmitidas ao Presidente João Pessoa e chegando ao conhecimento dos cariocas.

Parahyba-7- O Sr.João Pessoa recebeu o seguinte rádio: Piancó- 4 - “ Os cangaceiros foram surpreendidos na fazenda do Oriente, situada no município de Pombal, pela coluna dos tenentes Manoel Benício e Marques Filho, debandando nos primeiros tiros dos atacantes.Os bandidos recuaram, continuando as forças ao encalço dos que fugiam.Essas correrias visam especialmente o roubo,como aconteceu com a fazenda do coronel João Alves, neste Município, que foi despojado de seus bens, no valor de cerca de 80:000$000. O sub-delegado de Malta, que foi feito prisioneiro e retido como refém, acaba de ser posto em liberdade mediante a entrega de avultada quantia aos bandidos.O povo do vale do rio Piancó tem estado admirável. Chegam diariamente dezenas de pessoas, de logares distantes, pedindo armas para a defesa da nossa causa-José Américo de Almeida”(Diário de Noticias, de 08 de julho de 1930,pag 3).O secretário de segurança, aquartelado com sua milícia na cidade de Piancó, adiantaria ao Presidente que “as tropas estão impacientes para avançar e acabar de vez com a revolta de Princeza”.

As informações ufanista do graduado auxiliar de João Pessoa eram, contudo, contestadas por outros informantes que conseguiam chegar às páginas do Diário, através de correspondentes do Recife: “José Pereira Amplia seu Raio de Ação”era a notícia. “Recife-7- Noticiam de Princeza que a gente de José Pereira amplia seu raio de ação por outros municípios entre os quais o de Piancó, Pombal, Patos, Souza,Conceição, Misericórdia,São José de Piranhas,São João do Rio do Peixe,Cajazeiras e Teixeira, onde a população se mostra preocupada com o rumo dos acontecimentos”.

O leitor carioca, lendo os textos que as linotipos compunham, a quente, mas servidos com a frieza de noticiário isento, não firmaria um juízo perfeito dos fatos que se desenrolavam nas caatingas do interior da Paraíba. Cada facção fazia divulgar sua própria versão. Faltavam poucos dias para o desfecho trágico da Confeitaria Gloria que encerrou a trajetória de João Pessoa e calou as armas de Princesa. (Mantive nas transcrições a grafia da época. CONTINUA)

 

‘O Paiz‘ visita o Estado - Ramalho Leite



O imigrante português João José dos Reis Junior, portador do titulo nobiliárquico de conde São Salvador de Matosinho, era o proprietário da casa número 63 da Rua do Ouvidor, no centro do Rio, onde, por inspiração de Quintino Bocaiúva, “o príncipe da imprensa brasileira” fundou e instalou “O Paíz”, jornal “independente, político, literário e noticioso”.

Era primeiro de outubro de 1884. O diário adotaria diversos perfis políticos ao tempo em que, enfrentava também, dificuldades financeiras. Sobreviveu até os anos 1930. Foi grande instrumento da causa abolicionista. Atravessou a República Velha sempre ao lado do poder. Intransigente adversário da Aliança Liberal, ao chegar à era Vargas, já estava nos estertores devido à longa noite de censura imposta a partir de 1924 na gestão de Artur Bernardes na presidência da Republica. O permanente “estado de sitio” amordaçou a imprensa e deixou em situação desfavorável os órgãos que se propunham a defender o governo, como era o caso de “O Paiz”.

Durante sua existência, o jornal registrou a passagem por sua redação de figuras eminentes da intelectualidade nacional, a exemplo de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Alcindo Guanabara, João Lage e Eduardo Salamone, este ultimo um veterano desde os tempos da fundação e que assumiria a chefia de redação a partir de 1891.Com sua sede invadida por uma multidão de fanáticos getulistas, e incendiada, a historia desse jornal chega ao final com suas rotativas arrematadas em um leilão pelo paraibano Assis Chateaubriand.

Eduardo Salamone, já referido anteriormente, redator chefe de “O Paiz”, esteve em visita à Paraíba e foi festivamente recebido pelos integrantes do jornal O Commercio, conforme noticia em sua primeira pagina a edição de 8 de maio de 1900. A rapidez da visita foi lamentada pelo jornal de Artur Aquiles que assim dirigiu-se aos seus leitores: “ A inesperada partida do porto de Pernambuco do vapor Planeta, não nos deo tempo sulfficiente para aparelharmos a recepção que merecia Eduardo Salamone, entretanto, proporcionamo-lhe quanto nos permittio a restrição do tempo e nas poucas horas que esteve entre nós manifestamo-lhe a satisfação, a ufania e apreço recebidas da imprensa e moços d’ esta terra.

A uma hora da tarde, em bonde especial, gentilmente offerecido pelo Sr Gerente da Companhia, percorremos todos as partes da cidade servidas por este meio de transporte, até que pelas 3 horas o notável homem de letras teve de regressar a estação central, a tomar o trem que o havia de condusir ao bojo do “Planeta” fundeado em Cabedello”.

O ilustre visitante estava acompanhado da esposa e dois filhos e foram hospedes de O Commercio. Na estação ferroviária estavam a esperá-lo o próprio Artur Aquiles, responsável pelo diário e seu co-proprietário, jornalista Eduardo Fernandes, e Affonso Gouveia. O tesoureiro Diomedes Cantalice deslocou-se até Cabedelo para abraçar o periodista carioca, também acolhido pelo correspondente de “O Paiz” entre nós, Tito Enrique da Silva. O jornal paraibano não esqueceu de registrar que a família visitante passou por alguns momentos de repouso,” preenchidos pela prosa castiça de Salamone” antes que lhe fosse servido um modesto almoço na residência dos moços Manoel de Carvalho,Joaquim Etelvino e Antonio Peixoto, “muitos distintos moços de nosso commercio”.

O Commercio fazia oposição ao governo estadual da Paraíba e aproveitou para alfinetar seus adversários, censurando a ausência de representante do jornal oficial A União, na recepção ao badalado jornalista brasileiro: “Tornou-se notável a ausência de qualquer dos confrades da “União” na recepção ao talentoso redactor do “Paiz”, tanto mais quanto fora ella avisada com antecedência do facto de sua passagem por esta capital. Eduardo Salamone é um dos luminares da imprensa do Brasil; eis a explicação da falta do nosso colega indígena,cuja preocupação exclusiva é, actualmente, a politicagem de aldeia e o engrossamento aos que afinam só pelo diapasão do partidarismo armado a dynamite”.

Detalhe curioso sobre a história desse importante periódico: Rui Barbosa só assumiria a chefia da sua redação por três dias, sendo substituído por Quintino Bocaiúva que ali permaneceu até ser nomeado ministro de Deodoro da Fonseca. Joaquim Nabuco, apesar de abolicionista, era monarquista e por divergir da linha editorial do jornal, que defendia a República, despediu-se de suas páginas.

E aqui termina a narrativa da visita de “O Paiz” à Paraíba.( Nas transcrições mantive a grafia da época)

Tio Pita deu a ordem - Ramalho Leite



 

Muito se tem escrito sobre os acontecimentos que culminaram com a chamada revolução de 1930. Não terei a veleidade de, neste pequeno espaço, analisar fatos ou emitir conceitos. Prefiro o registro dos acontecimentos deixando aos leitores seu juízo de valor. Todos sabem que Getúlio Vargas manteve o presidente Washington Luiz, de quem foi ministro da Fazenda, por longo período, acreditando na sua fidelidade. O gaúcho, enquanto permitia seus seguidores tramarem, em surdina, sua candidatura presidencial, negociava créditos federais para obras prioritários no Rio Grande do Sul. Uma carta de sua lavra, jurando apoio ao Catete, foi amplamente divulgada.

Posteriormente, outra missiva juntou-se à primeira no arquivo de Washington Luiz, com pensamento totalmente oposto. Osvaldo Aranha ouviu o seu desabafo: “A última carta de Getulio foi para mim uma surpresa brutal”, como conta Lira Neto em um dos três volumes sobre o caudilho dos pampas. À época, os fatos políticos eram gerados por cartas e telegramas. Getúlio terminou ganhando o apelido de “Getúlio Cartas”.

Decidida sua candidatura para enfrentar a chapa oficial, Getúlio precisava de um vice. Uma consulta feita por Washington Luiz sobre o apoio ao nome de Júlio Prestes, então presidente de São Paulo, para seu sucessor, recebera a aprovação da ampla maioria dos estados. Minas, de Antonio Carlos, a Paraíba, de João Pessoa e o Rio Grande, juntos, adotaram o NEGO paraibano e passaram a compor a chamada Aliança Liberal que apresentaria a chapa Getúlio presidente, João Pessoa, vice. Antes de se chegar ao nome de João Pessoa, sondaram Paulo de Frontin, senador pelo Distrito Federal e grande prefeito do Rio. Alegando ser amigo do Presidente, aderiu a Júlio Prestes. Outro consultado foi o Simões Filho, líder da bancada baiana na Câmara e fundador do jornal A Tarde. Este recusou, veementemente, e foi acusado por João Neves da Fontoura, líder gaúcho, de estar negociando para a Bahia a mesma posição na chapa oficial em troca de favores inconfessáveis. Chegaram aos empurrões. O vice escolhido foi o presidente dos baianos, Vital Soares. Subindo o mapa do Brasil, os emissários de Getúlio ainda procuraram Estácio Coimbra, presidente de Pernambuco. A sua negativa levou ao nome de João Pessoa, destacado governante da Paraíba que ganhara o noticiário nacional com medidas austeras e práticas inovadoras, enfrentando a política dos coronéis. “Só uma vassourada em regra pode purificar a vida pública, rebaixada por figuras sem significação e aproveitadores gulosos”, diria. Terminaram por varrê-lo.

O imposto que João Pessoa instituiu e que lhe valeu o epíteto de “João Porteira” visava fortalecer a economia interna e canalizar nossas exportações para o porto de Cabedelo, o que desagradou, principalmente, à praça pernambucana, acostumada desde os tempos coloniais a explorar as riquezas da nossa “capitania”. A reação não intimidou João Pessoa que avisou pelo jornal A União: “Os descontentes que se mudem para o Ceará ou Pernambuco, vivam por lá, e não se lembrem de voltar, porque voltando, terão de pagar a incorporação, ( era o imposto novo) talvez acrescida”. Pois esse espírito bravio, austero e que dava demonstrações de uma coragem exemplar, politicamente, era dependente do tio Pita, ou seja, seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente do Brasil e naquele tempo, membro da Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda.

Vejam o que nos narra Lira Neto: “Naquele fim de julho de 1929, dezenas de telegramas cruzaram o Atlântico pelo cabo submarino internacional que então servia às comunicações entre o Brasil e a Europa. Apesar do temperamento aguerrido e autoritário de João Pessoa, havia um ritual hierárquico a ser cumprido.Somente após o necessário consentimento de Epitácio- tio Pita, é que o sobrinho passou a ser abordado de modo direto pelos mensageiros de Getúlio....Na segunda feira, 29 de julho, Epitácio escreveu mensagem ao sobrinho para avisá-lo que autorizara o presidente mineiro Antonio Carlos a oficializar o convite (para vice de Getúlio). Isto significa que aceitarás”. Ordenou Epitácio Pessoa.

O professor Lira Neto vai mais longe na sua avaliação: “A despeito de representar um pequeno estado e de ter entrado na política paraibana pela janela das contingências oligárquicas, Pessoa vinha causando perplexidade nas lideranças estaduais mais conservadoras ao mandar cortar despesa supérfluas,demitir pessoal excedente, extinguir secretarias que funcionavam como meros cabides de emprego e impedir a reeleição indefinida dos intendentes municipais”.

De longe, porém, o tio Pita advertia: “Sei que as medidas que está tomando são todas de moralidade e justiça. Não estão acostumados a isto. A grita está sendo e há de ser enorme. Não se extirpam num instante hábitos enraizados desde muitos anos”.

A impaciência de João Pessoa levou-o ao trágico final. A mudança brusca que procurou imprimir aos costumes da terrinha, terminou por fulminá-lo. Seu cadáver seria o estopim que deflagraria o movimento de 1930. Mas essa é outra história.

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