ABC voltado para o Serão - Severino Sertanejo

 ABC VOLTADO PARA O SERTÃO

 

 

Acorda, vai tirar leite

Às quatro da madrugada,

Ao pé da vaca, de cócoras,

(A bezerra já laçada)

Amolega o ubre e puxa,

A lata fica apojada.

 

Bota o leite pra coar,

Bota as vacas no cercado,

Bezerro, também , vai junto,

Basta ficar separado,

Berrando para mamar,

Boca da noite, apartado.

 

Cava a terra, planta o milho

Com este, o grão de feijão.

Cavando cova por cova,

Completa toda porção

Cultivada e tem, com isso,

Concluída a plantação.

 

Depois da terra plantada

Diz: meu Deus, não falte não!

Despeje uma chuvarada

De molhar todo o sertão,

Destranque as portas do Céu,

Dê-nos água em profusão!

 

 

E quando a chuva não falta

É tudo satisfação:

Estronda o trovão na serra

Enquanto que no mourão

Estouram bois e vaqueiros

Em festas de apartação.

 

Foge do gado e, no mato,

Fica um novilho em tresmalho,

Furando a terra, no muro,

Fincando o chifre num galho,

Fazendo ficar difícil

Ferrá-lo ou pôr-lhe o chocalho.

 

Garantindo o seu sustento,

Ganha a vida no roçado,

Grudado, pois, nesse intento,

Ganância o deixa acanhado,

Guarda o que colhe e, se vende,

Geralmente sai roubado.

 

 

Hoje é o que foi ontem,

Habituado a sofrer.

Havido como pacífico,

Haja ou não como viver,

Habita aqui e ali,

Há só Deus a recorrer.

 

Isso ocorre se há seca.

Isso, no nordeste, ocorre.

Infelizmente, na seca,

Igualmente, sei que morre

Irmão de homem e de bicho,

Isso, se Deus não socorre.

 

Justifica a retirada

Justamente por não ter,

Junto com a filharada,

Já forças para dizer:

"Juntando alguns alimentos,

Jurava permanecer".

 

Lembra aquele amigo ausente

Longe, mas perto quer vê-lo.

Lembranças tenta externar,

Lacrando a carta e, no selo,

Liga o passado ao presente,

Lamentando, por não tê-lo.

 

Muitas novidades conta,

Muitas lembranças transmite,

Muitas pessoas na mente,

Mentalizando persiste,

Muitas notícias pedidas

Mais que o espaço permite.

 

Nunca vi no meu sertão

Nanico sem ser pequeno,

Nata sem ter sido leite,

Negro passar por moreno,

Navegar em rio seco,

Nitrosin não ser veneno,

 

Ovo, sem ser ovalado,

Opaco ser transparente,

Órfão, sem ter tido pai,

Ofídio não ser serpente,

Outono, antes do inverno,

Ocaso não ser poente.

 

Pato sem ter bico chato,

Pavão não ir no telhado,

Penedo não lembrar pedra,

Perdão sem pena ou culpado,

Parafuso não ter rosca,

Pilão não ser bem casado.

 

Quem conhece o sertão, sabe

Quanta beleza ele encerra,

Quanta alegria nos pássaros,

Quanto custa ao papa-terra

Querer provar que faz mel,

Quando o oco não soterra.

 

Rio, açudes, sangradouros,

Riachos e cachoeiras

Roncando; ao longe, se escuta

Retroante gemedeira;

Reverdejando o futuro

Roçado verde, seguro,

Regalo pra vida inteira.

 

Saltitantes rouxinóis,

Salta-caminho, o vem-vem

Solitário, no seu canto,

Solicita o que não tem.

Sozinho, sempre sozinho,

Só você, meu passarinho,

Sugere o que me convém.

 

Tarrafa pra pegar peixe,

Tamborete pra sentar,

Tramela segura a porta,

Torno segura o “borná”,

Trovão nem sempre diz tudo,

Tigela frita miúdos,

Ticaca é mesmo gambá.

 

Uma noite de luar,

Uma viola afinada,

Uma canção, por motivo,

Uma seresta ensaiada,

Uma emoção emergindo,

Uma janela se abrindo,

Uma voz balbuciada.

 

Você viu um “ABC”

Voltado para o sertão.

Viola, você já sabe,

Vale como inspiração,

Volatize o seu inverso,

Veja, pois, se faz um verso,

Violando uma paixão.

 

Xaveco é barco pequeno,

Xaréu é peixe do mar,

Xarope, eu tomo pra tosse,

Xaxado, já sei dançar,

Xendengue é magro, franzino

Xodó não é pra menino

Xerém não é manguzá.

 

Zanga, eu sei, não adianta,

Zombador fique pra lá.

Zombe alguém da minha rima,

Zangado, não vou ficar.

Zangadiço já não sou,

Zepelim, nesse é que eu vou,

Zarpando, espero chegar.

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